Sinais de alerta e quando encaminhar: critérios de gravidade no uso de analgésicos e anti-inflamatórios

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que são “sinais de alerta” e por que mudam a conduta

Sinais de alerta (red flags) são achados clínicos que aumentam a probabilidade de evento adverso grave relacionado ao medicamento (AINEs, paracetamol, opioides) ou de uma doença potencialmente grave por trás da dor/febre. Na prática, eles definem três ações possíveis: (1) manter autocuidado com monitorização, (2) interromper o medicamento e buscar avaliação no mesmo dia ou (3) encaminhar para urgência/emergência imediatamente.

Use este capítulo como um roteiro de triagem baseado em risco: primeiro identifique sinais de gravidade, depois aplique critérios por grupo (crianças, gestantes, idosos, hepatopatas/nefropatas) e, por fim, considere a duração e a evolução da dor/febre.

Sinais e sintomas que exigem interrupção e avaliação imediata

1) Sangramento gastrointestinal (GI) ou complicação GI importante

  • Vômito com sangue (hematêmese) ou “borra de café”.
  • Fezes pretas (melena) ou sangue vivo nas fezes sem causa evidente.
  • Dor abdominal intensa e persistente, rigidez abdominal, desmaio.
  • Tontura importante, fraqueza, palidez, taquicardia, queda de pressão (sugere sangramento significativo).

Conduta: interromper AINEs/aspirina (se em uso por dor) e encaminhar para urgência. Se houver sinais de choque (desmaio, confusão, pele fria, hipotensão), emergência imediata.

2) Reação alérgica grave (anafilaxia/angioedema) e broncoespasmo

  • Inchaço de lábios, língua, face ou sensação de “garganta fechando”.
  • Urticária generalizada com coceira intensa, especialmente se associada a falta de ar.
  • Chiado no peito, broncoespasmo, piora súbita de asma após AINE.
  • Rouquidão, estridor, dificuldade para engolir, queda de pressão, desmaio.

Conduta: interromper o medicamento e encaminhar para emergência imediatamente. Em broncoespasmo pós-AINE, considerar como reação de risco e evitar reexposição.

3) Dor torácica, dispneia e sinais cardiovasculares/respiratórios

  • Dor/pressão no peito que irradia para braço/mandíbula, associada a suor frio, náuseas.
  • Falta de ar em repouso, piora progressiva, respiração ofegante.
  • Palpitações com tontura/desmaio.
  • Inchaço súbito de pernas, ganho rápido de peso, ortopneia (sugere descompensação).

Conduta: emergência imediata. Não “mascarar” sintomas com analgésicos e não postergar avaliação.

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4) Icterícia e sinais de lesão hepática clinicamente relevante

  • Pele/olhos amarelados (icterícia).
  • Urina escura e fezes claras.
  • Náuseas/vômitos persistentes, dor no lado direito do abdome, mal-estar intenso.
  • Sonolência/confusão associada a icterícia (sinal de gravidade).

Conduta: interromper o medicamento suspeito (especialmente paracetamol e combinações que o contenham) e avaliação no mesmo dia; se houver confusão, sangramento, vômitos incoercíveis ou piora rápida, emergência.

5) Confusão, sedação excessiva e depressão respiratória (especialmente com opioides)

  • Sonolência que impede manter-se acordado ou dificuldade para despertar.
  • Confusão, fala arrastada, descoordenação importante.
  • Respiração lenta, pausas respiratórias, lábios arroxeados.
  • Pupilas muito contraídas associadas a sonolência e respiração lenta (sugere intoxicação por opioide).

Conduta: interromper opioide e outros depressores do SNC (álcool, benzodiazepínicos) e emergência imediata se houver respiração lenta, cianose, incapacidade de despertar ou rebaixamento do nível de consciência.

6) Sinais de overdose (por classe)

Overdose por paracetamol (suspeita):

  • Ingestão acima do recomendado (por engano, duplicidade de produtos, “reforço” frequente).
  • Náuseas, vômitos, sudorese, palidez nas primeiras horas; depois pode haver melhora aparente e, mais tarde, piora com dor abdominal e icterícia.

Conduta: encaminhar imediatamente se houver suspeita de dose excessiva, mesmo sem sintomas. Tempo é crítico para tratamento.

Overdose por AINEs (suspeita):

  • Náuseas/vômitos intensos, dor abdominal, sonolência, zumbido (alguns casos), sangramento.
  • Em casos graves: convulsões, queda de pressão, insuficiência renal.

Conduta: avaliação urgente; emergência se rebaixamento de consciência, convulsões, sangramento ou dispneia.

Overdose por opioides (suspeita):

  • Sonolência profunda, respiração lenta, cianose, pupilas puntiformes.

Conduta: emergência imediata.

Critérios de gravidade por grupos

Crianças

  • Menor de 3 meses com febre (≥38°C) ou prostração: avaliação imediata.
  • Dificuldade para respirar, gemência, tiragem, cianose: emergência.
  • Sinais de desidratação: pouca urina, boca seca, choro sem lágrimas, sonolência incomum: avaliação no mesmo dia (ou emergência se grave).
  • Convulsão, rigidez de nuca, manchas roxas/petéquias, rebaixamento de consciência: emergência.
  • Vômitos persistentes ou incapacidade de ingerir líquidos/medicação: avaliação no mesmo dia.
  • Suspeita de dose errada (especialmente paracetamol): encaminhar imediatamente.

Ponto prático: em crianças, o limiar para encaminhar é mais baixo quando há febre alta persistente, alteração do estado geral ou erro de dose.

Gestantes e puérperas

  • Dor de cabeça intensa com visão turva, dor no “estômago”/epigástrio, inchaço súbito, pressão alta conhecida ou suspeita: avaliação imediata (risco obstétrico).
  • Sangramento vaginal, dor abdominal forte, redução de movimentos fetais: emergência obstétrica.
  • Dispneia, dor torácica, desmaio: emergência.
  • Febre persistente com dor lombar, ardor urinário, calafrios: avaliação no mesmo dia (risco de infecção).

Ponto prático: qualquer necessidade de analgésico “em escalada” (aumentando dose/frequência por dias) na gestação deve motivar reavaliação para investigar causa e segurança.

Idosos

  • Queda, trauma, dor intensa nova, incapacidade de apoiar o peso: avaliação no mesmo dia (ou emergência se suspeita de fratura).
  • Confusão aguda, sonolência excessiva, alucinações após iniciar analgésico: avaliação imediata (alto risco de eventos adversos e interação medicamentosa).
  • Melena, hematêmese, anemia sintomática (fraqueza, falta de ar aos mínimos esforços): urgência.
  • Redução do volume urinário, inchaço, falta de ar, ganho rápido de peso: avaliação no mesmo dia.

Ponto prático: em idosos, sinais podem ser atípicos (ex.: infecção sem febre alta). Mudança de comportamento/consciência é red flag.

Hepatopatas (doença hepática conhecida) e uso crônico de álcool

  • Icterícia, confusão, sonolência progressiva, sangramentos fáceis: emergência se alteração neurológica; caso contrário, avaliação no mesmo dia.
  • Náuseas/vômitos persistentes e dor abdominal após uso de analgésico: avaliação no mesmo dia.
  • Suspeita de dose excessiva de paracetamol (mesmo “pouco acima” do habitual): encaminhar imediatamente.

Nefropatas (doença renal conhecida), insuficiência cardíaca ou alto risco renal

  • Oligúria (urinar muito pouco), urina escura persistente, inchaço, piora de pressão arterial: avaliação no mesmo dia.
  • Falta de ar, edema importante, ganho rápido de peso: urgência (pode indicar retenção hídrica/descompensação).
  • Vômitos/diarreia com uso de AINE (risco de desidratação e piora renal): avaliação no mesmo dia.

Critérios por duração e evolução da dor/febre

Febre

  • Febre por > 48–72 horas sem melhora clara, ou que retorna após melhora: avaliação.
  • Febre alta persistente com prostração importante, rigidez de nuca, petéquias, confusão, dispneia: emergência.
  • Febre com sinais localizatórios relevantes (dor lombar com calafrios; dor de ouvido intensa com secreção; dor de garganta com dificuldade para engolir/salivar; dor abdominal intensa): avaliação no mesmo dia.

Dor

  • Dor intensa súbita (“pior da vida”), dor torácica, dor com falta de ar, dor com desmaio: emergência.
  • Dor que piora progressivamente apesar de medidas usuais por 24–48 horas: avaliação.
  • Dor por > 7 dias sem diagnóstico claro, ou que limita função (andar, trabalhar, dormir) de forma relevante: avaliação programada (ou mais cedo se houver red flags).
  • Dor com déficit neurológico (fraqueza, dormência em faixa, perda de controle urinário/fecal): emergência.

Fluxos de triagem: autocuidado vs encaminhamento

Fluxo 1 — Triagem rápida de segurança (antes de orientar continuidade)

  1. Há algum sinal de emergência? (dispneia, dor torácica, anafilaxia/angioedema, sangramento GI importante, rebaixamento de consciência, convulsão, suspeita de overdose, cianose) → Encaminhar para emergência imediatamente.
  2. Há sinal de alerta que exige avaliação no mesmo dia? (melena discreta, vômitos persistentes, icterícia sem rebaixamento, broncoespasmo leve/moderado, oligúria, confusão leve, piora importante de edema/pressão, febre persistente >48–72h) → Interromper o medicamento suspeito e encaminhar para avaliação no mesmo dia.
  3. Sem sinais de alerta → seguir para Fluxo 2 (autocuidado com limites e reavaliação).

Fluxo 2 — Autocuidado com limites (quando é aceitável)

  1. Confirmar elegibilidade: adulto sem gestação, sem doença renal/hepática relevante conhecida, sem história de reação grave a analgésicos/AINEs, sem uso concomitante de múltiplos produtos com o mesmo princípio ativo.
  2. Definir objetivo e janela de teste: usar pelo menor tempo possível. Se não houver melhora funcional (ex.: voltar a dormir, alimentar-se, movimentar-se) em 24–48h, reavaliar.
  3. Monitorar sinais de alerta durante o uso: sangramento GI, falta de ar, rash/urticária, sonolência excessiva, urina reduzida, icterícia, dor torácica.
  4. Definir gatilhos de interrupção: qualquer sinal de alerta → parar e buscar avaliação.

Fluxo 3 — Suspeita de evento adverso por classe (o que perguntar e como decidir)

Se AINE:

  1. Perguntar: houve dor epigástrica forte, melena, vômito com sangue, falta de ar, inchaço, redução de urina, piora de pressão?
  2. Se sangramento/dispneia/desmaio → emergência.
  3. Se dor abdominal persistente, edema/oligúria, pressão descompensada → avaliação no mesmo dia.

Se paracetamol:

  1. Perguntar: houve uso de mais de um produto “para gripe/dor” junto? houve dose repetida em intervalos curtos? há doença hepática/álcool?
  2. Se suspeita de dose excessiva (mesmo sem sintomas) → encaminhar imediatamente.
  3. Se icterícia, urina escura, vômitos persistentes → avaliação no mesmo dia (emergência se confusão/rebaixamento).

Se opioide:

  1. Perguntar: sonolência impede atividades? houve queda? respiração lenta? uso de álcool/sedativos junto?
  2. Se respiração lenta, dificuldade de despertar, cianose → emergência imediata.
  3. Se confusão, quedas, sedação excessiva sem depressão respiratória → avaliação no mesmo dia e suspender até orientação.

Checklist objetivo para encaminhamento (uso rápido)

SituaçãoAção
Hematêmese, melena importante, desmaio, sinais de choqueEmergência imediata
Angioedema, anafilaxia, broncoespasmo com falta de arEmergência imediata
Dor torácica, dispneia em repouso, cianoseEmergência imediata
Sonolência profunda, respiração lenta, difícil despertar (opioide)Emergência imediata
Suspeita de overdose de paracetamol (qualquer dose acima do recomendado/duplicidade)Encaminhar imediatamente
Icterícia, urina escura, vômitos persistentesAvaliação no mesmo dia (emergência se confusão)
Oligúria, edema importante, piora de pressão, falta de ar com inchaçoAvaliação no mesmo dia (emergência se dispneia grave)
Febre >48–72h sem melhora, ou retorno após melhoraAvaliação
Criança <3 meses com febre ≥38°CAvaliação imediata
Gestante com cefaleia intensa + visão turva/epigastralgia/inchaço súbitoAvaliação imediata (urgência obstétrica)

Exemplos práticos de aplicação (linguagem de triagem)

Exemplo 1 — Dor e uso de AINE com fezes escuras

Cenário: adulto usando anti-inflamatório há 3 dias para dor lombar, relata fezes pretas e tontura.

Decisão: sinal compatível com sangramento GI → interromper e encaminhar para urgência (emergência se desmaio/instabilidade).

Exemplo 2 — “Remédio para gripe” + paracetamol separado

Cenário: pessoa com febre tomou produto combinado para gripe e, em seguida, paracetamol “por fora” várias vezes no dia.

Decisão: risco de duplicidade e dose excessiva → encaminhar imediatamente, mesmo que esteja bem no momento.

Exemplo 3 — Opioide e sonolência fora do esperado

Cenário: após iniciar opioide para dor intensa, paciente fica muito sonolento e familiares notam respiração lenta.

Decisão: possível depressão respiratória → emergência imediata.

Exemplo 4 — Criança com febre e prostração

Cenário: criança com febre há 2 dias, recusa líquidos, urina pouco e está muito sonolenta.

Decisão: risco de desidratação e gravidade → avaliação no mesmo dia (emergência se rebaixamento importante ou dificuldade respiratória).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao orientar alguém em uso de analgésicos/anti-inflamatórios, qual situação exige encaminhamento imediato mesmo que a pessoa esteja sem sintomas no momento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A suspeita de overdose de paracetamol (por dose acima do recomendado ou duplicidade de produtos) deve ser encaminhada imediatamente, pois o tempo é crítico para tratamento, mesmo sem sintomas.

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Aplicação prática: escolha segura entre AINEs, paracetamol e opioides em cenários comuns

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