Sinais de urgência e decisão de encaminhamento: quando buscar emergência imediatamente

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que são “sinais de urgência” e por que eles mudam a decisão

Em quedas, entorses e fraturas, a dúvida mais comum é: “dá para observar em casa ou precisa de emergência agora?”. Sinais de urgência são achados que sugerem risco de perda de função do membro, sangramento importante, comprometimento da circulação/nervos, lesão interna relevante ou piora rápida. Quando presentes, a prioridade é encaminhar imediatamente para atendimento de emergência (ou acionar o serviço de urgência), mesmo que a dor pareça “suportável”.

Este capítulo funciona como um guia de decisão para leigos, com critérios objetivos e o que observar enquanto aguarda ajuda, incluindo quando reavaliar a imobilização.

Guia de decisão rápido (triagem prática)

Passo 1 — Existe algum “sinal vermelho”? Se sim, é emergência imediata

  • Deformidade evidente (membro “torto”, angulação anormal, encurtamento, rotação estranha) ou articulação com formato claramente alterado.
  • Fratura aberta (osso exposto) ou ferimento profundo com sangramento que não cessa com compressão firme e contínua.
  • Incapacidade de apoiar o peso (perna/pé) ou incapacidade de usar o membro (mão/braço) de forma funcional após a queda, especialmente se não melhora após alguns minutos de repouso.
  • Dor intensa persistente (muito forte, não reduz com repouso e medidas simples) ou dor que piora progressivamente.
  • Perda de sensibilidade (dormência, formigamento intenso, sensação de “algodão”) ou perda de força (não consegue mexer dedos, punho, pé) no membro afetado.
  • Sinais de má circulação distal: extremidade pálida, arroxeada, fria ou com diferença marcante de temperatura/cor em relação ao outro lado.
  • Inchaço rápido e progressivo, especialmente se acompanhado de dor desproporcional ao toque/movimento.
  • Suspeita de lesão em cabeça ou coluna associada à queda (por exemplo: desorientação, sonolência incomum, vômitos repetidos, dor forte no pescoço/costas, formigamento em braços/pernas, dificuldade para andar).
  • Queda de altura (escada, telhado, laje, árvore, sacada) ou impacto de alta energia (atropelamento, bicicleta/moto), mesmo que a pessoa “ache que está bem”.
  • Uso de anticoagulantes (ex.: varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana) ou distúrbios de coagulação, principalmente se houve impacto na cabeça ou sangramento/hematoma grande.
  • Idosos com dor importante após queda (maior risco de fraturas com poucos sinais externos) e crianças com dor relevante, recusa persistente de usar o membro ou choro ao movimentar.

Conduta se houver qualquer item acima: acione emergência/leve ao pronto atendimento. Evite atrasos “para ver se melhora”.

Passo 2 — Não há sinal vermelho: observar com critérios e prazo

Se não há sinais de urgência, pode ser possível observar por curto período e buscar avaliação não emergencial (consulta/UPA) conforme evolução. Use estes critérios para decidir:

  • Melhora clara em 30–60 minutos com repouso e proteção do membro, sem piora de dor/inchaço.
  • Consegue movimentar dedos da mão/pé e usar o membro de forma limitada, sem dor extrema.
  • Sem dormência, sem fraqueza e sem alterações de cor/temperatura na extremidade.
  • Inchaço lento e controlável, sem aumento rápido.

Procure avaliação no mesmo dia (mesmo sem emergência) se houver dor moderada que limita atividades, suspeita de fratura “sutil”, ou se a pessoa precisar de analgésicos repetidos para manter conforto.

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Critérios detalhados: como reconhecer cada sinal de urgência

1) Deformidade evidente

O que observar: alinhamento diferente do lado saudável, ângulo “quebrado”, rotação anormal (pé virado para fora/dentro), encurtamento do membro, articulação com contorno muito alterado.

Por que é urgente: pode haver fratura instável, lesão vascular/nervosa associada ou risco de piora com movimentos.

2) Fratura aberta ou ferimento profundo associado

O que observar: osso visível, ferida profunda com tecido exposto, sangramento importante, roupa encharcada de sangue, dor intensa com ferida no local do impacto.

Por que é urgente: risco de infecção e sangramento, necessidade de cuidados hospitalares.

3) Incapacidade de apoiar/usar o membro

O que observar: não consegue dar passos (mesmo com ajuda) ou não consegue segurar/pegar objetos com a mão; evita completamente usar o membro.

Dica prática: diferencie “dor ao apoiar” de “não consegue apoiar”. A incapacidade total após queda é um alerta forte.

4) Dor intensa persistente ou progressiva

O que observar: dor muito forte que não cede com repouso, ou que aumenta com o passar do tempo; dor “fora do esperado” para o tipo de queda.

Alerta: dor que piora junto com inchaço rápido exige reavaliação imediata.

5) Perda de sensibilidade e/ou força

O que observar: dormência, formigamento contínuo, sensação de choque, incapacidade de mexer dedos, fraqueza para “segurar” ou “empurrar” o pé/mão.

Por que é urgente: pode indicar compressão/lesão de nervos ou comprometimento circulatório.

6) Palidez, frieza ou mudança de cor distal

O que observar: dedos pálidos, arroxeados ou muito frios; diferença clara em comparação com o outro lado; piora após imobilizar.

Por que é urgente: sugere fluxo sanguíneo inadequado, que pode causar dano permanente se não corrigido rapidamente.

7) Inchaço rápido e tensão no local

O que observar: aumento visível em minutos, pele “esticada” e brilhante, dor ao toque leve, dificuldade crescente de mexer dedos.

Alerta: se o inchaço aumenta após colocar faixa/tala, pode haver compressão excessiva.

8) Suspeita de cabeça/coluna

O que observar: dor forte no pescoço/costas, confusão, desmaio, sonolência incomum, vômitos repetidos, dor de cabeça intensa, dificuldade para caminhar, formigamento em membros.

Por que é urgente: risco de lesão neurológica e necessidade de avaliação imediata.

9) Queda de altura ou impacto de alta energia

O que observar: queda de escada/altura, colisão, atropelamento, impacto direto forte.

Por que é urgente: pode haver lesões internas e fraturas múltiplas mesmo sem sinais externos marcantes.

10) Anticoagulantes, idosos e crianças

Anticoagulantes: qualquer impacto na cabeça, hematoma grande, sangramento persistente ou dor importante merece avaliação imediata.

Idosos: dor importante após queda, dificuldade para levantar/andar, dor em quadril/virilha ou incapacidade de apoiar são motivos para emergência.

Crianças: recusa persistente de usar o membro, choro ao tocar/mover, ou dor importante após queda justificam avaliação rápida (crianças podem não descrever bem a dor e algumas fraturas são difíceis de perceber).

O que observar enquanto aguarda atendimento (monitoramento prático)

Enquanto espera socorro/transporte, faça checagens simples e repetidas. Anote mentalmente (ou no celular) horário e mudanças.

Checklist a cada 10–15 minutos (ou antes se houver piora)

  • Dor: está diminuindo, estável ou aumentando?
  • Inchaço: está crescendo rapidamente? A pele está mais tensa?
  • Cor e temperatura distal: dedos da mão/pé estão com cor normal e quentes como o outro lado?
  • Sensibilidade: a pessoa sente toque leve nos dedos? Há dormência nova?
  • Movimento: consegue mexer dedos suavemente (sem forçar a área lesionada)?
  • Estado geral: tontura, fraqueza, sudorese fria, palidez, sonolência incomum?

Se qualquer item piorar (principalmente cor/temperatura, sensibilidade, movimento, dor desproporcional ou inchaço rápido), trate como urgência e acelere o encaminhamento.

Quando reavaliar e ajustar a imobilização durante a espera

Uma imobilização pode ajudar, mas também pode apertar com o aumento do inchaço. Reavalie sempre após colocar e periodicamente.

Reavaliação imediata (logo após imobilizar)

  • Verifique se os dedos estão rosados e com temperatura semelhante ao outro lado.
  • Pergunte sobre dormência/formigamento que apareceu ou piorou após a imobilização.
  • Observe se a dor aumentou muito logo depois de apertar faixas.

Reavaliação programada

  • Primeiros 30 minutos: reavaliar a cada 10–15 minutos.
  • Depois: reavaliar a cada 30–60 minutos, ou sempre que houver queixa nova.

Quando afrouxar (sem remover toda a proteção)

Afrouxe camadas externas (faixas, fitas) se houver:

  • Dormência/formigamento novo ou piorando.
  • Dedos frios/pálidos/arroxeados ou mudança de cor após imobilizar.
  • Dor crescente com sensação de aperto sob a faixa.

Como fazer com segurança: afrouxe gradualmente a parte que comprime (nós, fitas, voltas mais apertadas), mantendo o membro apoiado e o alinhamento o mais estável possível. Se após afrouxar não houver melhora rápida de cor/temperatura/sensibilidade, isso é urgência imediata.

Quando não mexer na imobilização

  • Se houver deformidade importante e a imobilização está mantendo o membro estável, evite manipulações repetidas; apenas afrouxe se houver sinais claros de compressão.
  • Se houver sangramento ativo controlado por curativo compressivo, não remova para “olhar”; reforce por cima se necessário.

Exemplos de decisão (situações comuns)

Exemplo 1 — Tornozelo torcido, mas consegue apoiar

Após 20 minutos, a pessoa consegue dar alguns passos mancando, sem dormência e com dedos quentes e rosados. Inchaço lento. Conduta: pode observar por curto período e buscar avaliação no mesmo dia se a dor limitar atividades; emergência se surgir incapacidade de apoiar, dor intensa persistente ou alteração de sensibilidade/cor.

Exemplo 2 — Queda com punho doloroso e deformidade

Punho com “degrau” visível e dor forte. Conduta: emergência imediata. Durante a espera, monitorar cor/temperatura dos dedos e afrouxar se houver dormência ou dedos frios.

Exemplo 3 — Idoso caiu e sente dor na virilha, não consegue ficar em pé

Sem ferida, mas incapaz de apoiar e dor importante. Conduta: emergência imediata (alto risco de fratura de quadril), mesmo sem deformidade evidente.

Exemplo 4 — Queda com batida na cabeça em pessoa que usa anticoagulante

Mesmo sem corte grande, há risco de sangramento interno. Conduta: emergência imediata, especialmente se houver dor de cabeça, sonolência, confusão, vômitos ou hematoma crescente.

Roteiro de ação em 60 segundos (para decidir e comunicar)

1) Há deformidade, ferida profunda/fratura aberta, sangramento que não para, incapacidade de apoiar/usar, dor intensa persistente, dormência/fraqueza, dedos frios/pálidos/roxos, inchaço rápido, suspeita de cabeça/coluna, queda de altura, anticoagulante, idoso/criança com dor importante?  → SIM = emergência agora. 2) Enquanto aguarda: checar dor, inchaço, cor/temperatura, sensibilidade e movimento dos dedos a cada 10–15 min. 3) Se piorar ou surgir dormência/dedos frios após imobilizar: afrouxar faixas e buscar ajuda imediata.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Após uma queda com lesão em membro, qual situação indica que a pessoa deve ser encaminhada imediatamente para atendimento de emergência, mesmo que a dor pareça suportável?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Alterações de cor/temperatura distal e dormência/fraqueza sugerem comprometimento de circulação ou nervos. Esses sinais são “vermelhos” e exigem encaminhamento imediato, inclusive se aparecerem após imobilizar.

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