Palpação: o que avaliar e como interpretar
A palpação é uma ferramenta para coletar dados táteis que complementam o que você já observou no movimento e no relato do paciente. O objetivo é identificar alterações em tecidos superficiais e profundos e relacioná-las a hipóteses clínicas testáveis (por exemplo: irritação tecidual, sobrecarga mecânica, processo inflamatório local, espasmo protetor, sensibilização).
O que a palpação pode informar (e o que não pode)
- Sensibilidade: hipoestesia/hiperestesia, alodinia, distribuição em dermátomos/territórios periféricos.
- Temperatura: aumento local pode sugerir inflamação/hiperemia; redução pode sugerir alteração vascular periférica (sempre comparar lados).
- Dor à palpação: localização, profundidade, qualidade e reprodutibilidade do sintoma principal.
- Tensão/tonicidade: aumento de tônus, bandas tensas, espasmo protetor, rigidez miofascial.
- Edema/consistência: flutuante, depressível (sinal de cacifo), endurecido.
- Estruturas anatômicas: referências ósseas, tendões, interlinhas articulares, massas musculares.
Limites: dor à palpação isolada não confirma diagnóstico. Interprete em conjunto com ADM, força, padrão de dor e comportamento dos sintomas.
Passo a passo prático de palpação (roteiro rápido)
- Preparação: mãos aquecidas, unhas curtas, explique o que será feito e peça feedback contínuo (0–10 de dor).
- Comparação bilateral: sempre que possível, compare lado sintomático vs. assintomático (temperatura, textura, sensibilidade).
- Do superficial ao profundo: comece com toque leve (sensibilidade/temperatura) e progrida para pressão gradual (tensão e pontos dolorosos).
- Mapeamento: delimite área dolorosa (centro e bordas), identifique se a dor é pontual, difusa ou em faixa.
- Reprodução do sintoma: pergunte se a palpação reproduz a dor principal e se irradia para algum lugar.
- Teste de modulação: peça um movimento que costuma doer e repita após a palpação; observe se houve mudança (piora, melhora, sem alteração).
Como palpar itens-chave
Temperatura: use o dorso dos dedos, varra áreas equivalentes nos dois lados e registre “mais quente/igual/mais frio”. Evite comparar áreas com roupas ou exposição diferente.
Sensibilidade: toque leve com a polpa do dedo e, se necessário, pressão leve. Registre se há dor ao toque leve (alodinia) ou resposta exagerada (hiperalgesia). Se suspeitar componente neurogênico, descreva a distribuição (ex.: face lateral da perna e dorso do pé).
Pontos dolorosos: pressione gradualmente por 2–3 segundos. Registre intensidade (0–10), profundidade (superficial/profunda), e se reproduz o sintoma principal. Diferencie: dor local (fica no ponto) vs. dor referida (espalha para outra região).
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Tensão/tonicidade: deslize e amasse suavemente a massa muscular, buscando rigidez, bandas tensas e espasmo. Observe se a tensão aumenta quando o paciente antecipa dor (proteção) e se reduz com respiração/relaxamento.
Registro sugerido para palpação
| Região/Estrutura | Lado | Temperatura | Sensibilidade | Dor (0–10) | Reproduz sintoma principal? | Tensão/Consistência | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| D/E | ↑/=/↓ | Normal/hiper/hipo/alodinia | Sim/Não | Normal/↑/edema |
Amplitude de movimento (ADM): ativa, passiva, fim de curso, dor e compensações
A avaliação de ADM descreve quanto uma articulação se move e como ela se move. Mais do que “quantos graus”, você quer entender: qual movimento limita, o que limita (dor, rigidez, fraqueza, medo), quando dói e como o corpo compensa.
Conceitos essenciais
- ADM ativa (A): movimento produzido pelo paciente. Depende de controle motor, força, dor e confiança.
- ADM passiva (P): movimento produzido pelo avaliador. Informa sobre mobilidade articular e extensibilidade tecidual, com menor influência de força.
- Fim de curso (end-feel): sensação ao final da ADM passiva. Pode sugerir o tipo de barreira (tecidual, articular, protetora).
- Dor associada: início, pico e comportamento (no começo, no meio, no final; durante ou após).
- Compensações: movimentos “roubados” por segmentos adjacentes para completar a tarefa.
Passo a passo: ADM ativa
- Posicionamento: coloque o paciente de forma estável e confortável, com o segmento exposto e alinhado.
- Instrução: comando simples e específico. Ex.: “Levante o braço até onde conseguir, sem inclinar o tronco.”
- Observação: amplitude, velocidade, tremor, controle, assimetria, padrão de movimento.
- Dor: pergunte onde dói, quando começa e a intensidade (0–10). Registre se a dor limita o movimento.
- Compensações: identifique e, se necessário, repita com correção (ex.: estabilizar escápula, bloquear pelve).
- Comparação: compare com o lado contralateral quando aplicável.
Passo a passo: ADM passiva
- Relaxamento: peça para “deixar o peso no avaliador”. Observe se há guarda/contração.
- Estabilização: estabilize o segmento proximal para isolar a articulação (reduz compensações).
- Movimento lento: realize a ADM lentamente, sentindo resistência e observando a resposta do paciente.
- Fim de curso: descreva o tipo de sensação e se é dolorosa.
- Reprodução de sintomas: registre se a dor é local, referida ou semelhante ao sintoma principal.
Fim de curso: como descrever de forma clínica
Em vez de tentar “nomear” o fim de curso como uma lista fixa, descreva com linguagem funcional e reprodutível:
- Elástico/firme: resistência progressiva, sensação de estiramento (comum em tecidos moles).
- Duro/abrupto: parada súbita, pouca elasticidade (pode sugerir limitação articular/óssea, dependendo do contexto).
- Espasmódico/protetor: interrupção por contração involuntária ou medo/dor.
- Doloroso antes do limite: dor surge cedo e impede chegar ao limite mecânico.
Registre também se o fim de curso é comparável ao lado oposto e se muda com repetição (ex.: melhora após 3 repetições pode sugerir componente de rigidez adaptativa/medo; piora progressiva pode sugerir irritabilidade).
Dor na ADM: padrões úteis
- Dor no início: pode indicar alta irritabilidade, proteção, sensibilização ou inflamação.
- Dor no final: pode indicar estresse em estruturas tensionadas no final do arco.
- Dor apenas na ativa (passiva preservada): sugere componente contrátil (músculo/tendão) ou controle motor/dor-inibição.
- Dor na ativa e na passiva: sugere componente articular/capsular, inflamatório ou alta irritabilidade (interpretar com palpação e fim de curso).
Compensações: como identificar e reduzir
Compensações comuns incluem inclinação de tronco para elevar o braço, rotação pélvica para ganhar flexão de quadril, elevação escapular para simular abdução. Estratégias:
- Use referências: “mantenha o ombro longe da orelha”, “não deixe a pelve girar”.
- Estabilize manualmente: bloqueie o segmento proximal.
- Reduza carga: faça em decúbito para diminuir gravidade quando necessário.
- Registre: “ADM completa com compensação X” é diferente de “ADM completa sem compensação”.
Tabelas de registro para ADM
| Articulação/Movimento | Lado | ADM Ativa | Dor (0–10) / Quando | Compensações | ADM Passiva | Fim de curso | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| D/E | (graus ou descrição) | (graus ou descrição) | firme/duro/protetor/doloroso |
Se você usa goniômetro, registre em graus. Se não, descreva com marcos funcionais (ex.: “mão alcança T12”, “flexão até metade da canela”) e mantenha o mesmo padrão nas reavaliações.
Teste de Força Muscular Manual (TMM): execução, escala e interpretação
O TMM estima a capacidade do músculo (ou grupo muscular) de produzir força contra a gravidade e contra resistência manual. Ele é sensível a dor, medo, coordenação, estabilização inadequada e compreensão do comando. Por isso, a técnica padronizada é tão importante quanto a nota final.
Escala clássica (0 a 5) e como usar
- 0: nenhuma contração palpável/visível.
- 1: contração palpável/visível, sem movimento.
- 2: movimento completo sem gravidade (plano horizontal ou com apoio).
- 3: movimento completo contra a gravidade, sem resistência adicional.
- 4: movimento contra gravidade com alguma resistência (fraqueza leve a moderada).
- 5: força normal, mantém contra resistência máxima adequada ao biotipo.
Quando útil, você pode registrar variações como 4-, 4, 4+ para acompanhar evolução, desde que mantenha consistência no seu critério.
Passo a passo do TMM (roteiro aplicável a qualquer músculo)
- Posicione o paciente para isolar o músculo-alvo e minimizar compensações (segmento proximal estabilizado).
- Demonstre o movimento e peça uma repetição sem resistência para garantir compreensão.
- Teste contra gravidade primeiro (se não completar, mude para posição sem gravidade).
- Estabilize com uma mão (ou com apoio) o segmento proximal.
- Aplique resistência gradual, no sentido oposto ao movimento, geralmente no terço distal do segmento (evite articulações dolorosas quando possível).
- Comando verbal curto e consistente. Ex.: “Segura… não deixa eu te vencer.”
- Observe tremor, dor, substituições, perda de alinhamento, fadiga rápida.
- Compare lados (quando aplicável) e registre dor associada.
Posicionamento, estabilização e resistência: princípios práticos
- Alavanca: quanto mais distal a resistência, mais difícil. Se o paciente falha, aproxime a resistência (mais proximal) para graduar.
- Estabilização: sem estabilizar, você pode estar medindo compensação (ex.: tronco, escápula, pelve).
- Tempo de sustentação: 3–5 segundos costuma ser suficiente para avaliar “quebra” de força.
- Evite dor desnecessária: se a resistência direta no tendão dói, mude o ponto de contato e registre a adaptação.
Como diferenciar fraqueza por dor, inibição, lesão neurológica ou desuso
O mesmo “4/5” pode ter causas diferentes. Use sinais associados para interpretar:
| Possível causa | Pistas durante o teste | O que checar/ajustar | Como registrar |
|---|---|---|---|
| Fraqueza por dor | Paciente interrompe por dor, expressão facial, proteção; força varia conforme posição dolorosa; falha antes de “tremer” por fadiga | Repetir em posição menos dolorosa; reduzir alavanca; testar isométrico em ângulo neutro; correlacionar com palpação/ADM dolorosa | “TMM 4/5 limitado por dor (6/10) em final de arco” |
| Inibição (artrogênica/medo) | Ativação inconsistente, “não consigo contrair”, melhora com feedback/tato; co-contração protetora; desempenho melhora com encorajamento | Dar feedback tátil, comando claro, respiração; testar em cadeia fechada leve; observar se melhora em reteste imediato | “Ativação irregular; melhora após instrução/feedback” |
| Lesão neurológica | Fraqueza em padrão miotomal/periférico; possível atrofia, fasciculações; dificuldade de recrutar mesmo sem dor; pode haver alteração sensitiva associada | Testar músculos-chave relacionados; comparar grupos; observar reflexos (se aplicável no seu protocolo); mapear sensibilidade | “Fraqueza em padrão X; sem limitação por dor; associada a hipoestesia em território Y” |
| Desuso/descondicionamento | Fraqueza global, fadiga rápida, tremor por esforço; sem dor significativa; melhora gradual com aquecimento; múltiplos grupos afetados | Testar resistência/fadiga (repetições submáximas); comparar com histórico de inatividade; observar simetria | “Fraqueza difusa e fadiga precoce; sem dor; provável descondicionamento” |
Dica prática: se a força melhora significativamente ao reduzir a dor (posição neutra, menor alavanca, isométrico leve), isso favorece componente doloroso/inibitório. Se a fraqueza persiste com baixa dor e segue padrão neuroanatômico, aumente a suspeita de componente neurológico.
Tabela de registro para TMM
| Músculo/Movimento | Lado | Grau (0–5) | Dor (0–10) | Posição do teste | Estabilização/Compensações | Observações (qualidade) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| D/E |
Como os achados mudam hipóteses: exemplos práticos de integração
Exemplo 1: dor no ombro ao elevar o braço
Achados:
- Palpação: dor à palpação em região anterolateral do ombro (3–4/10), sem aumento de temperatura.
- ADM ativa: abdução limitada por dor a partir de ~70–90°, com elevação escapular precoce.
- ADM passiva: abdução maior que a ativa, fim de curso firme, dor no final do arco.
- TMM: abdutores 4/5 com dor; rotadores externos 4-/5 com desconforto; melhora quando testado em posição mais neutra.
Como isso altera hipóteses:
- Ativa menor que passiva + dor no arco + compensação escapular sugere componente doloroso e possível sobrecarga de tecidos periarticulares (hipótese mecânica/irritativa) mais do que rigidez capsular primária.
- Fraqueza que melhora em posição menos dolorosa favorece fraqueza por dor/inibição em vez de déficit neurológico.
- Plano de teste: priorizar testes que diferenciem componente contrátil vs. articular (isométricos em diferentes ângulos, repetição de movimentos, controle escapular) e monitorar irritabilidade.
Exemplo 2: limitação de flexão de joelho após período de imobilização
Achados:
- Palpação: rigidez difusa em quadríceps e tecidos periarticulares, sem ponto doloroso específico; temperatura normal.
- ADM ativa: flexão reduzida; paciente relata “travamento” mais do que dor.
- ADM passiva: flexão também reduzida, fim de curso firme e não muito doloroso.
- TMM: quadríceps 4-/5 sem dor, fadiga rápida.
Como isso altera hipóteses:
- Ativa e passiva reduzidas com fim de curso firme e pouca dor favorece restrição de mobilidade tecidual (rigidez adaptativa) mais do que limitação por dor.
- Fraqueza sem dor e com fadiga rápida favorece desuso/descondicionamento.
- Plano de teste: quantificar ADM e acompanhar resposta a mobilizações suaves/alongamentos e treino progressivo; registrar mudanças de fim de curso ao longo das sessões.
Exemplo 3: fraqueza de dorsiflexão com queixa de tropeços
Achados:
- Palpação: sem dor relevante em musculatura anterior da perna.
- ADM: passiva preservada; ativa reduzida por incapacidade de elevar o pé.
- TMM: dorsiflexores 2–3/5, sem dor; eversores também reduzidos; paciente não melhora com encorajamento.
- Sensibilidade: relato de dormência em região compatível com território periférico/dermatomal (descrever no registro).
Como isso altera hipóteses:
- Ativa reduzida com passiva preservada e fraqueza importante sem dor sugere componente neurológico (periférico ou radicular, a depender do padrão).
- Plano de teste: mapear padrão de força em músculos-chave, sensibilidade e sinais associados; considerar necessidade de encaminhamento conforme gravidade/progressão e critérios de segurança do seu serviço.
Checklist rápido para execução consistente
- Palpação: comparar lados; do superficial ao profundo; registrar intensidade e reprodutibilidade do sintoma.
- ADM ativa: observar qualidade, dor e compensações; corrigir e repetir quando necessário.
- ADM passiva: estabilizar; movimento lento; descrever fim de curso e dor.
- TMM: posicionar, estabilizar, comando claro, resistência gradual; registrar dor e compensações.
- Interpretação: diferenciar “não consegue por dor” vs. “não consegue por falha de recrutamento/neurológico” vs. “não consegue por desuso”.