Por que “baterias de testes” sem hipótese pioram a avaliação
Testes ortopédicos e especiais não são uma lista para “marcar presença”. Eles são ferramentas para reduzir incerteza sobre uma hipótese clínica específica. Quando você aplica muitos testes sem objetivo, três problemas aparecem: (1) aumenta a chance de falsos positivos (quanto mais testes, maior a probabilidade de algum dar “positivo” por acaso); (2) você perde tempo e irrita o tecido (dor/defesa muscular), contaminando resultados; (3) você interpreta sinais fora de contexto e cria diagnósticos “de teste”, não do paciente.
A lógica correta é: hipótese → teste de triagem (sensível) → teste confirmatório (específico) → teste funcional (impacto). Assim, você usa poucos testes, mas com alta utilidade clínica.
Conceitos-chave para escolher e interpretar testes
1) O que um teste realmente “mede”
Um teste pode estressar: (a) tecido contrátil (músculo/tendão), (b) tecido inerte (cápsula/ligamento/labrum), (c) controle motor/coordenação, (d) sistema neural (tensão neural), (e) tolerância à carga. Um “positivo” pode significar dor, instabilidade, fraqueza, apreensão, limitação ou reprodução do sintoma. Por isso, sempre defina antes: qual resposta é considerada positiva para a sua hipótese.
2) Sensibilidade e especificidade na prática (sem matemática)
- Teste de triagem: tende a ser mais sensível. Se for negativo, ajuda a “descartar” a hipótese (especialmente se o teste for bem executado e o quadro for compatível).
- Teste confirmatório: tende a ser mais específico. Se for positivo, ajuda a “confirmar” a hipótese.
Na prática: não trate um único teste como diagnóstico. Use combinações coerentes.
3) Regras de interpretação: positivo, negativo e “inconclusivo”
- Positivo: reproduz o sintoma principal do paciente (local e qualidade), ou gera sinal típico (ex.: apreensão, clunk, instabilidade), e faz sentido com a história e o exame.
- Negativo: não reproduz sintoma relevante e não há sinal típico, com execução adequada.
- Inconclusivo: dor difusa, limitação por medo, compensações, rigidez global, ou o paciente não tolera a posição. Nesses casos, ajuste a técnica, escolha outro teste, ou volte um passo (triagem/controle de irritabilidade).
4) Como combinar testes para aumentar utilidade clínica
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- Cluster (conjunto): 2–4 testes para a mesma hipótese. Quanto mais testes do cluster positivos, maior a confiança.
- Sequência por carga: comece com testes menos provocativos (triagem) e progrida para os mais específicos/provocativos (confirmatórios).
- Teste de estrutura + teste de função: um teste que sugere a estrutura envolvida e outro que mostra impacto funcional (ex.: estabilidade, tolerância à carga, controle).
Modelo prático de árvore de decisão (hipótese → triagem → confirmação → função)
Queixa principal + padrão de sintomas → hipótese principal (e 1–2 alternativas) → 1) teste de triagem (sensível/baixo risco) → se NEGATIVO: reavaliar hipótese / buscar alternativa → se POSITIVO: 2) teste confirmatório (mais específico) → se POSITIVO: aumentar confiança na hipótese → 3) teste funcional (tarefa relevante) para quantificar impacto e guiar tratamentoPasso a passo para aplicar a árvore na sessão
- Passo 1 — Defina a hipótese em uma frase testável: “Dor lateral no ombro ao elevar o braço: suspeita de dor subacromial relacionada a carga do manguito (principal) vs cervical referida (alternativa).”
- Passo 2 — Escolha 1 teste de triagem: deve ser rápido, seguro e com boa chance de captar o problema se ele existir.
- Passo 3 — Se triagem positiva, escolha 1–2 confirmatórios: mais específicos para a estrutura/mecanismo.
- Passo 4 — Feche com um teste funcional: tarefa do paciente (alcance, agachar, subir escada, corrida, levantar peso) para medir limitação e servir de referência para reavaliação.
- Passo 5 — Interprete no contexto: compare com lado contralateral, considere irritabilidade, medo, rigidez global, e presença de dor em repouso.
Exemplos por região: quando usar, o que significa e o que confunde
Ombro
Hipótese A: dor subacromial relacionada à carga (manguito/bolsa) vs irritação do manguito
Quando suspeitar: dor no arco de elevação, piora com atividades acima da cabeça, dor lateral no braço, dor ao deitar sobre o ombro.
Triagem (baixo risco):
- Arco doloroso (elevação ativa): positivo se reproduz dor típica em um arco específico. Negativo se elevação é livre ou dor não é a queixa principal.
- Resistência em rotação externa (isométrica): positivo se reproduz dor lateral/ântero-lateral ou fraqueza dolorosa compatível.
Confirmatórios (mais específicos):
- Hawkins-Kennedy: positivo se reproduz dor ântero-lateral típica. Negativo reduz probabilidade, mas não exclui se irritabilidade for baixa ou técnica inadequada.
- Teste de Jobe (Empty/Full Can): positivo se dor/ fraqueza em abdução no plano da escápula sugere envolvimento do supraespinal/carga do manguito.
Teste funcional:
- Alcance acima da cabeça com carga leve (ex.: pegar objeto em prateleira) ou elevação repetida: quantifique dor (0–10), número de repetições e compensações escapulares.
Achados que confundem:
- Rigidez glenoumeral (capsulite): limitações globais podem tornar testes “positivos” por dor capsular, não por manguito.
- Dor cervical referida: pode gerar dor no ombro e fraqueza por inibição; se testes do ombro são inconsistentes, reconsidere a origem.
- Alta irritabilidade: qualquer teste provoca dor; priorize triagem suave e função mínima.
Hipótese B: instabilidade anterior / apreensão
Quando suspeitar: sensação de “sair do lugar”, episódios de subluxação/luxação, medo em abdução e rotação externa.
Triagem:
- Apprehension test: positivo se há apreensão (medo) mais do que dor. Negativo se não há apreensão nem sensação de instabilidade.
Confirmatório:
- Relocation test: positivo se a apreensão/dor diminui com a estabilização posterior do úmero, reforçando instabilidade anterior.
Teste funcional:
- Simulação controlada da tarefa gatilho (ex.: arremesso leve, posição de saque) com progressão de amplitude e controle escapular.
Confundidores:
- Dor anterior por tendão do bíceps pode gerar “dor” no apprehension sem instabilidade verdadeira.
- Hipermobilidade generalizada: amplitude grande não é sinônimo de instabilidade sintomática; foque em sintomas e controle.
Joelho
Hipótese A: lesão de LCA
Quando suspeitar: estalo/“pop”, derrame rápido, sensação de falseio, trauma com mudança de direção.
Triagem:
- Lachman: positivo se há aumento de translação anterior com fim de curso “mole” comparado ao outro lado. Negativo reduz probabilidade, mas pode falhar se houver muita dor/defesa.
Confirmatório:
- Pivot shift (quando apropriado e tolerado): positivo se há subluxação/redução tibial típica. É mais provocativo e depende de relaxamento.
Teste funcional:
- Single-leg squat ou step-down: observe valgo dinâmico, confiança, dor, controle e sensação de instabilidade.
Confundidores:
- Isquiotibiais tensos podem reduzir translação e mascarar instabilidade.
- Derrame importante limita ADM e altera sensação de fim de curso.
Hipótese B: lesão meniscal
Quando suspeitar: travamento, estalos dolorosos, dor na interlinha, piora com agachar/torção.
Triagem:
- Thessaly (em apoio unipodal com rotação suave): positivo se reproduz dor na interlinha/ sensação de travamento. Negativo reduz probabilidade se o paciente tolera bem a execução.
Confirmatórios:
- McMurray: positivo se há clique doloroso/ dor na interlinha com manobra específica.
- Palpação da interlinha + dor à compressão em flexão: combina sinais para aumentar coerência.
Teste funcional:
- Agachamento até a amplitude tolerada e giro controlado (pivot leve): quantifique dor e sensação mecânica.
Confundidores:
- Artrose pode dar dor na interlinha e crepitação sem lesão meniscal relevante.
- Sinovite/derrame gera dor difusa e “travamento” por inibição, não por bloqueio mecânico.
Tornozelo e pé
Hipótese A: entorse lateral com lesão de ligamentos (ATFL/CFL)
Quando suspeitar: inversão em flexão plantar, edema lateral, dor no ligamento, instabilidade ao caminhar em terreno irregular.
Triagem:
- Palpação direcionada (ATFL/CFL) e teste de carga (marcha/apoio): positivo se dor localizada e piora com carga compatível.
Confirmatórios:
- Anterior drawer do tornozelo: positivo se há translação anterior aumentada e/ou fim de curso frouxo comparado ao outro lado.
- Talar tilt: positivo se há inclinação aumentada (sugere CFL) e sensação de instabilidade.
Teste funcional:
- Y-Balance (ou alcances em apoio unipodal) e hop test progressivo (se fase permitir): mede controle e confiança.
Confundidores:
- Dor por contusão óssea pode limitar testes ligamentares sem instabilidade real.
- Proteção muscular (peroneais) pode mascarar frouxidão no drawer.
Hipótese B: lesão de sindesmose (“high ankle sprain”)
Quando suspeitar: dor anterior/superior do tornozelo, piora com rotação externa do pé, dificuldade para impulsão, edema menos lateral.
Triagem:
- Squeeze test (compressão da tíbia e fíbula proximal/média): positivo se reproduz dor na sindesmose distal.
Confirmatório:
- External rotation stress test: positivo se reproduz dor anterolateral distal e sensação de instabilidade.
Teste funcional:
- Elevação de panturrilha unilateral e corrida leve (quando apropriado): a sindesmose costuma limitar mais a propulsão.
Confundidores:
- Lesão deltoide/medial pode gerar dor com rotação externa e confundir.
- Rigidez talocrural pós-entorse altera padrão de dor e função.
Coluna cervical
Hipótese A: radiculopatia cervical (compressão/irritação de raiz)
Quando suspeitar: dor irradiada em trajeto, parestesia, piora com extensão/rotação, alívio com descarga/posição específica.
Triagem (cluster):
- Spurling: positivo se reproduz dor irradiada/parestesia no membro superior (não apenas dor local).
- Teste de distração: positivo se alivia sintomas irradiados.
- Upper Limb Tension Test (ULTT): positivo se reproduz sintomas neurais e muda com diferenciação (ex.: inclinação cervical).
Confirmatório:
- Combinação coerente: por exemplo, Spurling positivo + distração alivia + ULTT positivo aumenta muito a confiança clínica. Se apenas um é positivo, trate como evidência fraca e reavalie hipóteses.
Teste funcional:
- Tarefa provocativa do paciente (ex.: digitar 10 minutos, dirigir, sustentar braço elevado) com monitoramento de sintomas e estratégias de modulação (postura/pausas).
Confundidores:
- Síndrome dolorosa miofascial pode irradiar e simular radiculopatia sem sinais neurais consistentes.
- Compressão periférica (ex.: túnel do carpo) pode coexistir e confundir padrão de parestesia.
Hipótese B: dor cervicogênica com componente articular
Quando suspeitar: dor cervical com cefaleia associada, rigidez, piora com posições sustentadas, sem sinais neurais claros.
Triagem:
- Movimentos repetidos/segmentares: positivo se reproduz dor local típica e limitações assimétricas.
Confirmatório:
- Teste de flexão-rotação (para C1–C2 em cefaleia cervicogênica): positivo se há limitação assimétrica e reprodução do padrão de dor de cabeça.
Teste funcional:
- Resistência dos flexores cervicais profundos (teste de endurance) e tolerância a postura sentada: quantifica capacidade e guia progressão.
Confundidores:
- Enxaqueca pode coexistir; teste positivo não “explica tudo” se o padrão clínico não bater.
Coluna lombar
Hipótese A: dor lombar com componente radicular (ciatalgia/radiculopatia)
Quando suspeitar: dor irradiada abaixo do joelho, parestesia, piora com flexão sustentada ou tosse/espirro (quando presente), alívio em posições específicas.
Triagem:
- SLR (elevação da perna estendida): positivo se reproduz sintomas neurais no trajeto e muda com diferenciação (ex.: dorsiflexão/posição cervical).
Confirmatórios:
- Slump test: positivo se reproduz sintomas neurais e melhora ao reduzir tensão (ex.: liberar extensão cervical).
- Crossed SLR: positivo se elevação da perna contralateral reproduz sintomas no lado afetado (sugere maior especificidade para hérnia discal).
Teste funcional:
- Sit-to-stand repetido, caminhada (tempo/distância) e tarefa gatilho (ex.: pegar objeto do chão): observe centralização/periferização e tolerância.
Confundidores:
- Encurtamento de isquiotibiais pode limitar SLR sem sintomas neurais típicos.
- Dor glútea/ piriforme pode simular irradiação; procure mudanças com diferenciação neural para aumentar precisão.
Hipótese B: dor lombar por sobrecarga mecânica (sem sinais neurais)
Quando suspeitar: dor localizada, relacionada a posturas/cargas, sem parestesia/deficits, melhora com modulação de atividade.
Triagem:
- Movimentos repetidos (flexão/extensão) e teste de carga (ponte, hinge, agachamento): positivo se reproduz dor local típica e identifica direção/tarefa provocativa.
Confirmatório:
- Teste de instabilidade em prono (quando suspeita de instabilidade segmentar): positivo se dor reduz ao ativar musculatura estabilizadora durante o teste.
Teste funcional:
- Hinge com carga progressiva (padrão de levantar do chão) ou tolerância a sentar: mede capacidade e orienta prescrição.
Confundidores:
- Medo de movimento pode gerar rigidez e dor antecipatória, alterando testes de carga.
- Fadiga durante repetidos pode mudar padrão; padronize número de repetições e pausas.
Como documentar resultados para não “se perder” em muitos testes
Registre de forma padronizada: hipótese, teste, lado, resposta e interpretação.
| Hipótese | Triagem | Confirmatório | Funcional | Interpretação |
|---|---|---|---|---|
| Dor subacromial (ombro D) | Arco doloroso + | Hawkins + / Jobe + | Alcance com 2 kg: dor 6/10, 8 rep | Alta coerência para dor relacionada à carga do manguito; monitorar irritabilidade |
| Radiculopatia cervical (C6?) | Spurling + | Distração alivia + / ULTT + | Digitar 10 min: parestesia 4/10 | Cluster consistente; orientar manejo e progressão por sintomas |
Erros comuns e como corrigir (checklist rápido)
- Erro: escolher teste “porque é famoso”. Correção: escreva a hipótese e o que seria um positivo antes de testar.
- Erro: interpretar dor inespecífica como positivo. Correção: exija reprodução do sintoma principal e compare com lado contralateral.
- Erro: fazer confirmatórios sem triagem. Correção: comece por testes menos provocativos e avance apenas se fizer sentido.
- Erro: ignorar função. Correção: sempre finalize com uma tarefa funcional mensurável (dor, repetições, tempo, qualidade).
- Erro: não considerar confundidores (rigidez, medo, derrame). Correção: se o resultado não “encaixa”, marque como inconclusivo e teste alternativa.