Sinais de sobrecarga, estresse e risco: quando o uso das redes prejudica o bem-estar

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Quando o uso deixa de ser “normal” e vira sobrecarga

Uso problemático de redes sociais não é definido apenas por “tempo de tela”. O ponto central é a combinação de perda de controle (dificuldade de parar, checar sem perceber), sofrimento (ansiedade, irritação, culpa) e/ou prejuízo funcional (sono, estudo, trabalho, relações, autocuidado). Em outras palavras: mesmo quando a pessoa quer reduzir, ela não consegue de forma consistente, e isso começa a cobrar um preço.

Um bom critério prático é observar se o uso está servindo como estratégia automática de regulação emocional (para anestesiar tédio, solidão, estresse) e se, após usar, há alívio curto seguido de piora (mais ruminação, mais atraso de tarefas, mais cansaço).

Indicadores comportamentais: o que aparece nas ações do dia a dia

1) Perda de controle e uso compulsivo

  • Checagens automáticas (abrir o app sem intenção clara, “quando vê, já está lá”).
  • Falhas repetidas em cumprir limites combinados consigo (ex.: “só 10 minutos” vira 1 hora).
  • Escalada: precisa de mais tempo/mais checagens para sentir o mesmo “alívio”.
  • Uso em contextos inadequados (dirigindo, durante conversas, em reuniões/aulas, no banheiro por longos períodos).

2) Procrastinação e fuga de tarefas

  • Começa uma tarefa e, ao surgir desconforto (dúvida, esforço, medo de errar), migra para o feed.
  • “Só vou dar uma olhada rápida” antes de iniciar algo importante e perde o horário.
  • Adia decisões simples (responder mensagens, pagar contas, organizar rotina) porque o uso ocupa os intervalos.

3) Impacto no sono e no corpo

  • Deitar e continuar rolando, atrasando o horário de dormir.
  • Acordar e checar imediatamente, com sensação de “já começar atrasado”.
  • Insônia (dificuldade para pegar no sono) ou sono fragmentado por checagens.
  • Sintomas físicos associados ao estresse: tensão muscular, dor de cabeça, fadiga, olhos cansados.

4) Isolamento e empobrecimento de rotina

  • Redução de atividades offline que antes eram prazerosas (exercício, hobbies, encontros).
  • Preferência crescente por ficar no celular em vez de interações presenciais.
  • Evita situações sociais por comparação, vergonha, irritação ou cansaço mental.

Indicadores cognitivos: o que acontece nos pensamentos

1) Ruminação e “loop mental”

  • Repassa mentalmente posts, comentários, discussões ou “o que eu deveria ter dito”.
  • Fica revisitando perfis, conteúdos ou temas que disparam ansiedade/raiva, mesmo sabendo que piora.
  • Sensação de mente “ligada” e dificuldade de focar em leitura, trabalho ou conversa.

2) Atenção fragmentada e queda de profundidade

  • Dificuldade de sustentar atenção em tarefas sem estímulo rápido.
  • Impulso de alternar abas, checar notificações, “pular” entre conteúdos.
  • Esquecimentos e sensação de improdutividade apesar de estar ocupado.

3) Pensamentos automáticos típicos do uso problemático

  • Urgência: “Preciso ver agora.”
  • Justificativa: “Só mais um.”
  • Catastrofização social: “Se eu não responder, vai dar problema.”
  • Desvalorização do autocuidado: “Depois eu durmo/como/descanso.”
  • Autocrítica: “Eu não tenho disciplina nenhuma.”

Indicadores emocionais: o que você sente antes, durante e depois

1) Irritabilidade e reatividade

  • Fica impaciente quando é interrompido ou quando a internet está lenta.
  • Responde de forma mais ríspida com pessoas próximas após longos períodos online.
  • Sensação de “nervos à flor da pele” sem motivo claro.

2) Ansiedade, culpa e vazio

  • Ansiedade antecipatória (medo de perder algo, de não estar “por dentro”).
  • Culpa por tempo perdido e sensação de “eu devia estar fazendo outra coisa”.
  • Vazio ou apatia após longas sessões de rolagem.

3) Humor oscilante e sensibilidade a gatilhos

  • Humor muda rapidamente conforme o conteúdo consumido (euforia → irritação → desânimo).
  • Maior sensibilidade a críticas, comparações e conflitos, com impacto prolongado no dia.

Checklist de autoavaliação (uso nas últimas 2 semanas)

Marque 0 (nunca), 1 (às vezes), 2 (frequentemente), 3 (quase sempre).

ItemPontuação (0–3)
1) Eu uso redes por mais tempo do que planejei.
2) Eu tento reduzir e não consigo manter por mais de alguns dias.
3) Eu checo o celular automaticamente, sem perceber.
4) Eu adio tarefas importantes por causa das redes.
5) Eu fico irritado/ansioso quando não posso acessar.
6) Eu perco sono (durmo mais tarde, acordo para checar, sono pior).
7) Eu me sinto pior depois de usar (culpa, vazio, ansiedade, raiva).
8) Eu tenho dificuldade de focar em tarefas sem checar notificações.
9) Eu me isolo ou deixo de fazer atividades offline por ficar online.
10) O uso já gerou conflito com familiares/parceiro/amigos ou problemas no trabalho/estudo.

Como interpretar (orientação prática)

  • 0–7: sinais leves; vale observar padrões e ajustar rotinas específicas (sono, horários de checagem).
  • 8–15: sinais moderados; provável ciclo de procrastinação/estresse; recomenda-se plano estruturado e monitoramento semanal.
  • 16–30: sinais altos; há risco de prejuízo funcional; considere apoio profissional, especialmente se houver sofrimento significativo.

Importante: a pontuação não é diagnóstico. Ela serve para identificar intensidade e direcionar ações.

Modelo de análise funcional (S-P-E-A-C): entender o ciclo que mantém o uso

A análise funcional ajuda a mapear o que dispara o uso e o que o reforça. Use o modelo: Situação → Pensamentos → Emoções → Ação → Consequência. O objetivo é encontrar pontos de intervenção (antes e depois do uso).

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Passo a passo para preencher

  1. Escolha um episódio recente (ex.: “fiquei 50 minutos rolando quando deveria estudar”).
  2. Descreva a Situação com detalhes observáveis: onde, horário, o que estava fazendo, com quem, nível de cansaço, se havia notificação.
  3. Liste os Pensamentos que passaram pela cabeça (frases curtas, sem censura).
  4. Nomeie as Emoções e dê nota de 0–10 (ansiedade, tédio, solidão, frustração, etc.).
  5. Registre a Ação (o que fez no celular: checar mensagens, rolar feed, ver vídeos, discutir, etc.).
  6. Mapeie as Consequências em dois tempos: imediatas (alívio, distração) e tardias (culpa, atraso, sono pior).
  7. Encontre o “ganho imediato” (o reforço): o que o uso resolveu por alguns minutos?
  8. Escolha 1 ponto de mudança para testar na próxima vez (ex.: mudar a situação, responder ao pensamento, regular a emoção, substituir a ação, ajustar a consequência).

Exemplo preenchido (modelo)

Situação: 22h40, na cama, luz apagada. Eu disse que iria dormir cedo. Vi o celular na mesa e peguei “só para checar”. Estava cansado e preocupado com uma entrega. Pensamentos: “Se eu não olhar agora, vou ficar por fora.” “Só 5 minutos.” “Eu mereço relaxar.” Emoções (0–10): ansiedade 6, cansaço 8, tédio 5. Ação: abri o app e rolei vídeos por 45 minutos. Consequência imediata: distração e alívio (ansiedade caiu para 4). Consequência tardia: dormi 00h10, acordei cansado, fiquei irritado de manhã, atrasei a entrega.

Como transformar a análise em intervenção (opções objetivas)

  • Intervir na Situação: carregar o celular fora do quarto; deixar livro/óculos na cabeceira; usar despertador separado; definir “zona sem celular” após certo horário.
  • Intervir nos Pensamentos: substituir “só 5 minutos” por um plano específico: “vou colocar 10 minutos de alarme e parar”; ou “posso ver amanhã, não é urgente”.
  • Intervir nas Emoções: escolher uma ação curta de regulação antes do celular (respiração 2 minutos, banho rápido, alongamento, escrever 5 linhas do que preocupa).
  • Intervir na Ação: criar uma alternativa de baixo atrito (playlist curta, áudio relaxante, leitura leve) e deixar pronta.
  • Intervir na Consequência: reforçar a escolha saudável (marcar no calendário, pequena recompensa) e reduzir o “ganho” do uso (desativar autoplay, remover atalhos da tela inicial).

Sinais de risco e “bandeiras vermelhas”

Alguns sinais indicam que o problema pode estar mais intenso ou associado a outras dificuldades emocionais, exigindo atenção especial.

Procure ajuda profissional com prioridade se houver:

  • Sofrimento significativo: ansiedade intensa, tristeza frequente, sensação de descontrole, crises de choro ou irritabilidade persistente.
  • Prejuízo funcional: queda importante no desempenho escolar/profissional, faltas, perda de prazos, conflitos recorrentes, abandono de autocuidado (alimentação, higiene, sono).
  • Sintomas persistentes por semanas: insônia contínua, ruminação diária, dificuldade importante de concentração, humor deprimido.
  • Uso como única forma de lidar com emoções difíceis (sem outras estratégias de regulação).
  • Isolamento progressivo e perda de interesse por atividades antes prazerosas.
  • Comportamentos de risco: uso ao dirigir, durante trabalho com risco físico, ou em situações que colocam você/terceiros em perigo.
  • Pensamentos de autolesão ou suicídio (mesmo que “passageiros”).

Como buscar apoio de forma clara e prática

1) Prepare um resumo objetivo para levar ao profissional

  • O que está acontecendo: “Tenho perdido 2–3 horas por noite rolando e meu sono piorou.”
  • Há quanto tempo: “Há 2 meses, piorou nas últimas 3 semanas.”
  • Impactos: “Atrasos no trabalho, irritação, brigas, cansaço.”
  • Tentativas: “Tentei limitar, mas volto ao padrão.”
  • Gatilhos percebidos: “Principalmente à noite e quando estou ansioso.”

2) Que tipo de profissional pode ajudar

  • Psicólogo(a): para trabalhar padrões de comportamento, regulação emocional, ruminação, limites e rotinas, além de possíveis fatores associados (ansiedade, depressão, estresse).
  • Psiquiatra: quando há sintomas intensos/persistentes (insônia grave, ansiedade/depressão importantes), necessidade de avaliação clínica e, se indicado, tratamento medicamentoso.

3) Se houver urgência

Se você estiver em risco imediato (por exemplo, pensamentos de se machucar, incapacidade de se manter seguro, ou desespero intenso), busque atendimento de emergência na sua região ou entre em contato com serviços locais de crise. Se estiver no Brasil, o CVV (188) oferece apoio emocional 24 horas.

Roteiro rápido de monitoramento (7 dias) para levar ao apoio ou usar sozinho

Use este roteiro para observar padrões sem julgamento. A ideia é coletar dados para decisões melhores.

  1. Escolha 1 janela crítica (ex.: 22h–00h ou 8h–10h).
  2. Anote diariamente: tempo aproximado, emoção antes (0–10), emoção depois (0–10), impacto (sono/tarefa).
  3. Identifique 1 gatilho principal (tédio, ansiedade, solidão, cansaço, conflito).
  4. Teste 1 ajuste por 3 dias (ex.: celular fora do quarto; alarme de 15 min; rotina de desaceleração).
  5. Reavalie: o ajuste reduziu tempo, melhorou sono ou diminuiu ruminação?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual combinação de sinais melhor indica que o uso das redes sociais se tornou problemático, além do simples “tempo de tela”?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O uso problemático é caracterizado pela combinação de perda de controle, sofrimento e/ou prejuízo funcional, e não apenas pela quantidade de tempo online.

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Uso consciente das redes sociais: atenção, intenção e escolhas diárias

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