Defeitos mais frequentes no TIG (o que aparece primeiro na prática)
Nos primeiros cordões, os defeitos mais comuns costumam surgir nesta ordem: porosidade (pontos/bolhas), contaminação do tungstênio (cordão “sujo” e arco instável), falta de fusão (cordão “em cima” sem “grudar”), excesso de penetração/queima (furo ou afundamento), e no inox oxidação/coloração excessiva (azul/roxo/cinza). A forma mais rápida de corrigir é diagnosticar pelo sintoma visível e ajustar uma variável por vez.
Método de diagnóstico por sintomas (checklist rápido)
Passo 1 — Observe o cordão e a poça
- Tem “furinhos”/bolhas? Pense em porosidade (gás/limpeza/turbulência).
- O arco está “puxando” para os lados, estalando, e a ponta do tungstênio ficou arredondada/escura? Pense em tungstênio contaminado (toque na poça, proteção insuficiente, stick-out alto, bocal inadequado).
- O cordão parece alto e não “molha” as bordas? Pense em falta de fusão (velocidade alta, corrente baixa, ângulo errado, foco fora da junta).
- Afundou demais, fez “cratera” ou furou? Pense em queima/excesso de penetração (corrente alta, pausa longa, folga excessiva, calor acumulado).
- No inox ficou muito colorido (azul/roxo/cinza) e áspero? Pense em cobertura gasosa insuficiente e/ou calor excessivo (proteção e aporte térmico).
Passo 2 — Confirme com 3 perguntas
- O gás está realmente protegendo? (vazão adequada, sem vazamento, sem vento, bocal e stick-out coerentes).
- A superfície está limpa onde o arco passa? (óleos, tinta, oxidação e umidade são “fábricas” de defeitos).
- O calor está compatível com espessura e folga? (corrente, velocidade, tempo parado e sequência de passes).
Passo 3 — Ajuste uma variável por vez
Para não “se perder”, mude apenas um item (ex.: aumentar vazão ou reduzir stick-out) e refaça um cordão curto de teste. Se melhorou, mantenha e siga; se piorou, volte e teste outra variável.
1) Porosidade
Como identificar no cordão
- Pontos/“furinhos” na superfície, às vezes alinhados.
- Bolhas que estouram durante a solda, deixando craterinhas.
- Som do arco pode ficar irregular e a poça parece “espumar”.
Causas prováveis (por ordem de ocorrência)
- Proteção gasosa insuficiente: vazão baixa, vazamento, vento/corrente de ar, bocal pequeno para a condição, stick-out alto demais.
- Turbulência do gás: vazão alta demais, bocal muito longe, ângulo exagerado, movimentação “balançada” da tocha.
- Contaminação/umidade: peça com óleo, solvente, tinta, ferrugem, umidade; vareta suja/oxidada; luvas sujas tocando a área.
- Ar preso em folgas/encaixes: junta com folga irregular, pontos de fixação contaminados, geometria que “aprisiona” gás.
Correção imediata (ajuste/técnica)
- Se suspeitar de falta de gás: aumente levemente a vazão e aproxime o bocal da peça (reduza o stick-out). Proteja a área de vento.
- Se suspeitar de turbulência: reduza a vazão e mantenha a tocha mais “estável”, com ângulo moderado e distância consistente.
- Se suspeitar de sujeira: pare e limpe a região do cordão e a vareta; refaça um cordão curto em área limpa.
Prevenção
- Manter rotina de limpeza antes de soldar e armazenar varetas secas e limpas.
- Evitar soldar em local com corrente de ar; se necessário, usar barreira física.
- Padronizar stick-out e bocal adequados para não “perder” cobertura.
Passo a passo prático (teste de porosidade)
- Faça um cordão de 30–50 mm e pare.
- Inspecione a superfície: se houver poros, marque a área.
- Ajuste apenas um item: (a) vazão + pequena correção, ou (b) reduzir stick-out, ou (c) limpar e repetir.
- Repita o cordão ao lado e compare. Mantenha o ajuste que reduziu os poros.
2) Tungstênio contaminado
Como identificar no cordão e no arco
- Arco instável, “dançando” e abrindo demais.
- Poça fica difícil de controlar; o cordão escurece e perde brilho.
- Ponta do tungstênio fica arredondada, com “bolinha”, escurecida ou com material grudado.
- Às vezes aparecem inclusões/partículas no cordão.
Causas prováveis
- Toque na poça com o tungstênio (muito comum ao adicionar vareta ou ao aproximar demais).
- Proteção insuficiente: bocal longe, stick-out alto, vazão inadequada, vento.
- Abertura inadequada: iniciar arco muito perto/encostando, ou iniciar fora da área protegida.
- Vareta encostando no tungstênio durante a alimentação.
Correção imediata (ajuste/técnica)
- Parar e corrigir a ponta: se contaminou, não “insista”. Reafie ou substitua o tungstênio (ponta limpa = arco previsível).
- Rever distância: aumente ligeiramente a distância entre ponta e poça e estabilize a mão (apoio ajuda).
- Melhorar cobertura: aproxime o bocal e ajuste vazão para manter proteção sem turbulência.
- Sincronizar vareta: alimente a vareta na borda da poça, evitando cruzar a ponta do tungstênio.
Prevenção
- Treinar “memória” de distância: manter a ponta sempre no mesmo plano e evitar mergulhar na poça.
- Usar apoio de mão/guia para reduzir tremor.
- Manter stick-out compatível com o bocal e a posição.
Passo a passo prático (quando contaminar durante o cordão)
- Interrompa o cordão assim que notar arco instável ou ponta suja.
- Inspecione a ponta: se houver material grudado ou arredondamento excessivo, reafie/substitua.
- Antes de recomeçar, faça um arco curto de teste em área limpa para confirmar estabilidade.
- Retome o cordão com bocal mais próximo e alimentação de vareta mais “lateral”.
3) Falta de fusão
Como identificar no cordão
- Cordão “alto”, com aparência de que foi “colado” por cima.
- As bordas não “molham” (não há transição suave para o metal base).
- Em junta, pode haver linha visível entre cordão e borda (falta de ligação).
- Ao escovar/limpar, pode aparecer uma “fenda” na lateral do cordão.
Causas prováveis
- Velocidade alta: a poça não tem tempo de abrir e unir as bordas.
- Corrente baixa para a espessura/condição da junta.
- Ângulo errado: tocha muito “deitada” empurra a poça e reduz penetração efetiva; foco do arco fora da linha da junta.
- Distribuição de calor ruim: arco concentrado em um lado, sem aquecer a outra borda.
Correção imediata (ajuste/técnica)
- Reduza um pouco a velocidade e observe se a poça passa a “molhar” as bordas.
- Aumente levemente a corrente (pequenos incrementos) até ver a poça abrir e unir as laterais.
- Corrija o ângulo: mantenha a tocha mais próxima do perpendicular e direcione o arco para a linha da junta.
- Faça micro-pausas controladas nas bordas (sem “cozinhar” no mesmo ponto) para garantir ligação.
Prevenção
- Manter distância e ângulo consistentes; variações grandes mudam a energia na junta.
- Fazer cordões de teste e “calibrar” velocidade x corrente antes de soldar a peça final.
- Em juntas, garantir alinhamento e folga coerentes para não exigir “milagre” do arco.
Passo a passo prático (teste de fusão nas bordas)
- Faça um cordão curto focando em “molhar” as duas bordas.
- Observe a transição: deve ficar suave, sem degrau.
- Se uma borda não molhar, ajuste o direcionamento do arco para essa borda por 1–2 segundos e retome o centro.
- Se ainda não unir, aumente um pouco a corrente ou reduza a velocidade.
4) Excesso de penetração / queima (furo)
Como identificar no cordão
- Afundamento acentuado, “vala” no centro do cordão.
- Parte de trás com reforço exagerado ou escorrimento.
- Furo repentino, geralmente após uma pausa ou ao chegar em área com folga maior.
- Poça fica grande demais e “mole”, difícil de segurar.
Causas prováveis
- Corrente alta para a espessura, principalmente em chapa fina.
- Pausa longa no mesmo ponto (calor acumulado).
- Folga excessiva ou irregular na junta, exigindo mais metal e aumentando o risco de colapso.
- Velocidade baixa demais sem controle de calor.
Correção imediata (ajuste/técnica)
- Reduza a corrente e aumente levemente a velocidade para diminuir aporte térmico.
- Evite parar em cima da poça: se precisar reposicionar, saia do arco e retome adiante com sobreposição curta.
- Use adição de metal com mais frequência em juntas com folga (a vareta ajuda a “segurar” a poça), mas sem encostar no tungstênio.
- Se a folga estiver grande: pare e corrija a montagem/pontos; tentar “tampar no TIG” tende a virar queima e contaminação.
Prevenção
- Padronizar folga e pontos de fixação para não variar o comportamento térmico ao longo da junta.
- Trabalhar com cordões curtos e alternar trechos para reduzir acúmulo de calor.
- Manter ritmo constante (velocidade e alimentação) para a poça não crescer.
Passo a passo prático (quando começar a afundar)
- Assim que notar a poça aumentando demais, avance um pouco mais rápido.
- Se não estabilizar, interrompa, reduza corrente e retome com sobreposição curta.
- Se a causa for folga, ajuste a junta antes de continuar.
5) Oxidação/coloração no inox (azul/roxo/cinza)
Como identificar no cordão
- Coloração forte ao redor do cordão (palha → dourado → roxo → azul → cinza).
- Superfície mais áspera, com aspecto “queimado”.
- Em casos severos, pode haver perda de resistência à corrosão na região afetada.
Causas prováveis
- Cobertura gasosa insuficiente: bocal longe, stick-out alto, vazão inadequada, vento, proteção pós-arco insuficiente.
- Calor excessivo: corrente alta, velocidade baixa, muitas pausas, sequência que acumula calor.
- Proteção do verso (quando aplicável): em certas juntas, o verso sem proteção pode oxidar e “puxar” defeitos.
Correção imediata (ajuste/técnica)
- Melhorar cobertura: aproxime o bocal, estabilize a tocha e ajuste vazão para proteger sem turbulência.
- Reduzir aporte térmico: diminua corrente ou aumente velocidade; faça cordões mais curtos e intercale trechos.
- Respeitar pós-fluxo: mantenha a tocha protegendo a poça por um instante após finalizar para não “queimar” na saída.
Prevenção
- Controlar calor com ritmo constante e evitar “cozinhar” o inox no mesmo ponto.
- Garantir proteção gasosa estável durante todo o cordão, inclusive no final.
Quadro de consulta rápida: “se acontecer X, ajuste Y”
| Se acontecer (sintoma) | Provável causa | Ajuste rápido (faça primeiro) | Prevenção |
|---|---|---|---|
| Furinhos/bolhas no cordão | Gás insuficiente ou peça suja | Aproxime o bocal e ajuste vazão; elimine vento; limpe a área | Limpeza + proteção contra corrente de ar + stick-out consistente |
| Poros piora quando aumenta vazão | Turbulência | Reduza vazão e estabilize ângulo/distância | Evitar vazão excessiva e movimentos bruscos |
| Arco instável e ponta do tungstênio escura/arredondada | Tungstênio contaminado | Parar e reafiar/substituir; revisar distância e cobertura | Não tocar na poça; alimentação de vareta controlada |
| Cordão alto, sem “molhar” as bordas | Falta de fusão (velocidade alta/corrente baixa/ângulo) | Reduza velocidade ou aumente corrente; direcione arco para a junta | Calibrar corrente x velocidade em teste antes da peça |
| Uma lateral não une, a outra sim | Arco fora do centro/ângulo errado | Corrija ângulo e foque o arco na borda “fria” por instantes | Manter tocha mais perpendicular e mão apoiada |
| Afundou demais / verso com reforço exagerado | Calor excessivo | Reduza corrente e aumente velocidade; evite pausas | Cordões curtos e alternados para não acumular calor |
| Furou ao passar por um trecho | Folga excessiva + pausa | Interrompa e corrija folga/pontos; retome com mais velocidade e menos corrente | Folga uniforme e fixação firme antes de soldar |
| Inox ficou azul/roxo/cinza ao redor | Proteção insuficiente e/ou calor alto | Aproxime bocal, ajuste vazão, reduza aporte térmico; respeite pós-fluxo | Controle de calor + cobertura estável até o final do cordão |
Dica de prática: “rodada de diagnóstico” em 5 minutos
Durante o treino, faça 3 cordões curtos em sequência e use a mesma rotina: (1) olhar superfície (poros/cores), (2) olhar ponta do tungstênio (limpa ou contaminada), (3) olhar bordas (molhou ou ficou em cima), (4) olhar verso (penetração normal ou excessiva). Em seguida, aplique apenas um ajuste do quadro e repita ao lado para comparar.