Bradicardia sinusal
Conceito: bradicardia sinusal é um ritmo que nasce no nó sinusal, porém com frequência baixa. No monitor/leito, o ponto-chave é: o traçado “parece sinusal”, só que lento.
Critérios práticos no ECG
- Onda P presente e com morfologia sinusal (regular e semelhante batimento a batimento).
- Relação P:QRS = 1:1 (cada P conduz um QRS).
- Intervalo PR constante (pode ser normal ou prolongado, se houver bloqueio AV associado).
- QRS geralmente estreito (a menos que exista bloqueio de ramo prévio).
- Frequência tipicamente < 60 bpm (em contexto clínico, a relevância depende de sintomas e perfusão).
Quando suspeitar de gravidade (não é “só bradicardia”)
Em bradicardia, a prioridade é reconhecer sinais de baixo débito e instabilidade. Considere gravidade quando houver um ou mais:
- Hipotensão ou queda sustentada da PA.
- Alteração do nível de consciência (confusão, sonolência, síncope/presíncope).
- Dor torácica ou sinais de isquemia.
- Dispneia/insuficiência cardíaca (crepitações, congestão, edema agudo de pulmão).
- Sinais de hipoperfusão: pele fria, sudorese, extremidades frias, oligúria, enchimento capilar lento.
Passo a passo prático no leito (segurança)
- Confirmar o paciente: checar pulso central/periférico e correlacionar com a FC do monitor (descartar leitura falsa/artefato).
- Avaliar perfusão: PA, nível de consciência, dor, dispneia, diurese.
- Monitorização contínua e registro de tira de ritmo/ECG conforme rotina do serviço.
- Acesso venoso pérvio (preferir calibroso) e checar disponibilidade de oxigênio e aspirador.
- Revisar causas reversíveis no contexto (medicações bradicardizantes, hipóxia, distúrbios eletrolíticos, hipotermia, etc.) e comunicar achados.
- Se instável: comunicação imediata com equipe médica/RT e preparo para marcapasso transcutâneo conforme protocolo institucional (posicionamento de pás, analgesia/sedação conforme prescrição, checar captura elétrica e mecânica).
Pausa sinusal, parada sinusal e ritmos de escape
Conceito: ocorre quando o nó sinusal falha em disparar temporariamente (pausa) ou por período mais prolongado (parada). O ECG mostra um “buraco” no ritmo: um intervalo sem ondas P e sem QRS (a menos que surja um escape).
Como reconhecer no traçado
- Pausa sinusal: ausência transitória de atividade sinusal; na prática do leito, descreve-se como uma pausa com retorno do ritmo sinusal.
- Parada sinusal: pausa mais prolongada, com maior chance de necessidade de escape para manter débito.
- Escape: batimento/ritmo que surge para “salvar” a perfusão quando o sinusal falha.
Diferenciar pausa sinusal de bloqueio sinoatrial (dica prática)
Na prática, ambos podem aparecer como pausa. Uma dica útil:
- Bloqueio sinoatrial: a pausa tende a ser um múltiplo do intervalo PP basal (como se um ou mais disparos “não saíssem” do nó).
- Pausa/parada sinusal: a pausa pode ser não múltipla do PP.
Se você não conseguir medir com precisão no leito, descreva objetivamente: “pausa de X segundos” e se houve escape.
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Ritmos de escape: o que observar
| Tipo de escape | P | QRS | Frequência típica | Dica prática |
|---|---|---|---|---|
| Juncional | Ausente ou P retrógrada (pode estar antes, dentro ou após QRS) | Geralmente estreito | ~40–60 bpm | “QRS estreito sem P sinusal clara” após a pausa |
| Ventricular | Sem relação com QRS | Largo | ~20–40 bpm | Mais instável; QRS largo após pausa prolongada |
Sinais de gravidade nas pausas
- Pausa prolongada com sintomas (tontura, síncope, confusão).
- Escape ventricular lento e QRS largo.
- Hipotensão ou sinais de baixo débito durante a pausa.
Condutas de segurança no leito
- Checar pulso durante o evento (confirmar se há pausa mecânica).
- Registrar o evento (tira de ritmo com horário e sintomas).
- Monitorização contínua e manter paciente em posição segura (risco de síncope/queda).
- Acesso venoso e preparar materiais conforme protocolo para suporte avançado.
- Comunicação imediata se pausa sintomática, recorrente ou > 3 segundos (ou conforme protocolo local), ou se houver instabilidade.
- Preparo para marcapasso transcutâneo se instabilidade/alto risco, conforme protocolo institucional.
Bloqueio AV de 1º grau
Conceito: é um atraso na condução do átrio para o ventrículo. Não há batimentos “perdidos”: todos conduzem, mas com PR prolongado.
Critérios práticos no ECG
- Relação P:QRS = 1:1.
- Intervalo PR > 200 ms (mais de 1 quadrado grande em papel a 25 mm/s; no monitor, use a medida do aparelho quando disponível).
- PR constante em todos os batimentos.
Armadilhas comuns
- Confundir com Mobitz I: no 1º grau não há QRS bloqueado.
- PR longo + bradicardia: pode coexistir com bradicardia sinusal; descreva ambos.
Conduta de enfermagem (foco em segurança)
- Se assintomático e estável: monitorar, registrar e comunicar conforme rotina.
- Se houver bradicardia importante ou sintomas: tratar como bradicardia com sinais de baixo débito (avaliar perfusão, acesso venoso, preparo para medidas avançadas conforme protocolo).
Bloqueio AV de 2º grau
Conceito: alguns impulsos atriais não conduzem para os ventrículos. No traçado, isso aparece como onda P “sobrando” (P sem QRS).
Passo a passo para identificar (método rápido)
- Procure ondas P regulares (marque mentalmente o “ritmo” atrial).
- Veja se toda P tem QRS. Se existir P sem QRS, é bloqueio AV de 2º grau (ou 3º, se dissociação completa).
- Meça o PR nos batimentos conduzidos: ele varia progressivamente ou é fixo?
- Observe o padrão: queda isolada, padrão repetitivo (ex.: 2:1, 3:1), agrupamento de batimentos.
Mobitz I (Wenckebach)
Ideia central: o nó AV vai “cansando” até falhar um batimento.
- PR progressivamente aumenta até ocorrer uma P não conduzida (queda do QRS).
- Após a queda, o ciclo reinicia com PR menor.
- QRS costuma ser estreito (bloqueio geralmente no nó AV).
Dica visual: “vai alongando, alongando… cai”.
Mobitz II
Ideia central: falha súbita de condução, sem aviso no PR.
- PR constante nos batimentos conduzidos.
- De repente ocorre P não conduzida (QRS “some”).
- QRS pode ser largo (bloqueio infranodal), mas pode ser estreito; o risco clínico costuma ser maior.
Dica visual: “PR igual… cai do nada”.
Padrões de condução (2:1, 3:1) e como reduzir erro
Quando há padrão 2:1 (uma P conduz, outra não), pode ser difícil diferenciar Mobitz I de II porque há poucos PR para comparar. Estratégia prática:
- Descreva como “bloqueio AV de 2º grau com condução 2:1”.
- Procure pistas de maior risco: QRS largo, bradicardia importante, sintomas/instabilidade.
- Trate como potencialmente grave até avaliação médica, mantendo preparo para marcapasso conforme protocolo.
Sinais de gravidade no BAV de 2º grau
- Hipotensão, alteração de consciência, dor torácica, insuficiência cardíaca.
- Bradicardia marcada com pausas e baixo débito.
- Suspeita de Mobitz II (especialmente com QRS largo) ou condução alta (3:1, 4:1).
Condutas de segurança no leito
- Checar pulso e perfusão (há QRS no monitor, mas há pulso efetivo?).
- Monitorização contínua e registro de tira de ritmo com o padrão (ex.: “Wenckebach” ou “2:1”).
- Acesso venoso e preparo de equipamentos conforme protocolo.
- Comunicação imediata se Mobitz II, condução 2:1 sintomática, instabilidade ou piora progressiva.
- Preparo para marcapasso transcutâneo conforme protocolo institucional, principalmente em Mobitz II/alto grau.
Bloqueio AV total (3º grau)
Conceito: há bloqueio completo entre átrios e ventrículos. O átrio segue seu ritmo (ondas P), e o ventrículo segue um ritmo de escape, sem relação fixa entre eles. Isso é dissociação AV.
Critérios práticos no ECG
- Ondas P regulares e QRS regulares, porém independentes.
- Relação P:QRS variável (não é 1:1; o PR muda a cada batimento).
- Frequência ventricular baixa (dependendo do escape).
- QRS pode ser estreito (escape juncional) ou largo (escape ventricular).
Como diferenciar de BAV 2º grau (ponto-chave)
- No BAV 2º grau, existe alguma relação entre P e QRS (há batimentos conduzidos com PR mensurável).
- No BAV total, não há condução: PR não é fixo e P “atravessa” o traçado sem comandar o QRS.
Sinais de gravidade (frequentes no BAV total)
- Instabilidade hemodinâmica e baixo débito.
- Síncope/presíncope (pode ocorrer em pausas longas).
- Escape ventricular com QRS largo e FC muito baixa.
Condutas de segurança no leito
- Reconhecer rapidamente e checar pulso (correlacionar com QRS e perfusão).
- Monitorização contínua, PA seriada e oximetria.
- Acesso venoso imediato e preparo de medicações/equipamentos conforme protocolo.
- Preparar marcapasso transcutâneo conforme protocolo institucional (pás, energia inicial conforme rotina, checar captura elétrica e captura mecânica com pulso/PA).
- Comunicação imediata com equipe médica/RT: BAV total é situação de alto risco e frequentemente requer marcapasso temporário.
Quadros comparativos para reduzir erros
Comparação rápida: bradicardia sinusal, pausa sinusal e escapes
| Ritmo | P | PR | QRS | Relação P:QRS | Achado-chave |
|---|---|---|---|---|---|
| Bradicardia sinusal | Presente, sinusal | Constante | Geralmente estreito | 1:1 | “Sinusal, só que lento” |
| Pausa/parada sinusal | Some durante a pausa | — | Some durante a pausa | — | Intervalo sem P e sem QRS; pode haver escape |
| Escape juncional | Ausente ou retrógrada | Se P retrógrada, PR pode ser curto/variável | Estreito | Sem 1:1 sinusal | Surge após pausa; FC 40–60 |
| Escape ventricular | Sem relação | — | Largo | Sem 1:1 | Mais instável; FC 20–40 |
Comparação rápida: bloqueios AV
| Bloqueio | P | PR | QRS | Relação P:QRS | Dica prática |
|---|---|---|---|---|---|
| BAV 1º grau | Presente | Prolongado e constante | Geralmente estreito | 1:1 | “Conduz tudo, mas demora” |
| BAV 2º grau Mobitz I | Presente | Aumenta progressivamente até cair | Geralmente estreito | P:QRS > 1 (há P sem QRS) | “Alongando… cai” |
| BAV 2º grau Mobitz II | Presente | Constante nos conduzidos | Frequentemente largo (pode ser estreito) | P:QRS > 1 | “PR igual… cai do nada” |
| BAV total (3º grau) | Presente e regular | Variável (sem padrão fixo) | Estreito ou largo (escape) | Dissociação AV | “P e QRS não conversam” |
Checklist de comunicação rápida (SBAR enxuto)
S (Situação): “Paciente com bradicardia/bloqueio no monitor, sintomas X.”
B (Background): “Diagnóstico/medicações bradicardizantes/últimos sinais vitais.”
A (Avaliação): “PA __, FC __, SpO2 __, nível de consciência __, dor torácica/dispneia __. Ritmo: __ (ex.: Mobitz II / BAV total).”
R (Recomendação): “Solicito avaliação imediata. Acesso venoso ok, monitor contínuo, preparo para marcapasso transcutâneo conforme protocolo.”