O que este checklist resolve na prática
Na prescrição de antibióticos, falhas de comunicação e de checagem de segurança costumam acontecer em pontos previsíveis: alergias mal caracterizadas, indicação pouco documentada, dose/duração inadequadas, ausência de ajuste por função renal/hepática, interações não revisadas, falta de orientação sobre sinais de alarme e ausência de plano de reavaliação. Este capítulo organiza um checklist final para reduzir esses riscos de forma rápida e aplicável, antes de emitir a receita e ao orientar o paciente.
Checklist final de prescrição segura (use como roteiro em 2–3 minutos)
1) Alergias e reações prévias (confirmar e qualificar)
- Pergunte e detalhe: qual antibiótico, qual reação, quanto tempo após tomar, necessidade de atendimento, e se já usou antibióticos “parecidos” sem problemas.
- Diferencie: intolerância (ex.: náusea) vs. reação alérgica (ex.: urticária, angioedema, broncoespasmo, anafilaxia).
- Registre claramente no prontuário e na receita (ex.: “alergia a amoxicilina: urticária em 1h, 2022”).
2) Indicação clara (diagnóstico e objetivo)
- Escreva a indicação na receita/prontuário: “tratamento de …”, “profilaxia de … (se aplicável)”.
- Defina o objetivo mensurável: melhora de febre/dor, redução de secreção purulenta, melhora respiratória etc.
- Evite prescrições “por via das dúvidas” sem um plano de reavaliação definido.
3) Espectro mínimo necessário (evitar excesso)
- Escolha o antibiótico mais direcionado possível ao cenário clínico, evitando combinações redundantes.
- Reavalie necessidade de cobertura ampliada apenas se houver fatores de risco específicos documentados.
- Se houver exame/cultura pendente: registre quando e como será feita a revisão do esquema.
4) Dose, intervalo e duração (clareza total)
- Cheque os “5 certos”: medicamento, dose, intervalo, duração, e indicação.
- Padronize a escrita: use mg e horário/intervalo (ex.: “a cada 8 horas”), evitando abreviações ambíguas.
- Defina duração com data: “por 7 dias” e, se possível, “iniciar hoje (dd/mm) e terminar em (dd/mm)”.
- Inclua orientações para esquecimento de dose (sem duplicar dose).
5) Via de administração e possibilidade de troca para via oral
- Justifique via parenteral quando usada (ex.: incapacidade de ingerir, vômitos persistentes, gravidade).
- Planeje a troca para oral quando houver melhora clínica e tolerância oral, com critério e prazo (ex.: “reavaliar em 48–72h para troca”).
- Verifique formulação disponível (comprimido, suspensão) e adequação ao paciente.
6) Interações e segurança medicamentosa (checagem rápida)
- Revise medicações em uso (prescritas, OTC, fitoterápicos, suplementos).
- Cheque interações relevantes e ajuste conduta: alternativa, monitorização, orientação de horários.
- Considere risco de eventos adversos em pacientes com histórico de reações importantes.
7) Ajuste por função renal e hepática (não presumir)
- Pergunte sobre doença renal/hepática conhecida e revise exames recentes quando disponíveis.
- Se não houver dados e o risco for alto: solicite/considere creatinina e defina plano de revisão.
- Documente o ajuste (ou a razão de não ajustar) no prontuário.
8) Orientação de adesão (como tomar, com o que tomar, o que evitar)
- Explique em linguagem simples como tomar (horários, com/sem alimento quando aplicável).
- Reforce: não compartilhar, não guardar “sobras”, não interromper por conta própria sem contato (exceto sinais de alarme).
- Confirme entendimento com técnica de retorno: “Pode me dizer como você vai tomar?”
9) Sinais de alarme e condutas imediatas (quando procurar ajuda)
- Liste sinais de alarme na orientação verbal e, se possível, por escrito: falta de ar, inchaço de face/língua, urticária difusa, desmaio, vômitos incoercíveis, diarreia intensa/persistente, sangue nas fezes, confusão, piora importante do estado geral.
- Instrua ação: “suspender e procurar atendimento imediato” para sinais compatíveis com reação alérgica grave.
- Defina o que é esperado (ex.: melhora em 48–72h) e o que é “piora”.
10) Plano de reavaliação (prazo e critérios)
- Agende ou oriente reavaliação com prazo (ex.: 48–72h) quando houver incerteza diagnóstica, risco elevado, ou necessidade de ajuste.
- Defina critérios de retorno antes do prazo: febre persistente, piora da dor, novos sintomas, intolerância ao medicamento.
- Se houver exames pendentes: registre quem revisará e como o paciente será contatado.
11) Documentação (o que não pode faltar)
- Diagnóstico/hipótese e justificativa da escolha do antibiótico.
- Alergias e reações prévias (descritas, não apenas “alérgico”).
- Esquema completo: dose, intervalo, duração, via, e ajustes.
- Orientações dadas: adesão, sinais de alarme, reavaliação.
- Plano de revisão (especialmente se empírico ou com exames pendentes).
Passo a passo prático: como aplicar o checklist durante a consulta
Etapa A — Antes de escolher o antibiótico (60–90 segundos)
- Confirme alergias com detalhes (ver perguntas modelo abaixo).
- Liste medicações em uso e condições especiais (gravidez/lactação, doença renal/hepática).
- Defina a indicação em uma frase (o “por quê” do antibiótico).
Etapa B — Ao montar a receita (60 segundos)
- Escreva o esquema completo (dose/intervalo/duração/via) sem abreviações ambíguas.
- Cheque ajuste renal/hepático e interações com a lista de medicamentos.
- Inclua plano de troca para oral quando aplicável (critério e prazo).
Etapa C — Ao orientar o paciente (60–120 segundos)
- Explique como tomar e o que fazer se esquecer uma dose.
- Explique o que esperar (tempo típico de melhora) e sinais de alarme.
- Combine reavaliação (data/prazo e motivo).
- Use “ensino de retorno”: peça para o paciente repetir o plano com as próprias palavras.
Modelos de perguntas ao paciente (copie e use)
Medicações em uso e interações
- “Quais remédios você usa todo dia? Pode incluir vitaminas, chás, suplementos e remédios sem receita.”
- “Você usa anticoagulante (como varfarina), remédio para arritmia, anticonvulsivante ou imunossupressor?”
- “Você tomou algum antibiótico nas últimas semanas? Qual e por quantos dias?”
Alergias e reações anteriores
- “Você tem alergia a algum antibiótico? Qual foi a reação exatamente?”
- “A reação foi coceira/urticária, inchaço, falta de ar, desmaio, ou foi mais enjoo/diarreia?”
- “Quanto tempo depois de tomar aconteceu? Precisou ir ao hospital?”
- “Já tomou algum antibiótico parecido depois disso? Como foi?”
Gravidez e lactação
- “Existe chance de gravidez neste momento?”
- “Você está amamentando? O bebê tem quantos meses?”
Histórico de diarreia associada a antibiótico / C. difficile
- “Você já teve diarreia forte depois de usar antibiótico?”
- “Algum médico já falou em infecção por C. difficile?”
- “Você teve internação recente ou usou antibiótico nos últimos 3 meses?”
Função renal/hepática e exames
- “Você tem doença nos rins ou já disseram que sua creatinina é alta?”
- “Você faz hemodiálise ou já fez?”
- “Você tem doença no fígado (hepatite, cirrose) ou exames alterados?”
- “Você tem algum exame recente de sangue (creatinina, função do fígado)?”
Frases prontas para educação em saúde (mensagens-chave de uso racional)
- Sobre necessidade: “Antibiótico trata infecções bacterianas. Quando não é necessário, ele pode causar efeitos adversos e aumentar resistência.”
- Sobre adesão: “Tome exatamente como combinado: dose, horários e dias. Isso aumenta a chance de funcionar e reduz risco de falha.”
- Sobre interrupção: “Se aparecer reação alérgica importante (inchaço, falta de ar, urticária), pare e procure atendimento. Fora isso, não interrompa sem falar comigo.”
- Sobre melhora esperada: “O esperado é começar a melhorar em 48–72 horas. Se não melhorar ou piorar antes disso, precisamos reavaliar.”
- Sobre diarreia: “Diarreia leve pode acontecer, mas diarreia intensa, persistente ou com sangue é sinal de alerta.”
- Sobre compartilhamento e sobras: “Não compartilhe antibiótico e não guarde sobras para ‘uma próxima vez’. Cada situação precisa de avaliação.”
- Sobre documentação e segurança: “Vou registrar sua alergia e seu plano de retorno para manter seu tratamento mais seguro.”
Mini-checklist imprimível (versão compacta)
[ ] Alergias: qual antibiótico? qual reação? gravidade? data?
[ ] Indicação escrita (diagnóstico/objetivo)
[ ] Espectro mínimo necessário
[ ] Dose + intervalo + duração (com datas)
[ ] Via adequada + plano de troca para VO (se aplicável)
[ ] Interações revisadas (lista completa de medicações)
[ ] Ajuste renal/hepático verificado/documentado
[ ] Orientação de adesão + “ensino de retorno”
[ ] Sinais de alarme explicados (e o que fazer)
[ ] Reavaliação: prazo + critérios + exames pendentes
[ ] Documentação completa no prontuário/receitaExemplo de documentação objetiva no prontuário (modelo)
| Item | Como registrar |
|---|---|
| Alergias | “Alergia a amoxicilina: urticária difusa em 1h, sem anafilaxia (2022).” |
| Indicação | “Tratamento de infecção bacteriana suspeita em [síndrome/hipótese].” |
| Esquema | “Antibiótico X, 500 mg VO a cada 8h por 7 dias (31/01 a 06/02).” |
| Ajustes | “Função renal: creatinina de dd/mm; ajuste realizado conforme … / sem necessidade.” |
| Interações | “Em uso de: … Interações checadas; orientado espaçar/monitorar …” |
| Orientações | “Explicado como tomar, sinais de alarme (alergia grave/diarreia intensa), retorno em 48–72h se sem melhora.” |