Validando um novo layout industrial: indicadores, simulação simples e plano de implantação

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que significa “validar” um novo layout antes de mudar de vez

Validar um layout é demonstrar, com dados e um teste controlado, que a proposta melhora o desempenho e reduz movimentações sem criar novos riscos (capacidade, segurança, abastecimento, armazenagem). A validação deve responder a três perguntas objetivas:

  • Ganha desempenho? (menos tempo interno, menos esperas, menos WIP)
  • Reduz movimentações? (menos distância, menos viagens, menos manuseios)
  • É operável e seguro? (rotas viáveis, capacidade de armazenagem, sem gargalos e sem aumento de incidentes)

Na prática, a validação combina indicadores essenciais, uma simulação simples (sem software complexo) e um plano de implantação por etapas para reduzir risco.

Indicadores essenciais para aprovar (ou reprovar) o layout

Use um conjunto pequeno de indicadores, medidos do mesmo jeito no “antes” e no “depois”. Abaixo estão os indicadores mínimos recomendados e como defini-los para evitar interpretações diferentes entre áreas.

1) Distância total percorrida

  • Definição: soma das distâncias percorridas por pessoas e equipamentos em um período (ex.: por turno/dia) ou por unidade produzida.
  • Como medir na validação: com rota desenhada e passos/odometria do carrinho/empilhadeira, ou medição em planta com escala.
  • Saída recomendada: m/dia e m/unidade.

2) Viagens por dia (ou por turno)

  • Definição: número de deslocamentos completos de abastecimento/retirada (ex.: “supermercado → linha → retorno”).
  • Como medir: contagem por amostragem (ex.: 2 horas) e extrapolação, ou registro do abastecedor.
  • Saída: viagens/dia e viagens/100 unidades.

3) Tempo de abastecimento

  • Definição: tempo desde o início do ciclo do abastecedor até a entrega/retirada concluída no ponto de uso (inclui deslocamento, procura, manuseio e conferência).
  • Como medir: cronometragem por ciclo (mínimo 10 ciclos) e média/percentil (ex.: P90).
  • Saída: min/ciclo e min/dia.

4) Lead time interno

  • Definição: tempo entre a liberação interna do material/ordem no início do fluxo e a disponibilidade no final do fluxo interno (antes de expedir/entregar ao próximo macroprocesso).
  • Como medir: carimbo de tempo simples (planilha) em pontos de controle definidos.
  • Saída: horas ou dias por lote/família.

5) WIP (Work In Process)

  • Definição: quantidade de itens em processo/entre operações (unidades ou valor).
  • Como medir: contagem física em horários fixos (ex.: início e fim do turno) e média diária.
  • Saída: unidades e horas de cobertura (WIP / consumo).

6) Incidentes de segurança

  • Definição: ocorrências registráveis e quase-acidentes relacionados a movimentação (cruzamentos, colisões, quedas de carga, ergonomia).
  • Como medir: registro padrão + checklist diário de observações durante piloto.
  • Saída: nº/semana e classificação por tipo/área.

7) Ocupação de área

  • Definição: área efetivamente ocupada por máquinas, estoques, WIP, corredores e pontos de abastecimento.
  • Como medir: planta com marcação de “footprint” e áreas de buffers; conferir com demarcação no chão no piloto.
  • Saída: por categoria e % de ocupação da área disponível.

Tabela-resumo (definições e metas)

IndicadorUnidadeComo coletar no pilotoMeta típica (exemplo)
Distância totalm/dia; m/unrota + medição-15% a -40%
Viagensviagens/diacontagem por janela-10% a -30%
Tempo de abastecimentomin/ciclocrono (10+ ciclos)-10% a -25%
Lead time internoh ou diascarimbo de tempo-10% a -30%
WIPun; horascontagem em horários fixos-10% a -35%
Segurançanº/semanachecklist + registros0 aumento (ideal: reduzir)
Ocupação de áream²; %planta + demarcaçãoliberar m² ou manter com melhor fluxo

Simulação simples (sem software): como validar antes/depois com baixo custo

A validação simples funciona bem quando você precisa decidir rápido e com risco controlado. Ela é baseada em comparação antes/depois com uma família de produto, um teste de rota do abastecedor e uma checagem de capacidade de armazenagem.

Passo a passo 1: escolher uma família de produto para o teste

Selecione uma família que represente o fluxo e gere movimentação relevante, mas que permita teste sem parar a fábrica.

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  • Critérios práticos: volume médio/alto, mix estável, poucos itens especiais, impacto claro no abastecimento.
  • Defina o período: idealmente 1 a 3 dias de coleta no “antes” e 1 a 3 dias no “depois” (piloto).
  • Defina o escopo: quais pontos entram (ex.: supermercado, 3 operações, inspeção, embalagem).

Passo a passo 2: montar a linha de base (antes) com coleta rápida

Monte uma planilha simples e colete o mínimo necessário para comparar.

  • Distâncias: medir os trechos principais (A→B→C) e registrar em metros.
  • Viagens: contar viagens de abastecimento e retirada relacionadas à família.
  • Tempos: cronometrar ciclos do abastecedor e tempos de espera típicos (ex.: aguardando material).
  • WIP: contar WIP em pontos definidos (ex.: antes da operação 2 e antes da embalagem).
  • Segurança: registrar cruzamentos críticos e quase-acidentes observados.

Passo a passo 3: simular o “depois” com marcação no chão (piloto físico)

Sem mover máquinas definitivamente, você pode simular o novo layout com demarcações e posicionamento temporário de estoques/pontos de abastecimento.

  • Demarque: corredores, pontos de entrega/retirada, áreas de WIP e áreas de armazenagem temporária.
  • Posicione “pontos de uso”: onde o abastecedor deve entregar, com identificação por código (ex.: POU-01, POU-02).
  • Defina regras do teste: horários de abastecimento, limites de WIP, e quem registra dados.

Passo a passo 4: teste de rota do abastecedor (walkthrough + tempo)

O objetivo é verificar se a rota proposta é executável, segura e se o tempo de ciclo cai.

  • Desenhe a rota: sequência de paradas e sentido único quando possível.
  • Faça 10 ciclos: com carga realista (peso/volume típicos) e condições reais (desvios, pessoas, cruzamentos).
  • Registre: tempo total, tempo parado (procurando, esperando), número de manuseios e pontos de conflito.
  • Critério de aprovação: redução consistente do tempo (média e P90) sem aumento de riscos (novos cruzamentos, manobras perigosas).

Passo a passo 5: verificação de capacidade de armazenagem (checagem de “caber e operar”)

Um layout pode reduzir distância, mas falhar por falta de capacidade ou acessibilidade. Faça uma checagem objetiva.

  • Liste itens e embalagens: dimensões, empilhamento permitido, giro e quantidade mínima/máxima.
  • Calcule a necessidade: capacidade por SKU ou por grupo (ex.: caixas por posição, posições necessárias).
  • Teste acessos: consegue repor sem bloquear corredor? consegue retirar FIFO quando aplicável?
  • Verifique picos: recebimento e expedição em horários críticos; o layout suporta “pior caso”?

Passo a passo 6: comparação antes/depois e decisão

Compare os indicadores do “antes” com os do piloto “depois” usando o mesmo denominador (por dia, por turno, por 100 unidades). Use também uma lista de “problemas encontrados” para ajustes.

Exemplo de estrutura de comparação (por dia):  Distância total: Antes 12.400 m | Depois 8.900 m | Variação -28%  Viagens: Antes 46 | Depois 38 | Variação -17%  Tempo abastecimento (média): Antes 14,2 min | Depois 11,8 min | Variação -17%  Lead time interno: Antes 2,4 dias | Depois 2,0 dias | Variação -17%  WIP médio: Antes 520 un | Depois 410 un | Variação -21%  Segurança: Antes 3 quase-acidentes/semana | Depois 1 | Variação -67%  Ocupação de área: Antes 1.150 m² | Depois 1.080 m² | -70 m²

Cuidados para não “validar errado” (armadilhas comuns)

  • Mudar mais de uma coisa ao mesmo tempo: se além do layout você muda lote, equipe e regra de abastecimento, fica difícil atribuir causa. No piloto, tente manter as demais condições.
  • Comparar dias diferentes sem normalizar: normalize por volume produzido, mix e horas trabalhadas.
  • Medir só média: registre variação (P90 ou pior caso) para capturar picos e instabilidades.
  • Ignorar restrições de armazenagem: “cabe no papel” não significa que repõe e retira sem bloquear fluxo.
  • Não envolver operação: abastecedor e líderes de área devem validar manobras, visibilidade e segurança.

Plano de implantação por etapas (piloto → ajuste → expansão)

Um plano por etapas reduz risco e mantém a operação. Abaixo está um modelo prático com entregáveis e controles.

Etapa 1: Piloto controlado

  • Objetivo: testar o layout em pequena escala e coletar indicadores.
  • Escopo: uma família de produto, um trecho do fluxo ou uma área (ex.: abastecimento de 2 linhas).
  • Preparação: demarcação no chão, sinalização temporária, checklist de segurança, planilha de coleta.
  • Operação: rodar por 1–3 dias, com acompanhamento em campo e registro de desvios.
  • Entregáveis: tabela antes/depois, lista de problemas, fotos do piloto (sem depender de “memória”).

Etapa 2: Ajuste e padronização

  • Objetivo: corrigir falhas encontradas e transformar o “teste” em padrão.
  • Ajustes típicos: largura de corredor, reposicionamento de ponto de entrega, sequência de paradas, limites de WIP, capacidade de armazenagem.
  • Padronização: atualizar mapas de rota, endereçamento, instruções de abastecimento e checklists.
  • Treinamento rápido: instrução no posto para abastecedores e operadores (o que mudou, onde fica, como repor).

Etapa 3: Expansão (rollout)

  • Objetivo: replicar para outras famílias/áreas mantendo estabilidade.
  • Estratégia: expandir por ondas (ex.: área A → área B → área C), repetindo coleta curta de indicadores para confirmar ganhos.
  • Governança: responsável por área + responsável por abastecimento + segurança + manutenção, com reunião curta diária durante a mudança.

Como manter a operação durante a mudança: janela, contingência e documentação

Definir janela de mudança

  • Escolha a janela: menor impacto (fim de semana, feriado, turno com menor carga).
  • Sequencie atividades: o que precisa parar e o que pode ser feito com operação rodando.
  • Pré-montagem: preparar demarcações, suportes, racks e sinalizações antes da janela.

Plano de contingência (se algo der errado)

  • Critérios de “voltar atrás”: falta de material na linha, risco de segurança, bloqueio de corredor, queda de produção acima de X%.
  • Rotas alternativas: definir caminho temporário e ponto de estoque de emergência.
  • Materiais críticos: manter buffer controlado para 1 turno (quando aplicável) durante os primeiros dias.

Atualização de mapas e padrões

  • Mapas: rota do abastecedor, pontos de entrega/retirada, endereços de armazenagem.
  • Padrões operacionais: frequência de abastecimento, limites de WIP, regras de reposição e identificação visual.
  • Auditoria rápida: checklist diário na primeira semana para garantir aderência ao novo padrão.

Modelo de relatório de resultados (para sustentar a decisão)

Use um relatório curto, objetivo e comparável. Abaixo um modelo que pode ser copiado para um documento interno.

1) Identificação

  • Área / Linha / Família de produto:
  • Período do “antes”:
  • Período do piloto “depois”:
  • Responsáveis (operação, logística interna, segurança, engenharia):

2) Escopo da mudança testada

  • O que foi alterado (pontos de abastecimento, posições, corredores, armazenagem):
  • O que não foi alterado (para manter comparabilidade):
  • Premissas do teste (volume, turnos, equipe):

3) Indicadores antes/depois

IndicadorAntesDepois (piloto)VariaçãoObservações
Distância total (m/dia)
Viagens (viagens/dia)
Tempo abastecimento (min/ciclo)
Lead time interno
WIP médio (un)
Incidentes/quase-acidentes
Ocupação de área (m²)

4) Evidências e achados do piloto

  • Principais ganhos observados (com exemplos do dia a dia):
  • Principais problemas encontrados (onde, quando, impacto):
  • Riscos de segurança identificados e ações imediatas:
  • Restrições de capacidade de armazenagem e como foram tratadas:

5) Ajustes necessários antes da implantação definitiva

  • Ajuste 1 (descrição, responsável, prazo):
  • Ajuste 2 (descrição, responsável, prazo):
  • Materiais/infra necessários (racks, demarcação, proteções, etc.):

6) Plano de implantação

  • Estratégia: piloto → ajuste → expansão (ondas e datas):
  • Janela de mudança e sequência de atividades:
  • Plano de contingência (gatilhos e ações):
  • Plano de comunicação e treinamento:

7) Recomendação para decisão

  • Decisão proposta: aprovar / aprovar com ajustes / reprovar
  • Justificativa baseada nos indicadores e riscos
  • Próxima revisão (data) e responsáveis

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao validar um novo layout industrial por meio de um piloto, qual prática ajuda a evitar uma validação incorreta e aumentar a confiabilidade da comparação antes/depois?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para atribuir ganhos ao layout, o piloto deve manter outras variáveis estáveis, coletar os mesmos indicadores com o mesmo método e comparar com o mesmo denominador (por dia/turno/100 unidades), evitando distorções.

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