Spread: o “pedágio” embutido entre compra e venda
Spread é a diferença entre o melhor preço de compra (bid) e o melhor preço de venda (ask) disponíveis naquele instante. Operacionalmente, ele representa o custo imediato de entrar e sair com rapidez: se você compra no ask e, no segundo seguinte, precisar vender no bid, você “paga” o spread.
Exemplo rápido (spread em reais):
- Melhor compra (bid): R$ 10,00
- Melhor venda (ask): R$ 10,02
- Spread: R$ 0,02 por ação
Se você compra a R$ 10,02 e vende a R$ 10,00, a perda bruta é R$ 0,02 por ação, antes de taxas e emolumentos. Em day trade, onde o alvo costuma ser curto, spread “come” uma parte relevante do resultado.
Spread não é fixo: ele muda com o contexto
- Liquidez alta: tende a reduzir spread (mais competição entre compradores e vendedores).
- Volatilidade alta: tende a aumentar spread (participantes “se protegem” abrindo preços).
- Momentos de notícia/abertura: spread pode alargar rapidamente.
Liquidez: a capacidade de executar sem “machucar” o preço
Liquidez é a facilidade de comprar/vender um ativo com rapidez e com pouca variação de preço causada pela sua própria ordem. No operacional, liquidez se traduz em:
- Spread menor (geralmente).
- Maior profundidade: mais quantidade disponível nos melhores níveis de preço.
- Menor slippage: menos “escapadas” na execução.
Um ativo pode até negociar bastante ao longo do dia, mas ainda assim ter momentos de baixa liquidez (por exemplo, entre movimentos fortes, em transições de tendência, ou após um evento inesperado). O que importa para você é a liquidez no momento em que sua ordem chega.
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Como a liquidez afeta sua execução na prática
Quando a liquidez é baixa, uma ordem relativamente pequena pode “varrer” as ofertas disponíveis no melhor preço e ser executada em níveis piores. Isso aumenta o custo real da operação, mesmo que o gráfico pareça “bonito”.
Exemplo (impacto por falta de profundidade):
- Você quer comprar 3.000 ações.
- No melhor ask (R$ 10,02) há apenas 500 ações.
- No próximo nível (R$ 10,03) há 800 ações.
- No próximo (R$ 10,05) há 2.000 ações.
Se você enviar uma ordem agressiva (que consome as ofertas), pode acabar com preço médio pior do que imaginava. Mesmo “acertando a direção”, você começa a operação mais distante do seu alvo.
Slippage: quando o preço “escapa” da sua intenção
Slippage é a diferença entre o preço que você esperava executar e o preço que você de fato executa. Ele aparece principalmente quando:
- Você usa ordens agressivas em momentos de volatilidade.
- O spread está aberto e/ou a profundidade é baixa.
- Há aceleração de fluxo (notícias, abertura, rompimentos, leilões, etc.).
- Stops são acionados em movimentos rápidos.
Importante: slippage não é “erro da corretora” por padrão. Na maioria dos casos, é consequência do estado do mercado no instante da execução.
Exemplo numérico 1: ordem a mercado em volatilidade
Cenário: você decide entrar comprado “agora” porque viu aceleração.
- Preço observado no momento do clique: ask em R$ 10,02
- Você envia uma ordem a mercado para comprar.
- Durante milissegundos/segundos, o ask sobe e as ofertas em R$ 10,02 somem.
- Sua execução ocorre a R$ 10,06
Slippage de entrada: R$ 10,06 − R$ 10,02 = R$ 0,04 por ação.
Se você comprou 2.000 ações, isso dá R$ 80,00 de custo “invisível” (0,04 × 2.000), além de taxas. E ainda existe o spread na saída.
Exemplo numérico 2: stop disparando em “gap” intradiário
Cenário: você está comprado e posicionou um stop de proteção em R$ 9,90. O mercado acelera para baixo e “pula” níveis de preço rapidamente (um gap intradiário pode acontecer por falta momentânea de ofertas, notícia, ou retirada de liquidez).
- Seu stop está em R$ 9,90 (preço de disparo).
- Quando o stop aciona, as melhores ofertas de compra já estão em R$ 9,84.
- Sua saída efetiva ocorre a R$ 9,84.
Slippage de saída: R$ 9,90 − R$ 9,84 = R$ 0,06 por ação.
Se sua posição era de 1.500 ações, o slippage adiciona R$ 90,00 de perda (0,06 × 1.500) além do que você planejou no risco.
Como spread e slippage se somam aos custos (e mudam seu “break-even”)
Ao planejar uma operação, você costuma pensar em alvo e stop. Mas o resultado real precisa considerar:
- Spread (custo estrutural de atravessar bid/ask).
- Slippage (diferença entre o preço esperado e o executado).
- Custos operacionais (taxas, emolumentos, etc.).
Exemplo de conta simples (por ação):
- Você mira ganhar: R$ 0,10 por ação.
- Spread médio no momento: R$ 0,02.
- Slippage médio (entrada + saída): R$ 0,03.
- Custos operacionais estimados: R$ 0,01 por ação (aproximação para ilustrar).
Custo total aproximado: 0,02 + 0,03 + 0,01 = R$ 0,06 por ação.
Seu ganho líquido potencial, se o preço andar exatamente o que você imaginou, cai para R$ 0,04 por ação. Se o mercado não entregar movimento suficiente, você pode “acertar” a direção e ainda assim não compensar os custos.
Passo a passo prático: como reduzir o impacto de spread, liquidez e slippage
1) Priorize ativos com liquidez consistente
Objetivo: reduzir spread e melhorar a previsibilidade de execução.
- Observe se o spread costuma ficar “apertado” na maior parte do tempo.
- Evite ativos que alternam entre momentos “parados” e espasmos de preço com pouca oferta.
- Se você precisa operar tamanho maior, a exigência de liquidez aumenta (para não piorar seu preço médio).
2) Ajuste sua operação para momentos críticos (abertura e notícias)
Objetivo: evitar períodos em que o spread alarga e o slippage dispara.
- Na abertura, o mercado pode “reprecificar” rápido: spreads podem ficar maiores e a execução pode variar muito.
- Em horários de divulgação de indicadores/notícias relevantes, a retirada de liquidez pode causar saltos de preço.
- Se você opera nesses momentos, reduza tamanho e aceite que o risco real (com slippage) pode ser maior do que o stop “no papel”.
3) Use ordens limitadas de forma consciente (quando fizer sentido)
Objetivo: controlar o preço de execução e reduzir slippage.
- Ordem limitada define o preço máximo que você aceita pagar (na compra) ou o mínimo que aceita receber (na venda).
- Ela pode reduzir slippage, mas traz o risco de não executar (ou executar parcialmente) se o mercado andar rápido.
Passo a passo (entrada com limite):
- Defina o preço máximo de entrada com base no seu plano (ex.: R$ 10,02).
- Envie a ordem limitada e observe se há execução parcial.
- Se não executar e o preço fugir, evite “perseguir” automaticamente; reavalie o ponto de entrada e o risco.
Quando a ordem limitada costuma ajudar: em mercados mais estáveis, com spread apertado e boa profundidade.
Quando pode atrapalhar: em rompimentos muito rápidos, onde você precisa de execução imediata e aceita pagar o custo (ainda assim, sabendo que o slippage pode ser grande).
4) Dimensione o tamanho da posição pensando na profundidade
Objetivo: evitar que sua própria ordem cause piora de preço médio.
- Se sua quantidade é grande para o nível de liquidez do momento, você tende a “varrer” níveis e aumentar slippage.
- Reduza lote em ativos/horários com menor liquidez.
- Considere fracionar a entrada/saída quando o mercado estiver mais “fino” (desde que isso não quebre sua lógica operacional).
5) Inclua slippage no seu planejamento de risco e alvo
Objetivo: evitar stops “otimistas” e alvos que não pagam o custo real.
- Registre em um diário o slippage típico das suas operações (por ativo e por horário).
- Ao definir stop e alvo, acrescente uma margem realista para execução (principalmente em stops).
- Se o seu setup busca movimentos muito curtos, o spread+slippage pode inviabilizar a estratégia em determinados ativos/horários.
6) Checklist rápido antes de enviar a ordem
| Pergunta | O que você quer ver | Risco se ignorar |
|---|---|---|
| O spread está apertado? | Diferença pequena entre bid e ask | Você começa “atrás” e precisa de mais movimento para empatar |
| Há profundidade suficiente no preço? | Quantidade razoável nos melhores níveis | Preço médio pior (slippage por falta de oferta) |
| O mercado está em notícia/abertura? | Contexto mais previsível | Slippage alto, stops com execução pior que o planejado |
| Ordem limitada faz sentido aqui? | Sim, se você prioriza preço | Não executar e perder o movimento (ou entrar tarde) |