Objetivo do curativo pós-operatório
O curativo pós-operatório tem como finalidade proteger a incisão cirúrgica, absorver exsudato, reduzir risco de contaminação, manter ambiente adequado para cicatrização e permitir inspeção sistemática da ferida. Na prática, a segurança do procedimento depende de técnica asséptica, avaliação criteriosa dos achados e tomada de decisão sobre manter, trocar, reforçar ou interromper o procedimento.
Materiais e preparo do ambiente
Materiais mais comuns (ajustar ao protocolo institucional e prescrição)
- Higienizador de mãos (água e sabão e/ou preparação alcoólica).
- EPI: luvas de procedimento (limpas), luvas estéreis, máscara cirúrgica, óculos/face shield quando houver risco de respingo, avental quando indicado.
- Campo estéril e pinça estéril (ou técnica de luva estéril conforme rotina).
- Gazes estéreis, compressas absorventes, curativo secundário (ex.: gaze + filme, espuma, curativo absorvente).
- Solução para limpeza conforme protocolo (frequentemente SF 0,9% estéril; antisséptico apenas quando indicado).
- Seringa/frasco para irrigação (se indicado), cuba rim, saco para descarte.
- Fita hipoalergênica, fixadores, barreira protetora cutânea (spray/lenço), removedor de adesivo (se disponível).
- Material para hemostasia local simples: gaze estéril para compressão e curativo compressivo (se prescrito/permitido).
Prevenção de contaminação cruzada (pontos críticos)
- Organize uma área limpa para materiais e uma área para descarte; evite apoiar material estéril em superfícies não estéreis.
- Não toque em frascos, prontuário, celular, maçanetas ou grades do leito com luvas estéreis; se tocar, troque as luvas.
- Use técnica “limpo para sujo”: manipule primeiro áreas mais limpas (incisão) e por último áreas com maior contaminação (pele macerada, drenagem, dobras).
- Descarte imediato de gazes usadas; não “reaproveite” compressas no mesmo procedimento.
Quando trocar (ou não trocar) o curativo
Indicações frequentes para troca
- Curativo saturado, úmido, descolando, com vazamento, odor novo ou sujidade visível.
- Exsudato aumentado em volume ou mudança de aspecto (ex.: seroso para purulento).
- Necessidade de inspeção por queixa de dor local desproporcional, sensação de calor, prurido intenso, ou suspeita de complicação na incisão.
- Troca programada conforme prescrição/protocolo (ex.: primeira troca em 24–48h, conforme tipo de cirurgia e cobertura utilizada).
Situações em que pode ser mais seguro manter e apenas reforçar
- Curativo oclusivo íntegro, seco e dentro do período recomendado, sem sinais suspeitos.
- Curativos avançados (ex.: filme/espuma) com indicação de permanência por mais dias, desde que sem vazamento e sem sinais de complicação.
Observação prática: se houver pequeno ponto de exsudação que umedeceu parcialmente o curativo, pode ser possível reforçar com cobertura secundária sem abrir a camada em contato com a incisão, quando permitido pelo protocolo. Se houver vazamento, saturação ou suspeita clínica, a troca completa tende a ser mais segura.
Passo a passo: técnica asséptica para troca segura
1) Antes de tocar no curativo
- Confirme prescrição, tipo de ferida/cirurgia, alergias (adesivos, clorexidina, iodo), presença de drenos e orientações específicas do cirurgião.
- Explique o procedimento ao paciente e combine sinais para pausa (ex.: dor intensa, tontura, náusea).
- Posicione o paciente com boa exposição e privacidade; garanta iluminação adequada.
- Higienize as mãos.
- Coloque EPI conforme risco: máscara e proteção ocular se houver possibilidade de respingo; avental se grande exsudação.
2) Remoção do curativo antigo (fase “limpa” com luva de procedimento)
- Calce luvas de procedimento.
- Remova fitas/adesivos suavemente, preferindo tração paralela à pele; use removedor de adesivo se disponível.
- Se o curativo estiver aderido, umedeça com SF 0,9% para reduzir trauma e dor.
- Observe e registre: quantidade de exsudato no curativo, cor, odor, presença de sangue, integridade do material.
- Descarte o curativo em recipiente adequado.
- Retire as luvas de procedimento e higienize as mãos.
3) Montagem do campo estéril e preparo do material
- Abra o campo estéril sem contaminar; organize gazes e solução conforme técnica estéril.
- Calce luvas estéreis (ou utilize pinça estéril conforme rotina).
4) Avaliação sistemática da ferida operatória (antes de limpar)
Faça uma inspeção estruturada, comparando com avaliações anteriores e com o tempo de pós-operatório. Use um roteiro fixo para não esquecer itens.
| Item | Como avaliar (passo prático) | Achados mais esperados | Achados suspeitos (alerta) |
|---|---|---|---|
| Aproximação de bordas | Observe alinhamento, tensão, presença de pontos/grampos, áreas “abrindo”. | Bordas bem aproximadas, discreto edema local. | Separação progressiva, “gap” visível, exposição de tecido subcutâneo, deiscência. |
| Exsudato | Note quantidade (escasso/moderado/abundante), cor e viscosidade; compare com curativo anterior. | Seroso ou serossanguinolento escasso nos primeiros dias. | Purulento, aumento súbito de volume, exsudato espesso, mudança abrupta de cor, drenagem persistente que encharca curativo. |
| Odor | Avalie após remover o curativo e antes de aplicar antissépticos; diferencie odor de adesivo/umidade. | Ausente ou leve odor de umidade sem sinais inflamatórios. | Odor fétido novo ou crescente, especialmente com exsudato turvo/verdeado. |
| Dor local | Pergunte intensidade e característica; observe dor à palpação leve ao redor (se permitido). | Desconforto local leve a moderado, melhorando com o tempo. | Dor intensa desproporcional, piora progressiva, dor com endurecimento e calor local. |
| Hematoma/Equimose | Inspecione coloração e extensão; palpe delicadamente se houver abaulamento (se permitido). | Equimose discreta ao redor, estável ou em regressão. | Aumento rápido, abaulamento tenso, dor crescente, sangramento associado. |
| Deiscência | Procure falhas na linha de sutura/grampos; peça para o paciente evitar esforço/tosse durante inspeção. | Ausente. | Abertura parcial/total; saída de secreção em grande volume; exteriorização de tecido (interromper e acionar suporte). |
| Pele perilesional | Observe maceração, eritema, prurido, bolhas por adesivo, lesão por tensão. | Pele íntegra, leve eritema por fita que melhora após remoção. | Macerada, dermatite por adesivo, bolhas, erosões, eritema em expansão, calor importante. |
Dica de registro: descreva com termos objetivos (ex.: “exsudato serossanguinolento escasso”, “bordas aproximadas”, “eritema 1 cm ao redor, sem calor”) e, quando possível, mensure (comprimento da incisão, área de eritema, quantidade aproximada de exsudato).
5) Limpeza da incisão (se indicada)
- Use SF 0,9% estéril conforme protocolo; antisséptico somente quando indicado (ex.: contaminação, orientação cirúrgica).
- Limpe do ponto mais limpo para o menos limpo: geralmente do centro da incisão para fora, em movimentos únicos; descarte a gaze a cada passada.
- Se houver crostas secas, amoleça com SF antes de remover; evite fricção vigorosa.
- Se houver dreno próximo, trate a área do dreno como potencialmente mais contaminada: limpe a incisão primeiro, depois o sítio do dreno.
6) Proteção da pele perilesional
- Se a pele estiver sensível, aplique barreira protetora cutânea na área onde a fita/adesivo ficará (não diretamente sobre a incisão, salvo produto indicado para isso).
- Em pele macerada por umidade, priorize coberturas mais absorventes e trocas conforme saturação; evite oclusão excessiva que mantenha umidade.
- Para reduzir trauma por remoções repetidas, prefira fixadores menos agressivos (fita hipoalergênica, malha tubular, ou bordas de silicone quando disponíveis).
7) Aplicação do novo curativo
- Escolha cobertura primária/ secundária conforme exsudato e prescrição: pouca drenagem (gaze estéril + filme), drenagem moderada (absorvente/espuma), necessidade de compressão (curativo compressivo quando indicado).
- Centralize a cobertura sobre a incisão sem tensionar a pele.
- Fixe de modo a permitir inspeção futura e evitar dobras que causem lesão por pressão.
- Identifique externamente conforme rotina (data/hora/iniciais) sem escrever diretamente sobre a pele.
8) Finalização e descarte
- Retire luvas e EPI com técnica segura; descarte em local apropriado.
- Higienize as mãos.
- Registre no prontuário: avaliação da ferida (itens do roteiro), tipo de cobertura, tolerância do paciente, intercorrências e condutas.
Diferenciando achados esperados vs. suspeitos (guia rápido)
Achados frequentemente esperados (dependem do dia pós-operatório e do tipo de cirurgia)
- Pequena quantidade de exsudato seroso/serossanguinolento nas primeiras 24–72 horas.
- Edema discreto e equimose leve ao redor da incisão.
- Desconforto local que tende a reduzir progressivamente.
- Leve eritema linear junto aos pontos/grampos, sem calor importante e sem progressão.
Achados suspeitos que exigem reavaliação imediata e possível escalonamento
- Exsudato purulento, turvo, espesso ou com odor fétido.
- Aumento progressivo de dor local, especialmente com calor, endurecimento ou rubor em expansão.
- Deiscência (abertura) parcial ou total da incisão.
- Hematoma em expansão, abaulamento tenso, sangramento que não cessa com medidas simples.
- Maceração importante e lesão de pele perilesional por adesivo, com risco de porta de entrada para infecção.
Como lidar com sangramento leve durante a troca
Conduta prática (se sangramento pequeno e paciente estável)
- Mantenha a calma e preserve a assepsia: não “varra” sangue com várias gazes; faça compressão.
- Aplique compressão direta com gaze estéril por tempo contínuo (ex.: 5–10 minutos), sem ficar levantando para “olhar” a cada instante.
- Se cessar, aplique cobertura absorvente e, se indicado, curativo levemente compressivo.
- Reavalie bordas, presença de hematoma e quantidade de exsudato após controlar o sangramento.
- Documente o episódio e comunique a equipe conforme protocolo.
Quando interromper o procedimento e acionar suporte avançado
- Sangramento que não cessa com compressão direta adequada.
- Sangramento em jato, encharcamento rápido do curativo ou formação de grande coágulo/hematoma expansivo.
- Deiscência com exposição de tecidos profundos ou suspeita de evisceração (cobrir com compressas estéreis umedecidas com SF, manter paciente em posição adequada e acionar imediatamente a equipe médica).
- Sinais de deterioração clínica durante o procedimento (palidez intensa, sudorese fria, rebaixamento do nível de consciência, queixa súbita intensa), seguindo o fluxo institucional de resposta rápida.
Erros comuns e como evitar
- Quebrar a técnica estéril ao buscar materiais: deixe tudo preparado antes de calçar luvas estéreis.
- Limpar “vai e volta” com a mesma gaze: use movimentos únicos e descarte a gaze a cada passada.
- Fixar com tensão: aumenta risco de bolhas, lesão por adesivo e abertura de bordas; fixe sem tracionar.
- Ignorar pele perilesional: a pele ao redor é parte do cuidado; proteja-a para evitar dermatite e maceração.
- Não comparar com avaliações anteriores: tendência (melhora/piora) é tão importante quanto o achado isolado.
Exemplo de anotação objetiva (modelo)
Incisão abdominal, 8 cm, bordas aproximadas, pontos íntegros. Exsudato serossanguinolento escasso, sem odor. Pele perilesional íntegra, leve eritema linear sem calor. Dor local 3/10 à manipulação. Realizada limpeza com SF 0,9% estéril (centro para periferia), aplicada barreira cutânea em área de fixação e curativo com gaze estéril + filme. Paciente tolerou bem. Sem intercorrências.