Suplementos na nutrição esportiva para iniciantes: o que vale a pena e o que não é necessário

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que são suplementos (e o que eles não são)

Suplementos são produtos concentrados (em pó, cápsulas, bebidas) usados para complementar a alimentação quando existe uma necessidade prática: facilitar o consumo de nutrientes, melhorar desempenho em situações específicas ou corrigir lacunas difíceis de cobrir no dia a dia. Eles não “compensam” uma rotina inconsistente, sono ruim ou ingestão inadequada de comida de verdade.

Para iniciantes, a regra é simples: primeiro ajuste o básico (quantidade total de proteína, carboidratos ao redor do treino, hidratação, regularidade). Depois, se ainda houver um motivo claro, escolha suplementos com evidência e boa segurança.

O que costuma valer a pena (utilidade + segurança)

1) Whey e alternativas proteicas (quando faz diferença)

Para que serve: aumentar a ingestão diária de proteína de forma prática, especialmente quando falta tempo, apetite ou opção de refeição.

Quando faz diferença:

  • Você frequentemente “não bate” sua meta de proteína no dia.
  • Você precisa de uma opção rápida (pós-treino no trabalho, viagem, rotina corrida).
  • Você tem dificuldade de mastigar/consumir alimentos proteicos em certas horas.

Quando é dispensável:

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  • Você já atinge sua proteína diária com alimentos sem esforço.
  • Você prefere investir em alimentos (ovos, iogurte, carnes, leguminosas) e isso funciona para sua rotina.

Alternativas ao whey: proteína vegetal (ervilha, arroz, blends), caseína (mais lenta), proteína do leite (milk protein), iogurte proteico pronto. Para intolerância à lactose, procure whey isolado (geralmente com menos lactose) ou opções vegetais.

Como escolher e usar (passo a passo)

  1. Defina o objetivo: “quero completar proteína do dia” (não “quero tomar whey porque treino”).
  2. Leia o rótulo por porção: procure algo como 20–30 g de proteína por dose, com poucos ingredientes extras.
  3. Cheque carboidratos e gorduras: não é “errado” ter, mas se o objetivo é proteína, prefira versões com menos açúcar adicionado.
  4. Observe adoçantes e espessantes: se você tem desconforto gastrointestinal, teste marcas/sabores diferentes ou reduza a dose.
  5. Dose usual: 1 porção (geralmente 25–35 g de pó) para entregar ~20–30 g de proteína, conforme o produto.
  6. Horário: o mais importante é caber no seu dia; pode ser no café da manhã, lanche, pós-treino ou antes de dormir.

2) Creatina (o suplemento com melhor custo-benefício para força)

Para que serve: aumentar a disponibilidade de energia rápida no músculo (sistema fosfocreatina), ajudando em desempenho de esforços curtos e repetidos (séries, sprints) e favorecendo ganho de força e massa magra ao longo do tempo.

Quando faz diferença:

  • Você faz musculação ou treino com tiros/alta intensidade e quer melhorar performance e progressão de cargas.
  • Você treina com consistência (a creatina funciona melhor como “base” diária).

Quando pode ser dispensável:

  • Você está começando e ainda não tem regularidade (o maior ganho virá de treinar e comer bem).
  • Seu foco é apenas atividade leve/moderada sem progressão de intensidade.

Segurança: em pessoas saudáveis, é considerada segura nas doses usuais. Pode haver aumento de peso por maior retenção de água intramuscular (não é gordura). Quem tem doença renal prévia deve conversar com profissional de saúde antes.

Como usar (passo a passo)

  1. Escolha o tipo: prefira creatina monohidratada (mais estudada).
  2. Dose usual: 3–5 g por dia.
  3. Horário: qualquer horário; escolha um que você não esqueça (ex.: junto do almoço).
  4. Consistência: use diariamente; não é “pré-treino” obrigatório.
  5. Hidratação: mantenha ingestão adequada de água, especialmente se você sua muito.

3) Cafeína (quando o objetivo é desempenho e foco)

Para que serve: aumentar alerta, reduzir percepção de esforço e melhorar desempenho em vários tipos de treino (força e endurance), principalmente quando você está cansado ou o treino é exigente.

Quando faz diferença:

  • Treinos intensos em que você quer “render mais”.
  • Você treina cedo e sente sonolência (desde que não prejudique o sono depois).

Quando é dispensável (ou não vale o custo):

  • Você já tem boa energia sem estimulantes.
  • Você treina à noite e a cafeína piora seu sono.
  • Você tem ansiedade, palpitações, refluxo ou alta sensibilidade.

Cuidados importantes: cafeína é dose-dependente. Mais não é melhor. Pode causar tremor, taquicardia, irritabilidade, desconforto gastrointestinal e piora do sono.

Como usar com segurança (passo a passo)

  1. Comece baixo: teste 50–100 mg para avaliar sensibilidade.
  2. Dose usual para efeito: muitas pessoas usam 1–3 mg/kg (ex.: 70 kg → 70–210 mg). Doses maiores aumentam efeitos colaterais.
  3. Timing: 30–60 min antes do treino.
  4. Regra do sono: evite cafeína nas 6–8 horas antes de dormir (algumas pessoas precisam de mais).
  5. Fontes contam: café, chá, energéticos, pré-treinos e até chocolate somam cafeína total do dia.

4) Eletrólitos (úteis em cenários específicos)

Para que servem: repor principalmente sódio (e também potássio, magnésio) em situações de suor elevado, ajudando a manter desempenho e reduzir risco de cãibras relacionadas à perda de sal em alguns casos.

Quando fazem diferença:

  • Treinos longos (especialmente em calor/umidade) com muito suor.
  • Você termina o treino com roupa encharcada, marcas de sal na pele/roupa, dor de cabeça ou queda de rendimento compatível com perda de eletrólitos.
  • Você faz duas sessões no dia e precisa recuperar mais rápido.

Quando são dispensáveis:

  • Treinos curtos/moderados em clima ameno, com alimentação normal.
  • Você já usa bebidas/alimentos salgados e não tem sinais de grande perda de suor.

Como escolher (passo a passo)

  1. Priorize sódio: para reposição no treino, o sódio costuma ser o eletrólito mais relevante.
  2. Evite “isotônico” com muito açúcar se não precisar: carboidrato pode ser útil em treinos longos, mas não é obrigatório em treinos curtos.
  3. Cheque a quantidade por porção: produtos variam muito; compare rótulos e escolha conforme seu suor e duração do treino.
  4. Teste no treino, não no dia de prova: para evitar desconforto gastrointestinal.

O que geralmente não é necessário para iniciantes (ou exige cautela)

Pré-treinos “complexos”

Muitos combinam cafeína alta com estimulantes e doses pequenas de ingredientes “da moda”. Para iniciantes, costuma ser melhor controlar a cafeína (se for usar) e não depender de fórmulas proprietárias.

BCAA isolado

Se você já consome proteína suficiente ao longo do dia (alimentos ou whey), BCAA isolado tende a ser redundante. O que constrói músculo é o total de proteína e o treino consistente.

“Queimadores”, detox, diuréticos

Frequentemente prometem perda rápida de peso via estimulantes/diurese, com risco de efeitos colaterais e pouca utilidade para performance e composição corporal sustentável.

Como avaliar rótulos e qualidade (checklist prático)

  • Lista de ingredientes: quanto mais simples, melhor. Desconfie de “blends” sem quantidades claras.
  • Tabela nutricional por porção: compare proteína/carboidrato/gordura e calorias com seu objetivo.
  • Porção realista: veja quantos scoops equivalem à porção e quantas porções há no pote (custo por dose).
  • Teor de cafeína declarado: em pré-treinos, prefira produtos que informem mg por dose.
  • Alergênicos: leite, soja, glúten (quando relevante), adoçantes que te fazem mal.
  • Promessas exageradas: “anabólico”, “seca em 7 dias”, “sem dieta” são sinais de marketing, não de evidência.

Guia de decisão: “se a alimentação já cobre X, não precisa de Y”

Se você já cobre…Provavelmente não precisa…Quando ainda pode fazer sentido
Proteína diária com refeições (sem dificuldade)Whey/proteína em póPraticidade em dias corridos, viagens, falta de apetite
Energia e foco bons para treinarCafeína/pré-treinoTreinos-chave, dias de cansaço, estratégia pontual
Treinos curtos/moderados e pouco suorEletrólitosCalor intenso, suor alto, sessões longas ou duplas
Você ainda não treina com consistênciaCreatina (como prioridade)Quando a rotina estabilizar e você quiser otimizar força/progressão
Proteína adequada no diaBCAACasos muito específicos com baixa ingestão proteica (raros na prática)

Montando sua estratégia mínima (sem complicar)

Passo a passo para decidir em 10 minutos

  1. Escolha 1 objetivo principal agora: (a) bater proteína do dia, (b) melhorar força/performance, (c) ter mais disposição, (d) lidar com suor alto.
  2. Veja qual gargalo é real: falta comida? falta tempo? falta sono? falta consistência? Suplemento não resolve sono e rotina.
  3. Selecione no máximo 1 suplemento por vez por 2–4 semanas para avaliar efeito e tolerância.
  4. Defina dose e horário fixos (ex.: creatina no almoço; whey no lanche; cafeína só em treinos específicos; eletrólitos apenas em treinos longos/calor).
  5. Monitore 3 sinais: desempenho (cargas/ritmo), recuperação (dor/fadiga), efeitos colaterais (sono, estômago, ansiedade).

Exemplos práticos (iniciante)

  • “Não consigo comer proteína no café da manhã”: 1 shake com whey ou proteína vegetal + fruta; objetivo é fechar proteína do dia, não “tomar pós-treino”.
  • “Treino força 4x/semana e quero evoluir cargas”: creatina 3–5 g/dia, todos os dias, por pelo menos 8–12 semanas.
  • “Treino cedo e fico sonolento, mas durmo bem”: testar 100 mg de cafeína 30–45 min antes; se o sono piorar, reduzir dose ou retirar.
  • “Corro no calor e suo muito”: usar bebida com eletrólitos (foco em sódio) durante ou após; ajustar conforme tolerância gastrointestinal.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Para um iniciante, qual estratégia está mais alinhada com o uso adequado de suplementos segundo o conteúdo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O foco inicial deve ser ajustar o básico (proteína total, carboidratos ao redor do treino, hidratação e regularidade). Suplementos só entram depois, para atender uma necessidade prática e com escolhas seguras e baseadas em evidência.

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