Testes funcionais e medidas de desfecho na Avaliação Fisioterapêutica: mensurar para decidir

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que usar testes funcionais e medidas de desfecho

Testes funcionais e medidas de desfecho são instrumentos padronizados para quantificar o estado do paciente e sua evolução ao longo do tratamento. Eles transformam percepções (ex.: “melhorou um pouco”) em dados comparáveis (ex.: “dor 7/10 para 3/10”, “5x Sit-to-Stand de 18 s para 12 s”). Na prática, servem para: documentar linha de base, priorizar problemas, escolher intervenções, monitorar resposta, ajustar plano e comunicar resultados.

Uma medida útil precisa estar alinhada à limitação principal do paciente. Em vez de medir “tudo”, selecione um conjunto pequeno e relevante, cobrindo domínios-chave: dor, função autorreferida, mobilidade, força, equilíbrio e desempenho em tarefas.

Domínios e instrumentos comuns (o que medir)

Dor

  • Escala Numérica de Dor (END/NRS 0–10): rápida, aplicável na maioria dos casos. Pode ser coletada como dor atual, pior dor nas últimas 24 h/7 dias e dor durante uma tarefa específica.
  • Como usar para decisão: associe a dor a uma atividade (ex.: “dor ao subir escadas”) para interpretar mudança clínica com mais precisão do que apenas “dor em repouso”.

Função (questionários autorreferidos)

  • Questionários específicos por região/condição (ex.: ombro, joelho, lombar) ou genéricos de função. A escolha deve refletir a queixa e o objetivo do paciente.
  • Vantagem: capturam impacto no dia a dia que nem sempre aparece em testes de performance.
  • Cuidados: use sempre a mesma versão/idioma validado e o mesmo período de referência (ex.: “últimos 7 dias”).

Mobilidade

  • Medidas de amplitude (goniometria/inclinometria) quando a limitação de movimento é um fator relevante para a função.
  • Testes de mobilidade funcional (ex.: alcance funcional, mobilidade de tornozelo em cadeia fechada) quando o problema aparece em tarefas.

Força

  • Dinamometria (quando disponível) para maior objetividade.
  • Testes de repetições/submáximos (ex.: número de elevações de panturrilha, ponte unilateral) quando o recurso é limitado, desde que padronizados.

Equilíbrio

  • Testes de equilíbrio estático e dinâmico (ex.: apoio unipodal cronometrado, alcance em diferentes direções) para risco de queda, instabilidade e retorno a atividades.
  • Observação: equilíbrio é altamente sensível a fadiga, medo e ambiente; padronização é essencial.

Desempenho em tarefas (performance)

  • Testes cronometrados e repetitivos (ex.: Timed Up and Go, 5x Sit-to-Stand, caminhada em tempo/distância) para traduzir capacidade funcional em números.
  • Testes específicos da demanda: subir degraus, agachar, levantar do chão, carregar peso, conforme a meta do paciente.

Critérios para escolher instrumentos (como selecionar)

Use um filtro simples para decidir quais medidas entram no seu “pacote” de avaliação e reavaliação. A ideia é equilibrar qualidade do instrumento com viabilidade clínica.

Checklist de seleção (VTRR)

  • V – Validade: mede o que promete medir para aquela população/condição? Prefira instrumentos com evidência e versões validadas no idioma do paciente.
  • T – Tempo: cabe na consulta sem comprometer o restante? Um bom alvo é 5–15 minutos para o conjunto de medidas, dependendo do caso.
  • R – Recursos: precisa de escada, cronômetro, fita, dinamômetro, espaço? Se o recurso não é consistente entre sessões, a reprodutibilidade cai.
  • R – Relevância: o resultado influencia sua decisão clínica e conversa com a meta do paciente? Se não muda conduta, provavelmente não vale coletar.

Quantas medidas usar

Na maioria dos casos, selecione: 1 medida de dor + 1 questionário de função + 1–2 testes de performance + 1 medida específica (mobilidade/força/equilíbrio) conforme hipótese e limitação principal. Isso costuma gerar um painel objetivo sem excesso de dados.

Padronização para reprodutibilidade (como testar do mesmo jeito)

Para comparar sessões, você precisa reduzir variações que não são “mudança real”. Padronizar não é burocracia: é o que torna a medida confiável para decidir.

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O que padronizar (mínimo necessário)

  • Condições do paciente: calçado (com/sem), uso de órteses, medicação analgésica recente (registrar), nível de fadiga/sono (anotar se relevante).
  • Ambiente: mesma sala/solo, iluminação, ruído, temperatura quando possível; principalmente para equilíbrio.
  • Equipamento: mesma cadeira (altura), mesma escada (altura do degrau), mesmo cronômetro/app, mesma fita métrica.
  • Instruções verbais: use um script curto e consistente; evite “coaching” diferente entre sessões.
  • Demonstração e tentativa: defina se haverá 1 tentativa de familiarização; mantenha igual nas reavaliações.
  • Ordem dos testes: mantenha sequência (ex.: questionário → dor → mobilidade → força → performance) para reduzir efeito de fadiga.
  • Número de tentativas e critério de registro: melhor de 3? média de 2? primeira tentativa válida? Defina e repita.
  • Critérios de interrupção: dor acima de um limite acordado, tontura, instabilidade importante; registre o motivo.

Exemplo de script padronizado (5x Sit-to-Stand)

Posição: sentado no meio da cadeira, pés no chão, braços cruzados no peito. Instrução: “Quando eu disser JÁ, levante e sente 5 vezes o mais rápido que conseguir, com segurança. Eu vou cronometrar. Se precisar parar, avise.” Registro: tempo em segundos do ‘JÁ’ até sentar após a 5ª repetição. Observações: uso de impulso, perda de equilíbrio, dor durante o teste (0–10).

Passo a passo prático: montar seu “painel de desfechos”

Passo 1 — Defina a limitação principal em termos mensuráveis

Converta a queixa em algo observável: “dor ao correr” vira “dor durante corrida de 10 min” ou “dor ao descer escadas”. “Fraqueza” vira “não consegue levantar da cadeira sem usar braços” ou “reduziu repetições em teste de panturrilha”.

Passo 2 — Escolha 3–5 medidas alinhadas ao problema

Selecione pelo checklist VTRR e garanta que pelo menos uma medida capture o que o paciente considera sucesso (função/atividade).

Passo 3 — Estabeleça linha de base (baseline)

Na primeira avaliação, registre: valor numérico, condições do teste e observações relevantes. Sem baseline, você perde referência para interpretar melhora, piora ou estagnação.

Passo 4 — Defina metas mensuráveis (curto e médio prazo)

Metas úteis têm: variável, valor-alvo, prazo e contexto. Ex.: “reduzir dor ao descer escadas de 7/10 para ≤3/10 em 4 semanas” ou “reduzir 5x Sit-to-Stand de 18 s para ≤13 s em 6 semanas, sem uso de braços”.

Passo 5 — Programe reavaliações

Defina quando repetir cada medida. Dor pode ser semanal; questionário a cada 2–4 semanas; performance a cada 2–4 semanas (ou conforme fase). Reavaliar cedo demais pode mostrar apenas variabilidade; tarde demais pode atrasar ajustes.

Exemplos práticos: linha de base e metas

Exemplo 1 — Dor e função em joelho (queixa: dor ao descer escadas)

Seleção de medidas: END (dor na tarefa), questionário de função para membro inferior/joelho, 5x Sit-to-Stand, teste de degraus (tempo ou número de degraus), e uma medida de força funcional (ex.: agachamento até cadeira com controle).

MedidaComo coletar (padronização resumida)Linha de base (D0)MetaReavaliar
END (0–10) ao descer 1 lance de escadasMesmo lance, mesmo ritmo “confortável”, registrar dor máxima durante a descida7/10≤3/10 em 4 semanasSemanal
Questionário de função (joelho/membro inferior)Mesma versão, mesmo período de referência52/100≥70/100 em 6 semanas2–4 semanas
5x Sit-to-StandCadeira mesma altura, braços cruzados, 1 tentativa válida18,4 s≤13,5 s em 6 semanas2 semanas
Teste de degraus (subir/ descer por 1 min)Mesmo degrau, mesma instrução, registrar nº de ciclos e dor22 ciclos; dor 6/10≥30 ciclos; dor ≤3/10 em 6 semanas2–4 semanas

Exemplo 2 — Equilíbrio e desempenho em idoso com queixa de instabilidade

Seleção de medidas: END (se houver dor limitante), teste de mobilidade funcional (Timed Up and Go), teste de sentar-levantar, apoio unipodal (tempo) e um questionário breve de confiança/funcionalidade (quando aplicável).

MedidaComo coletar (padronização resumida)Linha de base (D0)MetaReavaliar
Timed Up and Go (TUG)Cadeira com braços, percurso 3 m marcado, calçado habitual, 1 tentativa de familiarização + 1 válida14,2 s≤12,0 s em 8 semanas2–4 semanas
5x Sit-to-StandMesma cadeira, braços cruzados se seguro20,5 s≤16,0 s em 8 semanas2–4 semanas
Apoio unipodalSem calçado (ou com, mas sempre igual), olhar à frente, registrar melhor de 2 tentativasD: 4 s / E: 3 s≥8 s em cada lado em 8 semanas2–4 semanas
END (0–10) durante caminhadaMesmo percurso, mesma distância/tempo4/10≤2/10 em 4–6 semanasSemanal

Tabelas simples para reavaliações (modelo pronto)

Modelo 1 — Registro longitudinal (valores e observações)

MedidaD0Semana 2Semana 4Semana 6Observações (condições do teste)
END na tarefa-alvoEx.: tomou analgésico 2 h antes; dormiu mal
Questionário de funçãoEx.: período de referência mantido
Teste de performance 1Ex.: mesma cadeira/mesmo percurso
Teste de performance 2Ex.: mesma escada/mesmo calçado
Medida específica (mobilidade/força/equilíbrio)Ex.: mesma posição, mesmo instrumento

Modelo 2 — Metas e critérios de ajuste de conduta

MetaIndicadorPrazoSe atingirSe não atingir
Reduzir dor na tarefaEND na tarefa-alvo2–4 semanasProgredir carga/complexidade da tarefaRevisar hipótese, dosagem, adesão, barreiras; considerar outro desfecho mais sensível
Melhorar capacidade funcionalQuestionário + teste de performance4–8 semanasIntroduzir metas avançadas (retorno a esporte/trabalho)Checar padronização do teste, variáveis externas, necessidade de encaminhamento/avaliação complementar

Erros comuns e como evitar

  • Medir o que é fácil, não o que importa: escolha desfechos que representem a limitação principal e a meta do paciente.
  • Mudar o teste a cada sessão: dificulta comparação. Se precisar trocar, registre o motivo e reinicie baseline do novo instrumento.
  • Não registrar condições: sem contexto (calçado, cadeira, medicação, tentativa), o número perde valor.
  • Usar muitos instrumentos: aumenta tempo e ruído. Um painel enxuto e bem repetido é mais útil do que uma bateria extensa.
  • Confundir melhora no teste com melhora real: considere aprendizado do teste; por isso, padronize tentativa de familiarização e reavalie em intervalos adequados.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao selecionar testes funcionais e medidas de desfecho para acompanhar a evolução de um paciente, qual combinação de critérios melhor orienta a escolha de um “pacote” de avaliação que seja útil e viável na prática clínica?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O VTRR ajuda a equilibrar qualidade e viabilidade: a medida precisa ser válida, caber no tempo da consulta, ser possível com os recursos disponíveis e ser relevante para orientar decisões e metas do paciente.

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