O que significa “validar” um novo layout antes de mudar de vez
Validar um layout é demonstrar, com dados e um teste controlado, que a proposta melhora o desempenho e reduz movimentações sem criar novos riscos (capacidade, segurança, abastecimento, armazenagem). A validação deve responder a três perguntas objetivas:
- Ganha desempenho? (menos tempo interno, menos esperas, menos WIP)
- Reduz movimentações? (menos distância, menos viagens, menos manuseios)
- É operável e seguro? (rotas viáveis, capacidade de armazenagem, sem gargalos e sem aumento de incidentes)
Na prática, a validação combina indicadores essenciais, uma simulação simples (sem software complexo) e um plano de implantação por etapas para reduzir risco.
Indicadores essenciais para aprovar (ou reprovar) o layout
Use um conjunto pequeno de indicadores, medidos do mesmo jeito no “antes” e no “depois”. Abaixo estão os indicadores mínimos recomendados e como defini-los para evitar interpretações diferentes entre áreas.
1) Distância total percorrida
- Definição: soma das distâncias percorridas por pessoas e equipamentos em um período (ex.: por turno/dia) ou por unidade produzida.
- Como medir na validação: com rota desenhada e passos/odometria do carrinho/empilhadeira, ou medição em planta com escala.
- Saída recomendada:
m/diaem/unidade.
2) Viagens por dia (ou por turno)
- Definição: número de deslocamentos completos de abastecimento/retirada (ex.: “supermercado → linha → retorno”).
- Como medir: contagem por amostragem (ex.: 2 horas) e extrapolação, ou registro do abastecedor.
- Saída:
viagens/diaeviagens/100 unidades.
3) Tempo de abastecimento
- Definição: tempo desde o início do ciclo do abastecedor até a entrega/retirada concluída no ponto de uso (inclui deslocamento, procura, manuseio e conferência).
- Como medir: cronometragem por ciclo (mínimo 10 ciclos) e média/percentil (ex.: P90).
- Saída:
min/cicloemin/dia.
4) Lead time interno
- Definição: tempo entre a liberação interna do material/ordem no início do fluxo e a disponibilidade no final do fluxo interno (antes de expedir/entregar ao próximo macroprocesso).
- Como medir: carimbo de tempo simples (planilha) em pontos de controle definidos.
- Saída:
horasoudiaspor lote/família.
5) WIP (Work In Process)
- Definição: quantidade de itens em processo/entre operações (unidades ou valor).
- Como medir: contagem física em horários fixos (ex.: início e fim do turno) e média diária.
- Saída:
unidadesehoras de cobertura(WIP / consumo).
6) Incidentes de segurança
- Definição: ocorrências registráveis e quase-acidentes relacionados a movimentação (cruzamentos, colisões, quedas de carga, ergonomia).
- Como medir: registro padrão + checklist diário de observações durante piloto.
- Saída:
nº/semanae classificação por tipo/área.
7) Ocupação de área
- Definição: área efetivamente ocupada por máquinas, estoques, WIP, corredores e pontos de abastecimento.
- Como medir: planta com marcação de “footprint” e áreas de buffers; conferir com demarcação no chão no piloto.
- Saída:
m²por categoria e%de ocupação da área disponível.
Tabela-resumo (definições e metas)
| Indicador | Unidade | Como coletar no piloto | Meta típica (exemplo) |
|---|---|---|---|
| Distância total | m/dia; m/un | rota + medição | -15% a -40% |
| Viagens | viagens/dia | contagem por janela | -10% a -30% |
| Tempo de abastecimento | min/ciclo | crono (10+ ciclos) | -10% a -25% |
| Lead time interno | h ou dias | carimbo de tempo | -10% a -30% |
| WIP | un; horas | contagem em horários fixos | -10% a -35% |
| Segurança | nº/semana | checklist + registros | 0 aumento (ideal: reduzir) |
| Ocupação de área | m²; % | planta + demarcação | liberar m² ou manter com melhor fluxo |
Simulação simples (sem software): como validar antes/depois com baixo custo
A validação simples funciona bem quando você precisa decidir rápido e com risco controlado. Ela é baseada em comparação antes/depois com uma família de produto, um teste de rota do abastecedor e uma checagem de capacidade de armazenagem.
Passo a passo 1: escolher uma família de produto para o teste
Selecione uma família que represente o fluxo e gere movimentação relevante, mas que permita teste sem parar a fábrica.
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- Critérios práticos: volume médio/alto, mix estável, poucos itens especiais, impacto claro no abastecimento.
- Defina o período: idealmente 1 a 3 dias de coleta no “antes” e 1 a 3 dias no “depois” (piloto).
- Defina o escopo: quais pontos entram (ex.: supermercado, 3 operações, inspeção, embalagem).
Passo a passo 2: montar a linha de base (antes) com coleta rápida
Monte uma planilha simples e colete o mínimo necessário para comparar.
- Distâncias: medir os trechos principais (A→B→C) e registrar em metros.
- Viagens: contar viagens de abastecimento e retirada relacionadas à família.
- Tempos: cronometrar ciclos do abastecedor e tempos de espera típicos (ex.: aguardando material).
- WIP: contar WIP em pontos definidos (ex.: antes da operação 2 e antes da embalagem).
- Segurança: registrar cruzamentos críticos e quase-acidentes observados.
Passo a passo 3: simular o “depois” com marcação no chão (piloto físico)
Sem mover máquinas definitivamente, você pode simular o novo layout com demarcações e posicionamento temporário de estoques/pontos de abastecimento.
- Demarque: corredores, pontos de entrega/retirada, áreas de WIP e áreas de armazenagem temporária.
- Posicione “pontos de uso”: onde o abastecedor deve entregar, com identificação por código (ex.: POU-01, POU-02).
- Defina regras do teste: horários de abastecimento, limites de WIP, e quem registra dados.
Passo a passo 4: teste de rota do abastecedor (walkthrough + tempo)
O objetivo é verificar se a rota proposta é executável, segura e se o tempo de ciclo cai.
- Desenhe a rota: sequência de paradas e sentido único quando possível.
- Faça 10 ciclos: com carga realista (peso/volume típicos) e condições reais (desvios, pessoas, cruzamentos).
- Registre: tempo total, tempo parado (procurando, esperando), número de manuseios e pontos de conflito.
- Critério de aprovação: redução consistente do tempo (média e P90) sem aumento de riscos (novos cruzamentos, manobras perigosas).
Passo a passo 5: verificação de capacidade de armazenagem (checagem de “caber e operar”)
Um layout pode reduzir distância, mas falhar por falta de capacidade ou acessibilidade. Faça uma checagem objetiva.
- Liste itens e embalagens: dimensões, empilhamento permitido, giro e quantidade mínima/máxima.
- Calcule a necessidade: capacidade por SKU ou por grupo (ex.: caixas por posição, posições necessárias).
- Teste acessos: consegue repor sem bloquear corredor? consegue retirar FIFO quando aplicável?
- Verifique picos: recebimento e expedição em horários críticos; o layout suporta “pior caso”?
Passo a passo 6: comparação antes/depois e decisão
Compare os indicadores do “antes” com os do piloto “depois” usando o mesmo denominador (por dia, por turno, por 100 unidades). Use também uma lista de “problemas encontrados” para ajustes.
Exemplo de estrutura de comparação (por dia): Distância total: Antes 12.400 m | Depois 8.900 m | Variação -28% Viagens: Antes 46 | Depois 38 | Variação -17% Tempo abastecimento (média): Antes 14,2 min | Depois 11,8 min | Variação -17% Lead time interno: Antes 2,4 dias | Depois 2,0 dias | Variação -17% WIP médio: Antes 520 un | Depois 410 un | Variação -21% Segurança: Antes 3 quase-acidentes/semana | Depois 1 | Variação -67% Ocupação de área: Antes 1.150 m² | Depois 1.080 m² | -70 m²Cuidados para não “validar errado” (armadilhas comuns)
- Mudar mais de uma coisa ao mesmo tempo: se além do layout você muda lote, equipe e regra de abastecimento, fica difícil atribuir causa. No piloto, tente manter as demais condições.
- Comparar dias diferentes sem normalizar: normalize por volume produzido, mix e horas trabalhadas.
- Medir só média: registre variação (P90 ou pior caso) para capturar picos e instabilidades.
- Ignorar restrições de armazenagem: “cabe no papel” não significa que repõe e retira sem bloquear fluxo.
- Não envolver operação: abastecedor e líderes de área devem validar manobras, visibilidade e segurança.
Plano de implantação por etapas (piloto → ajuste → expansão)
Um plano por etapas reduz risco e mantém a operação. Abaixo está um modelo prático com entregáveis e controles.
Etapa 1: Piloto controlado
- Objetivo: testar o layout em pequena escala e coletar indicadores.
- Escopo: uma família de produto, um trecho do fluxo ou uma área (ex.: abastecimento de 2 linhas).
- Preparação: demarcação no chão, sinalização temporária, checklist de segurança, planilha de coleta.
- Operação: rodar por 1–3 dias, com acompanhamento em campo e registro de desvios.
- Entregáveis: tabela antes/depois, lista de problemas, fotos do piloto (sem depender de “memória”).
Etapa 2: Ajuste e padronização
- Objetivo: corrigir falhas encontradas e transformar o “teste” em padrão.
- Ajustes típicos: largura de corredor, reposicionamento de ponto de entrega, sequência de paradas, limites de WIP, capacidade de armazenagem.
- Padronização: atualizar mapas de rota, endereçamento, instruções de abastecimento e checklists.
- Treinamento rápido: instrução no posto para abastecedores e operadores (o que mudou, onde fica, como repor).
Etapa 3: Expansão (rollout)
- Objetivo: replicar para outras famílias/áreas mantendo estabilidade.
- Estratégia: expandir por ondas (ex.: área A → área B → área C), repetindo coleta curta de indicadores para confirmar ganhos.
- Governança: responsável por área + responsável por abastecimento + segurança + manutenção, com reunião curta diária durante a mudança.
Como manter a operação durante a mudança: janela, contingência e documentação
Definir janela de mudança
- Escolha a janela: menor impacto (fim de semana, feriado, turno com menor carga).
- Sequencie atividades: o que precisa parar e o que pode ser feito com operação rodando.
- Pré-montagem: preparar demarcações, suportes, racks e sinalizações antes da janela.
Plano de contingência (se algo der errado)
- Critérios de “voltar atrás”: falta de material na linha, risco de segurança, bloqueio de corredor, queda de produção acima de X%.
- Rotas alternativas: definir caminho temporário e ponto de estoque de emergência.
- Materiais críticos: manter buffer controlado para 1 turno (quando aplicável) durante os primeiros dias.
Atualização de mapas e padrões
- Mapas: rota do abastecedor, pontos de entrega/retirada, endereços de armazenagem.
- Padrões operacionais: frequência de abastecimento, limites de WIP, regras de reposição e identificação visual.
- Auditoria rápida: checklist diário na primeira semana para garantir aderência ao novo padrão.
Modelo de relatório de resultados (para sustentar a decisão)
Use um relatório curto, objetivo e comparável. Abaixo um modelo que pode ser copiado para um documento interno.
1) Identificação
- Área / Linha / Família de produto:
- Período do “antes”:
- Período do piloto “depois”:
- Responsáveis (operação, logística interna, segurança, engenharia):
2) Escopo da mudança testada
- O que foi alterado (pontos de abastecimento, posições, corredores, armazenagem):
- O que não foi alterado (para manter comparabilidade):
- Premissas do teste (volume, turnos, equipe):
3) Indicadores antes/depois
| Indicador | Antes | Depois (piloto) | Variação | Observações |
|---|---|---|---|---|
| Distância total (m/dia) | ||||
| Viagens (viagens/dia) | ||||
| Tempo abastecimento (min/ciclo) | ||||
| Lead time interno | ||||
| WIP médio (un) | ||||
| Incidentes/quase-acidentes | ||||
| Ocupação de área (m²) |
4) Evidências e achados do piloto
- Principais ganhos observados (com exemplos do dia a dia):
- Principais problemas encontrados (onde, quando, impacto):
- Riscos de segurança identificados e ações imediatas:
- Restrições de capacidade de armazenagem e como foram tratadas:
5) Ajustes necessários antes da implantação definitiva
- Ajuste 1 (descrição, responsável, prazo):
- Ajuste 2 (descrição, responsável, prazo):
- Materiais/infra necessários (racks, demarcação, proteções, etc.):
6) Plano de implantação
- Estratégia: piloto → ajuste → expansão (ondas e datas):
- Janela de mudança e sequência de atividades:
- Plano de contingência (gatilhos e ações):
- Plano de comunicação e treinamento:
7) Recomendação para decisão
- Decisão proposta: aprovar / aprovar com ajustes / reprovar
- Justificativa baseada nos indicadores e riscos
- Próxima revisão (data) e responsáveis