Por que sinais vitais na triagem mudam a prioridade
Na triagem, sinais vitais (SV) não são apenas “números”: eles ajudam a estimar risco imediato, orientar necessidade de rechecagem, definir monitorização e identificar discrepâncias entre queixa e estado fisiológico. A mensuração precisa reduz falsos alarmes (ex.: PA superestimada por manguito pequeno) e evita subestimar gravidade (ex.: FR não contada corretamente). A interpretação deve ser contextual: um valor isolado pode ser explicado por dor, febre, ansiedade, esforço recente ou medicações; já uma tendência de piora, mesmo com valores “limítrofes”, pode indicar deterioração.
Padronização geral antes de medir (checklist rápido)
- Identificação e preparo: confirmar paciente, explicar o procedimento, garantir privacidade e conforto.
- Repouso e posição: idealmente 3–5 minutos em repouso; sentado ou semissentado, pés apoiados, sem cruzar pernas; braço apoiado na altura do coração para PA.
- Evitar interferências: não medir logo após esforço, choro, vômito, broncoespasmo tratado há segundos, nebulização recente, ingestão de cafeína ou cigarro (quando possível, aguardar 15–30 min). Na urgência, registre a condição (“medido durante dor intensa”, “pós-deambulação”).
- Equipamento: checar bateria, calibração/validação, tamanho correto de manguito, sensor de SpO2 adequado, termômetro funcional.
- Registrar com contexto: horário, posição, membro usado, método (axilar/oral/timpânico), oxigênio suplementar (fluxo e dispositivo), ritmo (regular/irregular), presença de febre/dor/ansiedade.
Pressão Arterial (PA): técnica correta, erros comuns e prevenção
Passo a passo prático (PA não invasiva)
- Escolha do manguito: largura ≈ 40% da circunferência do braço; bolsa insuflável cobrindo 80–100% da circunferência. Manguito pequeno superestima; grande subestima.
- Posicionamento: braço apoiado ao nível do átrio direito; manguito 2–3 cm acima da fossa cubital; marca sobre a artéria braquial.
- Paciente: sem falar durante a medida; costas apoiadas; pernas descruzadas; mão relaxada.
- Método: usar aparelho validado. Se leitura inesperada (muito alta/baixa), repetir após 1–2 minutos e considerar método auscultatório para confirmar.
- Repetição: se diferença > 10–15 mmHg entre medidas, fazer terceira e registrar média das duas mais próximas (quando o tempo permitir).
Erros frequentes (e como evitar)
- Manguito inadequado: manter opções (pediátrico, adulto, grande, coxa) disponíveis na triagem.
- Braço sem apoio ou abaixo/acima do coração: apoiar sempre; se acima do coração, PA pode subestimar; se abaixo, superestimar.
- Medir sobre roupa grossa: preferir pele exposta; se impossível, registrar.
- Paciente falando/dor aguda: reduzir estímulos, controlar dor quando possível e reavaliar.
- Arritmia: aparelhos oscilométricos podem falhar; considerar ausculta e múltiplas medidas.
Interpretação de risco (PA)
- Hipotensão sugere risco de choque, desidratação importante, sangramento, sepse, anafilaxia, efeito de fármacos. Atenção especial se associada a taquicardia, alteração de perfusão, confusão, oligúria.
- Hipertensão grave pode ser reação a dor/ansiedade, mas exige avaliação do contexto e sintomas. Valores muito elevados com sinais neurológicos, dor torácica, dispneia, déficit focal, alteração visual ou insuficiência renal sugerem emergência hipertensiva.
- Tendência: queda progressiva de PA ou necessidade crescente de O2 é mais preocupante do que um valor isolado “limítrofe”.
| Situação de alerta na triagem | Conduta prática |
|---|---|
| PA muito baixa ou queda rápida em rechecagem | Repetir imediatamente, avaliar perfusão, posicionar, acionar atendimento prioritário e preparar monitorização |
| PA muito alta + sintomas (neurológico, dor torácica, dispneia) | Encaminhar diretamente para avaliação médica/enfermagem avançada conforme fluxo local; não “esperar baixar” |
| PA alta sem sintomas, dor evidente ou ansiedade | Tratar fator desencadeante (analgesia, ambiente calmo) e reavaliar em 15–30 min |
Frequência Cardíaca (FC) e pulso: mensuração e armadilhas
Passo a passo prático
- Local: radial é usual; se pulso fraco/choque, usar carotídeo ou femoral conforme necessidade e protocolo.
- Tempo de contagem: 30 segundos x2 se regular; 60 segundos se irregular, muito rápido ou muito lento.
- Qualidade: registrar amplitude (cheio/filiforme), regularidade e simetria.
- Conferir com monitor/oxímetro: se discrepância entre FC do oxímetro e pulso palpado, priorizar pulso palpado e investigar perfusão periférica/artefato.
Erros frequentes
- Contar por 15 s x4 em ritmo irregular: aumenta erro; usar 60 s.
- Confiar apenas no oxímetro em baixa perfusão: vasoconstrição, hipotermia, choque e tremor geram leituras falsas.
- Não relacionar com temperatura/dor: febre e dor elevam FC; beta-bloqueadores podem mascarar taquicardia.
Interpretação contextual (FC)
- Taquicardia pode ser por dor, febre, ansiedade, hipovolemia, hipóxia, anemia, sepse, arritmia, uso de broncodilatadores, abstinência. Avalie junto com FR, SpO2, PA, temperatura e perfusão.
- Bradicardia pode ser fisiológica (atletas), por fármacos (beta-bloqueadores, digoxina), bloqueios, hipotermia, hipertensão intracraniana, hipercalemia. Se sintomática (síncope, hipotensão, confusão), é alerta.
Frequência Respiratória (FR): o sinal vital mais subestimado
A FR é um dos melhores marcadores precoces de deterioração, mas é frequentemente medida “no olho”, gerando subtriagem. Padronize a contagem real.
Passo a passo prático
- Posição: paciente em repouso, preferencialmente sentado ou semissentado.
- Contagem: observar elevação torácica/abdominal por 60 segundos (ideal). Se regular e sem desconforto, 30 segundos x2.
- Sem avisar explicitamente: quando possível, conte enquanto “mede o pulso” para reduzir alteração voluntária.
- Registrar esforço: uso de musculatura acessória, tiragem, batimento de asa nasal, fala entrecortada, cianose, sibilos/estridor audível, padrão (Kussmaul, Cheyne-Stokes).
Erros frequentes
- Estimativa visual rápida: substitui contagem e perde taquipneia leve/moderada.
- Contar com paciente falando/chorando: aguardar estabilizar e registrar condição se não for possível.
- Ignorar padrão respiratório: FR “normal” com grande esforço é sinal de risco.
Limiar de alerta (FR)
- Taquipneia persistente em repouso é alerta, especialmente se associada a SpO2 baixa, alteração de consciência, dor torácica, febre alta, acidose metabólica (ex.: cetoacidose) ou sinais de fadiga.
- Bradipneia sugere depressão do SNC (opioides/sedativos), fadiga respiratória, lesão neurológica; requer ação imediata se acompanhada de sonolência ou hipoxemia.
Saturação periférica de oxigênio (SpO2): técnica, limitações e interpretação
Passo a passo prático
- Escolha do sensor: dedo (adultos), orelha/testa quando baixa perfusão periférica; pediátrico conforme tamanho.
- Preparar o local: remover esmalte escuro/unhas postiças quando possível; aquecer extremidade fria; reduzir tremor/movimento.
- Checar qualidade do sinal: observar curva/indicador de perfusão e estabilidade da leitura por 30–60 s.
- Registrar oxigênio suplementar: dispositivo (cateter, máscara) e fluxo (L/min) ou FiO2 quando disponível.
Erros frequentes e falsas leituras
- Baixa perfusão: choque, vasoconstrição, hipotermia → SpO2 pode ficar falsamente baixa ou instável.
- Movimento/tremor: artefatos comuns em dor, calafrios, Parkinson.
- Luz ambiente intensa: pode interferir; reposicionar/ocluir o sensor.
- COHb/MetHb: intoxicação por monóxido de carbono pode mostrar SpO2 “normal” apesar de hipóxia tecidual; meta-hemoglobinemia pode fixar leitura em torno de 85%. Suspeite pelo contexto clínico.
Interpretação de risco (SpO2)
- Queda de SpO2 em repouso é sinal de alerta, especialmente com aumento de FR, esforço respiratório ou alteração do nível de consciência.
- Pacientes com DPOC/hipercapnia crônica: podem ter alvos de saturação diferentes conforme prescrição/fluxo local; registre valor basal informado e sinais de retenção de CO2 (sonolência, cefaleia, asterixis) e não “normalize” sem critério.
- SpO2 normal não exclui gravidade: crise asmática inicial, embolia pulmonar, sepse precoce e anemia grave podem ter SpO2 preservada; correlacione com FR, esforço e perfusão.
Temperatura: método, padronização e impacto na classificação
Passo a passo prático
- Escolher o método disponível: axilar (mais comum, pode subestimar), oral (evitar após ingestão quente/fria), timpânico (técnica influencia), temporal (sensível a suor/ambiente).
- Padronizar: usar sempre o mesmo método no mesmo paciente para comparar tendência, quando possível.
- Condições que alteram leitura: sudorese, ambiente frio/quente, antitérmicos recentes, banho, compressas.
- Registrar: valor, método e horário; se antitérmico nas últimas horas, anotar.
Erros frequentes
- Axilar com má vedação: termômetro fora do ápice axilar ou braço não aduzido → subestima.
- Timpânico sem tracionar o pavilhão: posicionamento incorreto no canal auditivo → erro.
- Comparar métodos diferentes: gera falsa “melhora/piora”.
Interpretação contextual (temperatura)
- Febre aumenta FC e pode elevar FR; em idosos/imunossuprimidos, infecção grave pode ocorrer com febre ausente ou baixa.
- Hipotermia pode mascarar taquicardia e reduzir FR; é marcador de gravidade em sepse e exposição ambiental.
- Pós-antitérmico: melhora do número não exclui infecção importante; avalie sinais associados e tendência.
Interpretação integrada: tendência, contexto e “número que não combina”
Princípios práticos
- Tendência > valor isolado: piora progressiva de FR, queda de SpO2, aumento de FC ou queda de PA em rechecagens é sinal de escalonamento, mesmo que ainda “dentro do normal”.
- Coerência fisiológica: um SV discrepante deve ser confirmado. Ex.: SpO2 82% sem dispneia e com boa curva pode ser real; sem boa curva e com extremidade fria, pode ser artefato.
- Dor e ansiedade: elevam FC, PA e FR. Se o paciente está em dor intensa, priorize analgesia conforme protocolo e reavalie SV para evitar superclassificação por estresse.
- Febre: pode explicar taquicardia; regra prática: FC tende a subir com aumento de temperatura. Taquicardia desproporcional à febre sugere desidratação, hipóxia, sepse, arritmia ou dor importante.
- Medicações: beta-bloqueadores podem impedir taquicardia; broncodilatadores elevam FC; opioides/sedativos reduzem FR; antitérmicos mascaram febre.
- Comorbidades: DPOC, insuficiência cardíaca, doença renal, anemia, gestação e idade avançada mudam reserva fisiológica; “normal” pode ser frágil.
Exemplos rápidos de interpretação contextual
- Exemplo 1: paciente com dor intensa por fratura: PA 170/100, FC 120, FR 24, SpO2 98%, T 36,7. Conduta: analgesia conforme protocolo, ambiente calmo, repetir SV em 15–30 min; se persistirem muito elevados ou surgirem sintomas, escalonar.
- Exemplo 2: idoso com fraqueza: T 35,6, FC 96, PA 92/58, FR 28, SpO2 93% em ar ambiente. Mesmo sem febre, combinação sugere alto risco; rechecagem imediata, monitorização e encaminhamento prioritário.
- Exemplo 3: dispneia leve referida, FR 32, SpO2 96%, FC 110. SpO2 preservada não tranquiliza; FR alta persistente em repouso exige avaliação rápida e rechecagem, considerar causas metabólicas/embolia/asma inicial.
Guia prático de rechecagem e escalonamento na triagem
Quando repetir sinais vitais (rechecagem)
- Imediatamente (agora): leitura incompatível com clínica; suspeita de erro técnico; valores extremos; paciente com tremor/movimento; arritmia; baixa perfusão; SpO2 sem curva adequada.
- Em 5–10 minutos: após intervenção breve (repouso, ajuste de sensor, aquecimento de extremidade, controle inicial de dor, reposicionamento), ou quando há SV limítrofes com sintomas.
- Em 15–30 minutos: SV alterados atribuíveis a dor/ansiedade/febre já abordadas; hipertensão sem sinais de gravidade; taquicardia leve com melhora clínica.
- Em 30–60 minutos: pacientes estáveis aguardando, mas com comorbidades relevantes ou queixas potencialmente evolutivas; use o fluxo institucional para periodicidade.
Quando monitorizar continuamente (ou em intervalos curtos)
- Indicações práticas: SpO2 baixa ou oscilante; necessidade de oxigênio suplementar; FR elevada persistente; PA instável; arritmia; alteração do nível de consciência; risco de deterioração (ex.: infecção com sinais sistêmicos, desidratação importante).
- O que monitorar: SpO2 contínua com alarme quando disponível, FC/ritmo, PA seriada, FR observada (não apenas do monitor), temperatura conforme evolução.
- Registrar tendência: anotar horários e intervenções entre medidas (O2 iniciado, analgesia, antitérmico, broncodilatador, fluidos).
Quando encaminhar diretamente (escalonamento imediato)
Encaminhar sem aguardar nova rodada de triagem quando houver SV muito alterados, piora rápida ou associação com sintomas de alto risco. Use o protocolo local, mas como guia prático:
- Hipoxemia (SpO2 baixa persistente ou queda progressiva), principalmente com desconforto respiratório, cianose, confusão ou exaustão.
- Taquipneia importante em repouso, sinais de fadiga respiratória, incapacidade de falar frases completas, estridor ou silêncio auscultatório (quando avaliado).
- Hipotensão ou sinais de hipoperfusão (pele fria, sudorese, enchimento capilar lento, rebaixamento de consciência), especialmente com taquicardia.
- Bradicardia ou taquicardia sintomáticas (síncope, dor torácica, dispneia, hipotensão, confusão) ou pulso irregular novo.
- Hipertensão grave com sintomas neurológicos, dor torácica, dispneia, déficit focal, alteração visual.
- Temperatura muito alta ou hipotermia associada a sinais sistêmicos (prostração, confusão, taquipneia, hipotensão) ou risco em populações vulneráveis.
Roteiro de documentação rápida (modelo)
SV (hora): PA ___/___ mmHg (manguito ___, braço ___, posição ___); FC ___ bpm (regular/irregular, pulso ___); FR ___ irpm (padrão ___, esforço ___); SpO2 ___% (AA ou O2 ___ L/min via ___, curva adequada sim/não); T ___°C (método ___). Contexto: dor ___/10, febre referida, ansiedade, medicações recentes (beta-bloq/bronco/opiáceo/antitérmico), comorbidades relevantes. Rechecagem programada: ___ min. Escalonamento: sim/não, motivo: ___.