O que um switch faz no CFTV IP (e por que ele vira gargalo)
No CFTV IP, o switch é o “ponto de encontro” do tráfego: cada câmera envia vídeo pela rede e o switch precisa receber, comutar e encaminhar esses pacotes para o NVR/servidor, para um uplink (outro switch/roteador) e, às vezes, para estações de monitoramento. Se o switch não tiver capacidade suficiente, surgem sintomas típicos: travamentos no ao vivo, perda de frames, câmeras “offline” intermitentes e gravações com falhas.
Selecionar um switch para CFTV não é só contar portas. É avaliar: quantidade de portas e uplinks, capacidade de comutação (backplane), taxa de encaminhamento (forwarding rate), suporte a jumbo frames quando fizer sentido, e recursos de gerenciamento que ajudam a isolar e estabilizar o tráfego de vídeo.
Checklist de seleção: o que olhar na ficha técnica
1) Número de portas (e tipo: 10/100 vs Gigabit)
- Portas para câmeras: conte quantas câmeras vão entrar naquele switch e reserve folga (ex.: 8 câmeras → switch de 10/16 portas, dependendo do crescimento).
- Velocidade: prefira Gigabit (10/100/1000). Switch 10/100 pode funcionar em projetos pequenos, mas limita uplinks e pode virar gargalo quando várias câmeras somam tráfego (principalmente com NVR remoto, múltiplos clientes ou câmeras de maior bitrate).
- Portas PoE: se as câmeras forem PoE, verifique quantas portas PoE existem (nem sempre todas as portas são PoE) e o orçamento de potência (PoE budget). Mesmo que o foco aqui seja comutação, em CFTV PoE é parte crítica da escolha.
2) Uplinks: como o tráfego sai do switch
Uplink é a porta que liga o switch ao NVR, a outro switch ou ao restante da rede. Em CFTV, o uplink costuma concentrar o tráfego de todas as câmeras daquele switch.
- Uplink Gigabit dedicado: ideal quando as portas de câmera são 10/100. Assim, o “funil” de saída é maior.
- 2 uplinks: útil para topologias em cascata (um switch alimenta outro) ou para separar rede de CFTV e rede corporativa (quando houver VLAN/roteamento).
- SFP/SFP+ (fibra): relevante em distâncias maiores ou quando você precisa de backbone mais robusto (1G/10G).
3) Capacidade de comutação (backplane / switching capacity)
A capacidade de comutação (geralmente em Gbps) indica quanto tráfego o switch consegue comutar internamente somando todas as portas. Uma regra prática para não ficar apertado é buscar um switch non-blocking (sem bloqueio), cuja capacidade de comutação seja próxima do total teórico de portas em full-duplex.
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Switching capacity (Gbps) ≈ soma das velocidades das portas (Gbps) × 2 (full-duplex)Exemplo: switch 8 portas Gigabit: 8 × 1 Gbps × 2 = 16 Gbps de switching capacity para ser “non-blocking” em teoria.
Na prática, CFTV raramente satura todas as portas ao máximo, mas escolher um backplane muito baixo é receita para engasgos quando houver picos, múltiplos streams, acesso remoto e tráfego de gerenciamento.
4) Taxa de encaminhamento (forwarding rate / packet forwarding)
Além de Gbps, switches também têm limite de pacotes por segundo (pps ou Mpps). Vídeo IP gera muitos pacotes pequenos/variáveis; se o switch tiver baixa taxa de encaminhamento, pode sofrer mesmo sem “bater” o Gbps.
Regra prática: para switches Gigabit, procure modelos com forwarding rate compatível com operação non-blocking (o fabricante costuma indicar). Se a ficha técnica só trouxer números, compare modelos: maior Mpps tende a lidar melhor com múltiplos fluxos simultâneos.
5) Jumbo frames (quando faz sentido)
Jumbo frames aumentam o MTU (ex.: 9000 bytes), reduzindo overhead de cabeçalhos e carga de CPU em alguns cenários. Em CFTV, pode ajudar em redes com tráfego pesado e equipamentos que suportam bem MTU maior (câmeras, NVR, switches e eventualmente NICs do servidor).
- Use jumbo frames somente se: todos os equipamentos no caminho suportarem e você conseguir configurar de ponta a ponta (câmera → switch → NVR/servidor).
- Se misturar MTU: pode causar fragmentação, perda de desempenho ou problemas intermitentes difíceis de diagnosticar.
- Na dúvida: mantenha MTU padrão (1500) e invista em uplinks/backplane adequados.
6) Limitações de switches domésticos (e por que evitá-los)
Switches “domésticos” ou muito baratos podem funcionar em laboratório, mas em CFTV costumam falhar por:
- Backplane/forwarding reduzidos (gargalo com várias câmeras).
- Buffers pequenos (perda de pacotes em microcongestionamentos).
- Sem recursos de controle (VLAN, IGMP snooping, QoS) para estabilizar cenários reais.
- Construção/temperatura (ambientes quentes, racks fechados, PoE aquecendo o equipamento).
Switch não gerenciável vs gerenciável: qual escolher
Switch não gerenciável (unmanaged)
É “plug and play”: você liga e ele comuta. É aceitável quando:
- Projeto pequeno e simples (poucas câmeras, sem multicast, sem necessidade de segmentação).
- Rede dedicada só para CFTV, sem mistura com rede corporativa.
- Você quer reduzir complexidade e não precisa de monitoramento.
Limitações: sem VLAN, sem IGMP snooping configurável (ou inexistente), sem QoS, sem espelhamento de porta (port mirroring) para diagnóstico, sem estatísticas detalhadas.
Switch gerenciável (managed / smart)
Permite configurar e monitorar. Em CFTV, costuma valer a pena quando há mais câmeras, rede compartilhada, múltiplos switches ou necessidade de previsibilidade.
Recursos úteis:
- VLAN: separa CFTV do restante da rede, reduz broadcast e melhora segurança/organização. Ex.: VLAN 20 para câmeras, VLAN 10 para rede administrativa.
- IGMP Snooping (multicast): essencial quando o sistema usa multicast (por exemplo, um stream sendo “assistido” por vários clientes). Sem IGMP snooping, multicast pode virar “quase broadcast” e inundar portas, causando travamentos.
- QoS básico: prioriza tráfego de vídeo/RTSP/ONVIF ou prioriza portas onde estão NVR e câmeras, reduzindo impacto de tráfego concorrente.
- Port mirroring: espelha tráfego de uma porta para análise (Wireshark), útil para diagnosticar perda de pacotes, renegociação de link, etc.
- Storm control: limita broadcast/multicast desconhecido para evitar tempestades que derrubam câmeras.
Passo a passo prático para dimensionar um switch de CFTV
Passo 1: liste câmeras e bitrates reais
Monte uma tabela simples com quantidade de câmeras e o bitrate médio esperado por câmera (em Mbps). Use o valor configurado (CBR) ou uma média realista (VBR) com folga.
| Item | Qtd | Bitrate por câmera (Mbps) | Total (Mbps) |
|---|---|---|---|
| Câmeras | N | B | N × B |
Dica de folga: some 20% a 30% para picos, overhead e acessos simultâneos.
Passo 2: defina a topologia (onde está o NVR?)
- NVR no mesmo switch: o tráfego das câmeras vai para a porta do NVR dentro do mesmo switch. A porta do NVR deve ser Gigabit (ou superior) e o switch deve ter backplane/forwarding adequados.
- NVR em outro switch (uplink): todo o tráfego passa pelo uplink. Aqui, uplink Gigabit (ou 10G em projetos maiores) é crítico.
- Cascata de switches: evite “empilhar” muitos switches em série; o uplink vira gargalo e aumenta latência/congestionamento.
Passo 3: escolha portas e uplinks com base no total de Mbps
Compare o total de tráfego (com folga) com a capacidade do uplink e com o cenário de leitura simultânea (clientes acessando ao vivo).
- Uplink 1 Gbps: confortável para dezenas a centenas de Mbps, desde que não haja múltiplos uplinks saturando e o switch seja decente.
- Uplink 10 Gbps: indicado quando você concentra muitos switches/câmeras em um core, ou quando há múltiplos NVRs/servidores e muitos clientes.
Passo 4: valide backplane e forwarding rate
Depois de escolher o “formato” (8/16/24 portas, uplinks), confirme:
- Switching capacity coerente com as portas (idealmente non-blocking).
- Forwarding rate compatível (evita gargalo por pps).
Passo 5: decida se precisa de gerenciamento (VLAN/IGMP/QoS)
Use estas perguntas rápidas:
- Vai misturar CFTV com rede de dados? → VLAN ajuda muito.
- Vai ter visualização em vários computadores/TVs, video wall, ou distribuição de stream via multicast? → IGMP snooping é altamente recomendado.
- Há risco de tráfego concorrente (backup, Wi-Fi pesado, downloads) afetar o vídeo? → QoS e/ou VLAN dedicada.
Exemplos de dimensionamento (4 / 8 / 16 câmeras)
Os exemplos abaixo assumem câmeras com bitrate médio de 6 Mbps cada (ajuste para sua realidade) e adicionam 30% de folga.
Exemplo A: 4 câmeras
- Tráfego: 4 × 6 = 24 Mbps; com 30% → ~31 Mbps.
- Switch indicado: 8 portas Gigabit (ou 5/8 portas, se não houver expansão), preferencialmente com 1 porta para NVR e folga para manutenção.
- Gerenciável? opcional. Se a rede for compartilhada, prefira “smart managed” para VLAN/QoS.
- Backplane/forwarding: escolha modelo com especificações compatíveis com portas Gigabit (evite os muito genéricos sem ficha técnica clara).
Exemplo B: 8 câmeras
- Tráfego: 8 × 6 = 48 Mbps; com 30% → ~62 Mbps.
- Switch indicado: 16 portas Gigabit (ou 8 portas se não houver expansão e o NVR estiver no mesmo switch, mas 16 dá folga).
- Uplink: se o NVR estiver em outro ponto, garanta uplink Gigabit dedicado (ou 2 uplinks, se houver cascata).
- Gerenciável? recomendado se houver rede compartilhada, múltiplos visualizadores ou necessidade de isolar CFTV via VLAN.
Exemplo C: 16 câmeras
- Tráfego: 16 × 6 = 96 Mbps; com 30% → ~125 Mbps.
- Switch indicado: 24 portas Gigabit (ou 16 portas com folga mínima, mas 24 facilita expansão e organização).
- Uplink: Gigabit geralmente atende, mas avalie: se houver vários clientes assistindo simultaneamente e o NVR estiver fora do switch, o uplink pode se aproximar do limite. Em topologias com mais switches “pendurados” em um core, considere core com uplinks 10G.
- Gerenciável? fortemente recomendado: VLAN para segmentar, QoS para priorizar vídeo, IGMP snooping se houver multicast.
- Backplane/forwarding: aqui faz diferença escolher switch com especificações robustas e buffers adequados.
Cenários comuns e escolhas recomendadas
Rede dedicada para CFTV (mais simples)
- Switch pode ser não gerenciável em projetos pequenos.
- Em projetos médios/grandes, gerenciável ajuda a monitorar portas, erros, renegociação e consumo.
Rede compartilhada com dados (mais comum em empresas)
- Use VLAN para câmeras e para NVR/monitoramento.
- QoS para reduzir impacto de tráfego concorrente.
- Prefira switches gerenciáveis e evite switches domésticos no caminho do vídeo.
Multicast (quando vários clientes assistem o mesmo stream)
- Ative IGMP snooping no(s) switch(es) e garanta que exista um IGMP querier no domínio (normalmente roteador/L3 switch), quando necessário.
- Sem IGMP snooping, o multicast pode inundar portas e derrubar desempenho.
Resumo técnico do que conferir antes de comprar (lista rápida)
- Portas suficientes (com folga) e preferência por Gigabit.
- Uplink(s) adequados (1G/10G, SFP quando necessário).
- Switching capacity (backplane) coerente com o total de portas (idealmente non-blocking).
- Forwarding rate (Mpps) compatível com a classe do switch.
- Gerenciável quando precisar de VLAN/IGMP/QoS/monitoramento.
- Jumbo frames apenas se for configurar end-to-end e houver benefício claro.
- Evitar switches domésticos em instalações com várias câmeras, PoE e operação 24/7.