Solda TIG do Zero: Defeitos comuns no TIG e correções rápidas (porosidade, contaminação, falta de fusão, queima)

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Defeitos mais frequentes no TIG (o que aparece primeiro na prática)

Nos primeiros cordões, os defeitos mais comuns costumam surgir nesta ordem: porosidade (pontos/bolhas), contaminação do tungstênio (cordão “sujo” e arco instável), falta de fusão (cordão “em cima” sem “grudar”), excesso de penetração/queima (furo ou afundamento), e no inox oxidação/coloração excessiva (azul/roxo/cinza). A forma mais rápida de corrigir é diagnosticar pelo sintoma visível e ajustar uma variável por vez.

Método de diagnóstico por sintomas (checklist rápido)

Passo 1 — Observe o cordão e a poça

  • Tem “furinhos”/bolhas? Pense em porosidade (gás/limpeza/turbulência).
  • O arco está “puxando” para os lados, estalando, e a ponta do tungstênio ficou arredondada/escura? Pense em tungstênio contaminado (toque na poça, proteção insuficiente, stick-out alto, bocal inadequado).
  • O cordão parece alto e não “molha” as bordas? Pense em falta de fusão (velocidade alta, corrente baixa, ângulo errado, foco fora da junta).
  • Afundou demais, fez “cratera” ou furou? Pense em queima/excesso de penetração (corrente alta, pausa longa, folga excessiva, calor acumulado).
  • No inox ficou muito colorido (azul/roxo/cinza) e áspero? Pense em cobertura gasosa insuficiente e/ou calor excessivo (proteção e aporte térmico).

Passo 2 — Confirme com 3 perguntas

  • O gás está realmente protegendo? (vazão adequada, sem vazamento, sem vento, bocal e stick-out coerentes).
  • A superfície está limpa onde o arco passa? (óleos, tinta, oxidação e umidade são “fábricas” de defeitos).
  • O calor está compatível com espessura e folga? (corrente, velocidade, tempo parado e sequência de passes).

Passo 3 — Ajuste uma variável por vez

Para não “se perder”, mude apenas um item (ex.: aumentar vazão ou reduzir stick-out) e refaça um cordão curto de teste. Se melhorou, mantenha e siga; se piorou, volte e teste outra variável.

1) Porosidade

Como identificar no cordão

  • Pontos/“furinhos” na superfície, às vezes alinhados.
  • Bolhas que estouram durante a solda, deixando craterinhas.
  • Som do arco pode ficar irregular e a poça parece “espumar”.

Causas prováveis (por ordem de ocorrência)

  • Proteção gasosa insuficiente: vazão baixa, vazamento, vento/corrente de ar, bocal pequeno para a condição, stick-out alto demais.
  • Turbulência do gás: vazão alta demais, bocal muito longe, ângulo exagerado, movimentação “balançada” da tocha.
  • Contaminação/umidade: peça com óleo, solvente, tinta, ferrugem, umidade; vareta suja/oxidada; luvas sujas tocando a área.
  • Ar preso em folgas/encaixes: junta com folga irregular, pontos de fixação contaminados, geometria que “aprisiona” gás.

Correção imediata (ajuste/técnica)

  • Se suspeitar de falta de gás: aumente levemente a vazão e aproxime o bocal da peça (reduza o stick-out). Proteja a área de vento.
  • Se suspeitar de turbulência: reduza a vazão e mantenha a tocha mais “estável”, com ângulo moderado e distância consistente.
  • Se suspeitar de sujeira: pare e limpe a região do cordão e a vareta; refaça um cordão curto em área limpa.

Prevenção

  • Manter rotina de limpeza antes de soldar e armazenar varetas secas e limpas.
  • Evitar soldar em local com corrente de ar; se necessário, usar barreira física.
  • Padronizar stick-out e bocal adequados para não “perder” cobertura.

Passo a passo prático (teste de porosidade)

  1. Faça um cordão de 30–50 mm e pare.
  2. Inspecione a superfície: se houver poros, marque a área.
  3. Ajuste apenas um item: (a) vazão + pequena correção, ou (b) reduzir stick-out, ou (c) limpar e repetir.
  4. Repita o cordão ao lado e compare. Mantenha o ajuste que reduziu os poros.

2) Tungstênio contaminado

Como identificar no cordão e no arco

  • Arco instável, “dançando” e abrindo demais.
  • Poça fica difícil de controlar; o cordão escurece e perde brilho.
  • Ponta do tungstênio fica arredondada, com “bolinha”, escurecida ou com material grudado.
  • Às vezes aparecem inclusões/partículas no cordão.

Causas prováveis

  • Toque na poça com o tungstênio (muito comum ao adicionar vareta ou ao aproximar demais).
  • Proteção insuficiente: bocal longe, stick-out alto, vazão inadequada, vento.
  • Abertura inadequada: iniciar arco muito perto/encostando, ou iniciar fora da área protegida.
  • Vareta encostando no tungstênio durante a alimentação.

Correção imediata (ajuste/técnica)

  • Parar e corrigir a ponta: se contaminou, não “insista”. Reafie ou substitua o tungstênio (ponta limpa = arco previsível).
  • Rever distância: aumente ligeiramente a distância entre ponta e poça e estabilize a mão (apoio ajuda).
  • Melhorar cobertura: aproxime o bocal e ajuste vazão para manter proteção sem turbulência.
  • Sincronizar vareta: alimente a vareta na borda da poça, evitando cruzar a ponta do tungstênio.

Prevenção

  • Treinar “memória” de distância: manter a ponta sempre no mesmo plano e evitar mergulhar na poça.
  • Usar apoio de mão/guia para reduzir tremor.
  • Manter stick-out compatível com o bocal e a posição.

Passo a passo prático (quando contaminar durante o cordão)

  1. Interrompa o cordão assim que notar arco instável ou ponta suja.
  2. Inspecione a ponta: se houver material grudado ou arredondamento excessivo, reafie/substitua.
  3. Antes de recomeçar, faça um arco curto de teste em área limpa para confirmar estabilidade.
  4. Retome o cordão com bocal mais próximo e alimentação de vareta mais “lateral”.

3) Falta de fusão

Como identificar no cordão

  • Cordão “alto”, com aparência de que foi “colado” por cima.
  • As bordas não “molham” (não há transição suave para o metal base).
  • Em junta, pode haver linha visível entre cordão e borda (falta de ligação).
  • Ao escovar/limpar, pode aparecer uma “fenda” na lateral do cordão.

Causas prováveis

  • Velocidade alta: a poça não tem tempo de abrir e unir as bordas.
  • Corrente baixa para a espessura/condição da junta.
  • Ângulo errado: tocha muito “deitada” empurra a poça e reduz penetração efetiva; foco do arco fora da linha da junta.
  • Distribuição de calor ruim: arco concentrado em um lado, sem aquecer a outra borda.

Correção imediata (ajuste/técnica)

  • Reduza um pouco a velocidade e observe se a poça passa a “molhar” as bordas.
  • Aumente levemente a corrente (pequenos incrementos) até ver a poça abrir e unir as laterais.
  • Corrija o ângulo: mantenha a tocha mais próxima do perpendicular e direcione o arco para a linha da junta.
  • Faça micro-pausas controladas nas bordas (sem “cozinhar” no mesmo ponto) para garantir ligação.

Prevenção

  • Manter distância e ângulo consistentes; variações grandes mudam a energia na junta.
  • Fazer cordões de teste e “calibrar” velocidade x corrente antes de soldar a peça final.
  • Em juntas, garantir alinhamento e folga coerentes para não exigir “milagre” do arco.

Passo a passo prático (teste de fusão nas bordas)

  1. Faça um cordão curto focando em “molhar” as duas bordas.
  2. Observe a transição: deve ficar suave, sem degrau.
  3. Se uma borda não molhar, ajuste o direcionamento do arco para essa borda por 1–2 segundos e retome o centro.
  4. Se ainda não unir, aumente um pouco a corrente ou reduza a velocidade.

4) Excesso de penetração / queima (furo)

Como identificar no cordão

  • Afundamento acentuado, “vala” no centro do cordão.
  • Parte de trás com reforço exagerado ou escorrimento.
  • Furo repentino, geralmente após uma pausa ou ao chegar em área com folga maior.
  • Poça fica grande demais e “mole”, difícil de segurar.

Causas prováveis

  • Corrente alta para a espessura, principalmente em chapa fina.
  • Pausa longa no mesmo ponto (calor acumulado).
  • Folga excessiva ou irregular na junta, exigindo mais metal e aumentando o risco de colapso.
  • Velocidade baixa demais sem controle de calor.

Correção imediata (ajuste/técnica)

  • Reduza a corrente e aumente levemente a velocidade para diminuir aporte térmico.
  • Evite parar em cima da poça: se precisar reposicionar, saia do arco e retome adiante com sobreposição curta.
  • Use adição de metal com mais frequência em juntas com folga (a vareta ajuda a “segurar” a poça), mas sem encostar no tungstênio.
  • Se a folga estiver grande: pare e corrija a montagem/pontos; tentar “tampar no TIG” tende a virar queima e contaminação.

Prevenção

  • Padronizar folga e pontos de fixação para não variar o comportamento térmico ao longo da junta.
  • Trabalhar com cordões curtos e alternar trechos para reduzir acúmulo de calor.
  • Manter ritmo constante (velocidade e alimentação) para a poça não crescer.

Passo a passo prático (quando começar a afundar)

  1. Assim que notar a poça aumentando demais, avance um pouco mais rápido.
  2. Se não estabilizar, interrompa, reduza corrente e retome com sobreposição curta.
  3. Se a causa for folga, ajuste a junta antes de continuar.

5) Oxidação/coloração no inox (azul/roxo/cinza)

Como identificar no cordão

  • Coloração forte ao redor do cordão (palha → dourado → roxo → azul → cinza).
  • Superfície mais áspera, com aspecto “queimado”.
  • Em casos severos, pode haver perda de resistência à corrosão na região afetada.

Causas prováveis

  • Cobertura gasosa insuficiente: bocal longe, stick-out alto, vazão inadequada, vento, proteção pós-arco insuficiente.
  • Calor excessivo: corrente alta, velocidade baixa, muitas pausas, sequência que acumula calor.
  • Proteção do verso (quando aplicável): em certas juntas, o verso sem proteção pode oxidar e “puxar” defeitos.

Correção imediata (ajuste/técnica)

  • Melhorar cobertura: aproxime o bocal, estabilize a tocha e ajuste vazão para proteger sem turbulência.
  • Reduzir aporte térmico: diminua corrente ou aumente velocidade; faça cordões mais curtos e intercale trechos.
  • Respeitar pós-fluxo: mantenha a tocha protegendo a poça por um instante após finalizar para não “queimar” na saída.

Prevenção

  • Controlar calor com ritmo constante e evitar “cozinhar” o inox no mesmo ponto.
  • Garantir proteção gasosa estável durante todo o cordão, inclusive no final.

Quadro de consulta rápida: “se acontecer X, ajuste Y”

Se acontecer (sintoma)Provável causaAjuste rápido (faça primeiro)Prevenção
Furinhos/bolhas no cordãoGás insuficiente ou peça sujaAproxime o bocal e ajuste vazão; elimine vento; limpe a áreaLimpeza + proteção contra corrente de ar + stick-out consistente
Poros piora quando aumenta vazãoTurbulênciaReduza vazão e estabilize ângulo/distânciaEvitar vazão excessiva e movimentos bruscos
Arco instável e ponta do tungstênio escura/arredondadaTungstênio contaminadoParar e reafiar/substituir; revisar distância e coberturaNão tocar na poça; alimentação de vareta controlada
Cordão alto, sem “molhar” as bordasFalta de fusão (velocidade alta/corrente baixa/ângulo)Reduza velocidade ou aumente corrente; direcione arco para a juntaCalibrar corrente x velocidade em teste antes da peça
Uma lateral não une, a outra simArco fora do centro/ângulo erradoCorrija ângulo e foque o arco na borda “fria” por instantesManter tocha mais perpendicular e mão apoiada
Afundou demais / verso com reforço exageradoCalor excessivoReduza corrente e aumente velocidade; evite pausasCordões curtos e alternados para não acumular calor
Furou ao passar por um trechoFolga excessiva + pausaInterrompa e corrija folga/pontos; retome com mais velocidade e menos correnteFolga uniforme e fixação firme antes de soldar
Inox ficou azul/roxo/cinza ao redorProteção insuficiente e/ou calor altoAproxime bocal, ajuste vazão, reduza aporte térmico; respeite pós-fluxoControle de calor + cobertura estável até o final do cordão

Dica de prática: “rodada de diagnóstico” em 5 minutos

Durante o treino, faça 3 cordões curtos em sequência e use a mesma rotina: (1) olhar superfície (poros/cores), (2) olhar ponta do tungstênio (limpa ou contaminada), (3) olhar bordas (molhou ou ficou em cima), (4) olhar verso (penetração normal ou excessiva). Em seguida, aplique apenas um ajuste do quadro e repita ao lado para comparar.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao soldar TIG, você percebe que a porosidade piora quando aumenta a vazão de gás. Qual ajuste rápido deve ser feito primeiro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Se a porosidade piora ao aumentar a vazão, o indício é turbulência do gás. O primeiro ajuste é reduzir a vazão e manter tocha estável (ângulo moderado e distância consistente).

Próximo capitúlo

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