Quando é aceitável mover a pessoa ferida
Em quedas, entorses e fraturas, a regra geral é: não mover a pessoa até a chegada do socorro. A exceção é quando ficar no local é mais perigoso do que mover. Nesses casos, o objetivo do transporte é apenas retirar do risco imediato e colocar em um ponto mais seguro, com o mínimo de movimento.
Situações em que mover pode ser necessário (risco iminente)
- Incêndio, fumaça, risco de explosão (cozinha, gás, fiação).
- Trânsito: pessoa caída em via, acostamento estreito, curva, local sem visibilidade.
- Desabamento, queda de objetos, violência em andamento ou ameaça imediata.
- Ambiente inseguro: água subindo, choque elétrico possível, animais agressivos.
Situações em que geralmente não se deve mover
Se o local é seguro, aguarde o socorro e foque em conforto e monitoramento. Movimentar sem necessidade pode piorar lesões internas ou agravar dor e sangramento. Se houver suspeita de lesão na coluna, trate como se existisse e evite flexionar/torcer o tronco e o pescoço.
Princípios para mover com o mínimo de dano
1) Coordenação: uma pessoa lidera
Antes de tocar na vítima, combine um plano simples. Uma pessoa deve ser a líder, responsável por contar e dar comandos curtos. Isso reduz movimentos descoordenados.
- Defina funções: quem estabiliza a cabeça/pescoço, quem cuida do tronco, quem segura quadris/pernas, quem abre caminho e traz a superfície firme.
- Use contagem:
“No 3: 1…2…3… vira/levanta/desliza”. - Movimentos lentos e em bloco: evite puxar por braços ou pernas.
2) Priorize “deslizar” em vez de “levantar”
Levantar aumenta instabilidade e exige força. Sempre que possível, deslize a pessoa sobre uma superfície firme ou sobre um tecido resistente.
3) Use superfícies firmes para transporte
O ideal é uma prancha/maca. Na ausência, improvise com itens rígidos e largos:
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- Porta removida, tábua larga, tampo de mesa resistente.
- Escada de alumínio reforçada (com cuidado para não “dobrar” o corpo).
- Chapa de madeira, painel rígido, pallet bem íntegro.
Evite transportar em superfícies que “cedem” (rede, cobertor mole sem apoio) quando houver suspeita de lesão importante, pois isso aumenta a flexão do corpo.
Passo a passo: como aguardar socorro com posicionamento seguro
Se a pessoa está consciente e o local é seguro
- Peça para não se mexer e explique:
“Vou chamar ajuda; tente ficar parado para não piorar.” - Busque conforto sem reposicionar: apoie a cabeça com toalhas dobradas ao lado (sem puxar o pescoço), cubra com manta para evitar frio.
- Alinhe suavemente o que já está alinhado: se a pessoa está deitada reta, mantenha; se está torta, não “endireite” à força.
- Evite dar comida ou bebida (pode haver necessidade de procedimentos médicos).
Se a pessoa está sonolenta, vomitando ou com dificuldade de manter a via aérea
Se não houver alternativa e for necessário reduzir risco de aspiração, o posicionamento deve ser feito com o mínimo de torção. Quando houver suspeita de coluna, prefira técnicas de movimento em bloco com ajuda (descritas abaixo). Se estiver sozinho e a respiração estiver ameaçada, priorize a respiração.
Passo a passo: mover apenas quando necessário (risco iminente)
A) Retirada rápida (quando há perigo imediato e não dá para preparar muito)
Use apenas para tirar da zona de risco (fogo/trânsito). A meta é deslocar poucos metros até um local seguro.
- 1. Escolha o destino: um ponto protegido e plano.
- 2. Proteja a cabeça e o pescoço o máximo possível: mantenha alinhado, evite “chacoalhar”.
- 3. Arraste pelo tronco/roupa (se possível): segure por baixo das axilas ou pela roupa na região do ombro/peito, mantendo o corpo alinhado.
- 4. Pare assim que estiver seguro e volte ao foco de monitoramento e chamada de emergência.
Evite puxar pelos braços estendidos ou pelas pernas: aumenta dor e pode agravar lesões.
B) Movimento em bloco (log roll) para virar e posicionar com suspeita de coluna
Essa técnica é útil para alinhar o corpo, colocar uma superfície rígida por baixo ou virar para proteger a via aérea, reduzindo torção. Idealmente com 3 a 5 pessoas.
Funções:
- Líder na cabeça: estabiliza e comanda a contagem.
- 2 pessoas no tronco e quadris.
- 1 pessoa nas pernas.
- 1 pessoa (se houver) para inserir a prancha/porta.
Passo a passo:
- 1. Alinhe braços: coloque os braços da vítima cruzados sobre o peito, se tolerado, para não “prender” ao virar.
- 2. Posicione as mãos: cada ajudante segura ombro/quadril/coxa, mantendo o corpo “travado” como um bloco.
- 3. Comando do líder:
“No 3, virar em bloco para mim: 1…2…3.” - 4. Vire apenas o necessário: o mínimo para inserir a superfície firme ou para limpar vômito.
- 5. Insira a superfície (prancha/porta) encostada nas costas.
- 6. Retorne em bloco:
“No 3, voltar: 1…2…3.” - 7. Centralize com pequenos ajustes de deslize, não puxões.
Erros comuns: virar cada parte em tempos diferentes; puxar pela cabeça; deixar quadril e ombros girarem em direções opostas.
C) Transferência para superfície firme (porta/tábua) com “ponte” curta
Quando há ajudantes suficientes, pode-se levantar poucos centímetros para colocar a prancha por baixo, reduzindo arrasto.
- 1. Prepare a superfície ao lado, paralela ao corpo.
- 2. Líder coordena e todos se posicionam em ombros, tronco, quadris e pernas.
- 3. Elevação mínima:
“No 3, levantar 5 cm: 1…2…3.” - 4. Outra pessoa desliza a prancha por baixo.
- 5. Descer em bloco com comando.
Se não houver coordenação ou força suficiente, prefira deslizar com tecido resistente sobre a superfície firme.
Conforto e monitoramento enquanto aguarda o socorro
Após posicionar (ou decidir não mover), mantenha vigilância ativa. Mudanças rápidas podem indicar piora.
O que observar (e anotar mentalmente)
- Dor: está aumentando? mudou de local? apareceu dor no pescoço/costas?
- Consciência: está mais confuso, sonolento, difícil de acordar?
- Respiração: está mais rápida, ruidosa, com esforço, ou irregular?
- Cor da pele: pálida, acinzentada, arroxeada, muito suada e fria.
- Inchaço: está piorando rapidamente? a pele está ficando muito tensa?
- Movimento e sensibilidade: formigamento, dormência, incapacidade de mexer dedos/mãos/pés.
Medidas simples de conforto (sem “mexer demais”)
- Temperatura: cubra com manta/roupa para evitar hipotermia, mesmo em clima ameno.
- Apoios laterais: toalhas dobradas ao lado da cabeça e do tronco podem reduzir movimentos involuntários.
- Ambiente: reduza aglomeração, barulho e luz forte; mantenha a pessoa calma e informada.
Como comunicar informações essenciais ao serviço de emergência
Uma comunicação objetiva acelera o envio de recursos e melhora o atendimento. Se possível, coloque o telefone no viva-voz e mantenha as mãos livres.
Roteiro prático (o que dizer)
- Local exato: endereço, referência, acesso (portão, andar, ponto de encontro), riscos no local (fumaça, trânsito).
- O que aconteceu: queda de altura? escorregão? impacto? tempo desde o evento.
- Quantas vítimas e idade aproximada.
- Estado atual: consciente? confuso? respirando normalmente?
- Suspeitas principais: dor intensa em coluna/pescoço, deformidade evidente, incapacidade de apoiar, sangramento importante.
- O que foi feito: retirada de risco, posicionamento em superfície firme, imobilização, controle de sangramento, aplicação de gelo (se aplicável).
- Mudanças observadas: piora da dor, sonolência, falta de ar, palidez, aumento rápido do inchaço.
Informações úteis para repassar à equipe ao chegar
- Medicamentos e condições (se a pessoa souber informar): anticoagulantes, diabetes, epilepsia, alergias.
- Última refeição (se souber).
- Capacidade antes do acidente: já tinha limitação de mobilidade? usava bengala?
- Relato de sintomas em frases curtas:
“Dor forte no tornozelo e não consegue apoiar”,“Formigamento na mão desde a queda”.
Checklist rápido para decidir e agir
| Se… | Então… |
|---|---|
| O local é seguro | Não mova; mantenha conforto e monitoramento; chame socorro. |
| Há risco iminente (fogo/trânsito) | Retire rapidamente para área segura com o mínimo de movimento. |
| Precisa virar/posicionar e há suspeita de coluna | Use movimento em bloco com líder e contagem; evite torção. |
| A pessoa piora (consciência/respiração/cor) | Atualize o serviço de emergência e reavalie prioridade de via aérea e segurança. |