Tonsilas e anel linfático de Waldeyer: localização, drenagens e relações clínicas anatômicas

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Conceito e organização do anel linfático de Waldeyer

O anel linfático de Waldeyer é um conjunto de tonsilas (tecido linfoide associado à mucosa) disposto em “anel” ao redor das entradas da via aérea superior e do tubo digestivo, na transição entre cavidade oral e faringe, e entre nasofaringe e orofaringe. Funciona como uma zona de vigilância imune local, recebendo antígenos por contato direto com o ar inspirado e com alimentos.

Componentes principais do anel:

  • Tonsilas palatinas (direita e esquerda): na orofaringe, entre os arcos palatoglosso e palatofaríngeo.
  • Tonsila faríngea (adenoide): no teto e parede posterior da nasofaringe.
  • Tonsilas linguais: na base da língua, voltadas para a orofaringe.
  • Tonsilas tubárias: ao redor do óstio faríngeo da tuba auditiva, na nasofaringe.

Mapa mental de localização (referências rápidas)

EstruturaOnde procurarRegiãoReferência anatômica
Tonsila palatinaFundo da boca, lateralOrofaringeFossa tonsilar entre arcos palatoglosso (anterior) e palatofaríngeo (posterior)
Tonsila faríngea (adenoide)“Teto” atrás do narizNasofaringeTeto e parede posterior, acima do palato mole
Tonsilas linguaisBase da línguaOrofaringeTerço posterior da língua, atrás do sulco terminal
Tonsila tubáriaAo lado do óstio da tubaNasofaringeElevação do toro tubário e pregas adjacentes

Tonsilas palatinas: localização, planos e relações anatômicas

Localização e limites (fossa tonsilar)

As tonsilas palatinas ocupam a fossa tonsilar na parede lateral da orofaringe. São visíveis ao exame da orofaringe quando o paciente abre a boca e eleva o palato (por exemplo, ao dizer “ah”).

  • Limite anterior: arco palatoglosso (prega mucosa sobre o músculo palatoglosso).
  • Limite posterior: arco palatofaríngeo (prega mucosa sobre o músculo palatofaríngeo).
  • Superior: aproxima-se do palato mole.
  • Inferior: continuidade com a região da base da língua.

Planos profundos (corte simplificado em camadas)

Um modo útil de memorizar as relações cirúrgicas e de dor referida é pensar em camadas da superfície para a profundidade:

Mucosa da orofaringe → cápsula tonsilar → tecido areolar (espaço peritonsilar) → fáscia faringobasilar / constritor superior da faringe → espaço parafaríngeo (lateral)

Ponto-chave: o espaço peritonsilar (tecido frouxo entre cápsula e plano muscular) é o local típico de coleção em abscesso peritonsilar, com desvio da úvula e trismo.

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Relações vasculares e terminologia prática

A irrigação arterial da região tonsilar é rica e variável. Em termos didáticos e seguros, destaque:

  • Ramos arteriais para a tonsila palatina costumam vir de ramos da carótida externa, com contribuição frequente de ramos da artéria facial (especialmente ramo tonsilar) e de ramos do território palatino.
  • O retorno venoso forma um plexo peritonsilar e drena para veias da região faríngea/facial.

Relação clínica anatômica: por ser uma área muito vascularizada, procedimentos na tonsila (ex.: tonsilectomia) exigem atenção a hemostasia e ao plano correto de dissecção (próximo à cápsula), reduzindo risco de sangramento e lesão de planos profundos.

Drenagem linfática predominante

A drenagem linfática das tonsilas palatinas segue principalmente para linfonodos cervicais profundos, com destaque para o linfonodo jugulodigástrico (frequentemente referido como “linfonodo tonsilar”).

  • Implicação no exame físico: em faringotonsilites, é comum dor e aumento palpável na região alta do pescoço, próximo ao ângulo da mandíbula, ao longo do trajeto da veia jugular interna (cadeia cervical profunda superior).

Tonsila faríngea (adenoide): nasofaringe e conexões com via aérea superior

Localização e relações com a cavidade nasal

A tonsila faríngea situa-se no teto e na parede posterior da nasofaringe, acima do palato mole. Por estar diretamente na rota do ar inspirado pela cavidade nasal, tem relação íntima com a permeabilidade nasal.

Relação com a tuba auditiva e tonsilas tubárias

Na parede lateral da nasofaringe encontra-se o óstio faríngeo da tuba auditiva, circundado por tecido linfoide que forma a tonsila tubária. A proximidade entre adenoide e óstio tubário explica por que hipertrofia adenoideana pode prejudicar a ventilação da orelha média.

Relações clínicas anatômicas frequentes

  • Obstrução nasal e respiração oral: hipertrofia da adenoide reduz o espaço aéreo na nasofaringe.
  • Disfunção tubária: pode favorecer sensação de ouvido tampado e predispor a otites médias por alteração da aeração.
  • Rinofonia/alteração de ressonância: mudanças no espaço nasofaríngeo impactam a ressonância vocal.

Drenagem linfática predominante

A drenagem da região nasofaríngea (incluindo adenoide e tonsilas tubárias) segue para linfonodos cervicais profundos (especialmente superiores), com participação de grupos retrofaríngeos como vias de passagem, dependendo do trajeto regional. Na prática clínica, a linfadenopatia pode manifestar-se em cadeias cervicais profundas altas.

Tonsilas linguais: base da língua e relação com a orofaringe

Localização e aspecto

As tonsilas linguais são múltiplos agregados de tecido linfoide na base da língua (terço posterior), voltados para a orofaringe. Não formam uma massa única como as palatinas; são mais “em placas” e podem ser menos evidentes ao exame simples da boca.

Relações anatômicas úteis

  • Relacionam-se superiormente com a mucosa da base da língua e inferiormente com a região da epiglote/valéculas (marcos relevantes em avaliação de via aérea).
  • Integram a vigilância imune na transição entre cavidade oral e faringe, recebendo estímulos de secreções e microtraumas locais.

Drenagem linfática predominante

A drenagem linfática da base da língua e tonsilas linguais converge para linfonodos cervicais profundos. Em processos inflamatórios, pode haver sensibilidade cervical alta e desconforto profundo na garganta, às vezes com pouca alteração visível na inspeção oral.

Tonsilas tubárias: marco anatômico da nasofaringe

Localização

As tonsilas tubárias circundam o óstio faríngeo da tuba auditiva, próximas ao toro tubário (elevação mucosa causada pela cartilagem da tuba). São parte do anel de Waldeyer na porção lateral da nasofaringe.

Relação clínica anatômica

  • Inflamação/hipertrofia local pode contribuir para disfunção tubária, com repercussões na orelha média.
  • Em avaliação endoscópica da nasofaringe, o reconhecimento do toro tubário ajuda a localizar o tecido linfoide tubário e a diferenciar de outras elevações mucosas.

Drenagem linfática predominante

Predomina drenagem para linfonodos cervicais profundos (especialmente superiores), frequentemente em continuidade funcional com a drenagem da nasofaringe.

Relações integradas com cavidade oral, nasofaringe e planos musculares

Conexão com vias aéreas superiores

O anel de Waldeyer circunda dois “corredores” anatômicos:

  • Corredor nasal: cavidade nasal → nasofaringe (adenoide e tonsilas tubárias).
  • Corredor oral: cavidade oral → orofaringe (tonsilas palatinas e linguais).

Essa disposição explica por que infecções de vias aéreas superiores podem cursar com sintomas combinados (odinofagia, congestão nasal, otalgia referida, alteração de voz) e com linfonodomegalia cervical profunda.

Planos musculares como referência

Na orofaringe, as tonsilas palatinas estão relacionadas aos músculos que formam os arcos:

  • Arco palatoglosso: sobre o músculo palatoglosso (limite anterior da fossa tonsilar).
  • Arco palatofaríngeo: sobre o músculo palatofaríngeo (limite posterior).
  • Profundamente, a parede faríngea inclui o constritor superior, importante como plano profundo em dissecação e como barreira parcial para disseminação.

Pontos de referência para exame físico e correlação com drenagem

Exame da orofaringe (tonsilas palatinas)

Passo a passo prático:

  • Posicione o paciente sentado, com boa iluminação.
  • Peça para abrir a boca e dizer “ah” (eleva o palato mole e melhora a visão da orofaringe).
  • Observe os arcos palatoglosso e palatofaríngeo e a área entre eles (fossa tonsilar).
  • Procure assimetria, exsudato, aumento de volume e desvio da úvula (sugere comprometimento peritonsilar).
  • Palpe (externamente) a região cervical alta, próxima ao ângulo da mandíbula, buscando sensibilidade/aumento do jugulodigástrico (correlação com drenagem tonsilar).

Suspeita de adenoide/tonsilas tubárias (nasofaringe)

Passo a passo prático orientado por anatomia:

  • Investigue sintomas de obstrução nasal crônica e respiração oral (sugere redução do lúmen nasofaríngeo).
  • Correlacione queixas otológicas (pressão auricular, hipoacusia flutuante) com a proximidade do tecido linfoide ao óstio da tuba auditiva.
  • Quando disponível, a visualização direta da nasofaringe é feita por endoscopia; use como marcos o toro tubário e o teto nasofaríngeo (área da adenoide).

Base da língua (tonsilas linguais) e via aérea

Aplicação prática: queixas de “bolo na garganta” ou dor profunda com pouca alteração visível na inspeção podem envolver a base da língua. A localização posterior dificulta a visualização direta; a correlação com linfonodos cervicais profundos e com desconforto ao engolir ajuda a orientar a suspeita anatômica.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um paciente com faringotonsilite, dor e aumento palpável de um linfonodo na região alta do pescoço, próximo ao ângulo da mandíbula, sugerem principalmente a drenagem linfática de qual estrutura?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

As tonsilas palatinas drenam principalmente para linfonodos cervicais profundos, especialmente o jugulodigástrico. Por isso, em faringotonsilites é comum dor e aumento linfonodal cervical alto, perto do ângulo da mandíbula.

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Relações anatômicas aplicadas: pontos de referência, variações e correlação com exames de imagem

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