Taquicardias supraventriculares (TSV) no ECG: reconhecimento básico e abordagem inicial pela enfermagem

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que são taquicardias supraventriculares (TSV) e por que importam na prática

Taquicardias supraventriculares (TSV) são taquiarritmias cuja origem está acima dos ventrículos (átrios, junção AV ou vias acessórias). Na prática de enfermagem, o cenário mais comum é a taquicardia de QRS estreito e regular, geralmente com frequência entre 150–250 bpm, início súbito e sintomas como palpitações, dispneia, dor torácica, tontura ou mal-estar.

O objetivo do reconhecimento básico é: (1) identificar rapidamente um padrão compatível com TSV regular de QRS estreito, (2) diferenciar de taquicardia sinusal e de flutter atrial com condução 2:1, e (3) apoiar com segurança as condutas prescritas (manobras vagais, fármacos, cardioversão quando indicada), garantindo monitorização e documentação adequadas.

Padrões comuns de TSV regular com QRS estreito

1) Taquicardia por reentrada nodal (AVNRT) – padrão clássico

  • Ritmo: regular.
  • QRS: estreito (em geral < 120 ms), salvo aberrância.
  • Frequência: frequentemente 160–220 bpm.
  • Ondas P: muitas vezes não visíveis (ocultas no QRS) ou aparecem como pequenas deflexões logo após o QRS (P retrógrada), podendo gerar pseudo-r' em V1 ou pseudo-S em derivações inferiores.
  • Início/terminação: tipicamente súbitos (“liga/desliga”).

2) Taquicardia por reentrada atrioventricular (AVRT) – via acessória

  • Ritmo: regular.
  • QRS: geralmente estreito na forma ortodrômica; pode ser largo em outras apresentações.
  • Ondas P: podem ser retrógradas e aparecer após o QRS (intervalo RP variável).
  • Início/terminação: também costuma ser súbito.

3) Taquicardia atrial focal

  • Ritmo: regular.
  • QRS: estreito.
  • Ondas P: geralmente visíveis antes do QRS, com morfologia diferente do sinusal; pode haver aquecimento/resfriamento (início e término menos abruptos).

Diferenciação prática: TSV vs taquicardia sinusal vs flutter 2:1

TSV regular (ex.: AVNRT) vs taquicardia sinusal

Achado no traçadoSugere TSV (AVNRT/AVRT)Sugere taquicardia sinusal
Início e términoSúbitos, bem marcadosProgressivos (acelera/desacelera)
Onda PAusente/oculta ou retrógrada (após QRS)Presente antes de cada QRS, morfologia sinusal
FrequênciaComum > 160 bpm em repousoGeralmente proporcional ao estímulo (dor, febre, hipovolemia); muitas vezes < 160 bpm em repouso (não é regra)
Contexto clínicoPalpitação súbita, “crises”Gatilho evidente (infecção, anemia, dor, ansiedade, hipoxemia)

Dica de enfermagem: se o paciente relata “começou do nada” e o monitor mostra taquicardia muito regular com P pouco evidente, pense primeiro em TSV por reentrada. Se há febre, dor, hipovolemia e P sinusal clara antes de cada QRS, pense em taquicardia sinusal e foque em corrigir a causa.

TSV regular vs flutter atrial com condução 2:1

O flutter com condução 2:1 pode “imitar” uma TSV regular porque costuma gerar frequência ventricular ao redor de 150 bpm e QRS estreito. A diferença é que no flutter há atividade atrial organizada em “serrilhado” (ondas F), que pode ficar parcialmente escondida.

  • Pista 1 – frequência ~150 bpm: uma taquicardia regular persistente perto de 150 bpm deve levantar suspeita de flutter 2:1.
  • Pista 2 – procurar ondas F: observe melhor em derivações inferiores (II, III, aVF) e V1; às vezes aparece um serrilhado sutil entre QRS.
  • Pista 3 – manobras vagais/adenosina (quando prescritas): podem não terminar o flutter, mas podem aumentar o bloqueio AV temporariamente e “desmascarar” as ondas F. Em TSV por reentrada, há chance de reversão para ritmo sinusal.

Importante: a enfermagem não decide o diagnóstico isoladamente, mas pode fornecer ao time pistas objetivas: frequência, regularidade, presença/ausência de P/F e resposta observada durante intervenções prescritas.

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Leitura focada do ECG/monitor na suspeita de TSV (checklist rápido)

1) Confirme que é taquicardia e avalie estabilidade

  • Frequência aproximada e tendência (subiu de repente?).
  • Perfusão: nível de consciência, palidez, sudorese, enchimento capilar, extremidades frias.
  • Sinais de choque/instabilidade: hipotensão, dor torácica isquêmica, dispneia importante/edema agudo de pulmão, rebaixamento de consciência, sinais de má perfusão.

2) Regularidade

  • Regular favorece TSV por reentrada ou flutter 2:1.
  • Irregularidade significativa sugere outras causas (ex.: fibrilação atrial), mas esse diferencial já deve estar consolidado de capítulos anteriores.

3) Largura do QRS

  • QRS estreito favorece TSV supraventricular com condução normal.
  • QRS largo muda o risco e a abordagem; se ocorrer durante episódio, registre e comunique imediatamente (pode ser aberrância ou taquicardia ventricular).

4) Ondas P (visíveis, ocultas, retrógradas)

  • Procure P antes do QRS (sinusal/taquicardia atrial) vs P ausente/colada no QRS (AVNRT).
  • Use derivações onde P costuma aparecer melhor (ex.: II e V1) ao obter ECG de 12 derivações durante a crise.

5) Início e término

  • Se possível, registre no monitor o momento de início/terminação (tira de ritmo). Início súbito é um dado forte para reentrada.

6) Resposta a medidas simples de monitorização

  • Observe se há relação com postura, esforço, ansiedade, dor.
  • Se o time prescrever manobra vagal ou medicação, documente: horário, ritmo antes/depois, frequência, PA, sintomas e qualquer mudança no padrão (por exemplo, “apareceram ondas F”).

Passo a passo prático para a enfermagem na suspeita de TSV

Passo 1 — Segurança imediata e avaliação rápida

  • Verifique via aérea, respiração, circulação e conecte/garanta monitorização contínua.
  • Meça e registre PA, SpO2, FR, temperatura, nível de consciência e dor.
  • Identifique sinais de instabilidade hemodinâmica e acione o time conforme protocolo institucional.

Passo 2 — Obter ECG durante o episódio (prioridade)

  • Se o paciente estiver estável o suficiente, obtenha ECG de 12 derivações durante a taquicardia (isso aumenta muito a chance de diferenciar AVNRT/AVRT/taquicardia atrial/flutter 2:1).
  • Se não for possível o 12 derivações imediato, imprima/registre tira de ritmo do monitor (com data/hora) e repita após qualquer intervenção.
  • Se o episódio terminar, ainda assim registre um ECG pós-evento e documente a história do início súbito e sintomas.

Passo 3 — Preparar o ambiente e materiais para condutas prescritas

  • Acesso venoso pérvio (preferir calibre adequado e testar refluxo/fluxo).
  • Oxigênio se indicado por saturação/dispneia conforme protocolo.
  • Desfibrilador/cardioversor disponível e checado (cabos, pás/adesivos, gel se aplicável).
  • Materiais de via aérea e aspiração disponíveis em caso de sedação para cardioversão (quando indicada pelo time).
  • Medicações conforme prescrição: preparar com técnica segura, dupla checagem e atenção a contraindicações informadas pelo time.

Passo 4 — Apoio às manobras vagais quando prescritas (e quando apropriado)

Manobras vagais podem ser usadas em TSV regular de QRS estreito em pacientes estáveis, conforme decisão médica e protocolo. Papel da enfermagem: orientar, monitorar e documentar.

  • Posicionar o paciente com segurança (geralmente em decúbito, com monitor e PA pronta).
  • Monitorar continuamente ritmo e sintomas durante a manobra.
  • Registrar tira de ritmo antes/durante/depois, quando possível.
  • Interromper e avisar o time se houver piora clínica (hipotensão, síncope, dor torácica intensa, dessaturação).

Passo 5 — Apoio seguro à terapia medicamentosa prescrita

  • Antes: confirmar ritmo-alvo (regular, QRS estreito), checar PA e perfusão, garantir acesso venoso adequado.
  • Durante: monitorar ECG contínuo, PA seriada, sintomas (dor torácica, dispneia, tontura).
  • Depois: imprimir tira de ritmo e registrar resposta (reversão, redução de FC, “desmascaramento” de ondas atriais).

Passo 6 — Preparar para cardioversão sincronizada quando indicada pelo time

Em TSV com instabilidade hemodinâmica, a cardioversão sincronizada pode ser indicada. A enfermagem atua na preparação e segurança do procedimento.

  • Confirmar que o equipamento está em modo sincronizado (conforme orientação do time) e com adesivos/pás bem posicionados.
  • Garantir jejum quando aplicável e tempo permitir, mas sem atrasar conduta em instabilidade.
  • Preparar e administrar sedação/analgesia conforme prescrição, com monitorização contínua.
  • Manter prontidão para suporte ventilatório e manejo de via aérea.
  • Após o choque: reavaliar sinais vitais, perfusão, dor, e obter ECG/tira de ritmo para documentação.

Erros comuns e como evitar na prática

  • Não registrar o ritmo durante a crise: sempre que possível, priorize ECG de 12 derivações durante o episódio ou pelo menos tira de ritmo antes e após intervenções.
  • Assumir que toda taquicardia regular é “ansiedade”: correlacione com início súbito, frequência alta e ausência de P clara; trate como arritmia até prova em contrário.
  • Ignorar frequência fixa ~150 bpm: pense em flutter 2:1 e procure ondas F; intervenções prescritas podem ajudar a evidenciar o padrão.
  • Focar apenas no traçado e esquecer perfusão: a gravidade é definida por instabilidade clínica; documente sinais de choque e acione suporte rapidamente.

Exemplos práticos de reconhecimento (cenários)

Cenário A — “Começou do nada” com palpitação

Paciente em repouso relata palpitação súbita. Monitor: FC 190, regular, QRS estreito, P não evidente. PA 118/72, consciente, sem dor torácica. Interpretação prática: padrão compatível com TSV por reentrada (ex.: AVNRT). Conduta de enfermagem: obter ECG de 12 derivações durante a crise, monitorar PA/SpO2, preparar acesso venoso e materiais para manobras vagais/medicação conforme prescrição, registrar resposta.

Cenário B — FC ~150 regular e “serrilhado” discreto

Paciente com taquicardia regular a 150 bpm, QRS estreito. Em II e V1 há ondulações repetitivas entre QRS. Interpretação prática: suspeitar de flutter 2:1. Conduta de enfermagem: registrar ECG durante o episódio, comunicar suspeita ao time, monitorar perfusão; se houver intervenção prescrita que aumente bloqueio AV, observar se ondas F ficam mais evidentes e documentar.

Cenário C — Taquicardia com sinais de choque

Paciente com FC 210 regular, QRS estreito, pele fria, confuso, PA 78/40. Interpretação prática: taquicardia com instabilidade. Conduta de enfermagem: acionar emergência/time, preparar cardioversão sincronizada (equipamento, adesivos, acesso venoso, monitorização, suporte de via aérea), obter tira de ritmo rápida sem atrasar a estabilização.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma taquicardia regular de QRS estreito com frequência próxima de 150 bpm, qual conduta de reconhecimento inicial ajuda a diferenciar flutter atrial com condução 2:1 de uma TSV por reentrada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Frequência regular em torno de 150 bpm pode sugerir flutter 2:1. Buscar ondas F (II, III, aVF e V1) e registrar o traçado ajuda no reconhecimento; medidas que aumentam bloqueio AV podem desmascarar as ondas F, sem necessariamente reverter o ritmo.

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