Terceiro trimestre na primeira gestação: preparação para o parto e sinais do fim

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que muda no fim da gestação (e por quê)

No terceiro trimestre, o bebê cresce rapidamente e o útero ocupa mais espaço no abdômen. Isso comprime o estômago, empurra o diafragma para cima e aumenta a pressão na pelve. Ao mesmo tempo, o corpo intensifica a preparação para o parto: o colo do útero pode começar a amolecer e encurtar, e surgem contrações irregulares de “treino”. Essas mudanças explicam sintomas comuns do fim da gestação e ajudam a diferenciar o que é esperado do que exige avaliação.

Falta de ar (dispneia)

Como costuma ser: sensação de “respirar curto”, principalmente ao subir escadas, falar muito ou deitar de barriga para cima. Pode melhorar quando o bebê “encaixa” na pelve perto do fim, liberando um pouco o diafragma.

O que ajuda no dia a dia:

  • Sentar com as costas apoiadas e o peito “aberto” (ombros relaxados para trás).
  • Dormir de lado (preferencialmente esquerdo) com travesseiro entre os joelhos e outro apoiando a barriga.
  • Fazer pausas curtas ao caminhar e fracionar tarefas (ex.: arrumar a casa em blocos de 10–15 minutos).
  • Respiração lenta: inspirar pelo nariz por 3–4 segundos e soltar o ar pela boca por 5–6 segundos, repetindo por 2–3 minutos.

Azia e refluxo

Como costuma ser: queimação no peito/garganta, pior após refeições grandes ou ao deitar. A pressão do útero e o relaxamento do esfíncter do estômago favorecem o refluxo.

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  • Fazer refeições menores e mais frequentes (ex.: 5–6 pequenas refeições).
  • Evitar deitar por 2–3 horas após comer.
  • Elevar a cabeceira da cama (não apenas travesseiros; ideal é inclinar o tronco).
  • Identificar gatilhos pessoais (ex.: frituras, café, chocolate, alimentos muito ácidos) e reduzir.

Insônia e sono fragmentado

Como costuma ser: dificuldade para pegar no sono, acordar para urinar, desconforto para achar posição, pensamentos acelerados. É comum alternar noites melhores e piores.

Rotina simples para melhorar:

  • Definir um “horário de desacelerar” 60 minutos antes de dormir (luz mais baixa, telas reduzidas).
  • Banho morno e alongamentos leves (pescoço, lombar, quadris) por 5–10 minutos.
  • Se acordar e não dormir em 20–30 minutos, levantar, fazer algo calmo (ex.: leitura leve) e voltar quando o sono vier.
  • Evitar líquidos em grande volume nas 2 horas antes de deitar (sem restringir água ao longo do dia).

Contrações de treino (Braxton Hicks)

Como costumam ser: endurecimento da barriga que vai e volta, geralmente irregular, mais curto e menos intenso, podendo melhorar com repouso, hidratação ou mudança de posição. Podem aparecer após caminhada, relação sexual ou no fim do dia.

Teste prático em casa:

  • Parar o que está fazendo e sentar ou deitar de lado.
  • Beber água.
  • Observar por 1 hora: se as contrações diminuírem ou ficarem espaçadas/irregulares, tende a ser treino.

Dor pélvica, pressão e “fisgadas”

Como costuma ser: dor na sínfise púbica (frente da pelve), virilha, sensação de peso “para baixo” e fisgadas ao virar na cama ou levantar. O encaixe do bebê e a maior mobilidade das articulações podem intensificar.

Medidas que costumam aliviar:

  • Evitar movimentos assimétricos (ex.: subir escada “de lado”, carregar peso em um braço só).
  • Ao virar na cama, manter joelhos juntos e virar o corpo em bloco.
  • Usar apoio pélvico (cinta própria para gestante) se recomendado.
  • Compressa morna local por 10–15 minutos (se confortável).

Maior cansaço

Como costuma ser: fadiga no fim do dia, necessidade de pausas, menor tolerância a calor e esforço. O corpo está sustentando maior peso e há maior demanda cardiovascular.

Organização prática:

  • Planejar 1–2 pausas curtas por turno (manhã/tarde) para sentar e elevar as pernas.
  • Priorizar tarefas essenciais e delegar o que for possível.
  • Separar “energia do dia” em blocos: se sair para resolver algo, evitar marcar outras atividades exigentes no mesmo período.

Como reconhecer sinais de trabalho de parto

O trabalho de parto costuma se manifestar por um conjunto de sinais, não por um único. O mais útil é observar padrão (regularidade, progressão e intensidade) e mudanças associadas (perda de líquido, sangramento, redução de movimentos do bebê).

Sinais que sugerem início de trabalho de parto

  • Contrações regulares e progressivas: ficam mais frequentes, mais longas e mais intensas com o passar do tempo, e não melhoram com repouso/hidratação.
  • Dor com ritmo: pode começar como cólica forte, dor lombar que “vem em ondas” e irradia para a barriga.
  • Eliminação do tampão mucoso: secreção gelatinosa, às vezes com estrias de sangue. Pode acontecer dias antes do parto; isoladamente não define que é “hora de ir”.
  • Ruptura da bolsa (perda de líquido): pode ser um jato ou um vazamento contínuo que molha a roupa íntima e não “segura” como urina.
  • Pressão pélvica crescente: sensação de peso e vontade de evacuar conforme o bebê desce.

Passo a passo: o que fazer quando começar a sentir contrações

  1. Marque o tempo por 1 hora: anote quando começa e termina cada contração e o intervalo entre elas. Use relógio ou aplicativo simples.
  2. Mude de posição e hidrate: caminhe leve por 10–15 minutos ou deite de lado; beba água. Contrações de treino tendem a reduzir.
  3. Observe progressão: se as contrações ficam mais próximas e mais fortes, com dificuldade de falar durante o pico, isso sugere evolução.
  4. Verifique sinais associados: perda de líquido, sangramento, febre, dor de cabeça forte, visão turva, redução de movimentos do bebê.
  5. Acione seu plano de comunicação: se houver sinais de alerta ou padrão de trabalho de parto, contate o serviço/equipe conforme combinado e prepare a saída.

Como diferenciar perda de líquido (bolsa) de outras secreções

  • Bolsa rota: líquido geralmente claro e sem cheiro forte, que continua saindo e molha a calcinha/absorvente. Pode aumentar ao levantar, tossir ou mudar de posição.
  • Urina: costuma ter cheiro característico e pode cessar após esvaziar a bexiga.
  • Corrimento: é mais espesso e não encharca continuamente.

Dica prática: se suspeitar de bolsa rota, coloque um absorvente (não tampão), observe cor/cheiro e procure orientação do serviço. Evite relações sexuais e banhos de imersão até ser avaliada.

Quando ir ao serviço de saúde (orientação prática)

As recomendações variam conforme seu histórico e o que foi combinado no pré-natal. Use as orientações da sua equipe como referência principal. Em geral, procure avaliação imediata se houver qualquer sinal de alerta abaixo.

Ir imediatamente / procurar urgência

  • Perda de líquido em qualquer quantidade com suspeita de bolsa rota.
  • Sangramento vaginal vermelho vivo (mais do que “estrias” no muco).
  • Movimentos do bebê diminuídos de forma perceptível em relação ao padrão habitual.
  • Dor de cabeça forte persistente, visão turva, pontos brilhantes, dor forte na “boca do estômago”, inchaço súbito importante (podem ser sinais de pressão alta).
  • Febre ou mal-estar importante.
  • Dor abdominal intensa contínua (não em ondas), desmaio ou falta de ar importante em repouso.
  • Contrações muito frequentes e dolorosas com sensação de que “não dá tempo de descansar” entre elas.

Ir para avaliação conforme orientação do seu serviço

  • Contrações regulares que não melhoram com repouso/hidratação e estão ficando mais próximas.
  • Suspeita de trabalho de parto mesmo sem perda de líquido, especialmente se for sua primeira gestação e você estiver insegura.
  • Coceira intensa no corpo (principalmente mãos/pés) ou icterícia (pele/olhos amarelados) para avaliação específica.

Plano de comunicação, rotas e transporte (para não decidir no susto)

1) Monte sua lista de contatos (deixe no celular e impressa)

  • Telefone do serviço onde pretende ser atendida (recepção/triagem/obstetrícia).
  • Contato da equipe que acompanha seu pré-natal (se aplicável).
  • 2 pessoas de apoio (quem leva, quem fica disponível para emergências).
  • Plano B: táxi/aplicativo, vizinho, familiar próximo.

Modelo de nota pronta no celular:

Gestante: [Nome completo]  DPP: [data]  Tipo sanguíneo: [se souber]  Alergias: [ ]  Condições/medicações: [ ]  Hospital/serviço de referência: [ ]  Endereço: [ ]  Contato do acompanhante: [ ]

2) Defina rotas e tempo realista

  • Escolha duas rotas até o serviço (principal e alternativa).
  • Faça um “teste” em horário de pico para estimar tempo.
  • Planeje onde estacionar/desembarcar e qual entrada usar (pronto atendimento, maternidade, triagem).

3) Transporte: decisões antecipadas

  • Se for de carro: tanque acima de meio, cadeirinha instalada se já tiver, e uma toalha no banco caso haja perda de líquido.
  • Se for de aplicativo/táxi: deixe endereços salvos e uma frase pronta para enviar ao motorista (ex.: “gestante em trabalho de parto, preciso de trajeto mais rápido”).
  • Se houver qualquer sinal de urgência importante (ex.: sangramento intenso, desmaio), acione o serviço de emergência local.

4) O que manter pronto em casa (checklist funcional)

Documentos e itens essenciais (em uma pasta/bolsa):

  • Documento com foto, cartão do convênio (se houver) e cartão/registro do pré-natal.
  • Exames recentes relevantes (os que sua equipe orientou guardar).
  • Carregador de celular e cabo longo.
  • Absorventes, elástico de cabelo, itens básicos de higiene.

Casa organizada para a volta:

  • Refeições simples congeladas ou lista de pedidos fáceis.
  • Roupas confortáveis separadas e cama preparada.
  • Iluminação noturna suave para idas ao banheiro.
  • Lista de tarefas delegáveis (ex.: lavar roupa, mercado, cuidar de pets).

Para o momento de sair:

  • Uma sacola com itens “de última hora” (escova de dentes, chinelo, documento) perto da porta.
  • Toalha extra e roupa íntima reserva (especialmente se houver suspeita de perda de líquido).

Quadro comparativo: sinais esperados vs sinais de alerta (terceiro trimestre)

Sinal/SintomaEsperado no 3º trimestreSinal de alerta (procurar avaliação)
Falta de arAo esforço, melhora ao sentar/descansar; sem dor no peitoEm repouso, piora rápida, dor no peito, lábios arroxeados, desmaio
Azia/refluxoQueimação após comer/deitar, melhora com medidas posturaisVômitos persistentes, incapacidade de se alimentar/hidratar, dor forte no alto do abdômen associada a mal-estar
InsôniaSono fragmentado, despertares para urinar, desconforto posturalInsônia com ansiedade intensa incapacitante, falta de ar ao deitar, ronco com pausas respiratórias percebidas
ContraçõesIrregulares, sem progressão, melhoram com repouso/hidrataçãoRegulares e progressivas, muito dolorosas, não melhoram com repouso; contrações muito frequentes
Secreção vaginalAumento de corrimento claro/leitosa; tampão mucoso pode sairSangramento vermelho vivo, mau cheiro forte, coceira intensa com lesões, suspeita de bolsa rota (líquido contínuo)
Movimentos do bebêPodem mudar de padrão (mais “rolamentos” do que chutes), mas seguem presentes diariamenteDiminuição perceptível e persistente em relação ao padrão habitual
Dor pélvica/pressãoPeso na pelve, dor ao virar na cama, desconforto ao caminharDor súbita intensa, incapacidade de andar, dor com febre, dor abdominal contínua forte
InchaçoLeve a moderado em pernas/tornozelos ao fim do diaInchaço súbito importante (rosto/mãos), associado a dor de cabeça forte, visão turva ou pressão alta
Perda de líquidoSuor/umidade leve; corrimento mais espessoVazamento que encharca e não para, líquido claro ou esverdeado, com ou sem contrações

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao sentir contrações no fim da gestação, qual conjunto de características sugere mais o início do trabalho de parto (em vez de contrações de treino)?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O padrão que sugere trabalho de parto é a progressão: contrações regulares que aumentam em frequência, duração e intensidade e não cedem com repouso, hidratação ou mudança de posição.

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Sinais de alerta na primeira gestação: quando procurar atendimento imediatamente

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