Bradiarritmias no ECG para Enfermagem: bradicardia sinusal, pausas e bloqueios AV

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Bradicardia sinusal

Conceito: bradicardia sinusal é um ritmo que nasce no nó sinusal, porém com frequência baixa. No monitor/leito, o ponto-chave é: o traçado “parece sinusal”, só que lento.

Critérios práticos no ECG

  • Onda P presente e com morfologia sinusal (regular e semelhante batimento a batimento).
  • Relação P:QRS = 1:1 (cada P conduz um QRS).
  • Intervalo PR constante (pode ser normal ou prolongado, se houver bloqueio AV associado).
  • QRS geralmente estreito (a menos que exista bloqueio de ramo prévio).
  • Frequência tipicamente < 60 bpm (em contexto clínico, a relevância depende de sintomas e perfusão).

Quando suspeitar de gravidade (não é “só bradicardia”)

Em bradicardia, a prioridade é reconhecer sinais de baixo débito e instabilidade. Considere gravidade quando houver um ou mais:

  • Hipotensão ou queda sustentada da PA.
  • Alteração do nível de consciência (confusão, sonolência, síncope/presíncope).
  • Dor torácica ou sinais de isquemia.
  • Dispneia/insuficiência cardíaca (crepitações, congestão, edema agudo de pulmão).
  • Sinais de hipoperfusão: pele fria, sudorese, extremidades frias, oligúria, enchimento capilar lento.

Passo a passo prático no leito (segurança)

  1. Confirmar o paciente: checar pulso central/periférico e correlacionar com a FC do monitor (descartar leitura falsa/artefato).
  2. Avaliar perfusão: PA, nível de consciência, dor, dispneia, diurese.
  3. Monitorização contínua e registro de tira de ritmo/ECG conforme rotina do serviço.
  4. Acesso venoso pérvio (preferir calibroso) e checar disponibilidade de oxigênio e aspirador.
  5. Revisar causas reversíveis no contexto (medicações bradicardizantes, hipóxia, distúrbios eletrolíticos, hipotermia, etc.) e comunicar achados.
  6. Se instável: comunicação imediata com equipe médica/RT e preparo para marcapasso transcutâneo conforme protocolo institucional (posicionamento de pás, analgesia/sedação conforme prescrição, checar captura elétrica e mecânica).

Pausa sinusal, parada sinusal e ritmos de escape

Conceito: ocorre quando o nó sinusal falha em disparar temporariamente (pausa) ou por período mais prolongado (parada). O ECG mostra um “buraco” no ritmo: um intervalo sem ondas P e sem QRS (a menos que surja um escape).

Como reconhecer no traçado

  • Pausa sinusal: ausência transitória de atividade sinusal; na prática do leito, descreve-se como uma pausa com retorno do ritmo sinusal.
  • Parada sinusal: pausa mais prolongada, com maior chance de necessidade de escape para manter débito.
  • Escape: batimento/ritmo que surge para “salvar” a perfusão quando o sinusal falha.

Diferenciar pausa sinusal de bloqueio sinoatrial (dica prática)

Na prática, ambos podem aparecer como pausa. Uma dica útil:

  • Bloqueio sinoatrial: a pausa tende a ser um múltiplo do intervalo PP basal (como se um ou mais disparos “não saíssem” do nó).
  • Pausa/parada sinusal: a pausa pode ser não múltipla do PP.

Se você não conseguir medir com precisão no leito, descreva objetivamente: “pausa de X segundos” e se houve escape.

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Ritmos de escape: o que observar

Tipo de escapePQRSFrequência típicaDica prática
JuncionalAusente ou P retrógrada (pode estar antes, dentro ou após QRS)Geralmente estreito~40–60 bpm“QRS estreito sem P sinusal clara” após a pausa
VentricularSem relação com QRSLargo~20–40 bpmMais instável; QRS largo após pausa prolongada

Sinais de gravidade nas pausas

  • Pausa prolongada com sintomas (tontura, síncope, confusão).
  • Escape ventricular lento e QRS largo.
  • Hipotensão ou sinais de baixo débito durante a pausa.

Condutas de segurança no leito

  1. Checar pulso durante o evento (confirmar se há pausa mecânica).
  2. Registrar o evento (tira de ritmo com horário e sintomas).
  3. Monitorização contínua e manter paciente em posição segura (risco de síncope/queda).
  4. Acesso venoso e preparar materiais conforme protocolo para suporte avançado.
  5. Comunicação imediata se pausa sintomática, recorrente ou > 3 segundos (ou conforme protocolo local), ou se houver instabilidade.
  6. Preparo para marcapasso transcutâneo se instabilidade/alto risco, conforme protocolo institucional.

Bloqueio AV de 1º grau

Conceito: é um atraso na condução do átrio para o ventrículo. Não há batimentos “perdidos”: todos conduzem, mas com PR prolongado.

Critérios práticos no ECG

  • Relação P:QRS = 1:1.
  • Intervalo PR > 200 ms (mais de 1 quadrado grande em papel a 25 mm/s; no monitor, use a medida do aparelho quando disponível).
  • PR constante em todos os batimentos.

Armadilhas comuns

  • Confundir com Mobitz I: no 1º grau não há QRS bloqueado.
  • PR longo + bradicardia: pode coexistir com bradicardia sinusal; descreva ambos.

Conduta de enfermagem (foco em segurança)

  • Se assintomático e estável: monitorar, registrar e comunicar conforme rotina.
  • Se houver bradicardia importante ou sintomas: tratar como bradicardia com sinais de baixo débito (avaliar perfusão, acesso venoso, preparo para medidas avançadas conforme protocolo).

Bloqueio AV de 2º grau

Conceito: alguns impulsos atriais não conduzem para os ventrículos. No traçado, isso aparece como onda P “sobrando” (P sem QRS).

Passo a passo para identificar (método rápido)

  1. Procure ondas P regulares (marque mentalmente o “ritmo” atrial).
  2. Veja se toda P tem QRS. Se existir P sem QRS, é bloqueio AV de 2º grau (ou 3º, se dissociação completa).
  3. Meça o PR nos batimentos conduzidos: ele varia progressivamente ou é fixo?
  4. Observe o padrão: queda isolada, padrão repetitivo (ex.: 2:1, 3:1), agrupamento de batimentos.

Mobitz I (Wenckebach)

Ideia central: o nó AV vai “cansando” até falhar um batimento.

  • PR progressivamente aumenta até ocorrer uma P não conduzida (queda do QRS).
  • Após a queda, o ciclo reinicia com PR menor.
  • QRS costuma ser estreito (bloqueio geralmente no nó AV).

Dica visual:vai alongando, alongando… cai”.

Mobitz II

Ideia central: falha súbita de condução, sem aviso no PR.

  • PR constante nos batimentos conduzidos.
  • De repente ocorre P não conduzida (QRS “some”).
  • QRS pode ser largo (bloqueio infranodal), mas pode ser estreito; o risco clínico costuma ser maior.

Dica visual:PR igual… cai do nada”.

Padrões de condução (2:1, 3:1) e como reduzir erro

Quando há padrão 2:1 (uma P conduz, outra não), pode ser difícil diferenciar Mobitz I de II porque há poucos PR para comparar. Estratégia prática:

  • Descreva como “bloqueio AV de 2º grau com condução 2:1”.
  • Procure pistas de maior risco: QRS largo, bradicardia importante, sintomas/instabilidade.
  • Trate como potencialmente grave até avaliação médica, mantendo preparo para marcapasso conforme protocolo.

Sinais de gravidade no BAV de 2º grau

  • Hipotensão, alteração de consciência, dor torácica, insuficiência cardíaca.
  • Bradicardia marcada com pausas e baixo débito.
  • Suspeita de Mobitz II (especialmente com QRS largo) ou condução alta (3:1, 4:1).

Condutas de segurança no leito

  1. Checar pulso e perfusão (há QRS no monitor, mas há pulso efetivo?).
  2. Monitorização contínua e registro de tira de ritmo com o padrão (ex.: “Wenckebach” ou “2:1”).
  3. Acesso venoso e preparo de equipamentos conforme protocolo.
  4. Comunicação imediata se Mobitz II, condução 2:1 sintomática, instabilidade ou piora progressiva.
  5. Preparo para marcapasso transcutâneo conforme protocolo institucional, principalmente em Mobitz II/alto grau.

Bloqueio AV total (3º grau)

Conceito:bloqueio completo entre átrios e ventrículos. O átrio segue seu ritmo (ondas P), e o ventrículo segue um ritmo de escape, sem relação fixa entre eles. Isso é dissociação AV.

Critérios práticos no ECG

  • Ondas P regulares e QRS regulares, porém independentes.
  • Relação P:QRS variável (não é 1:1; o PR muda a cada batimento).
  • Frequência ventricular baixa (dependendo do escape).
  • QRS pode ser estreito (escape juncional) ou largo (escape ventricular).

Como diferenciar de BAV 2º grau (ponto-chave)

  • No BAV 2º grau, existe alguma relação entre P e QRS (há batimentos conduzidos com PR mensurável).
  • No BAV total, não há condução: PR não é fixo e P “atravessa” o traçado sem comandar o QRS.

Sinais de gravidade (frequentes no BAV total)

  • Instabilidade hemodinâmica e baixo débito.
  • Síncope/presíncope (pode ocorrer em pausas longas).
  • Escape ventricular com QRS largo e FC muito baixa.

Condutas de segurança no leito

  1. Reconhecer rapidamente e checar pulso (correlacionar com QRS e perfusão).
  2. Monitorização contínua, PA seriada e oximetria.
  3. Acesso venoso imediato e preparo de medicações/equipamentos conforme protocolo.
  4. Preparar marcapasso transcutâneo conforme protocolo institucional (pás, energia inicial conforme rotina, checar captura elétrica e captura mecânica com pulso/PA).
  5. Comunicação imediata com equipe médica/RT: BAV total é situação de alto risco e frequentemente requer marcapasso temporário.

Quadros comparativos para reduzir erros

Comparação rápida: bradicardia sinusal, pausa sinusal e escapes

RitmoPPRQRSRelação P:QRSAchado-chave
Bradicardia sinusalPresente, sinusalConstanteGeralmente estreito1:1“Sinusal, só que lento”
Pausa/parada sinusalSome durante a pausaSome durante a pausaIntervalo sem P e sem QRS; pode haver escape
Escape juncionalAusente ou retrógradaSe P retrógrada, PR pode ser curto/variávelEstreitoSem 1:1 sinusalSurge após pausa; FC 40–60
Escape ventricularSem relaçãoLargoSem 1:1Mais instável; FC 20–40

Comparação rápida: bloqueios AV

BloqueioPPRQRSRelação P:QRSDica prática
BAV 1º grauPresenteProlongado e constanteGeralmente estreito1:1“Conduz tudo, mas demora”
BAV 2º grau Mobitz IPresenteAumenta progressivamente até cairGeralmente estreitoP:QRS > 1 (há P sem QRS)“Alongando… cai”
BAV 2º grau Mobitz IIPresenteConstante nos conduzidosFrequentemente largo (pode ser estreito)P:QRS > 1“PR igual… cai do nada”
BAV total (3º grau)Presente e regularVariável (sem padrão fixo)Estreito ou largo (escape)Dissociação AV“P e QRS não conversam”

Checklist de comunicação rápida (SBAR enxuto)

S (Situação): “Paciente com bradicardia/bloqueio no monitor, sintomas X.”
B (Background): “Diagnóstico/medicações bradicardizantes/últimos sinais vitais.”
A (Avaliação): “PA __, FC __, SpO2 __, nível de consciência __, dor torácica/dispneia __. Ritmo: __ (ex.: Mobitz II / BAV total).”
R (Recomendação): “Solicito avaliação imediata. Acesso venoso ok, monitor contínuo, preparo para marcapasso transcutâneo conforme protocolo.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um ECG com ondas P regulares e QRS regulares, mas sem relação fixa entre eles (o intervalo PR muda a cada batimento), qual interpretação é a mais adequada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No BAV total (3º grau) há dissociação AV: ondas P e QRS podem ser regulares, porém independentes, com PR variável e sem condução atrioventricular efetiva.

Próximo capitúlo

Ritmos ventriculares e paradas: alerta no ECG e prioridade de ação pela enfermagem

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