Boas práticas de comunicação e segurança na prescrição de antibióticos: checklist final

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que este checklist resolve na prática

Na prescrição de antibióticos, falhas de comunicação e de checagem de segurança costumam acontecer em pontos previsíveis: alergias mal caracterizadas, indicação pouco documentada, dose/duração inadequadas, ausência de ajuste por função renal/hepática, interações não revisadas, falta de orientação sobre sinais de alarme e ausência de plano de reavaliação. Este capítulo organiza um checklist final para reduzir esses riscos de forma rápida e aplicável, antes de emitir a receita e ao orientar o paciente.

Checklist final de prescrição segura (use como roteiro em 2–3 minutos)

1) Alergias e reações prévias (confirmar e qualificar)

  • Pergunte e detalhe: qual antibiótico, qual reação, quanto tempo após tomar, necessidade de atendimento, e se já usou antibióticos “parecidos” sem problemas.
  • Diferencie: intolerância (ex.: náusea) vs. reação alérgica (ex.: urticária, angioedema, broncoespasmo, anafilaxia).
  • Registre claramente no prontuário e na receita (ex.: “alergia a amoxicilina: urticária em 1h, 2022”).

2) Indicação clara (diagnóstico e objetivo)

  • Escreva a indicação na receita/prontuário: “tratamento de …”, “profilaxia de … (se aplicável)”.
  • Defina o objetivo mensurável: melhora de febre/dor, redução de secreção purulenta, melhora respiratória etc.
  • Evite prescrições “por via das dúvidas” sem um plano de reavaliação definido.

3) Espectro mínimo necessário (evitar excesso)

  • Escolha o antibiótico mais direcionado possível ao cenário clínico, evitando combinações redundantes.
  • Reavalie necessidade de cobertura ampliada apenas se houver fatores de risco específicos documentados.
  • Se houver exame/cultura pendente: registre quando e como será feita a revisão do esquema.

4) Dose, intervalo e duração (clareza total)

  • Cheque os “5 certos”: medicamento, dose, intervalo, duração, e indicação.
  • Padronize a escrita: use mg e horário/intervalo (ex.: “a cada 8 horas”), evitando abreviações ambíguas.
  • Defina duração com data: “por 7 dias” e, se possível, “iniciar hoje (dd/mm) e terminar em (dd/mm)”.
  • Inclua orientações para esquecimento de dose (sem duplicar dose).

5) Via de administração e possibilidade de troca para via oral

  • Justifique via parenteral quando usada (ex.: incapacidade de ingerir, vômitos persistentes, gravidade).
  • Planeje a troca para oral quando houver melhora clínica e tolerância oral, com critério e prazo (ex.: “reavaliar em 48–72h para troca”).
  • Verifique formulação disponível (comprimido, suspensão) e adequação ao paciente.

6) Interações e segurança medicamentosa (checagem rápida)

  • Revise medicações em uso (prescritas, OTC, fitoterápicos, suplementos).
  • Cheque interações relevantes e ajuste conduta: alternativa, monitorização, orientação de horários.
  • Considere risco de eventos adversos em pacientes com histórico de reações importantes.

7) Ajuste por função renal e hepática (não presumir)

  • Pergunte sobre doença renal/hepática conhecida e revise exames recentes quando disponíveis.
  • Se não houver dados e o risco for alto: solicite/considere creatinina e defina plano de revisão.
  • Documente o ajuste (ou a razão de não ajustar) no prontuário.

8) Orientação de adesão (como tomar, com o que tomar, o que evitar)

  • Explique em linguagem simples como tomar (horários, com/sem alimento quando aplicável).
  • Reforce: não compartilhar, não guardar “sobras”, não interromper por conta própria sem contato (exceto sinais de alarme).
  • Confirme entendimento com técnica de retorno: “Pode me dizer como você vai tomar?”

9) Sinais de alarme e condutas imediatas (quando procurar ajuda)

  • Liste sinais de alarme na orientação verbal e, se possível, por escrito: falta de ar, inchaço de face/língua, urticária difusa, desmaio, vômitos incoercíveis, diarreia intensa/persistente, sangue nas fezes, confusão, piora importante do estado geral.
  • Instrua ação: “suspender e procurar atendimento imediato” para sinais compatíveis com reação alérgica grave.
  • Defina o que é esperado (ex.: melhora em 48–72h) e o que é “piora”.

10) Plano de reavaliação (prazo e critérios)

  • Agende ou oriente reavaliação com prazo (ex.: 48–72h) quando houver incerteza diagnóstica, risco elevado, ou necessidade de ajuste.
  • Defina critérios de retorno antes do prazo: febre persistente, piora da dor, novos sintomas, intolerância ao medicamento.
  • Se houver exames pendentes: registre quem revisará e como o paciente será contatado.

11) Documentação (o que não pode faltar)

  • Diagnóstico/hipótese e justificativa da escolha do antibiótico.
  • Alergias e reações prévias (descritas, não apenas “alérgico”).
  • Esquema completo: dose, intervalo, duração, via, e ajustes.
  • Orientações dadas: adesão, sinais de alarme, reavaliação.
  • Plano de revisão (especialmente se empírico ou com exames pendentes).

Passo a passo prático: como aplicar o checklist durante a consulta

Etapa A — Antes de escolher o antibiótico (60–90 segundos)

  1. Confirme alergias com detalhes (ver perguntas modelo abaixo).
  2. Liste medicações em uso e condições especiais (gravidez/lactação, doença renal/hepática).
  3. Defina a indicação em uma frase (o “por quê” do antibiótico).

Etapa B — Ao montar a receita (60 segundos)

  1. Escreva o esquema completo (dose/intervalo/duração/via) sem abreviações ambíguas.
  2. Cheque ajuste renal/hepático e interações com a lista de medicamentos.
  3. Inclua plano de troca para oral quando aplicável (critério e prazo).

Etapa C — Ao orientar o paciente (60–120 segundos)

  1. Explique como tomar e o que fazer se esquecer uma dose.
  2. Explique o que esperar (tempo típico de melhora) e sinais de alarme.
  3. Combine reavaliação (data/prazo e motivo).
  4. Use “ensino de retorno”: peça para o paciente repetir o plano com as próprias palavras.

Modelos de perguntas ao paciente (copie e use)

Medicações em uso e interações

  • “Quais remédios você usa todo dia? Pode incluir vitaminas, chás, suplementos e remédios sem receita.”
  • “Você usa anticoagulante (como varfarina), remédio para arritmia, anticonvulsivante ou imunossupressor?”
  • “Você tomou algum antibiótico nas últimas semanas? Qual e por quantos dias?”

Alergias e reações anteriores

  • “Você tem alergia a algum antibiótico? Qual foi a reação exatamente?”
  • “A reação foi coceira/urticária, inchaço, falta de ar, desmaio, ou foi mais enjoo/diarreia?”
  • “Quanto tempo depois de tomar aconteceu? Precisou ir ao hospital?”
  • “Já tomou algum antibiótico parecido depois disso? Como foi?”

Gravidez e lactação

  • “Existe chance de gravidez neste momento?”
  • “Você está amamentando? O bebê tem quantos meses?”

Histórico de diarreia associada a antibiótico / C. difficile

  • “Você já teve diarreia forte depois de usar antibiótico?”
  • “Algum médico já falou em infecção por C. difficile?”
  • “Você teve internação recente ou usou antibiótico nos últimos 3 meses?”

Função renal/hepática e exames

  • “Você tem doença nos rins ou já disseram que sua creatinina é alta?”
  • “Você faz hemodiálise ou já fez?”
  • “Você tem doença no fígado (hepatite, cirrose) ou exames alterados?”
  • “Você tem algum exame recente de sangue (creatinina, função do fígado)?”

Frases prontas para educação em saúde (mensagens-chave de uso racional)

  • Sobre necessidade: “Antibiótico trata infecções bacterianas. Quando não é necessário, ele pode causar efeitos adversos e aumentar resistência.”
  • Sobre adesão: “Tome exatamente como combinado: dose, horários e dias. Isso aumenta a chance de funcionar e reduz risco de falha.”
  • Sobre interrupção: “Se aparecer reação alérgica importante (inchaço, falta de ar, urticária), pare e procure atendimento. Fora isso, não interrompa sem falar comigo.”
  • Sobre melhora esperada: “O esperado é começar a melhorar em 48–72 horas. Se não melhorar ou piorar antes disso, precisamos reavaliar.”
  • Sobre diarreia: “Diarreia leve pode acontecer, mas diarreia intensa, persistente ou com sangue é sinal de alerta.”
  • Sobre compartilhamento e sobras: “Não compartilhe antibiótico e não guarde sobras para ‘uma próxima vez’. Cada situação precisa de avaliação.”
  • Sobre documentação e segurança: “Vou registrar sua alergia e seu plano de retorno para manter seu tratamento mais seguro.”

Mini-checklist imprimível (versão compacta)

[ ] Alergias: qual antibiótico? qual reação? gravidade? data?  
[ ] Indicação escrita (diagnóstico/objetivo)  
[ ] Espectro mínimo necessário  
[ ] Dose + intervalo + duração (com datas)  
[ ] Via adequada + plano de troca para VO (se aplicável)  
[ ] Interações revisadas (lista completa de medicações)  
[ ] Ajuste renal/hepático verificado/documentado  
[ ] Orientação de adesão + “ensino de retorno”  
[ ] Sinais de alarme explicados (e o que fazer)  
[ ] Reavaliação: prazo + critérios + exames pendentes  
[ ] Documentação completa no prontuário/receita

Exemplo de documentação objetiva no prontuário (modelo)

ItemComo registrar
Alergias“Alergia a amoxicilina: urticária difusa em 1h, sem anafilaxia (2022).”
Indicação“Tratamento de infecção bacteriana suspeita em [síndrome/hipótese].”
Esquema“Antibiótico X, 500 mg VO a cada 8h por 7 dias (31/01 a 06/02).”
Ajustes“Função renal: creatinina de dd/mm; ajuste realizado conforme … / sem necessidade.”
Interações“Em uso de: … Interações checadas; orientado espaçar/monitorar …”
Orientações“Explicado como tomar, sinais de alarme (alergia grave/diarreia intensa), retorno em 48–72h se sem melhora.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao orientar um paciente que iniciará antibiótico, qual conduta melhor reduz risco e melhora a segurança segundo o checklist final?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O checklist recomenda orientar adesão (incluindo conduta em esquecimento), explicar sinais de alarme e definir reavaliação com prazo e critérios, além de confirmar entendimento com ensino de retorno, reduzindo falhas de comunicação e riscos.

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