Conceito operacional de Sistemas de Informação no contexto do DETRAN
Em um órgão como o DETRAN, um Sistema de Informação (SI) deve ser entendido de forma operacional: um arranjo de pessoas, processos, dados e tecnologia que executa e controla serviços públicos (ex.: habilitação, registro de veículos, vistorias), garantindo rastreabilidade, conformidade e atendimento ao cidadão. Para o Analista de TI, o foco prático é traduzir necessidades do negócio em fluxos, requisitos e integrações, assegurando qualidade (disponibilidade, desempenho, auditabilidade) e interoperabilidade com outros órgãos e bases.
Componentes do SI: pessoas, processos, dados e tecnologia
- Pessoas: atendentes, vistoriadores, examinadores, gestores, auditores, equipe de TI, cidadão/usuário. Cada perfil tem responsabilidades, permissões e pontos de interação no fluxo.
- Processos: sequência de atividades e regras (ex.: validar documentos, agendar vistoria, emitir taxas, registrar resultado, liberar CRLV). Processos precisam ser modelados e controlados.
- Dados: cadastros (condutor, veículo), eventos (agendamento, resultado de exame, laudo de vistoria), documentos (requerimentos, laudos), registros de auditoria (quem fez o quê, quando, de onde).
- Tecnologia: aplicações (web/mobile), banco de dados, integrações (APIs), filas/mensageria, autenticação/autorizações, monitoramento, infraestrutura e contingência.
Tipos de sistemas no DETRAN e como se complementam
Sistemas transacionais (operacionais)
São os que registram e processam transações do dia a dia com consistência e regras rígidas. Exemplos típicos: emissão de guias, agendamento, registro de atendimento, atualização cadastral, lançamento de resultados de exames, registro de vistoria, emissão de documentos. Características esperadas: validações fortes, controle de concorrência, logs e trilhas de auditoria, alta disponibilidade.
Sistemas gerenciais (informação gerencial)
Consolidam dados transacionais para acompanhamento e gestão: painéis de produtividade por unidade, tempo médio de atendimento, taxa de reprovação em exames, volume de vistorias por período, arrecadação por serviço. Características: agregações, indicadores, atualização periódica, governança de métricas.
Sistemas de apoio à decisão
Apoiam análises e decisões com base em dados e regras mais complexas: identificação de padrões de fraude, priorização de fiscalizações, análise de risco em transferências, detecção de inconsistências cadastrais. Características: cruzamento de bases, regras analíticas, explicabilidade e evidências para auditoria.
Integração entre módulos e interoperabilidade
No DETRAN, módulos raramente funcionam isolados. Um fluxo de serviço costuma atravessar cadastro, arrecadação, agenda, vistoria, emissão e fiscalização. Integração é o mecanismo interno entre módulos; interoperabilidade é a capacidade de trocar dados com sistemas externos (outros órgãos, bancos, prestadores) com padrões e segurança.
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Padrões práticos de integração
- Integração síncrona (API/serviço): usada quando o fluxo precisa de resposta imediata (ex.: validar situação do veículo antes de concluir atendimento).
- Integração assíncrona (fila/eventos): usada para desacoplar e aumentar resiliência (ex.: após pagamento confirmado, publicar evento para liberar emissão).
- Integração por lote: usada para cargas periódicas e conciliações (ex.: importação diária de retornos de arrecadação).
Interoperabilidade: preocupações do Analista de TI
- Contrato de dados: campos, formatos, obrigatoriedade, versionamento.
- Identificadores: chaves únicas (ex.: CPF/CNPJ, RENAVAM, número do processo), regras de unicidade e reconciliação.
- Segurança: autenticação, autorização, trilha de auditoria, criptografia em trânsito.
- Confiabilidade: idempotência (repetir requisição sem duplicar efeito), retentativas, tratamento de indisponibilidade externa.
- Observabilidade: correlação de logs por ID de transação/processo para rastrear ponta a ponta.
Modelagem de processos com BPMN (básico a intermediário)
BPMN é uma notação para representar processos de forma padronizada. Para o Analista de TI, o objetivo é produzir diagramas que permitam: (1) entender o fluxo real, (2) identificar pontos de decisão e exceções, (3) mapear requisitos e integrações, (4) definir responsabilidades e evidências de auditoria.
Elementos essenciais (nível básico)
- Evento de início e fim: início do processo (ex.: solicitação do cidadão) e término (ex.: documento emitido).
- Tarefas: atividades executadas por pessoas ou sistemas (ex.: “Validar documentos”).
- Gateway exclusivo (XOR): decisão “ou/ou” (ex.: “Documentos completos?”).
- Fluxo de sequência: ordem das atividades.
- Piscinas e raias: separação por participantes (ex.: Cidadão, Atendimento, Sistema, Vistoria).
Elementos úteis (nível intermediário)
- Eventos intermediários: espera por algo (ex.: “Aguardar confirmação de pagamento”).
- Tarefas de serviço: ação automática do sistema (ex.: “Consultar base externa”).
- Subprocessos: encapsular etapas repetidas (ex.: “Análise documental”).
- Eventos de erro: exceções (ex.: “Falha na integração”).
Passo a passo: como modelar um processo típico do DETRAN em BPMN
Exemplo: Agendamento e realização de vistoria
- 1) Defina o objetivo e o gatilho: objetivo “realizar vistoria e registrar laudo”; gatilho “cidadão solicita vistoria”.
- 2) Liste participantes (raias): Cidadão, Atendimento/Portal, Arrecadação, Vistoriador, Sistema de Vistoria.
- 3) Descreva o caminho feliz: solicitar agendamento → validar dados do veículo → emitir guia → confirmar pagamento → reservar agenda → realizar vistoria → registrar laudo → disponibilizar resultado.
- 4) Adicione decisões: “Veículo apto a agendar?”; “Pagamento confirmado?”; “Vistoria aprovada?”
- 5) Modele exceções: pagamento não confirmado no prazo; indisponibilidade de agenda; reprovação e necessidade de retorno; falha de integração com arrecadação.
- 6) Marque pontos de auditoria: registro de quem aprovou/reprovou, anexos do laudo, carimbo de data/hora, identificação do posto.
- 7) Valide com o negócio: confirme regras, prazos, documentos e responsabilidades.
Mapeamento de requisitos para fluxos de atendimento do DETRAN
Um requisito descreve uma necessidade do usuário/negócio ou uma restrição de qualidade. No DETRAN, é comum partir do fluxo de atendimento (processo) e derivar requisitos por etapa, decisão e integração. Uma técnica prática é criar uma matriz “Etapa do BPMN → Requisitos funcionais (RF) → Requisitos não funcionais (RNF) → Dados → Integrações → Evidências”.
Serviços ao cidadão (atendimento presencial e digital)
- Pontos típicos do fluxo: identificação do cidadão, triagem, protocolo, pagamento, execução do serviço, entrega/resultado.
- Requisitos frequentes: autenticação forte, consulta de pendências, emissão de comprovantes, notificações, acessibilidade, registro de atendimento.
Vistorias
- Pontos típicos do fluxo: agendamento, validação do veículo, checklists, registro de evidências, laudo, retorno em caso de reprovação.
- Requisitos frequentes: captura de fotos/arquivos, georreferência (quando aplicável), assinatura do vistoriador, trilha de auditoria, controle de versões do laudo.
Habilitação
- Pontos típicos do fluxo: abertura de processo, validação documental, agendamento de exames, registro de resultados, emissão/atualização do documento.
- Requisitos frequentes: regras de elegibilidade, prazos, bloqueios por pendências, integração com clínicas/centros, histórico do condutor.
Veículos (registro, transferência, emissão)
- Pontos típicos do fluxo: validação de propriedade, débitos e restrições, vistoria (quando exigida), atualização cadastral, emissão de documento.
- Requisitos frequentes: consistência de dados (RENAVAM/placa), conciliação de pagamentos, prevenção de duplicidades, logs de alterações cadastrais.
Critérios de qualidade: disponibilidade, desempenho e auditabilidade
Disponibilidade
Disponibilidade mede o quanto o serviço fica acessível. No DETRAN, indisponibilidade impacta filas, arrecadação e prazos legais. Requisitos práticos: janelas de manutenção definidas, contingência para atendimento, tolerância a falhas em integrações e monitoramento.
Desempenho
Desempenho envolve tempo de resposta, capacidade de atender picos (ex.: virada de mês, campanhas, prazos). Requisitos práticos: metas de tempo por operação crítica (consultas, emissão, agendamento), limites de concorrência, filas para tarefas pesadas, cache para consultas repetidas.
Auditabilidade
Auditabilidade é a capacidade de reconstruir o que ocorreu: quem executou, quando, em qual unidade, com quais dados e evidências. Requisitos práticos: trilha de auditoria imutável, versionamento de registros, justificativas obrigatórias para alterações sensíveis, correlação de transações entre módulos.
Exercícios guiados: identificação de requisitos em cenários do DETRAN
Como responder aos exercícios (método rápido)
- 1) Identifique o objetivo do usuário (o que ele quer concluir).
- 2) Liste as etapas do fluxo (3 a 8 passos).
- 3) Para cada etapa, escreva 1 a 3 RF (o sistema deve fazer).
- 4) Para o fluxo como um todo, escreva RNF (qualidade, segurança, auditoria, desempenho).
- 5) Marque dados e integrações (entradas/saídas, sistemas externos).
- 6) Defina evidências (logs, anexos, carimbos, protocolos).
Exercício 1: Agendamento de atendimento pelo portal do cidadão
Cenário: o cidadão acessa o portal, escolhe o serviço “2ª via de documento”, seleciona unidade e horário, e recebe confirmação.
Tarefas
- Liste 5 requisitos funcionais (RF).
- Liste 5 requisitos não funcionais (RNF) com foco em disponibilidade, desempenho e segurança.
- Indique 3 dados essenciais e 2 eventos que devem ser auditados.
Gabarito guiado (exemplo de resposta)
- RF1: o sistema deve autenticar o cidadão e recuperar seus dados cadastrais básicos.
- RF2: o sistema deve listar serviços disponíveis por unidade e canal (presencial/digital).
- RF3: o sistema deve consultar disponibilidade de agenda por unidade, data e horário.
- RF4: o sistema deve reservar o horário e gerar número de protocolo.
- RF5: o sistema deve enviar confirmação (ex.: e-mail/SMS/notificação) com data, local e documentos necessários.
- RNF1 (Disponibilidade): o portal deve estar disponível em horário estendido, com manutenção programada fora do pico.
- RNF2 (Desempenho): a consulta de horários deve responder em até X segundos sob carga de pico.
- RNF3 (Segurança): autenticação deve exigir mecanismo forte e proteção contra tentativas repetidas.
- RNF4 (Auditabilidade): toda criação/cancelamento de agendamento deve registrar usuário, IP/canal, data/hora e unidade.
- RNF5 (Confiabilidade): reserva de horário deve ser transacional para evitar dupla marcação.
- Dados essenciais: CPF do cidadão, serviço selecionado, unidade/horário.
- Eventos auditáveis: criação do agendamento; cancelamento/alteração do agendamento.
Exercício 2: Registro de vistoria com captura de evidências
Cenário: o vistoriador realiza a vistoria, preenche checklist, anexa fotos e emite laudo com resultado aprovado/reprovado.
Tarefas
- Liste 6 RF (incluindo anexos e assinatura).
- Liste 6 RNF (incluindo integridade, rastreabilidade e desempenho).
- Desenhe mentalmente um BPMN com 1 gateway de decisão e 1 evento de erro; descreva em texto o fluxo.
Gabarito guiado (exemplo de resposta)
- RF1: o sistema deve identificar o veículo por RENAVAM/placa e carregar dados do agendamento.
- RF2: o sistema deve apresentar checklist configurável por tipo de vistoria.
- RF3: o sistema deve permitir anexar evidências (fotos/arquivos) vinculadas ao item do checklist.
- RF4: o sistema deve registrar medições/observações e calcular o resultado conforme regras.
- RF5: o sistema deve permitir assinatura do vistoriador e carimbo de data/hora.
- RF6: o sistema deve emitir laudo e disponibilizar consulta do resultado ao cidadão/atendimento.
- RNF1 (Integridade): anexos devem ter hash/controle de integridade e vínculo imutável ao laudo.
- RNF2 (Auditabilidade): alterações no laudo devem ser bloqueadas ou versionadas com justificativa.
- RNF3 (Desempenho): upload de evidências deve suportar múltiplos anexos sem travar a operação.
- RNF4 (Disponibilidade): em caso de falha de rede, deve existir modo de contingência (fila para sincronização) sem perda de dados.
- RNF5 (Segurança): acesso ao módulo de vistoria deve ser restrito por perfil e unidade.
- RNF6 (Rastreabilidade): cada laudo deve referenciar o processo/serviço, o agendamento e o responsável.
- Fluxo textual (BPMN): Início (vistoria iniciada) → tarefa “Carregar dados do veículo” → tarefa “Preencher checklist e anexar evidências” → gateway “Aprovado?” → se sim: tarefa “Assinar e emitir laudo” → fim; se não: tarefa “Registrar reprovação e orientações” → fim. Evento de erro: “Falha ao salvar anexos” direciona para tarefa “Repetir upload ou registrar contingência”.
Exercício 3: Abertura de processo de habilitação com validação documental
Cenário: o atendente abre o processo, confere documentos, registra pendências e libera etapas seguintes quando tudo estiver correto.
Tarefas
- Liste 5 RF e 5 RNF.
- Indique quais campos devem ser obrigatórios e quais podem ser opcionais (mínimo 6 campos).
- Defina 3 regras de negócio que gerem bloqueio do processo.
Gabarito guiado (exemplo de resposta)
- RF1: o sistema deve criar um processo de habilitação com número único e status inicial.
- RF2: o sistema deve registrar documentos apresentados e anexos digitalizados quando aplicável.
- RF3: o sistema deve permitir registrar pendências e prazos para regularização.
- RF4: o sistema deve bloquear avanço de etapa enquanto houver pendências críticas.
- RF5: o sistema deve registrar histórico de movimentações do processo (status, responsável, data/hora).
- RNF1: trilha de auditoria deve registrar alterações em dados pessoais e documentos.
- RNF2: tempo de resposta para salvar/consultar processo deve atender meta em horário de pico.
- RNF3: controle de acesso por perfil (atendente, supervisor, auditor).
- RNF4: dados sensíveis devem ser protegidos em trânsito e em repouso conforme política do órgão.
- RNF5: o sistema deve manter consistência transacional ao criar processo e anexos.
- Campos obrigatórios (exemplos): CPF, nome, data de nascimento, tipo de serviço, unidade, data de abertura.
- Campos opcionais (exemplos): telefone alternativo, observações do atendente, e-mail secundário.
- Regras de bloqueio (exemplos): documento obrigatório ausente; inconsistência cadastral crítica; restrição impeditiva identificada em consulta interna.
Checklists práticos: validação, rastreabilidade e qualidade
Checklist de validação de requisitos (RF e RNF)
- O requisito tem sujeito claro (usuário/sistema) e verbo no “deve”?
- Está testável (há como verificar em teste/homologação)?
- Evita ambiguidade (termos como “rápido”, “fácil” sem métrica)?
- Indica entradas, saídas e regras de negócio quando necessário?
- Para RNF: há métrica (tempo, disponibilidade, volume, retenção de logs)?
- Há tratamento de exceções (falha de integração, indisponibilidade, dados inválidos)?
Checklist de rastreabilidade (do processo ao requisito e ao teste)
- Cada etapa do BPMN possui RF associados?
- Cada decisão (gateway) possui regras e critérios documentados?
- Cada integração possui contrato, versão e responsável definidos?
- Cada RF possui casos de teste vinculados (positivo, negativo, exceção)?
- Cada RNF possui evidência de validação (teste de carga, monitoramento, auditoria)?
- Há identificação única para processo/solicitação (protocolo) e correlação em logs?
Checklist de qualidade operacional (disponibilidade, desempenho, auditabilidade)
- Disponibilidade: existe estratégia de contingência para atendimento e para integrações críticas?
- Desempenho: operações críticas têm metas de tempo e foram medidas sob carga?
- Auditabilidade: logs registram usuário, perfil, unidade, data/hora, ação, antes/depois (quando aplicável)?
- Integridade: anexos e registros sensíveis têm controle de versão e integridade?
- Rastreio ponta a ponta: há ID de correlação entre módulos e integrações?
- Conformidade: retenção de logs e evidências atende políticas internas e exigências de auditoria?
Modelo de artefatos textuais para usar no dia a dia do Analista de TI
Template: requisito funcional
RF-XX: O sistema deve [ação] para [usuário/perfil] quando [condição], registrando [dados/evidências]. Critérios de aceite: (1) ... (2) ...Template: requisito não funcional
RNF-XX (Categoria): O sistema deve atender [métrica] em [contexto], medido por [método]. Evidência: [relatório/log/teste].Template: mapeamento BPMN → requisitos
Etapa do processo: [nome da tarefa/gateway] | RF: [lista] | RNF: [lista] | Dados: [entradas/saídas] | Integrações: [sistemas] | Auditoria: [eventos/logs]