Nutrição esportiva e digestão: desconfortos comuns e como ajustar o pré e pós

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que a digestão atrapalha (ou ajuda) o treino

Desconfortos gastrointestinais no treino quase sempre aparecem por uma combinação de o que você comeu, quanto comeu e com quanto tempo de antecedência. Durante o exercício, parte do fluxo sanguíneo é “desviado” do sistema digestivo para os músculos, e isso pode deixar a digestão mais lenta e sensível. Resultado: alimentos que seriam toleráveis em repouso podem causar sintomas quando você treina.

O objetivo aqui não é “comer perfeito”, e sim reduzir atrito: escolher opções mais fáceis de digerir, ajustar porções e timing, e testar de forma organizada até encontrar o seu padrão.

Mapa rápido: sintoma → causas prováveis → ajustes

SintomaCausas comuns ligadas à alimentação/timingAjustes práticos (pré e/ou pós)
Azia/refluxoRefeição grande perto do treino; muita gordura; café em jejum; alimentos muito ácidos/picantes; deitar logo após comerReduzir gordura e volume no pré; evitar café em jejum; escolher carboidratos simples; manter postura mais ereta após comer; dar mais tempo entre refeição e treino
EnjooTreinar com estômago muito cheio; bebidas muito concentradas (muito açúcar); excesso de cafeína; calor; ansiedadePorções menores; líquidos em goles; reduzir concentração de carboidrato em bebida; ajustar cafeína; preferir alimentos “secos” e simples
Estufamento/gasesMuita fibra perto do treino; leguminosas; vegetais crus; adoçantes poliol (xilitol, sorbitol); bebidas com gás; lactose (em sensíveis)Diminuir fibra no pré; trocar cru por cozido; evitar refrigerante/água com gás; testar versões sem lactose; reduzir adoçantes
Diarreia/urgênciaExcesso de cafeína; muita gordura; muita fibra; alimentos muito condimentados; intolerâncias; nervosismo; gel/bebida muito concentradaCortar gordura/fibra no pré; reduzir cafeína; evitar “novidades” no dia; diluir bebida; testar alimentos de baixo resíduo
Falta de apetite (pós ou ao longo do dia)Treino muito intenso; calor; desidratação; refeições muito grandes antes; náusea residualUsar opções líquidas no pós; porções menores e mais frequentes; alimentos frios/mais palatáveis; priorizar hidratação e algo leve primeiro

O que mais costuma “pesar” no estômago (e como ajustar)

1) Gordura alta perto do treino

Gordura tende a retardar o esvaziamento gástrico, aumentando a chance de azia, enjoo e sensação de peso.

  • Se você tem azia/enjoo: reduza frituras, queijos gordos, molhos cremosos, castanhas em grande quantidade e chocolate no pré.
  • Troca simples: em vez de sanduíche com maionese e queijo amarelo, use pão + peito de peru/frango desfiado + um fio pequeno de azeite (ou sem azeite no pré).

2) Fibra e “alto volume” muito perto do treino

Fibra é ótima no dia a dia, mas perto do treino pode aumentar gases, estufamento e urgência intestinal, especialmente em corrida e treinos com impacto.

  • Reduza no pré: saladas grandes, vegetais crus, feijão/lentilha/grão-de-bico, granola rica em fibra, pão integral muito “pesado”.
  • Prefira no pré: versões mais simples e cozidas (ex.: batata cozida, arroz, pão branco/tapioca, banana madura).
  • Deixe a fibra para longe do treino: em refeições mais distantes (por exemplo, almoço se você treina à noite, ou jantar se você treina de manhã).

3) Carboidratos difíceis para você (tipo e forma)

Nem todo carboidrato “cai” igual. Alguns formatos são mais fáceis: alimentos com pouca gordura e pouca fibra, e com textura simples.

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  • Mais fáceis (em geral): banana madura, pão branco, tapioca, arroz, batata, creme de arroz, aveia bem cozida em pequena porção (para alguns), iogurte sem lactose (para tolerantes).
  • Podem dar problema em sensíveis: maçã/pera (mais frutose), grandes volumes de leite comum, barras “fit” com adoçantes poliol, grandes quantidades de suco.

4) Líquidos: pouco, demais, ou na hora errada

Beber muito de uma vez pode causar “chacoalho” e enjoo; beber pouco pode piorar náusea e reduzir desempenho. Bebidas muito doces/concentradas também podem puxar água para o intestino e aumentar risco de diarreia.

  • Estratégia simples: dividir em goles ao longo do aquecimento e do treino, em vez de “virar” uma garrafa.
  • Se dá diarreia com bebida doce: dilua (mais água, menos pó/suco) e teste novamente.
  • Se dá estufamento: evite bebidas com gás e excesso de canudo (engole mais ar).

5) Cafeína: dose e timing

Cafeína pode ajudar no foco, mas é um gatilho comum de azia, urgência intestinal e ansiedade.

  • Se você tem azia: evite café em jejum e reduza a dose; teste tomar junto de um pequeno lanche.
  • Se você tem diarreia: reduza dose e evite combinar café + alimentos muito gordurosos.
  • Regra prática de teste: comece com meia dose do que você costuma usar e observe por 3 treinos antes de aumentar.

Soluções práticas por sintoma (pré e pós)

Azia/refluxo

  • Pré: diminuir gordura e volume; evitar molho de tomate/pimenta/cítricos se forem gatilhos; dar mais tempo entre refeição e treino.
  • Timing: se você precisa comer perto do treino, prefira um lanche pequeno e mais “seco” (ex.: pão/torrada + banana).
  • Pós: se a azia continua, evite refeições muito gordurosas logo após; prefira algo leve e depois uma refeição maior mais tarde.

Enjoo

  • Pré: reduzir porção; evitar misturar muitos itens; evitar bebidas muito doces; testar alimentos frios ou em temperatura ambiente (algumas pessoas toleram melhor).
  • Durante: pequenos goles; se usar carboidrato em bebida, manter mais diluído.
  • Pós: começar com algo líquido e leve (ex.: iogurte sem lactose batido com banana, ou bebida láctea sem lactose), e só depois uma refeição sólida.

Estufamento/gases

  • Pré: reduzir fibra e adoçantes poliol; evitar leguminosas e vegetais crus perto do treino; preferir carboidratos simples.
  • Trocas: em vez de “bowl” com iogurte + granola + frutas + mel, use iogurte sem lactose + banana (porção menor) ou apenas banana + pão.
  • Pós: reintroduzir vegetais e fibras aos poucos, em refeição mais distante do treino, observando tolerância.

Diarreia/urgência

  • Pré: cortar gordura e fibra; evitar café em excesso; evitar “novidades” (alimento novo, gel novo, suplemento novo) no dia de treino importante.
  • Carboidrato em bebida/gel: se causar urgência, reduzir concentração e testar novamente.
  • Se for recorrente: observar lactose, adoçantes e alimentos muito condimentados como gatilhos.

Falta de apetite (especialmente no pós)

  • Primeiro passo: priorizar algo pequeno e fácil (líquido ou semissólido) em vez de “forçar” um prato grande.
  • Estratégia: dividir em 2 etapas: um lanche leve logo após e uma refeição maior 60–120 min depois.
  • Opções práticas: vitamina com banana e iogurte sem lactose; leite sem lactose com cacau; sanduíche simples em meia porção; arroz + ovos em porção pequena.

Passo a passo: como ajustar o pré e o pós sem “chutar”

Passo 1 — Defina o que você quer melhorar

Escolha um sintoma principal (ex.: azia) e um objetivo de treino (ex.: treinar sem interrupções). Evite mudar tudo ao mesmo tempo.

Passo 2 — Simplifique o pré-treino por 3 treinos

Use um pré com poucos ingredientes, baixo em gordura e fibra, e porção moderada. Exemplos (escolha 1):

  • Banana madura + 1–2 fatias de pão branco
  • Tapioca pequena com recheio magro (pouco recheio) + água
  • Arroz branco em pequena porção (se você tolera bem) + proteína magra em pouca quantidade

Passo 3 — Ajuste uma variável por vez

  • Se ainda pesa: reduza porção em 20–30% OU aumente o tempo entre comer e treinar.
  • Se falta energia: aumente carboidrato (mesmo alimento) em pequena quantidade, sem aumentar gordura/fibra.
  • Se dá urgência: reduza cafeína e evite adoçantes e sucos concentrados.

Passo 4 — No pós, priorize tolerância primeiro

Se você sai do treino sem fome ou enjoado, comece com algo leve e palatável. Depois, faça uma refeição completa quando o apetite voltar. A consistência (líquido vs sólido) costuma ser o ajuste mais eficaz aqui.

Protocolo de 2 semanas para encontrar o seu pré-treino ideal

Este protocolo serve para você identificar, com o mínimo de tentativa e erro, qual combinação de porção + timing + tipo de alimento reduz sintomas e mantém performance. A regra é: mudar uma coisa por vez.

Como registrar (leva 2 minutos)

Use notas do celular ou uma tabela. Registre sempre:

  • Horário do pré: quanto tempo antes do treino (ex.: 60 min)
  • O que comeu e quantidade: simples e aproximado (ex.: 1 banana + 2 fatias pão)
  • Líquidos e cafeína: volume e horário (ex.: 300 ml água; 1 café 40 min antes)
  • Sintomas (0–10): azia, enjoo, estufamento, urgência/diarreia
  • Performance percebida (0–10): energia, foco, “peso no estômago”

Modelo de tabela (copie e use)

Data | Treino | Pré (o quê/qtde) | Tempo antes | Cafeína (sim/não; dose) | Líquidos | Azia 0-10 | Enjoo 0-10 | Estuf. 0-10 | Urgência 0-10 | Energia 0-10 | Observações

Semana 1 — Base “segura” (padronizar)

Objetivo: reduzir variáveis e achar um ponto de partida tolerável.

  • Treinos 1–3: escolha 1 pré simples e repita igual (mesmo alimento e porção). Evite alimentos muito gordurosos e muito fibrosos nesse pré.
  • Se usa cafeína: mantenha dose baixa e constante (ou retire totalmente na semana 1 se suspeita que ela é gatilho).
  • Líquidos: mantenha padrão (ex.: 300–500 ml até 1h antes, mais goles durante).

Critério de sucesso da semana 1: sintomas principais caem pelo menos 2 pontos (na escala 0–10) em relação ao seu padrão anterior, ou ficam previsíveis.

Semana 2 — Otimização (um ajuste por bloco de treinos)

Objetivo: melhorar energia/performance sem trazer os sintomas de volta.

  • Treinos 4–5 (Ajuste de porção): aumente OU reduza a porção do mesmo pré em ~20–30% e observe sintomas e energia.
  • Treinos 6–7 (Ajuste de timing): mantenha a porção escolhida e mude apenas o tempo (ex.: de 60 min para 90 min; ou de 60 min para 45 min se você precisa comer mais perto).
  • Treinos 8–9 (Ajuste de cafeína ou líquidos): mantenha alimento e timing e ajuste apenas cafeína (dose/horário) OU estratégia de líquidos (goles vs grande volume).

Como decidir o “vencedor”

  • Pré ideal: sintomas principais ≤3/10 na maioria dos treinos + energia ≥7/10.
  • Se sintomas sobem quando você aumenta porção: volte à porção anterior e teste aumentar o tempo antes do treino (em vez de aumentar comida).
  • Se energia cai quando você reduz porção: volte à porção anterior e teste trocar o carboidrato por outro mais tolerável (mantendo gordura e fibra baixas).

Checklist rápido antes do próximo treino (para evitar desconforto)

  • Minha refeição pré está baixa em gordura e baixa em fibra?
  • O volume está adequado ou estou comendo “demais” por ansiedade?
  • Estou testando apenas uma mudança hoje?
  • Minha bebida está muito doce/concentrada?
  • Usei cafeína? A dose e o horário fazem sentido para mim?
  • Vou registrar sintomas e energia em 2 minutos depois?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao ajustar o pré-treino para reduzir desconfortos gastrointestinais, qual estratégia está mais alinhada com a abordagem recomendada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A recomendação é reduzir variáveis: repetir um pré simples e, depois, ajustar uma coisa por vez (porção, tempo, cafeína ou líquidos) enquanto registra sintomas e energia para identificar o padrão com mais precisão.

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Nutrição esportiva aplicada: como montar seu plano simples de pré e pós-treino

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