Objetivo aplicado: “pensar como o exame”
Neste capítulo, o foco é consolidar relações anatômicas que ajudam a localizar ductos, cadeias linfonodais e órgãos linfóides em ultrassom (US), tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM). Em vez de repetir trajetos e drenagens, a abordagem aqui é prática: marcos (landmarks), variações anatômicas, padrão de legendas, checklists por região e exercícios de rotulagem.
Conceito-chave: marcos anatômicos como “âncoras”
Em imagem, estruturas linfáticas são frequentemente pequenas, variáveis e dependentes do plano de corte. Por isso, a identificação costuma ser feita por âncoras constantes (vasos, músculos, fáscias e compartimentos) e por regras de vizinhança (o que fica anterior/posterior/medial/lateral a quê). Exemplos de âncoras úteis: ângulos venosos, bainha carotídea, veia axilar e níveis axilares, triângulo femoral, compartimentos mediastinais e grandes vasos abdominais.
Padronização de legendas e orientação espacial
Como construir legendas padronizadas (modelo replicável)
Use um padrão consistente para que a leitura do exame seja reprodutível entre profissionais e ao longo do seguimento do paciente. Um modelo simples é:
- Região (cervical/axilar/inguinal/mediastinal/abdominal)
- Lado (D/E) quando aplicável
- Marco anatômico principal (ex.: “junto à VJI”, “ao longo da veia axilar”, “para-aórtico”)
- Nível/compartimento (ex.: “axila nível II”, “mediastino superior”)
- Plano (axial/coronal/sagital; no US: longitudinal/transversal)
Exemplos de legenda (sem depender de nomenclatura de capítulo anterior):
Axila D – nível I – adjacente à veia axilar – corte axial (TC)Cervical E – cadeia jugular interna – ao longo da bainha carotídea – US transversalMediastino – compartimento superior – paratraqueal – axial (RM)Abdome – para-aórtico E – ao nível da artéria renal – axial (TC)
Regras rápidas de orientação (para reduzir erros de lateralidade e plano)
- TC/RM axial: confirme anterior/posterior pela posição do corpo vertebral (posterior) e esterno (anterior).
- US: antes de rotular, valide o marcador do transdutor e o padrão do equipamento (marcador na tela). Registre se o corte é transversal ou longitudinal.
- Vasos como bússola: artérias tendem a ser mais pulsáteis e com parede mais espessa; veias colabam e variam com manobras (US).
Região cervical: ângulos venosos e bainha carotídea
Marcos essenciais
- Ângulo venoso: junção da veia jugular interna com a veia subclávia. É um ponto de referência para terminação de ductos linfáticos e para variações.
- Bainha carotídea: “corredor” que organiza a leitura: carótida e jugular interna como eixos, com estruturas adjacentes previsíveis.
- Músculo esternocleidomastoideo (ECM): delimita planos superficiais/profundos e ajuda a diferenciar cadeias superficiais vs profundas em US.
Passo a passo prático (US) para localizar o ângulo venoso
- Posicionamento: paciente em decúbito dorsal, leve extensão cervical, rotação contralateral discreta.
- Comece pela VJI: identifique a veia jugular interna em corte transversal no pescoço (compressível, sem pulsatilidade arterial).
- Desça caudalmente seguindo a VJI até sua confluência com a subclávia.
- Identifique a subclávia: mais profunda, sob a clavícula; ajuste janela acústica com inclinação do transdutor.
- Confirme a junção: observe a confluência (ângulo venoso). Registre lado e plano.
- Varredura dirigida: procure estruturas tubulares finas e coleções linfáticas adjacentes (quando visíveis), sempre correlacionando com vasos.
Variações anatômicas relevantes (aplicadas ao ângulo venoso)
- Terminação do ducto torácico: pode desembocar diretamente no ângulo venoso, na VJI, na subclávia ou em confluências próximas; pode haver ramificação terminal (terminação em múltiplos ramos).
- Ducto linfático direito: pode estar ausente como “ducto único”, com drenagem por troncos separados para veias adjacentes; isso altera a expectativa de um único canal visível.
- Número/posição de linfonodos: variabilidade individual é comum; em imagem, priorize localização por relação com vasos e fáscias em vez de “contagem absoluta”.
Checklist cervical (para TC/RM/US)
- Identifique e rotule: VJI, carótida, ECM, clavícula (quando aplicável).
- Confirme o ângulo venoso (lado D/E) e documente o plano.
- Descreva linfonodos por relação com a bainha carotídea (anterior/posterior/medial/lateral), evitando depender apenas de “níveis” se o exame não os delimita bem.
- Se houver suspeita de variação ductal: procure mais de um ramo terminal e descreva o vaso de drenagem venosa associado.
Região axilar: níveis, veia axilar e relação com o plexo
Marcos essenciais
- Veia axilar: eixo de orientação principal em US e em cortes axiais de TC/RM.
- Artéria axilar: referência adicional; o plexo braquial costuma se organizar ao redor dela (melhor em RM).
- Músculo peitoral menor: marco clássico para separar níveis axilares (em imagem, sua visualização ajuda a “ancorar” o nível).
- Fáscia clavipectoral e planos adiposos: ajudam a reconhecer compartimentos e trajetos.
Passo a passo prático (US) para varredura axilar orientada por níveis
- Posição: braço em abdução confortável (não máxima), para abrir a axila sem tensionar excessivamente.
- Encontre a veia axilar em corte transversal (compressível). Use Doppler se necessário.
- Localize o peitoral menor: deslize anterior/medial até visualizar o músculo como referência de profundidade e nível.
- Varra do nível mais superficial ao profundo: descreva linfonodos em relação à veia axilar e ao peitoral menor (ex.: anterior/posterior; medial/lateral).
- Documente o maior linfonodo por medidas em dois eixos e registre sua posição com o padrão de legenda.
Variações e armadilhas frequentes
- Quantidade de linfonodos: varia amplamente; não inferir normalidade apenas por “muitos/poucos”.
- Linfonodos intramamários vs axilares: em TC/RM, a transição pode ser sutil; use o plano do peitoral e a veia axilar como fronteira funcional.
- Estruturas vasculares pequenas podem simular linfonodos em cortes únicos; confirme em múltiplos planos e com Doppler (US).
Checklist axilar (TC/RM/US)
- Rotular: veia axilar, artéria axilar, peitoral menor, peitoral maior.
- Definir o nível com base no peitoral menor (quando visível) e na posição relativa à veia axilar.
- Descrever linfonodos por relação com a veia axilar e por profundidade (superficial/profundo).
- Em RM, considerar correlação com o plexo braquial para evitar confundir fascículos com estruturas nodais.
Região inguinal e triângulo femoral: referência vascular e planos
Marcos essenciais
- Triângulo femoral: organiza a leitura por um “mapa” de estruturas previsíveis.
- Veia femoral e artéria femoral: eixos para localizar cadeias adjacentes.
- Ligamento inguinal: separa o que é mais “inguinal” do que já é “femoral” em muitos laudos.
- Músculo sartório e adutor longo: ajudam a reconhecer o triângulo femoral em US.
Passo a passo prático (US) para mapear linfonodos inguinais/femorais
- Posição: paciente em decúbito dorsal, quadril em leve rotação externa.
- Identifique o ligamento inguinal como referência superior (pode ser inferido pela transição anatômica e posição dos vasos).
- Encontre a veia femoral (compressível) e a artéria femoral (pulsátil) em corte transversal.
- Varredura em leque: do plano mais superficial (subcutâneo) ao profundo (junto aos vasos), descrevendo linfonodos por relação com a veia femoral (medial/lateral/anterior).
- Registre localização: “inguinal superficial” tende a ser mais subcutâneo; “femoral/profundo” tende a acompanhar vasos (descreva pelo marco, não apenas pelo nome).
Variações e armadilhas
- Linfonodos reacionais podem ser numerosos e pequenos; a variabilidade de número é alta.
- Hérnias e vasos superficiais podem confundir a anatomia local; confirme continuidade em varredura longitudinal.
- Linfonodos muito superficiais podem ser perdidos se a profundidade do US estiver alta; ajuste foco para o subcutâneo.
Checklist inguinal/femoral
- Rotular: ligamento inguinal (ou sua projeção), artéria femoral, veia femoral, sartório, adutor longo.
- Descrever linfonodos por plano (subcutâneo vs junto aos vasos) e por relação com a veia femoral.
- Confirmar em dois planos (transversal e longitudinal) para evitar confusão com vasos.
Mediastino por compartimentos: leitura sistemática em TC/RM
Conceito prático: compartimentos reduzem ambiguidades
No mediastino, a descrição por “grupos” pode variar entre classificações. Em TC/RM, uma estratégia robusta é descrever por compartimentos (superior, anterior, médio, posterior) e por relação com traqueia/brônquios, esôfago e grandes vasos. Isso melhora a reprodutibilidade, especialmente quando há massas, atelectasias ou distorções.
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Marcos essenciais por compartimento (âncoras)
- Superior: arco aórtico, veias braquiocefálicas, traqueia.
- Anterior: esterno, gordura mediastinal anterior, timo (quando presente/visível), vasos mamários internos como referência adicional.
- Médio: coração/pericárdio, brônquios principais, artérias pulmonares.
- Posterior: esôfago, aorta descendente, coluna torácica.
Passo a passo prático (TC axial) para localizar cadeias mediastinais por âncoras
- Comece no mediastino superior: identifique traqueia e arco aórtico; descreva estruturas adjacentes (paratraqueais, para-aórticas) por relação direta.
- Desça até a carina: use a bifurcação traqueal como “andar” anatômico; descreva estruturas ao redor dos brônquios principais.
- Identifique esôfago no mediastino posterior: descreva estruturas adjacentes a ele e à aorta descendente.
- Correlacione em coronal/sagital: confirme extensão craniocaudal e relação com vasos.
Variações e armadilhas
- Timo: pode persistir ou apresentar tecido residual; em RM, a caracterização por sinal e gordura ajuda a evitar confusão com linfonodomegalia.
- Variações vasculares (ex.: arco aórtico e ramos) mudam o “mapa” de vizinhança; descreva sempre por relação com o vaso real visto no exame.
- Artefatos e volume parcial: pequenos linfonodos podem “sumir” em cortes espessos; revisar reconstruções finas quando disponíveis.
Checklist mediastinal
- Definir compartimento e nível (acima/ao nível/abaixo da carina).
- Rotular: traqueia, carina, esôfago, arco aórtico, aorta descendente, artérias pulmonares.
- Descrever estruturas linfáticas por relação com vias aéreas e grandes vasos, confirmando em múltiplos planos.
Abdome: grandes vasos como “eixo cartográfico”
Marcos essenciais
- Aorta e veia cava inferior (VCI): eixos centrais para descrever cadeias adjacentes.
- Tronco celíaco, artéria mesentérica superior e artérias renais: “andares” anatômicos para padronizar o nível craniocaudal.
- Veias renais e confluência ilíaca: úteis para transição para cadeias pélvicas/ilíacas em TC/RM.
Passo a passo prático (TC/RM axial) para mapear por níveis vasculares
- Localize a aorta e a VCI no corte axial.
- Suba e desça para identificar ramos-chave: tronco celíaco, AMS, artérias renais.
- Descreva linfonodos por relação com a aorta/VCI (para-aórtico D/E, paracaval, intercavoaórtico) e pelo “andar” (ex.: “ao nível das artérias renais”).
- Confirme em coronal a extensão longitudinal e relação com pâncreas, duodeno e rins quando necessário.
Variações e armadilhas
- Variações de ramos arteriais (ex.: artérias renais múltiplas) mudam o “andar” esperado; use o que está visível no exame como referência.
- Linfonodos pequenos podem se confundir com vasos linfáticos/pequenas veias; contraste (TC) e sequências (RM) ajudam, mas a confirmação em múltiplos planos é decisiva.
- Gordura retroperitoneal variável altera contraste natural; em pacientes magros, estruturas pequenas podem ser mais evidentes, mas também mais sujeitas a confusão com vasos finos.
Checklist abdominal
- Rotular: aorta, VCI, tronco celíaco, AMS, artérias renais, veias renais, confluência ilíaca.
- Descrever estruturas linfáticas por relação com aorta/VCI e por nível vascular.
- Confirmar achados em axial + coronal (e sagital quando necessário).
Variações anatômicas comuns: como relatar sem “forçar” normalidade
Ductos linfáticos: terminação e presença/ausência
- Terminações variáveis (especialmente na junção venosa): ao descrever, prefira “drena para” + vaso identificado no exame, em vez de assumir um padrão único.
- Ausência de ducto linfático direito como estrutura única: pode haver drenagem por múltiplos troncos; em imagem, isso significa que a ausência de um “canal” não exclui drenagem normal.
Linfonodos: número e posição
- Variabilidade individual é regra. Em laudos e estudos, a reprodutibilidade melhora quando se descreve por marcos fixos (vasos/músculos/compartimentos) e não por contagem.
- Assimetria discreta pode ocorrer; a comparação bilateral é útil, mas deve ser interpretada com o contexto clínico.
Exercícios de rotulagem anatômica (para treino ativo)
Exercício 1 — Cervical (ângulo venoso)
Tarefa: em uma imagem axial de TC na transição cervicotorácica, rotule:
- VJI (D/E)
- Veia subclávia (D/E)
- Ângulo venoso (D/E)
- Carótida comum (D/E)
- ECM (D/E)
Critério de acerto: o ângulo venoso deve ser identificado pela confluência VJI + subclávia, e a legenda deve incluir lado e plano.
Exercício 2 — Axila (níveis por veia axilar e peitoral menor)
Tarefa: em US transversal da axila, rotule:
- Veia axilar
- Artéria axilar
- Peitoral menor
- Um linfonodo (se presente) com legenda padronizada: lado + nível + relação com veia axilar
Critério de acerto: o linfonodo deve ser descrito por relação com a veia axilar (ex.: anterior/medial) e não apenas “axilar”.
Exercício 3 — Inguinal/femoral (triângulo femoral)
Tarefa: em US transversal na raiz da coxa, rotule:
- Artéria femoral
- Veia femoral
- Sartório
- Adutor longo
- Linfonodo superficial vs profundo (classifique pelo plano)
Critério de acerto: a classificação superficial/profundo deve ser justificada pela profundidade em relação aos vasos e fáscia.
Exercício 4 — Mediastino (compartimentos)
Tarefa: em TC axial, selecione três níveis (acima da carina, ao nível da carina, abaixo da carina) e rotule:
- Traqueia/carina
- Arco aórtico (quando aplicável)
- Artérias pulmonares (quando aplicável)
- Esôfago
- Compartimento mediastinal correspondente
Critério de acerto: o compartimento deve ser coerente com as âncoras presentes e confirmado em coronal quando possível.
Exercício 5 — Abdome (andares vasculares)
Tarefa: em TC axial, rotule:
- Aorta e VCI
- Tronco celíaco, AMS, artérias renais (quando visíveis)
- Uma cadeia linfonodal descrita por relação com aorta/VCI (ex.: para-aórtico E) e por nível (ex.: “ao nível da AMS”)
Critério de acerto: a descrição deve incluir relação com vaso grande + nível vascular, evitando termos vagos como “linfonodos abdominais”.
Mini-checklist geral (para qualquer região)
- 1) Plano e lado: axial/coronal/sagital; D/E.
- 2) Âncora: qual vaso/músculo/compartimento define a localização.
- 3) Relação espacial: anterior/posterior/medial/lateral/superficial/profundo.
- 4) Confirmação: pelo menos dois planos (ou varredura longitudinal + transversal no US).
- 5) Variação: se algo não “bate” com o esperado, descreva o que é visto (vaso de drenagem, ramos, assimetria) sem presumir erro técnico.