Síndromes infecciosas comuns e antibióticos: raciocínio fundamental sem prescrição

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Como pensar por síndromes: foco em “precisa ou não precisa de antibiótico?”

Neste capítulo, o objetivo é treinar um raciocínio prático por síndromes infecciosas comuns, distinguindo quadros em que a causa bacteriana é mais provável daqueles em que antibiótico costuma trazer pouco benefício. A ideia não é prescrever nem definir esquemas, mas reconhecer padrões, identificar sinais de gravidade e decidir entre observar, investigar (por exemplo, coletar exames) e reavaliar.

Checklist rápido antes de pensar em antibiótico

  • Probabilidade de bactéria: há sinais clínicos compatíveis com infecção bacteriana (padrão de evolução, achados focais, secreção purulenta com critérios, febre persistente, dor localizada)?
  • Gravidade: há sinais de instabilidade, comprometimento respiratório, alteração do estado mental, desidratação importante, dor desproporcional, imunossupressão relevante?
  • Local de infecção e foco: o quadro sugere foco bem definido (pulmão, urina, pele, dente, etc.) ou é inespecífico?
  • Conduta segura sem antibiótico: é possível observar com orientação e reavaliar em 24–72h?
  • Necessidade de avaliação urgente: há “red flags” que mudam tudo e exigem atendimento imediato?

Infecções respiratórias altas (IVAS): resfriado, rinossinusite, faringoamigdalite, otite

Quando a causa viral é mais provável (antibiótico geralmente NÃO ajuda)

  • Resfriado comum: coriza, espirros, tosse, dor de garganta leve, febre baixa, melhora progressiva em poucos dias.
  • Rinossinusite aguda viral: congestão e secreção nasal nos primeiros dias, pressão facial leve/moderada, sintomas que começam a melhorar até ~7–10 dias.
  • Faringite com sinais virais: tosse, rouquidão, conjuntivite, úlceras orais, coriza.
  • Otalgia associada a IVAS sem sinais claros de otite média: dor de ouvido por disfunção tubária pode acompanhar resfriados.

Critérios que aumentam suspeita de bactéria (antibiótico pode ser considerado após avaliação)

Rinossinusite bacteriana: pensar quando há padrão típico como: sintomas persistentes sem melhora por mais de ~10 dias; piora após melhora inicial (“duplo agravamento”); ou quadro intenso com febre alta e dor facial importante por alguns dias.

Faringoamigdalite estreptocócica: mais provável quando há dor de garganta importante com febre, exsudato/amígdalas aumentadas, linfonodos cervicais anteriores dolorosos e ausência de tosse. Em muitos cenários, testes rápidos/cultura orientam a decisão (quando disponíveis).

Otite média aguda: suspeitar quando há dor de ouvido com sinais otoscópicos compatíveis (abaulamento/hiperemia de membrana timpânica, otorreia) e sintomas sistêmicos. Em alguns casos selecionados, pode-se observar inicialmente com reavaliação, especialmente se o quadro for leve e houver acesso fácil a retorno.

Red flags respiratórias altas (avaliar com urgência)

  • Dispneia, estridor, esforço respiratório, cianose.
  • Incapacidade de engolir saliva, sialorreia, voz abafada, trismo (pensar em abscesso peritonsilar/epiglotite).
  • Edema facial importante, dor ocular, proptose, alteração visual, cefaleia intensa (complicações orbitárias/intracranianas de sinusite).
  • Rigidez de nuca, rebaixamento do nível de consciência.
  • Desidratação importante, prostração marcada.

Exemplos de decisões racionais (IVAS)

  • Observar vs tratar: congestão nasal e tosse há 4 dias, afebril, sem piora → manejo sintomático e orientação de retorno se piorar ou não melhorar no tempo esperado.
  • Testar antes de tratar: dor de garganta intensa sem tosse, febre e exsudato → considerar teste para estreptococo quando disponível; evitar antibiótico “por via das dúvidas” em quadro com sinais virais.
  • Reavaliar: sintomas nasais há 8 dias com leve melhora → manter observação; se houver “duplo agravamento” ou persistência >10 dias sem melhora, reavaliar hipótese bacteriana.

Infecções respiratórias baixas: bronquite aguda, pneumonia, exacerbações

Bronquite aguda (antibiótico geralmente NÃO é indicado)

Tosse aguda (com ou sem expectoração) após IVAS, sem sinais de pneumonia, costuma ser viral. Expectoração amarela/verde, isoladamente, não confirma bactéria.

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Quando pensar em pneumonia (antibiótico costuma ser necessário após avaliação)

Suspeitar quando há combinação de sintomas respiratórios com sinais sistêmicos e achados sugestivos de consolidação: febre persistente, calafrios, dor torácica pleurítica, dispneia, taquipneia, queda de saturação, ausculta com estertores localizados. Em muitos contextos, radiografia auxilia a confirmar.

Exacerbação de DPOC/bronquiectasias (pode haver indicação em cenários selecionados)

Em pessoas com doença pulmonar crônica, antibiótico pode ser considerado quando há piora significativa com aumento de dispneia, volume de escarro e/ou purulência, especialmente se houver sinais sistêmicos. A decisão depende de gravidade, histórico e diretrizes locais.

Red flags respiratórias baixas (avaliar com urgência)

  • Saturação baixa, dispneia moderada a grave, taquipneia importante.
  • Dor torácica intensa, hemoptise, sinais de sepse (confusão, extremidades frias, hipotensão).
  • Idosos com confusão aguda, queda do estado geral importante.
  • Imunossupressão relevante ou comorbidades descompensadas.

Exemplos de decisões racionais (vias baixas)

  • Observar: tosse há 6 dias, sem febre, ausculta sem focalidade, saturação normal → provável bronquite viral; orientar sinais de alerta e retorno.
  • Investigar: febre + tosse + dispneia + estertores localizados → avaliar necessidade de imagem e estratificação de gravidade; considerar coleta de exames conforme cenário.
  • Reavaliar: tosse persistente com piora progressiva ou surgimento de febre após período de melhora → reavaliar para pneumonia.

Infecções do trato urinário (ITU): cistite, pielonefrite, bacteriúria assintomática

Quando antibiótico costuma ser necessário

Cistite (infecção baixa): disúria, urgência, polaciúria, dor suprapúbica, sem sinais sistêmicos importantes. Em geral, antibiótico é útil após avaliação clínica (e exames conforme disponibilidade e perfil de risco).

Pielonefrite (infecção alta): febre, calafrios, dor lombar, náuseas/vômitos, mal-estar, sensibilidade em flanco. Costuma exigir antibiótico e avaliação de gravidade; em alguns casos, atendimento urgente.

Quando antibiótico geralmente NÃO é indicado

  • Bacteriúria assintomática: presença de bactérias na urina sem sintomas urinários não deve ser tratada na maioria das pessoas. Exceções clássicas (como gestação e alguns cenários urológicos) exigem avaliação específica.
  • Sintomas vaginais predominantes: prurido, corrimento, odor forte com pouca disúria podem sugerir vaginite/cervicite; tratar como ITU sem avaliação pode atrasar o diagnóstico correto.

Passo a passo prático (suspeita de ITU)

  1. Defina o quadro: sintomas baixos (cistite) vs sinais de acometimento alto (pielonefrite).
  2. Procure fatores de complicação: gestação, sexo masculino, imunossupressão, anormalidades urológicas, cateter, recorrência, comorbidades relevantes.
  3. Decida sobre exames: urina tipo I pode ajudar; cultura é mais útil em pielonefrite, casos complicados, falha terapêutica, recorrência ou quando resistência é provável.
  4. Planeje reavaliação: se não houver melhora em 48–72h, reavaliar diagnóstico, adesão, resistência, complicações (ex.: obstrução).

Red flags urinárias (avaliar com urgência)

  • Febre alta com calafrios, vômitos persistentes, incapacidade de hidratar-se.
  • Dor lombar intensa, sinais de sepse, hipotensão, confusão.
  • Suspeita de obstrução urinária (dor intensa, anúria/oligúria), cálculo com infecção.
  • Gestação com sintomas urinários e febre.

Exemplos de decisões racionais (ITU)

  • Evitar antibiótico: exame de rotina com bacteriúria, sem sintomas → não tratar automaticamente; avaliar contexto e exceções.
  • Coletar cultura: febre + dor em flanco → maior probabilidade de pielonefrite; cultura ajuda a direcionar e ajustar.
  • Reavaliar: disúria tratada empiricamente sem melhora → considerar resistência, diagnóstico alternativo (IST/vaginite), complicação.

Pele e tecidos moles: celulite, erisipela, abscesso, feridas

Como diferenciar situações comuns

Celulite/erisipela: área de pele quente, dolorosa, avermelhada, com bordas variáveis; pode haver febre. Geralmente bacteriana e antibiótico costuma ser necessário após avaliação.

Abscesso: coleção de pus com flutuação, dor localizada, às vezes ponto de drenagem. Em muitos casos, a medida mais importante é drenagem; antibiótico pode ser adjuvante dependendo de extensão, sinais sistêmicos e fatores de risco.

Picadas/dermatites: prurido predominante, múltiplas lesões, pouca dor e ausência de calor local significativo sugerem inflamação não bacteriana; antibiótico frequentemente não ajuda.

Passo a passo prático (pele e partes moles)

  1. Procure sinais de pus: flutuação, drenagem, pústulas → pensar em abscesso.
  2. Avalie extensão e sintomas sistêmicos: febre, mal-estar, progressão rápida.
  3. Identifique porta de entrada: micose interdigital, feridas, trauma, mordidas, injeções.
  4. Considere necessidade de cultura: pus drenado, infecção recorrente, falha terapêutica, imunossupressão.
  5. Planeje reavaliação: piora em 24–48h, aumento de dor, expansão do eritema, surgimento de bolhas/necrose → reavaliar imediatamente.

Red flags em pele e tecidos moles (avaliar com urgência)

  • Dor desproporcional ao exame, progressão muito rápida, crepitação, bolhas hemorrágicas, necrose (suspeita de infecção necrosante).
  • Febre alta, hipotensão, confusão (sepse).
  • Comprometimento de face/periorbitário, ou sinais oculares.
  • Imunossupressão importante, diabetes descompensado com sinais sistêmicos.

Exemplos de decisões racionais (pele)

  • Tratar foco principal: lesão flutuante pequena e localizada → priorizar avaliação para drenagem; antibiótico não substitui drenagem quando indicada.
  • Evitar antibiótico: placas pruriginosas múltiplas após contato/alérgeno, sem calor/dor local → provável dermatite; antibiótico não é tratamento.
  • Reavaliar: celulite com aumento de área marcada apesar de medidas iniciais → reavaliar diagnóstico, adesão, necessidade de investigação/encaminhamento.

Infecções odontogênicas: dor dental, abscesso, celulite facial

Princípio central: antibiótico não resolve a causa sozinho

Grande parte das infecções odontogênicas exige controle do foco (tratamento dentário, drenagem, manejo do dente/tecido). Antibiótico pode ser adjuvante quando há disseminação, sinais sistêmicos ou risco de complicação.

Quando antibiótico pode ser necessário (após avaliação)

  • Celulite facial progressiva, edema importante, febre, mal-estar.
  • Trismo, disfagia, sinais de disseminação para espaços profundos.
  • Imunossupressão ou comorbidades que aumentem risco.

Quando antibiótico geralmente NÃO é suficiente/indicado isoladamente

  • Dor dental por cárie/pulpite sem sinais de infecção disseminada: precisa de avaliação odontológica e controle local.
  • Abscesso localizado que requer drenagem: antibiótico sem drenagem pode falhar.

Red flags odontogênicas (avaliar com urgência)

  • Edema em assoalho da boca, elevação de língua, dificuldade para respirar/engolir, voz abafada (risco de obstrução de via aérea).
  • Trismo importante, febre alta, toxemia.
  • Edema periorbitário, dor ocular, alteração visual.

Exemplos de decisões racionais (odontogênicas)

  • Encaminhar para foco: dor intensa em dente com sensibilidade, sem febre/edema → priorizar atendimento odontológico; antibiótico não é “analgésico”.
  • Urgência: edema facial com trismo e febre → avaliação urgente; considerar necessidade de imagem/drenagem e suporte.

Gastrointestinais selecionadas: diarreia aguda, disenteria, diverticulite (visão geral)

Diarreia aguda: antibiótico frequentemente NÃO é necessário

A maioria das diarreias agudas é autolimitada (viral ou toxigênica). O foco inicial costuma ser hidratação e avaliação de gravidade. Antibiótico pode ser considerado em situações específicas (por exemplo, disenteria, suspeita de cólera em cenários compatíveis, diarreia do viajante moderada/grave, imunossuprimidos), sempre com avaliação clínica e diretrizes locais.

Quando aumenta a suspeita de infecção bacteriana invasiva

  • Sangue nas fezes (disenteria), febre alta, dor abdominal importante.
  • Tenesmo, sinais sistêmicos, desidratação moderada a grave.
  • Surtos alimentares com múltiplos casos e sintomas intensos.

Diverticulite (visão de raciocínio, sem prescrição)

Quadro típico: dor em quadrante inferior esquerdo, febre, alteração do hábito intestinal. A necessidade de antibiótico varia conforme gravidade e complicações; alguns casos leves podem ser manejados sem antibiótico em protocolos específicos, enquanto sinais de complicação exigem avaliação urgente e, muitas vezes, antibiótico e imagem.

Passo a passo prático (diarreia/disenteria)

  1. Avalie hidratação e gravidade: sede intensa, tontura, pouca urina, letargia → atenção.
  2. Caracterize as fezes: aquosa vs sangue/muco; frequência; duração.
  3. Procure exposições: alimentos crus, água não tratada, viagem, antibiótico recente, contato com doentes.
  4. Decida sobre exames: coprocultura/testes específicos podem ser úteis em disenteria, febre alta, imunossupressão, surtos, persistência.
  5. Reavalie: piora clínica, incapacidade de hidratar-se, persistência além do esperado → reavaliar diagnóstico e necessidade de investigação.

Red flags gastrointestinais (avaliar com urgência)

  • Sinais de desidratação grave, hipotensão, confusão.
  • Sangue nas fezes com febre alta e dor intensa.
  • Dor abdominal localizada com defesa/rigidez, distensão importante, vômitos incoercíveis.
  • Suspeita de colite associada a antibiótico (diarreia importante após uso recente) com sinais sistêmicos.

Quadro-resumo: “observar, investigar, tratar, encaminhar”

SíndromeMais provável viral/não bacteriana (tende a observar)Sugere bactéria (tende a avaliar para antibiótico)Red flags (urgência)
IVASResfriado, sinusite até ~7–10 dias com melhoraSinusite persistente >10 dias sem melhora, duplo agravamento; faringite estreptocócica provável; otite média com sinais clarosEstridor, sialorreia, trismo, sinais orbitários, rebaixamento
Vias baixasBronquite aguda sem sinais de pneumoniaPneumonia provável (febre persistente, focalidade, dispneia, hipoxemia)Hipoxemia, dispneia grave, sepse, confusão em idosos
UrináriaBacteriúria assintomática (na maioria)Cistite sintomática; pielonefriteVômitos, dor em flanco com febre, sepse, obstrução, gestação com febre
Pele/tecidosDermatite/picadas pruriginosas sem dor/calorCelulite/erisipela; abscesso (drenagem é chave)Dor desproporcional, necrose, progressão rápida, sepse
OdontogênicaPulpite/dor sem disseminaçãoCelulite facial, sinais sistêmicos, disseminaçãoDisfagia, risco de via aérea, trismo importante, sinais orbitários
GIDiarreia aquosa autolimitadaDisenteria, febre alta, imunossupressão, casos gravesDesidratação grave, abdome agudo, sangue + toxemia

Como documentar e orientar quando a decisão é “não usar antibiótico agora”

Uma decisão segura de observação costuma incluir: (1) hipótese mais provável e por que antibiótico não ajudaria naquele momento; (2) medidas de suporte e controle de sintomas; (3) prazo de reavaliação (por exemplo, 48–72h ou antes se piorar); (4) lista clara de sinais de alarme específicos da síndrome; (5) plano de investigação se houver falha (ex.: coletar cultura, solicitar imagem, considerar diagnóstico alternativo).

Em qualquer síndrome, a escolha específica de antibiótico, dose e duração depende de avaliação clínica completa, alergias, comorbidades, padrões locais de resistência e diretrizes vigentes.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um quadro de rinossinusite aguda, qual situação aumenta a suspeita de causa bacteriana e indica a necessidade de reavaliar a possibilidade de antibiótico após avaliação clínica?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Persistência >~10 dias sem melhora, “duplo agravamento” ou quadro intenso com febre alta e dor facial importante são padrões que aumentam a suspeita de rinossinusite bacteriana e justificam reavaliação para possível antibiótico.

Próximo capitúlo

Boas práticas de comunicação e segurança na prescrição de antibióticos: checklist final

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