O que são “sinais de alerta” e por que mudam a conduta
Sinais de alerta (red flags) são achados clínicos que aumentam a probabilidade de evento adverso grave relacionado ao medicamento (AINEs, paracetamol, opioides) ou de uma doença potencialmente grave por trás da dor/febre. Na prática, eles definem três ações possíveis: (1) manter autocuidado com monitorização, (2) interromper o medicamento e buscar avaliação no mesmo dia ou (3) encaminhar para urgência/emergência imediatamente.
Use este capítulo como um roteiro de triagem baseado em risco: primeiro identifique sinais de gravidade, depois aplique critérios por grupo (crianças, gestantes, idosos, hepatopatas/nefropatas) e, por fim, considere a duração e a evolução da dor/febre.
Sinais e sintomas que exigem interrupção e avaliação imediata
1) Sangramento gastrointestinal (GI) ou complicação GI importante
- Vômito com sangue (hematêmese) ou “borra de café”.
- Fezes pretas (melena) ou sangue vivo nas fezes sem causa evidente.
- Dor abdominal intensa e persistente, rigidez abdominal, desmaio.
- Tontura importante, fraqueza, palidez, taquicardia, queda de pressão (sugere sangramento significativo).
Conduta: interromper AINEs/aspirina (se em uso por dor) e encaminhar para urgência. Se houver sinais de choque (desmaio, confusão, pele fria, hipotensão), emergência imediata.
2) Reação alérgica grave (anafilaxia/angioedema) e broncoespasmo
- Inchaço de lábios, língua, face ou sensação de “garganta fechando”.
- Urticária generalizada com coceira intensa, especialmente se associada a falta de ar.
- Chiado no peito, broncoespasmo, piora súbita de asma após AINE.
- Rouquidão, estridor, dificuldade para engolir, queda de pressão, desmaio.
Conduta: interromper o medicamento e encaminhar para emergência imediatamente. Em broncoespasmo pós-AINE, considerar como reação de risco e evitar reexposição.
3) Dor torácica, dispneia e sinais cardiovasculares/respiratórios
- Dor/pressão no peito que irradia para braço/mandíbula, associada a suor frio, náuseas.
- Falta de ar em repouso, piora progressiva, respiração ofegante.
- Palpitações com tontura/desmaio.
- Inchaço súbito de pernas, ganho rápido de peso, ortopneia (sugere descompensação).
Conduta: emergência imediata. Não “mascarar” sintomas com analgésicos e não postergar avaliação.
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4) Icterícia e sinais de lesão hepática clinicamente relevante
- Pele/olhos amarelados (icterícia).
- Urina escura e fezes claras.
- Náuseas/vômitos persistentes, dor no lado direito do abdome, mal-estar intenso.
- Sonolência/confusão associada a icterícia (sinal de gravidade).
Conduta: interromper o medicamento suspeito (especialmente paracetamol e combinações que o contenham) e avaliação no mesmo dia; se houver confusão, sangramento, vômitos incoercíveis ou piora rápida, emergência.
5) Confusão, sedação excessiva e depressão respiratória (especialmente com opioides)
- Sonolência que impede manter-se acordado ou dificuldade para despertar.
- Confusão, fala arrastada, descoordenação importante.
- Respiração lenta, pausas respiratórias, lábios arroxeados.
- Pupilas muito contraídas associadas a sonolência e respiração lenta (sugere intoxicação por opioide).
Conduta: interromper opioide e outros depressores do SNC (álcool, benzodiazepínicos) e emergência imediata se houver respiração lenta, cianose, incapacidade de despertar ou rebaixamento do nível de consciência.
6) Sinais de overdose (por classe)
Overdose por paracetamol (suspeita):
- Ingestão acima do recomendado (por engano, duplicidade de produtos, “reforço” frequente).
- Náuseas, vômitos, sudorese, palidez nas primeiras horas; depois pode haver melhora aparente e, mais tarde, piora com dor abdominal e icterícia.
Conduta: encaminhar imediatamente se houver suspeita de dose excessiva, mesmo sem sintomas. Tempo é crítico para tratamento.
Overdose por AINEs (suspeita):
- Náuseas/vômitos intensos, dor abdominal, sonolência, zumbido (alguns casos), sangramento.
- Em casos graves: convulsões, queda de pressão, insuficiência renal.
Conduta: avaliação urgente; emergência se rebaixamento de consciência, convulsões, sangramento ou dispneia.
Overdose por opioides (suspeita):
- Sonolência profunda, respiração lenta, cianose, pupilas puntiformes.
Conduta: emergência imediata.
Critérios de gravidade por grupos
Crianças
- Menor de 3 meses com febre (≥38°C) ou prostração: avaliação imediata.
- Dificuldade para respirar, gemência, tiragem, cianose: emergência.
- Sinais de desidratação: pouca urina, boca seca, choro sem lágrimas, sonolência incomum: avaliação no mesmo dia (ou emergência se grave).
- Convulsão, rigidez de nuca, manchas roxas/petéquias, rebaixamento de consciência: emergência.
- Vômitos persistentes ou incapacidade de ingerir líquidos/medicação: avaliação no mesmo dia.
- Suspeita de dose errada (especialmente paracetamol): encaminhar imediatamente.
Ponto prático: em crianças, o limiar para encaminhar é mais baixo quando há febre alta persistente, alteração do estado geral ou erro de dose.
Gestantes e puérperas
- Dor de cabeça intensa com visão turva, dor no “estômago”/epigástrio, inchaço súbito, pressão alta conhecida ou suspeita: avaliação imediata (risco obstétrico).
- Sangramento vaginal, dor abdominal forte, redução de movimentos fetais: emergência obstétrica.
- Dispneia, dor torácica, desmaio: emergência.
- Febre persistente com dor lombar, ardor urinário, calafrios: avaliação no mesmo dia (risco de infecção).
Ponto prático: qualquer necessidade de analgésico “em escalada” (aumentando dose/frequência por dias) na gestação deve motivar reavaliação para investigar causa e segurança.
Idosos
- Queda, trauma, dor intensa nova, incapacidade de apoiar o peso: avaliação no mesmo dia (ou emergência se suspeita de fratura).
- Confusão aguda, sonolência excessiva, alucinações após iniciar analgésico: avaliação imediata (alto risco de eventos adversos e interação medicamentosa).
- Melena, hematêmese, anemia sintomática (fraqueza, falta de ar aos mínimos esforços): urgência.
- Redução do volume urinário, inchaço, falta de ar, ganho rápido de peso: avaliação no mesmo dia.
Ponto prático: em idosos, sinais podem ser atípicos (ex.: infecção sem febre alta). Mudança de comportamento/consciência é red flag.
Hepatopatas (doença hepática conhecida) e uso crônico de álcool
- Icterícia, confusão, sonolência progressiva, sangramentos fáceis: emergência se alteração neurológica; caso contrário, avaliação no mesmo dia.
- Náuseas/vômitos persistentes e dor abdominal após uso de analgésico: avaliação no mesmo dia.
- Suspeita de dose excessiva de paracetamol (mesmo “pouco acima” do habitual): encaminhar imediatamente.
Nefropatas (doença renal conhecida), insuficiência cardíaca ou alto risco renal
- Oligúria (urinar muito pouco), urina escura persistente, inchaço, piora de pressão arterial: avaliação no mesmo dia.
- Falta de ar, edema importante, ganho rápido de peso: urgência (pode indicar retenção hídrica/descompensação).
- Vômitos/diarreia com uso de AINE (risco de desidratação e piora renal): avaliação no mesmo dia.
Critérios por duração e evolução da dor/febre
Febre
- Febre por > 48–72 horas sem melhora clara, ou que retorna após melhora: avaliação.
- Febre alta persistente com prostração importante, rigidez de nuca, petéquias, confusão, dispneia: emergência.
- Febre com sinais localizatórios relevantes (dor lombar com calafrios; dor de ouvido intensa com secreção; dor de garganta com dificuldade para engolir/salivar; dor abdominal intensa): avaliação no mesmo dia.
Dor
- Dor intensa súbita (“pior da vida”), dor torácica, dor com falta de ar, dor com desmaio: emergência.
- Dor que piora progressivamente apesar de medidas usuais por 24–48 horas: avaliação.
- Dor por > 7 dias sem diagnóstico claro, ou que limita função (andar, trabalhar, dormir) de forma relevante: avaliação programada (ou mais cedo se houver red flags).
- Dor com déficit neurológico (fraqueza, dormência em faixa, perda de controle urinário/fecal): emergência.
Fluxos de triagem: autocuidado vs encaminhamento
Fluxo 1 — Triagem rápida de segurança (antes de orientar continuidade)
- Há algum sinal de emergência? (dispneia, dor torácica, anafilaxia/angioedema, sangramento GI importante, rebaixamento de consciência, convulsão, suspeita de overdose, cianose) → Encaminhar para emergência imediatamente.
- Há sinal de alerta que exige avaliação no mesmo dia? (melena discreta, vômitos persistentes, icterícia sem rebaixamento, broncoespasmo leve/moderado, oligúria, confusão leve, piora importante de edema/pressão, febre persistente >48–72h) → Interromper o medicamento suspeito e encaminhar para avaliação no mesmo dia.
- Sem sinais de alerta → seguir para Fluxo 2 (autocuidado com limites e reavaliação).
Fluxo 2 — Autocuidado com limites (quando é aceitável)
- Confirmar elegibilidade: adulto sem gestação, sem doença renal/hepática relevante conhecida, sem história de reação grave a analgésicos/AINEs, sem uso concomitante de múltiplos produtos com o mesmo princípio ativo.
- Definir objetivo e janela de teste: usar pelo menor tempo possível. Se não houver melhora funcional (ex.: voltar a dormir, alimentar-se, movimentar-se) em 24–48h, reavaliar.
- Monitorar sinais de alerta durante o uso: sangramento GI, falta de ar, rash/urticária, sonolência excessiva, urina reduzida, icterícia, dor torácica.
- Definir gatilhos de interrupção: qualquer sinal de alerta → parar e buscar avaliação.
Fluxo 3 — Suspeita de evento adverso por classe (o que perguntar e como decidir)
Se AINE:
- Perguntar: houve dor epigástrica forte, melena, vômito com sangue, falta de ar, inchaço, redução de urina, piora de pressão?
- Se sangramento/dispneia/desmaio → emergência.
- Se dor abdominal persistente, edema/oligúria, pressão descompensada → avaliação no mesmo dia.
Se paracetamol:
- Perguntar: houve uso de mais de um produto “para gripe/dor” junto? houve dose repetida em intervalos curtos? há doença hepática/álcool?
- Se suspeita de dose excessiva (mesmo sem sintomas) → encaminhar imediatamente.
- Se icterícia, urina escura, vômitos persistentes → avaliação no mesmo dia (emergência se confusão/rebaixamento).
Se opioide:
- Perguntar: sonolência impede atividades? houve queda? respiração lenta? uso de álcool/sedativos junto?
- Se respiração lenta, dificuldade de despertar, cianose → emergência imediata.
- Se confusão, quedas, sedação excessiva sem depressão respiratória → avaliação no mesmo dia e suspender até orientação.
Checklist objetivo para encaminhamento (uso rápido)
| Situação | Ação |
|---|---|
| Hematêmese, melena importante, desmaio, sinais de choque | Emergência imediata |
| Angioedema, anafilaxia, broncoespasmo com falta de ar | Emergência imediata |
| Dor torácica, dispneia em repouso, cianose | Emergência imediata |
| Sonolência profunda, respiração lenta, difícil despertar (opioide) | Emergência imediata |
| Suspeita de overdose de paracetamol (qualquer dose acima do recomendado/duplicidade) | Encaminhar imediatamente |
| Icterícia, urina escura, vômitos persistentes | Avaliação no mesmo dia (emergência se confusão) |
| Oligúria, edema importante, piora de pressão, falta de ar com inchaço | Avaliação no mesmo dia (emergência se dispneia grave) |
| Febre >48–72h sem melhora, ou retorno após melhora | Avaliação |
| Criança <3 meses com febre ≥38°C | Avaliação imediata |
| Gestante com cefaleia intensa + visão turva/epigastralgia/inchaço súbito | Avaliação imediata (urgência obstétrica) |
Exemplos práticos de aplicação (linguagem de triagem)
Exemplo 1 — Dor e uso de AINE com fezes escuras
Cenário: adulto usando anti-inflamatório há 3 dias para dor lombar, relata fezes pretas e tontura.
Decisão: sinal compatível com sangramento GI → interromper e encaminhar para urgência (emergência se desmaio/instabilidade).
Exemplo 2 — “Remédio para gripe” + paracetamol separado
Cenário: pessoa com febre tomou produto combinado para gripe e, em seguida, paracetamol “por fora” várias vezes no dia.
Decisão: risco de duplicidade e dose excessiva → encaminhar imediatamente, mesmo que esteja bem no momento.
Exemplo 3 — Opioide e sonolência fora do esperado
Cenário: após iniciar opioide para dor intensa, paciente fica muito sonolento e familiares notam respiração lenta.
Decisão: possível depressão respiratória → emergência imediata.
Exemplo 4 — Criança com febre e prostração
Cenário: criança com febre há 2 dias, recusa líquidos, urina pouco e está muito sonolenta.
Decisão: risco de desidratação e gravidade → avaliação no mesmo dia (emergência se rebaixamento importante ou dificuldade respiratória).