Por que “populações especiais” exigem adaptações na classificação de risco
Em pediatria, gestação, idosos e saúde mental, a triagem precisa ajustar linguagem, parâmetros e foco de risco porque: (1) sinais podem ser inespecíficos ou atípicos; (2) a deterioração pode ser rápida; (3) há riscos adicionais (fetal, quedas, polifarmácia, auto/heteroagressão); (4) a comunicação pode exigir estratégias específicas (responsáveis, acompanhante, abordagem não confrontativa). A meta é identificar rapidamente situações tempo-dependentes e reduzir eventos adversos, sem repetir protocolos gerais já abordados em outros capítulos.
Pediatria: adaptações práticas na triagem
O que muda na avaliação
- Idade e desenvolvimento: sintomas e sinais variam por faixa etária; lactentes podem descompensar com poucos sinais iniciais.
- Observação antes do toque: aparência, interação, choro, postura, cor, esforço respiratório e hidratação podem ser mais informativos do que a queixa verbal.
- Responsável como fonte: coletar início, progressão, alimentação, diurese, evacuações, febre medida, exposição a doentes, vacinação, prematuridade e comorbidades.
Passo a passo prático (triagem pediátrica focada)
- Identifique faixa etária (RN, lactente, pré-escolar, escolar, adolescente) e peso estimado/registrado para decisões rápidas (medicações, fluidos).
- Faça “impressão geral” em 10–20 segundos: nível de atividade, consolabilidade, contato visual, cor/perfusão, padrão respiratório.
- Cheque sinais de esforço respiratório (ver checklist abaixo) e saturação conforme indicação clínica.
- Avalie hidratação: ingestão, diurese, lágrimas, mucosas, turgor, fontanela (lactentes), tempo de enchimento capilar.
- Direcione perguntas-chave para o responsável: “quantas fraldas molhadas?”, “aceita líquidos?”, “vômitos biliosos?”, “dor intensa?”, “convulsão?”, “ingestão de medicamento/produto?”.
- Classifique prioridade com base nas red flags pediátricas e no risco de rápida deterioração (especialmente em <3 meses).
Checklist: sinais de esforço respiratório (pediatria)
- Batimento de asa nasal
- Tiragens (subcostal/intercostal/supraclavicular)
- Gemência
- Estridor em repouso
- Uso de musculatura acessória
- Taquipneia desproporcional
- Cianose/perfusão ruim
- Incapacidade de mamar/falar por falta de ar
Checklist: sinais de desidratação (pediatria)
- Leve: sede, mucosa levemente seca, diurese discretamente reduzida
- Moderada: poucas lágrimas, olhos fundos, enchimento capilar prolongado, irritabilidade/sonolência, diurese bem reduzida
- Grave: letargia, extremidades frias, pulso fraco, hipotensão (tardia), anúria, respiração profunda/rápida, fontanela muito deprimida (lactente)
Red flags pediátricas (prioridade imediata/alta)
- <3 meses com febre referida/medida ou prostração importante
- Convulsão atual ou pós-ictal prolongado
- Letargia, inconsolabilidade extrema ou “não reage como de costume” (relato do cuidador)
- Vômitos biliosos, sangue em vômitos/fezes, dor abdominal intensa com rigidez
- Sinais de meningismo, petéquias/púrpura com febre
- Suspeita de ingestão de tóxicos/medicamentos, afogamento, estrangulamento, sufocação
- Desidratação moderada/grave, incapacidade de ingerir líquidos
- Trauma em lactente/criança pequena com história inconsistente (considerar risco de violência)
Comunicação e ambiente (pediatria)
- Falar primeiro com o responsável e, quando possível, incluir a criança com linguagem simples.
- Reduzir estímulos (luz/ruído), permitir objeto de conforto, evitar separação desnecessária do cuidador.
- Procedimentos dolorosos: antecipar, explicar em etapas curtas e usar contenção segura e mínima, com apoio do responsável quando apropriado.
Gestante: adaptações práticas na triagem
O que muda na avaliação
- Dois pacientes: risco materno e fetal; priorizar estabilidade materna e sinais de sofrimento fetal quando disponíveis.
- Idade gestacional importa: <20 semanas, 20–36, ≥37 semanas e puerpério imediato mudam hipóteses e urgências.
- Sintomas “comuns” podem ser graves: cefaleia intensa, dor epigástrica, dispneia, edema súbito e sangramento exigem triagem cuidadosa.
Passo a passo prático (triagem obstétrica essencial)
- Confirme gestação e idade gestacional (DUM/USG), número de gestações/partos, comorbidades (HAS, DM, trombofilias) e uso de medicações.
- Investigue queixa principal com foco: sangramento, dor, perda de líquido, contrações, cefaleia/visão turva, redução de movimentos fetais, febre, dispneia.
- Quantifique sangramento: início, volume (absorventes), presença de coágulos/tecido, dor associada, tontura/síncope.
- Avalie dor: localização (hipogástrio, lateral, epigástrio), intensidade, irradiação, relação com contrações, sinais associados (náuseas, febre).
- Cheque pressão arterial e sintomas de alarme para síndromes hipertensivas (cefaleia forte, escotomas, dor epigástrica, edema súbito).
- Movimentos fetais: perguntar “quando foi a última vez que sentiu o bebê mexer?” e se houve redução clara do padrão habitual (especialmente após 24 semanas).
- Defina prioridade com base nas red flags obstétricas e acione fluxo obstétrico/medicina conforme protocolo local.
Red flags obstétricas (prioridade imediata/alta)
- Sangramento vaginal moderado/intenso, com instabilidade, síncope ou dor importante
- Dor abdominal intensa, dor em ombro, sinais de irritação peritoneal (suspeitar causas graves)
- Hipertensão com sintomas neurológicos/visuais, dor epigástrica, dispneia, edema súbito
- Convulsão em gestante/puérpera
- Redução/ausência de movimentos fetais (após viabilidade) relatada como mudança significativa
- Perda de líquido com febre, dor uterina, odor fétido ou sofrimento materno
- Dispneia súbita, dor torácica, hemoptise (considerar tromboembolismo)
- Puerpério: sangramento intenso, febre alta, dor pélvica importante, mal-estar desproporcional
Medidas de comunicação e privacidade (gestante)
- Garantir privacidade para relato de violência, abuso, uso de substâncias e sintomas íntimos.
- Evitar minimizar queixas; validar sintomas e explicar cada etapa da triagem.
- Se acompanhante estiver presente, confirmar com a gestante se deseja mantê-lo durante toda a entrevista.
Idoso: adaptações práticas na triagem
O que muda na avaliação
- Apresentações atípicas: infecção sem febre, IAM sem dor típica, delirium como primeiro sinal de doença aguda.
- Reserva fisiológica reduzida: pequenas alterações podem indicar gravidade.
- Risco de queda e fragilidade: quedas podem ocultar trauma significativo; avaliar marcha, tontura, síncope e ambiente domiciliar quando possível.
- Polifarmácia: interações, efeitos adversos (sedação, hipotensão, sangramento) e uso de anticoagulantes/antiagregantes elevam risco.
Passo a passo prático (triagem do idoso focada em risco)
- Identifique fragilidade: dependência funcional, perda de peso, quedas recentes, uso de dispositivos de marcha, cuidador.
- Cheque estado mental basal vs. atual: perguntar ao acompanhante “como ele é normalmente?”; delirium agudo é sinal de alto risco.
- Investigue queda/síncope: circunstância, pródromos, perda de consciência, trauma craniano, tempo no chão, dor após queda.
- Revise medicações críticas (lista rápida): anticoagulantes, antiagregantes, insulina/hipoglicemiantes, opioides, benzodiazepínicos, antipsicóticos, diuréticos, anti-hipertensivos.
- Procure sinais de sangramento (especialmente em uso de anticoagulantes) e de desidratação/hipotensão ortostática quando aplicável.
- Classifique prioridade considerando que queixas vagas (fraqueza, “mal-estar”, confusão) podem ser equivalentes a red flags no idoso.
Red flags no idoso (prioridade imediata/alta)
- Delirium agudo, rebaixamento do nível de consciência ou agitação nova
- Queda com trauma craniano, especialmente em uso de anticoagulante/antiagregante
- Queda com dor em quadril, incapacidade de deambular ou encurtamento/rotação de membro
- Fraqueza súbita, déficit focal, fala alterada, assimetria facial
- Dispneia nova, cianose, sinais de insuficiência respiratória
- Hipotensão, síncope ou sinais de choque (mesmo sem queixa específica)
- Hipoglicemia/hiperglicemia suspeita por alteração de comportamento
- Suspeita de intoxicação medicamentosa (sonolência, quedas repetidas, confusão após ajuste de dose)
Segurança ambiental e comunicação (idoso)
- Ambiente com baixa estimulação, boa iluminação e redução de ruído para diminuir delirium.
- Falar de frente, frases curtas, confirmar compreensão; considerar déficit auditivo/visual.
- Prevenir quedas na unidade: campainha acessível, grades conforme protocolo, calçado adequado, acompanhar ao banheiro.
Saúde mental: adaptações práticas na triagem
O que muda na avaliação
- Risco imediato pode ser comportamental (auto/heteroagressão) e não apenas fisiológico.
- Intoxicações e abstinência são frequentes e podem coexistir com crise psiquiátrica.
- Comunicação e ambiente são parte da intervenção: reduzir escalada, proteger equipe e paciente.
Passo a passo prático (triagem de saúde mental orientada a risco)
- Segurança primeiro: observar à distância postura, agitação, objetos nas mãos, necessidade de apoio da segurança conforme protocolo.
- Avalie risco de autoagressão: ideação suicida, plano, meios disponíveis, tentativa recente, desesperança, intoxicação associada.
- Avalie risco de heteroagressão: ameaças, alucinações de comando, paranoia intensa, histórico de violência, acesso a armas.
- Pesquise intoxicação/abstinência: álcool, estimulantes, opioides, benzodiazepínicos, múltiplas substâncias; tempo desde último uso.
- Cheque capacidade de autocuidado: desorganização grave, incapacidade de se alimentar/hidratar, exposição ao frio, negligência.
- Defina prioridade e necessidade de contenção (verbal/ambiental e, se indicado e protocolado, física/química) com registro objetivo do comportamento e do risco.
Perguntas diretas e úteis (sem julgamento)
- “Você está pensando em se machucar?”
- “Você tem um plano de como faria isso?”
- “Você tem acesso ao que usaria (medicamentos, lâmina, arma, corda)?”
- “Você usou álcool ou outras substâncias hoje?”
- “Você está ouvindo vozes mandando você fazer algo?”
- “Você pensa em machucar alguém?”
Red flags em saúde mental (prioridade imediata/alta)
- Tentativa de suicídio recente ou ideação com plano e meios disponíveis
- Agitação psicomotora intensa com risco de agressão
- Psicose com alucinações de comando para auto/heteroagressão
- Intoxicação com rebaixamento de consciência, vômitos recorrentes, convulsões, comportamento imprevisível
- Abstinência grave suspeita (tremores intensos, confusão, alucinações, instabilidade autonômica)
- Incapacidade de autocuidado com risco imediato (ex.: desorientação, exposição, recusa total de água/alimento)
- Violência sexual/doméstica em curso ou risco iminente (necessita privacidade e acionamento de rede conforme protocolo)
Medidas de segurança ambiental (saúde mental)
- Ambiente: sala com rota de saída livre para a equipe, poucos estímulos, sem objetos soltos (cabos, tesouras, vidros), mobiliário mínimo.
- Busca de itens: conforme protocolo institucional, retirar objetos perfurocortantes, cintos, cadarços e itens que possam ser usados para autoagressão.
- Observação: definir nível de vigilância (contínua quando risco alto), registrar comportamento e reavaliar frequentemente.
- Equipe: abordagem em dupla quando risco elevado; combinar sinais e papéis antes de entrar.
Comunicação para desescalada (técnicas rápidas)
- Manter voz calma, postura aberta, distância segura; evitar toque sem aviso.
- Usar frases curtas e escolhas limitadas: “Você prefere sentar aqui ou ali?”
- Validar emoção sem validar delírio: “Entendo que isso é assustador para você.”
- Evitar confrontos, ironia, ordens múltiplas; explicar o que vai acontecer a seguir.
Tabela de referência rápida: foco de triagem por população
| População | Foco principal | Red flags típicas | Cuidados de comunicação/ambiente |
|---|---|---|---|
| Pediatria | Idade, esforço respiratório, hidratação, comportamento | <3 meses com febre/prostração, convulsão, vômito bilioso, petéquias com febre, desidratação grave | Baixo estímulo, incluir responsável, linguagem simples |
| Gestante | Sangramento, dor, PA/sintomas hipertensivos, movimentos fetais, perda de líquido | Sangramento intenso, dor forte, convulsão, hipertensão com sintomas, redução de movimentos fetais, dispneia súbita | Privacidade, consentimento sobre acompanhante, escuta qualificada |
| Idoso | Delirium, quedas/síncope, fragilidade, polifarmácia | Delirium agudo, queda com anticoagulante, incapacidade de deambular, déficit focal, hipotensão/síncope | Prevenção de quedas, fala clara, reduzir ruído |
| Saúde mental | Auto/heteroagressão, intoxicação/abstinência, autocuidado | Tentativa recente, plano e meios, agitação violenta, psicose com comando, intoxicação grave | Desescalada verbal, sala segura, retirada de objetos, observação contínua |