Populações Especiais na Classificação de Risco: Pediatria, Gestante, Idoso e Saúde Mental

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que “populações especiais” exigem adaptações na classificação de risco

Em pediatria, gestação, idosos e saúde mental, a triagem precisa ajustar linguagem, parâmetros e foco de risco porque: (1) sinais podem ser inespecíficos ou atípicos; (2) a deterioração pode ser rápida; (3) há riscos adicionais (fetal, quedas, polifarmácia, auto/heteroagressão); (4) a comunicação pode exigir estratégias específicas (responsáveis, acompanhante, abordagem não confrontativa). A meta é identificar rapidamente situações tempo-dependentes e reduzir eventos adversos, sem repetir protocolos gerais já abordados em outros capítulos.

Pediatria: adaptações práticas na triagem

O que muda na avaliação

  • Idade e desenvolvimento: sintomas e sinais variam por faixa etária; lactentes podem descompensar com poucos sinais iniciais.
  • Observação antes do toque: aparência, interação, choro, postura, cor, esforço respiratório e hidratação podem ser mais informativos do que a queixa verbal.
  • Responsável como fonte: coletar início, progressão, alimentação, diurese, evacuações, febre medida, exposição a doentes, vacinação, prematuridade e comorbidades.

Passo a passo prático (triagem pediátrica focada)

  1. Identifique faixa etária (RN, lactente, pré-escolar, escolar, adolescente) e peso estimado/registrado para decisões rápidas (medicações, fluidos).
  2. Faça “impressão geral” em 10–20 segundos: nível de atividade, consolabilidade, contato visual, cor/perfusão, padrão respiratório.
  3. Cheque sinais de esforço respiratório (ver checklist abaixo) e saturação conforme indicação clínica.
  4. Avalie hidratação: ingestão, diurese, lágrimas, mucosas, turgor, fontanela (lactentes), tempo de enchimento capilar.
  5. Direcione perguntas-chave para o responsável: “quantas fraldas molhadas?”, “aceita líquidos?”, “vômitos biliosos?”, “dor intensa?”, “convulsão?”, “ingestão de medicamento/produto?”.
  6. Classifique prioridade com base nas red flags pediátricas e no risco de rápida deterioração (especialmente em <3 meses).

Checklist: sinais de esforço respiratório (pediatria)

  • Batimento de asa nasal
  • Tiragens (subcostal/intercostal/supraclavicular)
  • Gemência
  • Estridor em repouso
  • Uso de musculatura acessória
  • Taquipneia desproporcional
  • Cianose/perfusão ruim
  • Incapacidade de mamar/falar por falta de ar

Checklist: sinais de desidratação (pediatria)

  • Leve: sede, mucosa levemente seca, diurese discretamente reduzida
  • Moderada: poucas lágrimas, olhos fundos, enchimento capilar prolongado, irritabilidade/sonolência, diurese bem reduzida
  • Grave: letargia, extremidades frias, pulso fraco, hipotensão (tardia), anúria, respiração profunda/rápida, fontanela muito deprimida (lactente)

Red flags pediátricas (prioridade imediata/alta)

  • <3 meses com febre referida/medida ou prostração importante
  • Convulsão atual ou pós-ictal prolongado
  • Letargia, inconsolabilidade extrema ou “não reage como de costume” (relato do cuidador)
  • Vômitos biliosos, sangue em vômitos/fezes, dor abdominal intensa com rigidez
  • Sinais de meningismo, petéquias/púrpura com febre
  • Suspeita de ingestão de tóxicos/medicamentos, afogamento, estrangulamento, sufocação
  • Desidratação moderada/grave, incapacidade de ingerir líquidos
  • Trauma em lactente/criança pequena com história inconsistente (considerar risco de violência)

Comunicação e ambiente (pediatria)

  • Falar primeiro com o responsável e, quando possível, incluir a criança com linguagem simples.
  • Reduzir estímulos (luz/ruído), permitir objeto de conforto, evitar separação desnecessária do cuidador.
  • Procedimentos dolorosos: antecipar, explicar em etapas curtas e usar contenção segura e mínima, com apoio do responsável quando apropriado.

Gestante: adaptações práticas na triagem

O que muda na avaliação

  • Dois pacientes: risco materno e fetal; priorizar estabilidade materna e sinais de sofrimento fetal quando disponíveis.
  • Idade gestacional importa: <20 semanas, 20–36, ≥37 semanas e puerpério imediato mudam hipóteses e urgências.
  • Sintomas “comuns” podem ser graves: cefaleia intensa, dor epigástrica, dispneia, edema súbito e sangramento exigem triagem cuidadosa.

Passo a passo prático (triagem obstétrica essencial)

  1. Confirme gestação e idade gestacional (DUM/USG), número de gestações/partos, comorbidades (HAS, DM, trombofilias) e uso de medicações.
  2. Investigue queixa principal com foco: sangramento, dor, perda de líquido, contrações, cefaleia/visão turva, redução de movimentos fetais, febre, dispneia.
  3. Quantifique sangramento: início, volume (absorventes), presença de coágulos/tecido, dor associada, tontura/síncope.
  4. Avalie dor: localização (hipogástrio, lateral, epigástrio), intensidade, irradiação, relação com contrações, sinais associados (náuseas, febre).
  5. Cheque pressão arterial e sintomas de alarme para síndromes hipertensivas (cefaleia forte, escotomas, dor epigástrica, edema súbito).
  6. Movimentos fetais: perguntar “quando foi a última vez que sentiu o bebê mexer?” e se houve redução clara do padrão habitual (especialmente após 24 semanas).
  7. Defina prioridade com base nas red flags obstétricas e acione fluxo obstétrico/medicina conforme protocolo local.

Red flags obstétricas (prioridade imediata/alta)

  • Sangramento vaginal moderado/intenso, com instabilidade, síncope ou dor importante
  • Dor abdominal intensa, dor em ombro, sinais de irritação peritoneal (suspeitar causas graves)
  • Hipertensão com sintomas neurológicos/visuais, dor epigástrica, dispneia, edema súbito
  • Convulsão em gestante/puérpera
  • Redução/ausência de movimentos fetais (após viabilidade) relatada como mudança significativa
  • Perda de líquido com febre, dor uterina, odor fétido ou sofrimento materno
  • Dispneia súbita, dor torácica, hemoptise (considerar tromboembolismo)
  • Puerpério: sangramento intenso, febre alta, dor pélvica importante, mal-estar desproporcional

Medidas de comunicação e privacidade (gestante)

  • Garantir privacidade para relato de violência, abuso, uso de substâncias e sintomas íntimos.
  • Evitar minimizar queixas; validar sintomas e explicar cada etapa da triagem.
  • Se acompanhante estiver presente, confirmar com a gestante se deseja mantê-lo durante toda a entrevista.

Idoso: adaptações práticas na triagem

O que muda na avaliação

  • Apresentações atípicas: infecção sem febre, IAM sem dor típica, delirium como primeiro sinal de doença aguda.
  • Reserva fisiológica reduzida: pequenas alterações podem indicar gravidade.
  • Risco de queda e fragilidade: quedas podem ocultar trauma significativo; avaliar marcha, tontura, síncope e ambiente domiciliar quando possível.
  • Polifarmácia: interações, efeitos adversos (sedação, hipotensão, sangramento) e uso de anticoagulantes/antiagregantes elevam risco.

Passo a passo prático (triagem do idoso focada em risco)

  1. Identifique fragilidade: dependência funcional, perda de peso, quedas recentes, uso de dispositivos de marcha, cuidador.
  2. Cheque estado mental basal vs. atual: perguntar ao acompanhante “como ele é normalmente?”; delirium agudo é sinal de alto risco.
  3. Investigue queda/síncope: circunstância, pródromos, perda de consciência, trauma craniano, tempo no chão, dor após queda.
  4. Revise medicações críticas (lista rápida): anticoagulantes, antiagregantes, insulina/hipoglicemiantes, opioides, benzodiazepínicos, antipsicóticos, diuréticos, anti-hipertensivos.
  5. Procure sinais de sangramento (especialmente em uso de anticoagulantes) e de desidratação/hipotensão ortostática quando aplicável.
  6. Classifique prioridade considerando que queixas vagas (fraqueza, “mal-estar”, confusão) podem ser equivalentes a red flags no idoso.

Red flags no idoso (prioridade imediata/alta)

  • Delirium agudo, rebaixamento do nível de consciência ou agitação nova
  • Queda com trauma craniano, especialmente em uso de anticoagulante/antiagregante
  • Queda com dor em quadril, incapacidade de deambular ou encurtamento/rotação de membro
  • Fraqueza súbita, déficit focal, fala alterada, assimetria facial
  • Dispneia nova, cianose, sinais de insuficiência respiratória
  • Hipotensão, síncope ou sinais de choque (mesmo sem queixa específica)
  • Hipoglicemia/hiperglicemia suspeita por alteração de comportamento
  • Suspeita de intoxicação medicamentosa (sonolência, quedas repetidas, confusão após ajuste de dose)

Segurança ambiental e comunicação (idoso)

  • Ambiente com baixa estimulação, boa iluminação e redução de ruído para diminuir delirium.
  • Falar de frente, frases curtas, confirmar compreensão; considerar déficit auditivo/visual.
  • Prevenir quedas na unidade: campainha acessível, grades conforme protocolo, calçado adequado, acompanhar ao banheiro.

Saúde mental: adaptações práticas na triagem

O que muda na avaliação

  • Risco imediato pode ser comportamental (auto/heteroagressão) e não apenas fisiológico.
  • Intoxicações e abstinência são frequentes e podem coexistir com crise psiquiátrica.
  • Comunicação e ambiente são parte da intervenção: reduzir escalada, proteger equipe e paciente.

Passo a passo prático (triagem de saúde mental orientada a risco)

  1. Segurança primeiro: observar à distância postura, agitação, objetos nas mãos, necessidade de apoio da segurança conforme protocolo.
  2. Avalie risco de autoagressão: ideação suicida, plano, meios disponíveis, tentativa recente, desesperança, intoxicação associada.
  3. Avalie risco de heteroagressão: ameaças, alucinações de comando, paranoia intensa, histórico de violência, acesso a armas.
  4. Pesquise intoxicação/abstinência: álcool, estimulantes, opioides, benzodiazepínicos, múltiplas substâncias; tempo desde último uso.
  5. Cheque capacidade de autocuidado: desorganização grave, incapacidade de se alimentar/hidratar, exposição ao frio, negligência.
  6. Defina prioridade e necessidade de contenção (verbal/ambiental e, se indicado e protocolado, física/química) com registro objetivo do comportamento e do risco.

Perguntas diretas e úteis (sem julgamento)

  • “Você está pensando em se machucar?”
  • “Você tem um plano de como faria isso?”
  • “Você tem acesso ao que usaria (medicamentos, lâmina, arma, corda)?”
  • “Você usou álcool ou outras substâncias hoje?”
  • “Você está ouvindo vozes mandando você fazer algo?”
  • “Você pensa em machucar alguém?”

Red flags em saúde mental (prioridade imediata/alta)

  • Tentativa de suicídio recente ou ideação com plano e meios disponíveis
  • Agitação psicomotora intensa com risco de agressão
  • Psicose com alucinações de comando para auto/heteroagressão
  • Intoxicação com rebaixamento de consciência, vômitos recorrentes, convulsões, comportamento imprevisível
  • Abstinência grave suspeita (tremores intensos, confusão, alucinações, instabilidade autonômica)
  • Incapacidade de autocuidado com risco imediato (ex.: desorientação, exposição, recusa total de água/alimento)
  • Violência sexual/doméstica em curso ou risco iminente (necessita privacidade e acionamento de rede conforme protocolo)

Medidas de segurança ambiental (saúde mental)

  • Ambiente: sala com rota de saída livre para a equipe, poucos estímulos, sem objetos soltos (cabos, tesouras, vidros), mobiliário mínimo.
  • Busca de itens: conforme protocolo institucional, retirar objetos perfurocortantes, cintos, cadarços e itens que possam ser usados para autoagressão.
  • Observação: definir nível de vigilância (contínua quando risco alto), registrar comportamento e reavaliar frequentemente.
  • Equipe: abordagem em dupla quando risco elevado; combinar sinais e papéis antes de entrar.

Comunicação para desescalada (técnicas rápidas)

  • Manter voz calma, postura aberta, distância segura; evitar toque sem aviso.
  • Usar frases curtas e escolhas limitadas: “Você prefere sentar aqui ou ali?”
  • Validar emoção sem validar delírio: “Entendo que isso é assustador para você.”
  • Evitar confrontos, ironia, ordens múltiplas; explicar o que vai acontecer a seguir.

Tabela de referência rápida: foco de triagem por população

PopulaçãoFoco principalRed flags típicasCuidados de comunicação/ambiente
PediatriaIdade, esforço respiratório, hidratação, comportamento<3 meses com febre/prostração, convulsão, vômito bilioso, petéquias com febre, desidratação graveBaixo estímulo, incluir responsável, linguagem simples
GestanteSangramento, dor, PA/sintomas hipertensivos, movimentos fetais, perda de líquidoSangramento intenso, dor forte, convulsão, hipertensão com sintomas, redução de movimentos fetais, dispneia súbitaPrivacidade, consentimento sobre acompanhante, escuta qualificada
IdosoDelirium, quedas/síncope, fragilidade, polifarmáciaDelirium agudo, queda com anticoagulante, incapacidade de deambular, déficit focal, hipotensão/síncopePrevenção de quedas, fala clara, reduzir ruído
Saúde mentalAuto/heteroagressão, intoxicação/abstinência, autocuidadoTentativa recente, plano e meios, agitação violenta, psicose com comando, intoxicação graveDesescalada verbal, sala segura, retirada de objetos, observação contínua

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na triagem de um paciente em crise de saúde mental, qual conduta inicial está mais alinhada com uma abordagem orientada a risco e segurança?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em saúde mental, o risco imediato pode ser comportamental. A triagem deve começar por segurança, observação inicial, avaliação de auto/heteroagressão e pesquisa de intoxicação/abstinência, além de medidas ambientais para reduzir escalada.

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