Palpação, amplitude de movimento e força muscular: execução e interpretação na Avaliação Fisioterapêutica

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Palpação: o que avaliar e como interpretar

A palpação é uma ferramenta para coletar dados táteis que complementam o que você já observou no movimento e no relato do paciente. O objetivo é identificar alterações em tecidos superficiais e profundos e relacioná-las a hipóteses clínicas testáveis (por exemplo: irritação tecidual, sobrecarga mecânica, processo inflamatório local, espasmo protetor, sensibilização).

O que a palpação pode informar (e o que não pode)

  • Sensibilidade: hipoestesia/hiperestesia, alodinia, distribuição em dermátomos/territórios periféricos.
  • Temperatura: aumento local pode sugerir inflamação/hiperemia; redução pode sugerir alteração vascular periférica (sempre comparar lados).
  • Dor à palpação: localização, profundidade, qualidade e reprodutibilidade do sintoma principal.
  • Tensão/tonicidade: aumento de tônus, bandas tensas, espasmo protetor, rigidez miofascial.
  • Edema/consistência: flutuante, depressível (sinal de cacifo), endurecido.
  • Estruturas anatômicas: referências ósseas, tendões, interlinhas articulares, massas musculares.

Limites: dor à palpação isolada não confirma diagnóstico. Interprete em conjunto com ADM, força, padrão de dor e comportamento dos sintomas.

Passo a passo prático de palpação (roteiro rápido)

  1. Preparação: mãos aquecidas, unhas curtas, explique o que será feito e peça feedback contínuo (0–10 de dor).
  2. Comparação bilateral: sempre que possível, compare lado sintomático vs. assintomático (temperatura, textura, sensibilidade).
  3. Do superficial ao profundo: comece com toque leve (sensibilidade/temperatura) e progrida para pressão gradual (tensão e pontos dolorosos).
  4. Mapeamento: delimite área dolorosa (centro e bordas), identifique se a dor é pontual, difusa ou em faixa.
  5. Reprodução do sintoma: pergunte se a palpação reproduz a dor principal e se irradia para algum lugar.
  6. Teste de modulação: peça um movimento que costuma doer e repita após a palpação; observe se houve mudança (piora, melhora, sem alteração).

Como palpar itens-chave

Temperatura: use o dorso dos dedos, varra áreas equivalentes nos dois lados e registre “mais quente/igual/mais frio”. Evite comparar áreas com roupas ou exposição diferente.

Sensibilidade: toque leve com a polpa do dedo e, se necessário, pressão leve. Registre se há dor ao toque leve (alodinia) ou resposta exagerada (hiperalgesia). Se suspeitar componente neurogênico, descreva a distribuição (ex.: face lateral da perna e dorso do pé).

Pontos dolorosos: pressione gradualmente por 2–3 segundos. Registre intensidade (0–10), profundidade (superficial/profunda), e se reproduz o sintoma principal. Diferencie: dor local (fica no ponto) vs. dor referida (espalha para outra região).

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Tensão/tonicidade: deslize e amasse suavemente a massa muscular, buscando rigidez, bandas tensas e espasmo. Observe se a tensão aumenta quando o paciente antecipa dor (proteção) e se reduz com respiração/relaxamento.

Registro sugerido para palpação

Região/EstruturaLadoTemperaturaSensibilidadeDor (0–10)Reproduz sintoma principal?Tensão/ConsistênciaObservações
D/E↑/=/↓Normal/hiper/hipo/alodiniaSim/NãoNormal/↑/edema

Amplitude de movimento (ADM): ativa, passiva, fim de curso, dor e compensações

A avaliação de ADM descreve quanto uma articulação se move e como ela se move. Mais do que “quantos graus”, você quer entender: qual movimento limita, o que limita (dor, rigidez, fraqueza, medo), quando dói e como o corpo compensa.

Conceitos essenciais

  • ADM ativa (A): movimento produzido pelo paciente. Depende de controle motor, força, dor e confiança.
  • ADM passiva (P): movimento produzido pelo avaliador. Informa sobre mobilidade articular e extensibilidade tecidual, com menor influência de força.
  • Fim de curso (end-feel): sensação ao final da ADM passiva. Pode sugerir o tipo de barreira (tecidual, articular, protetora).
  • Dor associada: início, pico e comportamento (no começo, no meio, no final; durante ou após).
  • Compensações: movimentos “roubados” por segmentos adjacentes para completar a tarefa.

Passo a passo: ADM ativa

  1. Posicionamento: coloque o paciente de forma estável e confortável, com o segmento exposto e alinhado.
  2. Instrução: comando simples e específico. Ex.: “Levante o braço até onde conseguir, sem inclinar o tronco.”
  3. Observação: amplitude, velocidade, tremor, controle, assimetria, padrão de movimento.
  4. Dor: pergunte onde dói, quando começa e a intensidade (0–10). Registre se a dor limita o movimento.
  5. Compensações: identifique e, se necessário, repita com correção (ex.: estabilizar escápula, bloquear pelve).
  6. Comparação: compare com o lado contralateral quando aplicável.

Passo a passo: ADM passiva

  1. Relaxamento: peça para “deixar o peso no avaliador”. Observe se há guarda/contração.
  2. Estabilização: estabilize o segmento proximal para isolar a articulação (reduz compensações).
  3. Movimento lento: realize a ADM lentamente, sentindo resistência e observando a resposta do paciente.
  4. Fim de curso: descreva o tipo de sensação e se é dolorosa.
  5. Reprodução de sintomas: registre se a dor é local, referida ou semelhante ao sintoma principal.

Fim de curso: como descrever de forma clínica

Em vez de tentar “nomear” o fim de curso como uma lista fixa, descreva com linguagem funcional e reprodutível:

  • Elástico/firme: resistência progressiva, sensação de estiramento (comum em tecidos moles).
  • Duro/abrupto: parada súbita, pouca elasticidade (pode sugerir limitação articular/óssea, dependendo do contexto).
  • Espasmódico/protetor: interrupção por contração involuntária ou medo/dor.
  • Doloroso antes do limite: dor surge cedo e impede chegar ao limite mecânico.

Registre também se o fim de curso é comparável ao lado oposto e se muda com repetição (ex.: melhora após 3 repetições pode sugerir componente de rigidez adaptativa/medo; piora progressiva pode sugerir irritabilidade).

Dor na ADM: padrões úteis

  • Dor no início: pode indicar alta irritabilidade, proteção, sensibilização ou inflamação.
  • Dor no final: pode indicar estresse em estruturas tensionadas no final do arco.
  • Dor apenas na ativa (passiva preservada): sugere componente contrátil (músculo/tendão) ou controle motor/dor-inibição.
  • Dor na ativa e na passiva: sugere componente articular/capsular, inflamatório ou alta irritabilidade (interpretar com palpação e fim de curso).

Compensações: como identificar e reduzir

Compensações comuns incluem inclinação de tronco para elevar o braço, rotação pélvica para ganhar flexão de quadril, elevação escapular para simular abdução. Estratégias:

  • Use referências: “mantenha o ombro longe da orelha”, “não deixe a pelve girar”.
  • Estabilize manualmente: bloqueie o segmento proximal.
  • Reduza carga: faça em decúbito para diminuir gravidade quando necessário.
  • Registre: “ADM completa com compensação X” é diferente de “ADM completa sem compensação”.

Tabelas de registro para ADM

Articulação/MovimentoLadoADM AtivaDor (0–10) / QuandoCompensaçõesADM PassivaFim de cursoObservações
D/E(graus ou descrição)(graus ou descrição)firme/duro/protetor/doloroso

Se você usa goniômetro, registre em graus. Se não, descreva com marcos funcionais (ex.: “mão alcança T12”, “flexão até metade da canela”) e mantenha o mesmo padrão nas reavaliações.

Teste de Força Muscular Manual (TMM): execução, escala e interpretação

O TMM estima a capacidade do músculo (ou grupo muscular) de produzir força contra a gravidade e contra resistência manual. Ele é sensível a dor, medo, coordenação, estabilização inadequada e compreensão do comando. Por isso, a técnica padronizada é tão importante quanto a nota final.

Escala clássica (0 a 5) e como usar

  • 0: nenhuma contração palpável/visível.
  • 1: contração palpável/visível, sem movimento.
  • 2: movimento completo sem gravidade (plano horizontal ou com apoio).
  • 3: movimento completo contra a gravidade, sem resistência adicional.
  • 4: movimento contra gravidade com alguma resistência (fraqueza leve a moderada).
  • 5: força normal, mantém contra resistência máxima adequada ao biotipo.

Quando útil, você pode registrar variações como 4-, 4, 4+ para acompanhar evolução, desde que mantenha consistência no seu critério.

Passo a passo do TMM (roteiro aplicável a qualquer músculo)

  1. Posicione o paciente para isolar o músculo-alvo e minimizar compensações (segmento proximal estabilizado).
  2. Demonstre o movimento e peça uma repetição sem resistência para garantir compreensão.
  3. Teste contra gravidade primeiro (se não completar, mude para posição sem gravidade).
  4. Estabilize com uma mão (ou com apoio) o segmento proximal.
  5. Aplique resistência gradual, no sentido oposto ao movimento, geralmente no terço distal do segmento (evite articulações dolorosas quando possível).
  6. Comando verbal curto e consistente. Ex.: “Segura… não deixa eu te vencer.”
  7. Observe tremor, dor, substituições, perda de alinhamento, fadiga rápida.
  8. Compare lados (quando aplicável) e registre dor associada.

Posicionamento, estabilização e resistência: princípios práticos

  • Alavanca: quanto mais distal a resistência, mais difícil. Se o paciente falha, aproxime a resistência (mais proximal) para graduar.
  • Estabilização: sem estabilizar, você pode estar medindo compensação (ex.: tronco, escápula, pelve).
  • Tempo de sustentação: 3–5 segundos costuma ser suficiente para avaliar “quebra” de força.
  • Evite dor desnecessária: se a resistência direta no tendão dói, mude o ponto de contato e registre a adaptação.

Como diferenciar fraqueza por dor, inibição, lesão neurológica ou desuso

O mesmo “4/5” pode ter causas diferentes. Use sinais associados para interpretar:

Possível causaPistas durante o testeO que checar/ajustarComo registrar
Fraqueza por dorPaciente interrompe por dor, expressão facial, proteção; força varia conforme posição dolorosa; falha antes de “tremer” por fadigaRepetir em posição menos dolorosa; reduzir alavanca; testar isométrico em ângulo neutro; correlacionar com palpação/ADM dolorosa“TMM 4/5 limitado por dor (6/10) em final de arco”
Inibição (artrogênica/medo)Ativação inconsistente, “não consigo contrair”, melhora com feedback/tato; co-contração protetora; desempenho melhora com encorajamentoDar feedback tátil, comando claro, respiração; testar em cadeia fechada leve; observar se melhora em reteste imediato“Ativação irregular; melhora após instrução/feedback”
Lesão neurológicaFraqueza em padrão miotomal/periférico; possível atrofia, fasciculações; dificuldade de recrutar mesmo sem dor; pode haver alteração sensitiva associadaTestar músculos-chave relacionados; comparar grupos; observar reflexos (se aplicável no seu protocolo); mapear sensibilidade“Fraqueza em padrão X; sem limitação por dor; associada a hipoestesia em território Y”
Desuso/descondicionamentoFraqueza global, fadiga rápida, tremor por esforço; sem dor significativa; melhora gradual com aquecimento; múltiplos grupos afetadosTestar resistência/fadiga (repetições submáximas); comparar com histórico de inatividade; observar simetria“Fraqueza difusa e fadiga precoce; sem dor; provável descondicionamento”

Dica prática: se a força melhora significativamente ao reduzir a dor (posição neutra, menor alavanca, isométrico leve), isso favorece componente doloroso/inibitório. Se a fraqueza persiste com baixa dor e segue padrão neuroanatômico, aumente a suspeita de componente neurológico.

Tabela de registro para TMM

Músculo/MovimentoLadoGrau (0–5)Dor (0–10)Posição do testeEstabilização/CompensaçõesObservações (qualidade)
D/E

Como os achados mudam hipóteses: exemplos práticos de integração

Exemplo 1: dor no ombro ao elevar o braço

Achados:

  • Palpação: dor à palpação em região anterolateral do ombro (3–4/10), sem aumento de temperatura.
  • ADM ativa: abdução limitada por dor a partir de ~70–90°, com elevação escapular precoce.
  • ADM passiva: abdução maior que a ativa, fim de curso firme, dor no final do arco.
  • TMM: abdutores 4/5 com dor; rotadores externos 4-/5 com desconforto; melhora quando testado em posição mais neutra.

Como isso altera hipóteses:

  • Ativa menor que passiva + dor no arco + compensação escapular sugere componente doloroso e possível sobrecarga de tecidos periarticulares (hipótese mecânica/irritativa) mais do que rigidez capsular primária.
  • Fraqueza que melhora em posição menos dolorosa favorece fraqueza por dor/inibição em vez de déficit neurológico.
  • Plano de teste: priorizar testes que diferenciem componente contrátil vs. articular (isométricos em diferentes ângulos, repetição de movimentos, controle escapular) e monitorar irritabilidade.

Exemplo 2: limitação de flexão de joelho após período de imobilização

Achados:

  • Palpação: rigidez difusa em quadríceps e tecidos periarticulares, sem ponto doloroso específico; temperatura normal.
  • ADM ativa: flexão reduzida; paciente relata “travamento” mais do que dor.
  • ADM passiva: flexão também reduzida, fim de curso firme e não muito doloroso.
  • TMM: quadríceps 4-/5 sem dor, fadiga rápida.

Como isso altera hipóteses:

  • Ativa e passiva reduzidas com fim de curso firme e pouca dor favorece restrição de mobilidade tecidual (rigidez adaptativa) mais do que limitação por dor.
  • Fraqueza sem dor e com fadiga rápida favorece desuso/descondicionamento.
  • Plano de teste: quantificar ADM e acompanhar resposta a mobilizações suaves/alongamentos e treino progressivo; registrar mudanças de fim de curso ao longo das sessões.

Exemplo 3: fraqueza de dorsiflexão com queixa de tropeços

Achados:

  • Palpação: sem dor relevante em musculatura anterior da perna.
  • ADM: passiva preservada; ativa reduzida por incapacidade de elevar o pé.
  • TMM: dorsiflexores 2–3/5, sem dor; eversores também reduzidos; paciente não melhora com encorajamento.
  • Sensibilidade: relato de dormência em região compatível com território periférico/dermatomal (descrever no registro).

Como isso altera hipóteses:

  • Ativa reduzida com passiva preservada e fraqueza importante sem dor sugere componente neurológico (periférico ou radicular, a depender do padrão).
  • Plano de teste: mapear padrão de força em músculos-chave, sensibilidade e sinais associados; considerar necessidade de encaminhamento conforme gravidade/progressão e critérios de segurança do seu serviço.

Checklist rápido para execução consistente

  • Palpação: comparar lados; do superficial ao profundo; registrar intensidade e reprodutibilidade do sintoma.
  • ADM ativa: observar qualidade, dor e compensações; corrigir e repetir quando necessário.
  • ADM passiva: estabilizar; movimento lento; descrever fim de curso e dor.
  • TMM: posicionar, estabilizar, comando claro, resistência gradual; registrar dor e compensações.
  • Interpretação: diferenciar “não consegue por dor” vs. “não consegue por falha de recrutamento/neurológico” vs. “não consegue por desuso”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a avaliação de força muscular manual (TMM), um paciente apresenta fraqueza que melhora quando o teste é repetido em uma posição menos dolorosa e com menor alavanca. Qual interpretação é a mais coerente com esse achado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Se a força melhora ao reduzir dor (posição neutra, menor alavanca, isométrico leve), isso favorece fraqueza por dor/inibição. Fraqueza neurológica tende a persistir mesmo com baixa dor e segue padrões específicos.

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