Traumas e Avaliação Rápida na Triagem: Mecanismo, Risco Oculto e ABCDE Aplicado

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Triagem orientada pelo mecanismo de trauma: por que o “como aconteceu” muda a prioridade

Em trauma, a aparência inicial pode enganar: pacientes conversando, com sinais vitais aparentemente aceitáveis, podem ter lesões internas graves (hemorragia oculta, lesão de órgãos sólidos, pneumotórax, lesão cervical). Por isso, na triagem, o mecanismo de trauma funciona como um “amplificador de risco”: quanto maior a energia envolvida e quanto mais vulnerável o paciente, maior a chance de lesão grave mesmo sem sinais óbvios.

O objetivo prático na triagem é: identificar mecanismos de alta energia, procurar sinais de gravidade discretos e aplicar um ABCDE focado em ameaças imediatas, com atenção especial a hemorragia externa, perfusão, dor desproporcional e risco de lesão cervical.

O que documentar do mecanismo (mínimo essencial)

  • Hora do trauma (ou última vez visto bem) e hora de chegada.
  • Tipo de evento: queda, colisão, atropelamento, agressão/violência, perfuração, esmagamento.
  • Energia/cinemática: altura da queda, velocidade estimada, deformidade do veículo, ejeção, capotamento, morte no local, uso de cinto/capacete, airbag, intrusão no habitáculo.
  • Local do impacto e parte do corpo envolvida (cabeça, tórax, abdome, pelve, membros, coluna).
  • Perda de consciência, amnésia, convulsão pós-trauma, vômitos.
  • Anticoagulantes/antiagregantes, gestação, idade avançada, comorbidades relevantes.
  • Intervenções pré-hospitalares: torniquete, curativo compressivo, fluidos, analgesia, imobilização, oxigênio.

Mecanismos comuns e “gatilhos” de alto risco na triagem

1) Queda

  • Alto risco: queda de altura significativa, queda com impacto em cabeça/pescoço, queda com desaceleração (escadas, laje), queda em idosos com anticoagulante, queda com dor em coluna/pelve.
  • Risco oculto típico: hemorragia intracraniana (especialmente em idosos/anticoagulados), fratura de pelve, fraturas vertebrais, lesão esplênica/hepática.
  • Pistas na triagem: cefaleia progressiva, sonolência, confusão, vômitos, dor lombar intensa, incapacidade de deambular, equimoses em flanco/abdome, hipotensão relativa.

2) Colisão (carro/moto/bicicleta)

  • Alto risco: alta velocidade, deformidade importante do veículo, intrusão no habitáculo, ejeção, capotamento, colisão com poste/caminhão, motociclista arremessado, ausência de capacete, morte de ocupante no mesmo veículo.
  • Risco oculto típico: pneumotórax/hemotórax, contusão pulmonar, tamponamento, ruptura de aorta (desaceleração), lesão abdominal, fratura de pelve, lesão cervical.
  • Pistas na triagem: dor torácica com respiração curta, assimetria de expansibilidade, crepitação subcutânea, dor abdominal com pouca sensibilidade inicial, palidez e sudorese, taquicardia desproporcional.

3) Atropelamento

  • Alto risco: pedestre projetado, impacto em alta velocidade, atropelamento com arrasto, criança/idoso, múltiplos pontos de impacto.
  • Risco oculto típico: lesões múltiplas (cabeça + tórax + abdome), fraturas de pelve e membros, hemorragia interna, síndrome compartimental.
  • Pistas na triagem: dor intensa em membro com edema progressivo, extremidade fria/pálida, dor desproporcional, alteração de sensibilidade, sinais de choque sem sangramento externo evidente.

4) Violência (agressão, arma branca, arma de fogo, espancamento)

  • Alto risco: ferimentos penetrantes em pescoço/tórax/abdome, múltiplas perfurações, agressão com estrangulamento, trauma craniofacial importante, suspeita de violência sexual associada a trauma.
  • Risco oculto típico: lesão vascular (sangramento interno), pneumotórax, lesão de vias aéreas, perfuração de vísceras, lesão de medula, sangramento retroperitoneal.
  • Pistas na triagem: rouquidão, estridor, hematoma cervical, enfisema subcutâneo, dispneia, dor torácica pleurítica, distensão abdominal, sinais de choque.

Sinais de lesão grave mesmo com aparência estável (checklist de “não perder”)

  • Hemorragia externa ativa (jato, encharcando curativos, sangramento que não cessa com compressão simples).
  • Perfusão ruim: pele fria/pegajosa, palidez, enchimento capilar lento, pulso fraco, tontura ao sentar, sede intensa.
  • Taquicardia persistente ou “normalidade enganosa” em idosos/atletas/uso de betabloqueador.
  • Alteração neurológica sutil: confusão leve, sonolência, amnésia, comportamento incomum.
  • Dor desproporcional ao achado local (suspeitar de síndrome compartimental, isquemia, lesão vascular, necrose).
  • Lesão em múltiplos segmentos (cabeça + tórax, tórax + abdome, pelve + fêmur).
  • Marcas de cinto, equimoses extensas, feridas penetrantes em “zonas nobres” (pescoço, tórax, abdome, virilha).
  • Dispneia, fala entrecortada, dor torácica com assimetria respiratória.
  • Suspeita de lesão cervical: dor cervical, parestesias, déficit motor, mecanismo de desaceleração, queda com impacto em cabeça, intoxicação/alteração de consciência.

ABCDE aplicado ao trauma na triagem: versão rápida e orientada a risco

Na triagem, o ABCDE é usado como varredura estruturada para detectar ameaças imediatas e definir prioridade de encaminhamento. A diferença no trauma é a ênfase em controle de hemorragia, perfusão e proteção cervical desde o primeiro contato.

Passo a passo prático (2–4 minutos, com reavaliação contínua)

1) Chegada e “primeiro olhar” (antes do A)

  • Identifique se há sangramento visível importante. Se sim, trate imediatamente (compressão/torniquete) antes de seguir.
  • Observe: paciente fala? respira? cor da pele? postura antálgica? agitação?
  • Determine se o mecanismo é de alta energia e se há múltiplas vítimas ou risco de violência em curso (segurança do ambiente).

2) A – Via aérea com proteção da coluna cervical

  • O que buscar: voz normal vs rouquidão, estridor, sangue/vômito, dentes soltos, rebaixamento do nível de consciência, trauma facial.
  • Ação imediata na triagem: se via aérea ameaçada, priorize encaminhamento imediato para sala de emergência; mantenha alinhamento cervical (estabilização manual se necessário).
  • Risco cervical: considere alto quando houver desaceleração importante, queda com impacto em cabeça/pescoço, dor cervical, déficit neurológico, intoxicação, alteração de consciência, trauma múltiplo.

3) B – Respiração e ventilação

  • O que buscar: esforço respiratório, assimetria, dor torácica, ferida penetrante, cianose, saturação baixa, murmúrio reduzido unilateral.
  • Pistas de gravidade com aparência estável: taquipneia discreta + ansiedade + dor torácica após colisão pode preceder deterioração.
  • Ação: oxigênio conforme necessidade e prioridade de encaminhamento se sinais de insuficiência respiratória, trauma torácico significativo ou ferida penetrante.

4) C – Circulação com foco em hemorragia e perfusão

  • Primeiro: controlar hemorragia externa (ver seção específica abaixo).
  • O que buscar: pulso (qualidade e frequência), pele (fria/pálida), enchimento capilar, sangramento oculto provável (abdome/pelve/fêmur), nível de consciência como marcador de perfusão.
  • Choque pode ser oculto: paciente pode estar “compensado” no início; taquicardia, palidez e sudorese são alertas precoces.
  • Ação: se suspeita de choque/hemorragia interna, prioridade máxima de encaminhamento; mantenha aquecimento e minimize tempo na triagem.

5) D – Déficit neurológico rápido

  • O que buscar: resposta verbal/motora, pupilas, queixa de parestesia, fraqueza, dor cervical, amnésia.
  • Alerta: rebaixamento progressivo, agitação inexplicada, cefaleia intensa pós-trauma, vômitos repetidos.
  • Ação: suspeita de TCE significativo ou lesão medular = encaminhamento imediato e imobilização conforme critérios.

6) E – Exposição e controle do ambiente

  • O que buscar: lesões ocultas (dorso, axilas, virilha), deformidades, feridas pequenas penetrantes, hematomas extensos.
  • Evitar hipotermia: cobrir após inspeção; hipotermia piora coagulopatia e sangramento.

Controle de sangramento na triagem: decisões rápidas

Quando a compressão direta é suficiente

  • Sangramento venoso/capilar controlável com compressão firme contínua e curativo compressivo.
  • Feridas sem jato pulsátil e sem encharcar curativos rapidamente.

Quando considerar torniquete (membro)

  • Sangramento intenso em membro com risco de exsanguinação.
  • Sangramento que não controla com compressão direta eficaz.
  • Amputação traumática ou lesão extensa com sangramento ativo.

Pontos práticos: aplicar proximal ao ferimento (não sobre articulação), apertar até cessar sangramento, registrar hora da aplicação de forma clara na documentação e comunicar na passagem de caso.

Quando suspeitar de hemorragia interna (sem sangramento externo)

  • Mecanismo de alta energia + sinais de hipoperfusão (pele fria, taquicardia, confusão, enchimento capilar lento).
  • Dor abdominal/pélvica, distensão, instabilidade ao tentar sentar, fratura de fêmur, múltiplas lesões.

Nesses casos, a conduta na triagem é priorizar encaminhamento imediato para avaliação médica e suporte avançado, reduzindo intervenções que atrasem.

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Dor desproporcional e risco de lesão vascular/compartimental

Dor intensa “fora do esperado” para o achado local deve ser tratada como sinal de alerta, especialmente após esmagamento, fratura de tíbia/antebraço, atropelamento ou trauma com edema progressivo.

Achados que aumentam suspeita

  • Dor ao estiramento passivo do segmento.
  • Parestesias (formigamento), hipoestesia.
  • Palidez e frialdade distal, pulso fraco (pode estar presente no início).
  • Edema tenso e piora rápida da dor.

Ação na triagem: elevar prioridade, evitar compressões circunferenciais apertadas, manter membro em posição neutra e encaminhar imediatamente.

Imobilização: critérios práticos para decidir na triagem

Imobilização não deve ser automática para todos; deve ser baseada em risco de lesão cervical/coluna e achados clínicos. Na dúvida com mecanismo de alto risco e avaliação limitada, trate como potencial lesão até exclusão.

Indicar precauções de coluna cervical (e imobilização conforme protocolo local) quando houver

  • Dor cervical ou sensibilidade à palpação na linha média.
  • Déficit neurológico: fraqueza, parestesia, alteração sensitiva.
  • Alteração de consciência, intoxicação, agitação que impeça exame confiável.
  • Mecanismo de alto risco: desaceleração importante, queda com impacto em cabeça/pescoço, capotamento/ejeção, atropelamento com projeção.
  • Lesão dolorosa importante que possa distrair (dor intensa em outro local).

Cuidados práticos durante a triagem

  • Manter alinhamento neutro e evitar rotações/flexões do pescoço.
  • Se colar cervical for utilizado, checar ajuste e conforto, e observar sinais de desconforto respiratório.
  • Documentar motivo da imobilização (achado/mecanismo) e horário.

Prioridade de encaminhamento: quem não pode esperar

Na triagem, a prioridade é definida pela combinação de ameaça imediata + mecanismo de alta energia + sinais de lesão grave. Abaixo, critérios práticos para encaminhamento rápido à sala de emergência/atendimento imediato.

Encaminhar imediatamente (alta prioridade) se houver

  • Via aérea ameaçada (estridor, rebaixamento importante, sangramento/vômito com risco de aspiração).
  • Insuficiência respiratória, saturação baixa persistente, trauma torácico significativo, ferida penetrante em tórax.
  • Hemorragia externa não controlada ou necessidade de torniquete.
  • Sinais de choque/hipoperfusão ou suspeita forte de hemorragia interna.
  • Alteração neurológica pós-trauma (rebaixamento, confusão progressiva, convulsão pós-trauma).
  • Suspeita de lesão cervical/medular com déficit ou mecanismo de alto risco + exame não confiável.
  • Ferimento penetrante em pescoço, tórax, abdome, virilha, ou sangramento pulsátil.
  • Dor desproporcional com sinais de isquemia/compartimental.

Exemplos rápidos de aplicação

  • Queda em idoso anticoagulado, sem queixa importante, mas com sonolência leve e cefaleia: tratar como alto risco, documentar hora, priorizar avaliação imediata por risco de sangramento intracraniano.
  • Motociclista com escoriações e fala normal, porém taquicárdico, pele fria e dor abdominal discreta: suspeitar de hemorragia interna; encaminhar sem demora.
  • Atropelamento com dor intensa em perna e parestesia distal, edema crescente: suspeitar de lesão vascular/compartimental; prioridade alta.
  • Agressão com estrangulamento e rouquidão: risco de lesão de via aérea; encaminhar imediatamente.

Modelo de registro (documentação enxuta e completa)

Use um padrão que facilite rastreabilidade e comunicação:

Horário do trauma: __:__  | Chegada: __:__  | Triagem: __:__  | Intervenções: __:__ (ex.: torniquete às __:__) Mecanismo: (queda/colisão/atropelamento/violência) + detalhes de energia (altura/velocidade/ejeção/capacete/cinto/intrusão) Queixas principais: (dor local, dispneia, cefaleia, parestesia) Achados focados: A (via aérea/voz) | B (FR, simetria, SpO2) | C (pulso, perfusão, sangramento externo, suspeita de interno) | D (estado mental, pupilas, déficit) | E (lesões encontradas) Precauções: (coluna cervical sim/não; motivo) Controle de sangramento: (compressão/curativo/torniquete; local; hora) Encaminhamento: (sala de emergência/observação) + motivo (mecanismo alto risco, choque suspeito, etc.)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na triagem de um paciente vítima de trauma com aparência inicialmente estável, qual conduta melhor reduz o risco de subestimar lesões internas graves?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No trauma, a aparência pode enganar. O mecanismo de alta energia aumenta a chance de lesão oculta; por isso, é essencial procurar sinais sutis e realizar ABCDE focado em ameaças imediatas, com atenção a hemorragia, perfusão e risco cervical.

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