Sinais vitais e segurança na Avaliação Fisioterapêutica: critérios para iniciar, pausar ou encaminhar

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que sinais vitais são parte da segurança na avaliação

Sinais vitais são medidas objetivas do funcionamento cardiorrespiratório e termorregulatório. Na avaliação fisioterapêutica, eles servem para: (1) estabelecer uma linha de base antes de testes e exercícios; (2) monitorar resposta ao esforço e recuperação; (3) identificar intolerância ao esforço e risco agudo; (4) orientar decisão de iniciar, pausar, adaptar ou encaminhar. A mesma tarefa (ex.: sentar-levantar) pode ser segura para um paciente e arriscada para outro; a diferença costuma aparecer na combinação de sintomas + sinais vitais + contexto clínico.

Quais sinais vitais coletar e quando

Conjunto mínimo recomendado

  • Pressão arterial (PA)
  • Frequência cardíaca (FC)
  • Frequência respiratória (FR)
  • Saturação periférica de oxigênio (SpO2)
  • Temperatura (quando houver suspeita de infecção, quadro sistêmico, pós-operatório recente, queixa de calafrios, sudorese inexplicada, ou ambiente muito quente)

Momentos de coleta (prático)

  • Repouso: após 3–5 minutos sentado ou em decúbito, antes de testes funcionais.
  • Durante esforço: no pico de um teste (ex.: caminhada, degrau, sentar-levantar) ou em intervalos padronizados.
  • Recuperação: 1, 3 e 5 minutos após o esforço (ou até retornar próximo da linha de base).
  • Quando houver sintomas: imediatamente ao surgimento de dispneia desproporcional, dor torácica, tontura, palidez, sudorese fria, confusão, cianose, etc.

Valores de referência e variações comuns (adultos)

Use referências como guia, sempre interpretando com idade, comorbidades, medicações e condição basal do paciente. Em muitos casos, o mais importante é a mudança em relação ao basal e a presença de sintomas.

ParâmetroReferência típica em repousoVariações comuns/observações
PA~90–120/60–80 mmHgIdosos podem ter PAS mais alta; atletas podem ter PA mais baixa. Dor, ansiedade e cafeína elevam. Anti-hipertensivos podem reduzir e predispor a hipotensão ortostática.
FC60–100 bpmAtletas: 40–60 bpm pode ser normal. Febre, dor, desidratação elevam. Betabloqueadores reduzem e limitam resposta ao esforço.
FR12–20 irpmAnsiedade e dor aumentam. FR sustentada > 24 irpm em repouso sugere maior risco/instabilidade, especialmente com SpO2 baixa.
SpO295–100%Em DPOC e algumas doenças pulmonares, basal pode ser menor. Queda com esforço é um marcador importante de intolerância.
Temperatura~36,0–37,5°C> 37,8–38°C sugere febre (contexto importa). Hipotermia < 35°C é alerta.

Critérios práticos de alerta (valores que pedem cautela)

  • PA muito alta: PAS ≥ 180 mmHg e/ou PAD ≥ 110 mmHg em repouso (repetir medida, checar técnica; se persistir, evitar esforço e considerar encaminhamento conforme sintomas).
  • PA baixa: PAS < 90 mmHg com sintomas (tontura, fraqueza, síncope) ou queda importante em relação ao habitual.
  • FC em repouso: > 120 bpm ou < 50 bpm com sintomas (tontura, síncope, confusão, dor torácica).
  • FR: > 24 irpm em repouso, especialmente com uso de musculatura acessória, fala entrecortada ou SpO2 reduzida.
  • SpO2: < 92% em repouso (ou abaixo do basal conhecido) ou queda ≥ 3–4% com esforço; SpO2 < 88–90% durante teste é, em geral, motivo para pausar e reavaliar (ajustar ao contexto clínico e prescrição de O2).
  • Temperatura: febre com mal-estar importante, taquicardia desproporcional, ou sinais respiratórios relevantes → adiar teste físico e orientar avaliação médica conforme gravidade.

Como medir corretamente (passo a passo)

Pressão arterial (PA)

  1. Prepare o paciente: repouso 3–5 min; evitar falar; pernas descruzadas; braço apoiado na altura do coração.
  2. Escolha o manguito: largura adequada ao braço (manguito pequeno superestima; grande subestima).
  3. Posicione: manguito 2–3 cm acima da fossa cubital; centro sobre artéria braquial.
  4. Meça: preferir aparelho validado; se primeira medida alterada, repita após 1–2 min e registre a média.
  5. Se suspeita de hipotensão ortostática: medir deitado/sentado e depois em pé (1 e 3 min). Queda de PAS ≥ 20 mmHg ou PAD ≥ 10 mmHg com sintomas é relevante.

Frequência cardíaca (FC)

  1. Repouso: palpar pulso radial por 30–60 s (ritmo irregular pede 60 s) ou usar monitor.
  2. Durante esforço: monitor cardíaco facilita; se palpação, faça no pico ou imediatamente ao término.
  3. Observe ritmo: irregularidade nova + sintomas (tontura, dispneia, dor torácica) aumenta risco.

Frequência respiratória (FR)

  1. Sem avisar explicitamente (para reduzir alteração voluntária), observe expansões torácicas/abdominais.
  2. Conte 30 s e multiplique por 2 (ou 60 s se padrão irregular).
  3. Qualidade importa: uso de musculatura acessória, tiragem, fala em frases curtas, respiração paradoxal.

SpO2

  1. Escolha o dedo: preferir indicador ou médio; remover esmalte; aquecer extremidades frias.
  2. Evite artefatos: movimento, tremor, baixa perfusão, luz intensa.
  3. Espere estabilizar: registre quando o valor estiver estável por alguns segundos e com boa curva/sinal (se disponível).
  4. Durante teste: medir no pico e na recuperação; registrar a menor SpO2 e o tempo para recuperar.

Temperatura

  1. Escolha método: timpânica/axilar/oral conforme disponibilidade e protocolo local.
  2. Interprete com contexto: ambiente, exercício recente, hidratação, uso de antitérmicos.

Interpretação durante esforço: resposta esperada vs intolerância

Respostas geralmente esperadas ao esforço submáximo

  • FC aumenta proporcionalmente à intensidade (menos em uso de betabloqueador).
  • PA: PAS tende a subir; PAD costuma manter ou variar pouco.
  • FR aumenta; fala pode ficar mais curta em intensidades maiores.
  • SpO2 se mantém estável na maioria; leve queda pode ocorrer em doença pulmonar.
  • Recuperação: sinais vitais retornam gradualmente; recuperação lenta sugere baixa aptidão ou limitação clínica.

Sinais de intolerância ao esforço (red flags funcionais)

  • Sintomas cardiorrespiratórios: dor/pressão torácica, dispneia desproporcional, palpitações com mal-estar, pré-síncope/síncope.
  • Sinais autonômicos: sudorese fria, palidez acentuada, náusea intensa.
  • Neurológicos: confusão, fala arrastada, fraqueza súbita, alteração visual.
  • Oxigenação: queda significativa de SpO2 (ex.: ≥ 3–4% do basal) ou valores < 88–90% durante teste (ajustar ao basal e prescrição de O2).
  • Resposta hemodinâmica inadequada: PAS não sobe com aumento de carga, ou cai durante esforço; aumento exagerado de PA; taquicardia desproporcional.

Critérios práticos: iniciar, pausar, adaptar ou encaminhar

1) Pode iniciar (em geral)

  • Sem sintomas de alerta no momento.
  • Sinais vitais em repouso dentro de faixa aceitável para o contexto.
  • Paciente compreende instruções e consegue relatar sintomas durante o teste.

2) Iniciar com adaptação/monitorização reforçada

  • SpO2 basal 92–94% (ou abaixo do normal, porém estável e conhecido), sem sinais de desconforto importante.
  • PA elevada moderada (ex.: PAS 140–179 e/ou PAD 90–109) sem sintomas, com plano de intensidade leve e pausas.
  • Uso de betabloqueador: usar percepção de esforço e sintomas como guia adicional (FC pode não refletir intensidade).
  • História de hipotensão ortostática: transições lentas, hidratação orientada, monitorar PA em mudanças posturais.

3) Pausar imediatamente e reavaliar no local

  • Dor torácica, falta de ar intensa, tontura importante, pré-síncope, confusão, cianose.
  • SpO2 caindo e não recupera com repouso/controle ventilatório, ou atinge valores muito baixos para o contexto.
  • Queda de PAS durante esforço, ou PAS muito elevada no esforço (especialmente se acompanhada de cefaleia intensa, dor torácica, dispneia).
  • Arritmia percebida + sintomas.

Ação imediata prática: interromper atividade, posicionar com segurança (sentado/decúbito conforme tolerância), checar sinais vitais seriados, aplicar estratégias simples (respiração com lábios semicerrados, ventilação diafragmática), verificar glicemia se aplicável e disponível, e decidir encaminhamento conforme gravidade e persistência.

4) Encaminhar (urgente/emergência) conforme quadro

  • Sintomas compatíveis com síndrome coronariana aguda (dor/pressão torácica com irradiação, sudorese fria, náusea, dispneia) com sinais vitais alterados ou mal-estar importante.
  • SpO2 persistentemente baixa em repouso ou queda importante com esforço que não recupera adequadamente.
  • Síncope, déficit neurológico súbito, confusão aguda.
  • PA muito elevada persistente (ex.: ≥ 180/110) especialmente com sintomas (cefaleia intensa, dor torácica, dispneia, alteração visual).

Quando houver risco imediato, acione o serviço de emergência local e siga protocolos institucionais.

Fluxo de decisão de segurança (modelo aplicável em consultório e hospital)

1) Antes do teste/exercício: medir PA, FC, FR, SpO2 (± temperatura) + checar sintomas atuais. 2) Há sintomas cardiorrespiratórios/neurológicos importantes agora?    - Sim → NÃO iniciar. Medir sinais vitais seriados → conduta de urgência/encaminhamento conforme gravidade.    - Não → seguir. 3) Sinais vitais em repouso estão em faixa aceitável para o contexto?    - Não → repetir medida, revisar técnica e fatores (dor, ansiedade, cafeína, medicação).        - Persistiu alterado → adaptar (intensidade leve/monitorização) OU adiar e encaminhar conforme nível de risco.    - Sim → iniciar teste com monitorização. 4) Durante o teste: surgiram sintomas de intolerância OU SpO2 caiu ≥3–4%/ficou <88–90% OU PA/FC resposta inadequada?    - Sim → PAUSAR. Sentar/decúbito, reavaliar sinais vitais (1–3–5 min).        - Recupera rápido e sem sintomas → retomar com menor intensidade/pausas/educação.        - Não recupera ou piora → encaminhar (urgente/emergência conforme sinais).    - Não → concluir teste e registrar pico + recuperação. 5) Após: documentar valores, sintomas, condutas e plano de segurança para próximas sessões.

Como registrar (documentação objetiva e útil)

Registre sempre posição (sentado, em pé, decúbito), momento (repouso, pico, 1/3/5 min recuperação), equipamento (oxímetro X, PA automática/manual), e condições (uso de O2, medicações relevantes, dor, ansiedade).

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  • Exemplo: “Repouso sentado: PA 152/94, FC 88, FR 18, SpO2 95% AA. Teste sentar-levantar 1 min: FC pico 118, SpO2 mínima 92%. Recuperação 3 min: FC 92, SpO2 95%. Sem dor torácica; dispneia moderada (fala em frases completas). Conduta: manter intensidade leve, pausas, monitorar SpO2 em próximos testes.”

Orientação ao paciente (modelos práticos de fala)

Antes do teste

“Vou medir sua pressão, batimentos, respiração e oxigenação. Isso ajuda a garantir que o teste seja seguro e a ajustar a intensidade. Durante o teste, me avise imediatamente se sentir dor no peito, falta de ar fora do normal, tontura, palpitação forte, náusea intensa ou visão turva.”

Se precisar pausar por alteração

“Vou interromper agora porque seus sinais vitais/sintomas mostram que seu corpo está exigindo mais do que o ideal neste momento. Vamos sentar, respirar com calma e medir novamente. Dependendo da recuperação, ajustamos o teste ou vamos orientar uma avaliação médica.”

Quando orientar procura de serviço de saúde

“Pelos sinais e sintomas de hoje, não é seguro continuar. Recomendo avaliação médica ainda hoje/serviço de urgência. Vou registrar os valores e descrever o que aconteceu para facilitar seu atendimento.”

Comunicação interprofissional (SBAR adaptado para Fisioterapia)

Use um formato curto e padronizado para reduzir ruído e acelerar decisões.

ElementoO que informarExemplo
S (Situação)Motivo do contato e gravidade“Durante avaliação funcional, paciente apresentou dispneia intensa e dessaturação.”
B (Background)Contexto clínico relevante“DPOC; sem O2 domiciliar; em uso de broncodilatador; basal SpO2 93%.”
A (Avaliação)Dados objetivos + evolução“Repouso: PA 138/86, FC 92, FR 20, SpO2 93%. No esforço: SpO2 86% e FR 30, fala entrecortada. Após 5 min repouso: SpO2 89% persistente.”
R (Recomendação)O que você solicita/propõe“Solicito avaliação médica imediata e orientação sobre necessidade de O2/ajuste medicamentoso; suspensa atividade.”

Dicas rápidas para reduzir falsos alarmes (sem perder segurança)

  • Repetir medidas alteradas após 1–2 minutos e checar técnica (manguito, postura, movimento, perfusão periférica no oxímetro).
  • Considerar fatores transitórios: dor aguda, ansiedade, cafeína, desidratação, ambiente quente.
  • Comparar com o basal conhecido (quando disponível) e com a resposta esperada ao esforço.
  • Priorizar combinação: valor isolado levemente fora da referência pode ser menos relevante do que valor + sintomas + tendência de piora.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante um teste funcional, qual situação indica que o fisioterapeuta deve pausar imediatamente e reavaliar no local antes de decidir retomar, adaptar ou encaminhar?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Sintomas como dor torácica ou falta de ar intensa e/ou dessaturação que não recupera com repouso são sinais de intolerância ao esforço e exigem pausa imediata, posicionamento seguro e reavaliação seriada para decidir adaptação ou encaminhamento.

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