Curativos pós-operatórios: técnica, avaliação da ferida e troca segura

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Objetivo do curativo pós-operatório

O curativo pós-operatório tem como finalidade proteger a incisão cirúrgica, absorver exsudato, reduzir risco de contaminação, manter ambiente adequado para cicatrização e permitir inspeção sistemática da ferida. Na prática, a segurança do procedimento depende de técnica asséptica, avaliação criteriosa dos achados e tomada de decisão sobre manter, trocar, reforçar ou interromper o procedimento.

Materiais e preparo do ambiente

Materiais mais comuns (ajustar ao protocolo institucional e prescrição)

  • Higienizador de mãos (água e sabão e/ou preparação alcoólica).
  • EPI: luvas de procedimento (limpas), luvas estéreis, máscara cirúrgica, óculos/face shield quando houver risco de respingo, avental quando indicado.
  • Campo estéril e pinça estéril (ou técnica de luva estéril conforme rotina).
  • Gazes estéreis, compressas absorventes, curativo secundário (ex.: gaze + filme, espuma, curativo absorvente).
  • Solução para limpeza conforme protocolo (frequentemente SF 0,9% estéril; antisséptico apenas quando indicado).
  • Seringa/frasco para irrigação (se indicado), cuba rim, saco para descarte.
  • Fita hipoalergênica, fixadores, barreira protetora cutânea (spray/lenço), removedor de adesivo (se disponível).
  • Material para hemostasia local simples: gaze estéril para compressão e curativo compressivo (se prescrito/permitido).

Prevenção de contaminação cruzada (pontos críticos)

  • Organize uma área limpa para materiais e uma área para descarte; evite apoiar material estéril em superfícies não estéreis.
  • Não toque em frascos, prontuário, celular, maçanetas ou grades do leito com luvas estéreis; se tocar, troque as luvas.
  • Use técnica “limpo para sujo”: manipule primeiro áreas mais limpas (incisão) e por último áreas com maior contaminação (pele macerada, drenagem, dobras).
  • Descarte imediato de gazes usadas; não “reaproveite” compressas no mesmo procedimento.

Quando trocar (ou não trocar) o curativo

Indicações frequentes para troca

  • Curativo saturado, úmido, descolando, com vazamento, odor novo ou sujidade visível.
  • Exsudato aumentado em volume ou mudança de aspecto (ex.: seroso para purulento).
  • Necessidade de inspeção por queixa de dor local desproporcional, sensação de calor, prurido intenso, ou suspeita de complicação na incisão.
  • Troca programada conforme prescrição/protocolo (ex.: primeira troca em 24–48h, conforme tipo de cirurgia e cobertura utilizada).

Situações em que pode ser mais seguro manter e apenas reforçar

  • Curativo oclusivo íntegro, seco e dentro do período recomendado, sem sinais suspeitos.
  • Curativos avançados (ex.: filme/espuma) com indicação de permanência por mais dias, desde que sem vazamento e sem sinais de complicação.

Observação prática: se houver pequeno ponto de exsudação que umedeceu parcialmente o curativo, pode ser possível reforçar com cobertura secundária sem abrir a camada em contato com a incisão, quando permitido pelo protocolo. Se houver vazamento, saturação ou suspeita clínica, a troca completa tende a ser mais segura.

Passo a passo: técnica asséptica para troca segura

1) Antes de tocar no curativo

  • Confirme prescrição, tipo de ferida/cirurgia, alergias (adesivos, clorexidina, iodo), presença de drenos e orientações específicas do cirurgião.
  • Explique o procedimento ao paciente e combine sinais para pausa (ex.: dor intensa, tontura, náusea).
  • Posicione o paciente com boa exposição e privacidade; garanta iluminação adequada.
  • Higienize as mãos.
  • Coloque EPI conforme risco: máscara e proteção ocular se houver possibilidade de respingo; avental se grande exsudação.

2) Remoção do curativo antigo (fase “limpa” com luva de procedimento)

  • Calce luvas de procedimento.
  • Remova fitas/adesivos suavemente, preferindo tração paralela à pele; use removedor de adesivo se disponível.
  • Se o curativo estiver aderido, umedeça com SF 0,9% para reduzir trauma e dor.
  • Observe e registre: quantidade de exsudato no curativo, cor, odor, presença de sangue, integridade do material.
  • Descarte o curativo em recipiente adequado.
  • Retire as luvas de procedimento e higienize as mãos.

3) Montagem do campo estéril e preparo do material

  • Abra o campo estéril sem contaminar; organize gazes e solução conforme técnica estéril.
  • Calce luvas estéreis (ou utilize pinça estéril conforme rotina).

4) Avaliação sistemática da ferida operatória (antes de limpar)

Faça uma inspeção estruturada, comparando com avaliações anteriores e com o tempo de pós-operatório. Use um roteiro fixo para não esquecer itens.

ItemComo avaliar (passo prático)Achados mais esperadosAchados suspeitos (alerta)
Aproximação de bordasObserve alinhamento, tensão, presença de pontos/grampos, áreas “abrindo”.Bordas bem aproximadas, discreto edema local.Separação progressiva, “gap” visível, exposição de tecido subcutâneo, deiscência.
ExsudatoNote quantidade (escasso/moderado/abundante), cor e viscosidade; compare com curativo anterior.Seroso ou serossanguinolento escasso nos primeiros dias.Purulento, aumento súbito de volume, exsudato espesso, mudança abrupta de cor, drenagem persistente que encharca curativo.
OdorAvalie após remover o curativo e antes de aplicar antissépticos; diferencie odor de adesivo/umidade.Ausente ou leve odor de umidade sem sinais inflamatórios.Odor fétido novo ou crescente, especialmente com exsudato turvo/verdeado.
Dor localPergunte intensidade e característica; observe dor à palpação leve ao redor (se permitido).Desconforto local leve a moderado, melhorando com o tempo.Dor intensa desproporcional, piora progressiva, dor com endurecimento e calor local.
Hematoma/EquimoseInspecione coloração e extensão; palpe delicadamente se houver abaulamento (se permitido).Equimose discreta ao redor, estável ou em regressão.Aumento rápido, abaulamento tenso, dor crescente, sangramento associado.
DeiscênciaProcure falhas na linha de sutura/grampos; peça para o paciente evitar esforço/tosse durante inspeção.Ausente.Abertura parcial/total; saída de secreção em grande volume; exteriorização de tecido (interromper e acionar suporte).
Pele perilesionalObserve maceração, eritema, prurido, bolhas por adesivo, lesão por tensão.Pele íntegra, leve eritema por fita que melhora após remoção.Macerada, dermatite por adesivo, bolhas, erosões, eritema em expansão, calor importante.

Dica de registro: descreva com termos objetivos (ex.: “exsudato serossanguinolento escasso”, “bordas aproximadas”, “eritema 1 cm ao redor, sem calor”) e, quando possível, mensure (comprimento da incisão, área de eritema, quantidade aproximada de exsudato).

5) Limpeza da incisão (se indicada)

  • Use SF 0,9% estéril conforme protocolo; antisséptico somente quando indicado (ex.: contaminação, orientação cirúrgica).
  • Limpe do ponto mais limpo para o menos limpo: geralmente do centro da incisão para fora, em movimentos únicos; descarte a gaze a cada passada.
  • Se houver crostas secas, amoleça com SF antes de remover; evite fricção vigorosa.
  • Se houver dreno próximo, trate a área do dreno como potencialmente mais contaminada: limpe a incisão primeiro, depois o sítio do dreno.

6) Proteção da pele perilesional

  • Se a pele estiver sensível, aplique barreira protetora cutânea na área onde a fita/adesivo ficará (não diretamente sobre a incisão, salvo produto indicado para isso).
  • Em pele macerada por umidade, priorize coberturas mais absorventes e trocas conforme saturação; evite oclusão excessiva que mantenha umidade.
  • Para reduzir trauma por remoções repetidas, prefira fixadores menos agressivos (fita hipoalergênica, malha tubular, ou bordas de silicone quando disponíveis).

7) Aplicação do novo curativo

  • Escolha cobertura primária/ secundária conforme exsudato e prescrição: pouca drenagem (gaze estéril + filme), drenagem moderada (absorvente/espuma), necessidade de compressão (curativo compressivo quando indicado).
  • Centralize a cobertura sobre a incisão sem tensionar a pele.
  • Fixe de modo a permitir inspeção futura e evitar dobras que causem lesão por pressão.
  • Identifique externamente conforme rotina (data/hora/iniciais) sem escrever diretamente sobre a pele.

8) Finalização e descarte

  • Retire luvas e EPI com técnica segura; descarte em local apropriado.
  • Higienize as mãos.
  • Registre no prontuário: avaliação da ferida (itens do roteiro), tipo de cobertura, tolerância do paciente, intercorrências e condutas.

Diferenciando achados esperados vs. suspeitos (guia rápido)

Achados frequentemente esperados (dependem do dia pós-operatório e do tipo de cirurgia)

  • Pequena quantidade de exsudato seroso/serossanguinolento nas primeiras 24–72 horas.
  • Edema discreto e equimose leve ao redor da incisão.
  • Desconforto local que tende a reduzir progressivamente.
  • Leve eritema linear junto aos pontos/grampos, sem calor importante e sem progressão.

Achados suspeitos que exigem reavaliação imediata e possível escalonamento

  • Exsudato purulento, turvo, espesso ou com odor fétido.
  • Aumento progressivo de dor local, especialmente com calor, endurecimento ou rubor em expansão.
  • Deiscência (abertura) parcial ou total da incisão.
  • Hematoma em expansão, abaulamento tenso, sangramento que não cessa com medidas simples.
  • Maceração importante e lesão de pele perilesional por adesivo, com risco de porta de entrada para infecção.

Como lidar com sangramento leve durante a troca

Conduta prática (se sangramento pequeno e paciente estável)

  • Mantenha a calma e preserve a assepsia: não “varra” sangue com várias gazes; faça compressão.
  • Aplique compressão direta com gaze estéril por tempo contínuo (ex.: 5–10 minutos), sem ficar levantando para “olhar” a cada instante.
  • Se cessar, aplique cobertura absorvente e, se indicado, curativo levemente compressivo.
  • Reavalie bordas, presença de hematoma e quantidade de exsudato após controlar o sangramento.
  • Documente o episódio e comunique a equipe conforme protocolo.

Quando interromper o procedimento e acionar suporte avançado

  • Sangramento que não cessa com compressão direta adequada.
  • Sangramento em jato, encharcamento rápido do curativo ou formação de grande coágulo/hematoma expansivo.
  • Deiscência com exposição de tecidos profundos ou suspeita de evisceração (cobrir com compressas estéreis umedecidas com SF, manter paciente em posição adequada e acionar imediatamente a equipe médica).
  • Sinais de deterioração clínica durante o procedimento (palidez intensa, sudorese fria, rebaixamento do nível de consciência, queixa súbita intensa), seguindo o fluxo institucional de resposta rápida.

Erros comuns e como evitar

  • Quebrar a técnica estéril ao buscar materiais: deixe tudo preparado antes de calçar luvas estéreis.
  • Limpar “vai e volta” com a mesma gaze: use movimentos únicos e descarte a gaze a cada passada.
  • Fixar com tensão: aumenta risco de bolhas, lesão por adesivo e abertura de bordas; fixe sem tracionar.
  • Ignorar pele perilesional: a pele ao redor é parte do cuidado; proteja-a para evitar dermatite e maceração.
  • Não comparar com avaliações anteriores: tendência (melhora/piora) é tão importante quanto o achado isolado.

Exemplo de anotação objetiva (modelo)

Incisão abdominal, 8 cm, bordas aproximadas, pontos íntegros. Exsudato serossanguinolento escasso, sem odor. Pele perilesional íntegra, leve eritema linear sem calor. Dor local 3/10 à manipulação. Realizada limpeza com SF 0,9% estéril (centro para periferia), aplicada barreira cutânea em área de fixação e curativo com gaze estéril + filme. Paciente tolerou bem. Sem intercorrências.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a troca de curativo pós-operatório, qual conduta melhor preserva a técnica asséptica e reduz risco de contaminação cruzada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Manter a assepsia exige planejar o material antes e evitar contato das luvas estéreis com superfícies não estéreis; se ocorrer, a troca de luvas é necessária. Reaproveitar gaze ou buscar itens com luvas estéreis aumenta o risco de contaminação cruzada.

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