Conceito e objetivos da atuação em sinistros de trânsito
Sinistro de trânsito é o evento em via pública que resulta em dano material e/ou lesão, exigindo resposta imediata para reduzir riscos, manter a fluidez e garantir a qualidade do registro técnico. Para o Agente de Trânsito, a atuação se concentra em quatro eixos: (1) sinalização e isolamento do local, (2) preservação de vestígios e integridade da cena, (3) organização do fluxo e apoio operacional aos demais órgãos de resposta, e (4) coleta de informações e registro técnico objetivo.
Na prática, o Agente deve equilibrar segurança e eficiência: proteger pessoas e evitar novos sinistros (sinistro secundário), ao mesmo tempo em que mantém a cena estável para permitir atendimento, perícia quando aplicável e documentação consistente.
Sequência de ações no atendimento: do deslocamento ao encerramento operacional
1) Chegada e leitura rápida do cenário (primeiros 30–60 segundos)
Posicionamento seguro da viatura: parar de modo a proteger a área do sinistro (efeito “barreira”), sem bloquear rotas de emergência e sem criar risco adicional. Priorizar visibilidade e distância de segurança conforme velocidade da via.
Varredura de riscos imediatos: identificar fogo, fumaça, vazamento de combustível, cabos energizados, carga perigosa, veículos instáveis, pessoas na pista, baixa visibilidade (chuva/neblina/noite) e tráfego intenso.
Definição do tipo de ocorrência: apenas danos materiais, com vítimas, múltiplos veículos, tombamento, atropelamento, motociclista ao solo, colisão com poste/estrutura, carga derramada. Essa leitura orienta o nível de isolamento e os acionamentos.
Continue em nosso aplicativo
Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.
ou continue lendo abaixo...Baixar o aplicativo
2) Segurança do local e proteção de pessoas
Autoproteção: usar EPI operacional disponível (colete refletivo, luvas quando necessário, lanterna à noite). Manter atenção ao tráfego (principal fonte de risco no atendimento).
Proteção de vítimas e envolvidos: orientar pessoas a permanecerem em local seguro (acostamento, atrás de barreiras, calçada), evitando permanência entre veículos e pista.
Primeiro acionamento: se houver vítimas, priorizar o chamado ao serviço de emergência e informar número aproximado de vítimas, estado aparente, riscos presentes e melhor acesso ao local.
3) Sinalização, isolamento e criação de áreas funcionais
Organize o local em zonas para reduzir risco e manter o controle operacional.
Zona de advertência: área anterior ao sinistro para alertar e reduzir velocidade. Utilizar cones, dispositivos luminosos e posicionamento da viatura. Em curvas, lombadas ou baixa visibilidade, ampliar a distância de advertência.
Zona de transição: direciona o tráfego para desvio/estreitamento. Cones em afunilamento progressivo e orientação clara do fluxo.
Zona de trabalho: área do sinistro e atendimento (vítimas, remoção, limpeza). Deve ser isolada para impedir curiosos e evitar contaminação de vestígios.
Zona de liberação: após o ponto crítico, para retorno gradual do tráfego à normalidade.
Exemplo prático: colisão traseira em avenida com três faixas. O Agente posiciona a viatura atrás do sinistro com sinalização luminosa, instala cones formando afunilamento para manter duas faixas livres, isola a área dos veículos e orienta envolvidos a aguardarem no passeio. Se houver derramamento de óleo, amplia a zona de trabalho e solicita apoio para contenção/limpeza.
4) Preservação de vestígios e integridade da cena
Preservar vestígios significa evitar alterações desnecessárias que prejudiquem a compreensão técnica do evento. A regra operacional é: preservar sempre que possível, intervir quando necessário para salvar vidas e eliminar risco.
O que preservar: posição final dos veículos, marcas de frenagem, fragmentos, pontos de impacto, sinalização existente, condições da via (buracos, óleo, areia), visibilidade, iluminação, semáforos, placas, obstáculos, e objetos pessoais relevantes.
O que evitar: mover veículos sem necessidade, permitir que terceiros recolham peças/fragmentos, “limpar” a pista antes do registro mínimo, discutir versões no local de forma a influenciar relatos.
Quando é aceitável alterar a cena: para resgate de vítimas, prevenção de incêndio/explosão, risco de novo sinistro, ou para restabelecer fluxo quando não há necessidade de preservação ampliada. Mesmo nesses casos, registrar previamente o máximo possível (fotos, croqui simples, marcações).
Técnica rápida de preservação: se for inevitável remover um veículo, marque no solo (giz/tinta temporária/cone) a posição aproximada das rodas e a orientação do veículo, e faça fotos de vários ângulos antes da movimentação.
5) Organização do fluxo e desvio de tráfego
Escolha do plano de tráfego: manter faixas abertas quando seguro; criar desvio por faixa reversível apenas com apoio e controle; bloquear totalmente somente quando indispensável (vítimas na pista, carga perigosa, incêndio, estrutura comprometida).
Controle de velocidade: reduzir velocidade a montante com sinalização progressiva e, se necessário, apoio de outros agentes para “segurar” o fluxo.
Gestão de filas: monitorar extensão do congestionamento e impactos em cruzamentos/retornos. Ajustar o isolamento para evitar travamento de interseções.
Prevenção de sinistro secundário: manter a área bem iluminada à noite, reforçar cones e luzes, e reposicionar viatura se o tráfego estiver “invadindo” a zona de trabalho.
6) Coleta de informações: o que levantar e como perguntar
A coleta deve ser objetiva, focada em fatos observáveis e dados verificáveis. Evite transformar o atendimento em “debate” entre envolvidos.
Identificação: condutores, proprietários (se diferente), passageiros relevantes e testemunhas. Registrar contatos e documento de identificação quando aplicável.
Dados dos veículos: placa, características (cor, modelo), danos aparentes, posição final, se houve remoção por guincho e para onde.
Dados do local: via (sentido, faixa), referência (km, número, cruzamento), condições climáticas, iluminação, estado do pavimento, sinalização existente e funcionamento aparente.
Dinâmica relatada: colher versões separadamente, com perguntas curtas: “De onde vinha?”, “Para onde seguia?”, “Em qual faixa?”, “Qual manobra realizava?”, “Percebeu frenagem/obstáculo?”, “Havia semáforo/placa? Em qual condição?”.
Testemunhas: priorizar as independentes (não ocupantes dos veículos). Registrar posição de onde observaram e o que efetivamente viram.
Exemplo de pergunta bem formulada: em vez de “Quem estava errado?”, usar “Em qual faixa o senhor estava imediatamente antes do impacto?” e “O veículo à frente estava parado, lento ou em movimento?”.
7) Registro técnico: fotos, croqui e anotações essenciais
O registro técnico deve permitir reconstituir o cenário com clareza. Use padrão consistente e linguagem descritiva.
Fotografia (sequência sugerida): (1) visão geral do local (montante e jusante), (2) posição dos veículos e relação com faixas/sinalização, (3) detalhes de danos e pontos de contato, (4) marcas no pavimento e detritos, (5) placas, semáforos, condições de visibilidade e iluminação.
Croqui simples: desenhar faixas, sentido, pontos fixos (poste, esquina, km), posição final dos veículos, ponto provável de impacto quando identificável, e medidas aproximadas (passos/estimativa) quando não houver trena.
Anotações mínimas: horário de chegada, horário de liberação, órgãos acionados, medidas adotadas (bloqueio total/parcial), número de envolvidos, existência de vítimas, e alterações necessárias na cena (ex.: remoção para liberar faixa).
Comunicação e integração com outros órgãos de resposta
Parâmetros de comunicação (o que informar)
Ao acionar ou receber equipes, padronize a mensagem para reduzir retrabalho e atrasos.
Localização precisa: via, sentido, referência (km, cruzamento, ponto notável), melhor acesso e ponto de encontro.
Natureza do sinistro: tipo (colisão, atropelamento, tombamento), número de veículos, presença de vítimas e gravidade aparente.
Riscos: vazamento, fogo, carga perigosa, interdição de faixas, baixa visibilidade, risco de queda/estrutura.
Necessidades: resgate, atendimento médico, guincho, limpeza de pista, apoio para bloqueio/desvio, perícia quando aplicável.
Condições de tráfego: extensão de fila, rotas alternativas possíveis, impacto em cruzamentos.
Coordenação no local (comando e cooperação)
Definição de responsabilidades: alinhar rapidamente quem controla o tráfego, quem cuida do resgate, quem faz remoção e quem registra tecnicamente. Evita ordens conflitantes.
Canal e disciplina de rádio: mensagens curtas, objetivas, com confirmação de recebimento quando envolver bloqueios e mudanças de rota.
Atualizações por marcos: informar quando houver mudança relevante (ex.: “faixa 2 liberada”, “guincho chegou”, “pista totalmente interditada”, “vítima removida”).
Critérios para elaboração de relatórios objetivos e consistentes
Estrutura recomendada do relatório
Identificação da ocorrência: data, horário, local, equipe, condições ambientais.
Descrição do cenário: como o local foi encontrado (posição dos veículos, bloqueios, riscos), sem adjetivos e sem suposições.
Medidas operacionais adotadas: sinalização instalada, isolamento, desvio, acionamentos, remoções, limpeza, horários de cada ação relevante.
Dados coletados: envolvidos, veículos, testemunhas, registros fotográficos/croqui anexados, objetos/vestígios preservados.
Observações técnicas: condições da via e sinalização, visibilidade, fatores de risco identificados (ex.: óleo na pista, buraco, sinalização encoberta), sempre descrevendo o que foi constatado.
Regras de objetividade (o que fazer e o que evitar)
Use linguagem descritiva: “veículo A encontrava-se imobilizado na faixa 1, orientado no sentido norte, com danos na traseira”.
Separe fato de relato: fatos observados pelo agente devem ser descritos como constatação; versões dos envolvidos devem ser atribuídas (“condutor informou que…”).
Evite inferências: não afirmar velocidade, culpa ou intenção sem base técnica verificável. Se houver indício, descreva o indício (ex.: “marca de frenagem contínua aproximada de X metros, registrada em foto”).
Consistência temporal: registre horários em sequência lógica (chegada, acionamentos, liberação parcial, liberação total).
Padronize unidades e referências: faixas numeradas, sentido da via, pontos fixos, e identificação clara dos veículos (A, B, C).
Modelo de registro em formato enxuto (exemplo)
Ocorrência: sinistro com danos materiais, 2 veículos. Data/hora: 10/01, 18:40. Local: Av. X, sentido centro-bairro, após cruzamento com Rua Y. Condições: noite, pista seca, iluminação pública operante. Cenário: veículo A (placa ___) imobilizado na faixa 2; veículo B (placa ___) imobilizado parcialmente na faixa 2 e 3; detritos na faixa 2. Medidas: viatura posicionada a montante; cones instalados com afunilamento mantendo faixa 1 livre; envolvidos orientados ao passeio; acionado guincho às 18:48; limpeza solicitada às 18:55 devido a óleo. Registro: fotos gerais e detalhes; croqui anexado. Liberação: faixa 2 liberada às 19:12; via totalmente liberada às 19:25.Pontos de atenção operacionais frequentes
Curiosos e aglomeração: manter isolamento e orientar afastamento para evitar atropelamentos e contaminação de vestígios.
Motocicletas e ciclistas: atenção a vítimas fora do campo visual e a capacetes/objetos espalhados; isolar área maior antes de liberar tráfego.
Sinistro em interseção: evitar bloqueio que trave cruzamentos; se necessário, reposicionar cones para manter “caixa” do cruzamento livre.
Chuva/noite: ampliar zona de advertência, reforçar iluminação e reduzir velocidade do fluxo com antecedência.
Carga e derramamento: tratar como risco até confirmação; isolar, impedir ignição e acionar suporte especializado quando necessário.