O que são “sinais de alerta” no ECG e na monitorização
Sinais de alerta são achados no monitor/ECG e/ou na condição clínica que indicam risco imediato de deterioração (hipoperfusão, isquemia, choque, parada) e exigem resposta rápida da equipe e, em muitos casos, acionamento de suporte avançado. Na prática da enfermagem, o alerta não depende apenas do nome do ritmo: depende da combinação ritmo + frequência + sintomas + pressão/perfusão + tendência dos sinais vitais.
Use dois gatilhos simultâneos: (1) ritmo potencialmente grave e (2) instabilidade clínica. Se houver instabilidade, trate como emergência mesmo que o traçado pareça “organizado”.
Critérios práticos de alerta (ritmo + condição clínica)
1) Taquicardia sustentada com instabilidade
Alerta quando a taquicardia é sustentada (não apenas alguns batimentos) e vem acompanhada de sinais de baixa perfusão ou sofrimento: hipotensão, alteração do nível de consciência, dor torácica, dispneia importante, sinais de choque, pele fria/pegajosa, saturação caindo, oligúria.
- Checagens imediatas: confirmar frequência no monitor, palpar pulso (corresponde ao traçado?), medir PA, avaliar dor/dispneia.
- Acionar suporte avançado: se instável ou se houver deterioração progressiva apesar de medidas iniciais.
2) Bradicardia sintomática
Alerta quando a bradicardia está associada a sintomas de hipoperfusão: tontura/síncope, confusão, hipotensão, dor torácica, insuficiência respiratória, sinais de choque.
- Checagens imediatas: PA, nível de consciência, perfusão periférica, oximetria; revisar se houve mudança recente de medicação (ex.: betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, digoxina, sedativos).
- Acionar suporte avançado: se sintomática, se houver pausas, ou se evoluir com piora hemodinâmica.
3) Bloqueio AV avançado (alto grau) ou novo
Alerta para bloqueio AV avançado/alto grau, especialmente se novo, com bradicardia importante, pausas, ou sintomas. Mesmo com pressão “aceitável”, pode deteriorar rapidamente.
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- Checagens imediatas: correlacionar sintomas e PA; observar tendência (queda progressiva da FC/PA).
- Acionar suporte avançado: se sintomático, se FC muito baixa, se houver sinais de hipoperfusão, ou se o bloqueio for novo.
4) TV/FV e ritmos de parada
Alerta máximo para taquicardia ventricular, fibrilação ventricular e qualquer ritmo sem pulso. Aqui o tempo é determinante.
- Ação imediata: checar responsividade e pulso, chamar ajuda, iniciar protocolo institucional (reanimação/desfibrilação conforme indicação), preparar carrinho de emergência.
- Acionar suporte avançado: imediatamente.
5) Pausas prolongadas
Alerta para pausas no monitor associadas a sintomas (pré-síncope, síncope, queda de PA) ou pausas prolongadas mesmo sem sintomas, pois podem preceder assistolia.
- Checagens imediatas: confirmar se é artefato (cabo/eletrodo), palpar pulso durante o evento, avaliar consciência.
- Acionar suporte avançado: se pausa verdadeira, sintomática, recorrente ou com deterioração.
6) Nova fibrilação atrial com resposta ventricular rápida
Alerta quando há FA de início recente (ou não conhecida) com frequência elevada e sintomas (dor torácica, dispneia, hipotensão, rebaixamento) ou quando a frequência permanece alta apesar de medidas iniciais e há piora clínica.
- Checagens imediatas: PA, sinais de congestão/edema agudo, dor torácica; estimar tempo de início relatado.
- Acionar suporte avançado: se instável, se houver sinais de insuficiência cardíaca aguda, ou se houver deterioração progressiva.
7) Alterações sugestivas de isquemia aguda no monitor (quando aplicável)
Alerta quando o monitor mostra alterações novas e persistentes sugestivas de isquemia (por exemplo, mudança importante do segmento ST em relação ao basal) associadas a sintomas (dor torácica, sudorese, náuseas, dispneia) ou instabilidade. Em monitorização contínua, lembre que a leitura é limitada por derivações e artefatos: trate como suspeita e confirme conforme protocolo (ECG 12 derivações quando disponível e indicado).
- Checagens imediatas: avaliar dor torácica (início, intensidade, irradiação), PA, saturação; comparar com traçado prévio.
- Acionar suporte avançado: se dor torácica persistente, instabilidade, ou alteração significativa nova com sintomas.
8) Deterioração progressiva de sinais vitais (mesmo sem “ritmo clássico”)
Alerta quando há tendência de piora: queda progressiva de PA, aumento de necessidade de O2, taquipneia crescente, alteração do nível de consciência, lactato/diurese sugerindo hipoperfusão, mesmo que o ritmo pareça sinusal.
- Checagens imediatas: reavaliar ABC, buscar causas reversíveis (hipovolemia, sepse, hipóxia, dor, sangramento, hipoglicemia, distúrbios eletrolíticos).
- Acionar suporte avançado: se houver sinais de choque, rebaixamento, insuficiência respiratória, ou piora rápida.
Organizando a resposta da enfermagem: passo a passo prático
Passo 0 — Segurança e confirmação rápida do achado
- Verifique se o paciente está em segurança (risco de queda, grade, posição).
- Confirme se o traçado é confiável: cabos conectados, eletrodos aderidos, sem artefato evidente.
- Correlacione com o paciente: palpe pulso e compare com a FC do monitor (especialmente em taquiarritmias e pausas).
Passo 1 — Avaliação ABC (prioridade clínica)
A (Airway): via aérea pérvia? risco de broncoaspiração? necessidade de posicionamento/aspiração?
B (Breathing): FR, esforço respiratório, saturação, ausculta quando possível; inicie O2 conforme protocolo se hipóxia/sinais de desconforto.
C (Circulation): PA (idealmente repetida), perfusão (tempo de enchimento capilar, pele), pulso (presença/regularidade), dor torácica, diurese se disponível.
Passo 2 — Identificar instabilidade e decidir “chamar agora”
Considere instabilidade quando houver um ou mais: hipotensão, alteração do nível de consciência, dor torácica sugestiva de isquemia, insuficiência respiratória/hipóxia, sinais de choque, piora rápida.
- Se instável: acione suporte avançado imediatamente e mantenha ABC em andamento.
- Se estável, mas com ritmo de alto risco ou tendência de piora: comunique com prioridade e prepare recursos (equipamentos/medicações conforme prescrição/protocolo).
Passo 3 — Glicemia capilar (quando indicado)
Cheque glicemia quando houver alteração do nível de consciência, sudorese fria sem explicação, fraqueza intensa, paciente diabético/uso de insulina, ou quadro compatível com hipoglicemia. Hipoglicemia pode simular instabilidade e precipitar arritmias.
Passo 4 — Revisar medicações recentes e eventos precipitantes
- Verifique medicações administradas nas últimas horas: antiarrítmicos, betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio, digoxina, opioides/sedativos, diuréticos, vasodilatadores.
- Investigue eventos: dor, febre, sangramento, vômitos/diarreia, desidratação, procedimento recente, mudança de dose, início de antibiótico com potencial de prolongar QT (quando aplicável ao serviço).
Passo 5 — Eletrólitos e exames disponíveis (sem atrasar a resposta)
Quando houver acesso rápido a resultados, verifique especialmente potássio e magnésio (arritmias ventriculares/ectopias, QT prolongado), além de função renal quando relevante. Não espere exames se o paciente estiver instável: a prioridade é suporte e acionamento.
Passo 6 — Preparar equipamentos e ambiente
- Garanta acesso venoso pérvio (ou providencie).
- Prepare carrinho de emergência e verifique disponibilidade de desfibrilador/monitor com pás ou adesivos.
- Deixe material para via aérea e aspiração acessível conforme risco.
- Posicione o paciente adequadamente (decúbito, cabeceira conforme dispneia) e mantenha monitorização contínua.
- Registre horário de início percebido, intervenções e resposta clínica.
Passo 7 — Documentar e manter vigilância de tendência
Além do “valor atual”, registre tendência: FC/PA/SatO2/FR ao longo dos últimos 15–30 minutos, sintomas que surgiram, e se o ritmo é intermitente ou sustentado. Tendência é frequentemente o que define urgência.
Modelo de comunicação objetiva: SBAR com campos específicos de ECG
Use SBAR para reduzir ruído e acelerar decisões. Abaixo, um modelo pronto para leitura ao telefone/rádio e para anotação.
| SBAR | O que dizer (campos práticos) |
|---|---|
| S — Situação |
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| B — Background |
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| A — Avaliação |
|
| R — Recomendação |
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Exemplo de SBAR (fala curta e objetiva)
S: Leito 12, paciente 68 anos. Taquicardia sustentada no monitor com hipotensão e dispneia. Ritmo regular, FC 180, PA 82/48, Sat 90% em ar ambiente, FR 28. Refere dor torácica 7/10. Início há ~10 minutos. B: Pós-operatório de colecistectomia, sem arritmia prévia conhecida. Recebeu metoprolol às 08:00 e dipirona às 09:30. K e Mg ainda não disponíveis. A: Está instável (hipotensão + dor + dispneia). Pulso palpável, pele fria. Iniciei O2, elevei cabeceira, acesso venoso pérvio, glicemia 112. Carrinho e desfibrilador no leito. R: Solicito avaliação imediata e orientação de conduta; time de suporte avançado acionado conforme protocolo.Checklist rápido para a enfermagem (uso à beira-leito)
- Paciente: responsivo? queixa principal? dor/dispneia/síncope?
- ABC: via aérea, respiração (SatO2/FR), circulação (PA/pulso/perfusão).
- Monitor: ritmo atual, FC, sustentado vs intermitente, pausas, mudança nova do ST (se aplicável).
- Confirmar pulso e descartar artefato.
- Glicemia se indicado.
- Medicações recentes e gatilhos clínicos.
- Eletrólitos/exames disponíveis (sem atrasar).
- Preparar: O2, acesso venoso, desfibrilador/carrinho, material de via aérea/aspiração.
- Comunicar via SBAR com horários e intervenções já feitas.