Como pensar “na vida real”: objetivo, mecanismo, risco e perfil do paciente
Neste capítulo, você vai treinar a escolha entre AINEs, paracetamol e opioides em cenários comuns usando um raciocínio estruturado. A ideia não é decorar “o melhor remédio”, e sim escolher a opção mais segura e adequada para: (1) o tipo de dor (inflamatória vs não inflamatória), (2) a intensidade e impacto funcional, (3) comorbidades e riscos (GI, renal, CV, hepático, respiratório, dependência), (4) duração esperada e necessidade de retorno/encaminhamento.
Regra prática de enquadramento (antes de escolher)
- Predomínio inflamatório (edema, calor, piora com movimento, trauma/entorse, artrite): tende a responder melhor a AINE (se seguro) e medidas locais.
- Predomínio nociceptivo sem inflamação marcante (febre, cefaleia tensional, dor leve a moderada): frequentemente paracetamol é suficiente e mais simples em perfis de risco.
- Dor intensa, refratária, pós-procedimento ou com grande limitação: considerar estratégia escalonada (paracetamol e/ou AINE + medidas não farmacológicas; opioide por curto prazo apenas quando necessário e com plano de desmame).
Como usar os estudos de caso
Em cada caso: (1) escolha uma opção principal, (2) justifique em 3 linhas: mecanismo (por que funciona aqui), risco (o que pode dar errado), comorbidades (o que muda a escolha), (3) proponha uma alternativa não farmacológica e (4) ajuste para um perfil de paciente específico.
Estudos de caso orientados
Caso 1 — Dor lombar aguda mecânica (48 horas)
Quadro: adulto 35 anos, dor lombar após levantar peso, sem irradiação, sem febre, sem déficit neurológico, dor 7/10 ao movimento, melhora em repouso. Sem comorbidades, sem uso de anticoagulantes.
Pergunta ao aluno: Qual opção inicial é mais apropriada? (A) AINE por curto prazo (B) Paracetamol (C) Opioide (D) Combinação AINE + opioide desde o início
Pistas para justificar:
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- Mecanismo: dor mecânica pode ter componente inflamatório local; AINE pode reduzir dor e facilitar mobilização precoce.
- Risco: usar menor dose eficaz e menor tempo; evitar “manter por hábito”.
- Comorbidades: se história de úlcera/DRC/IC/risco CV, reavaliar e preferir paracetamol + medidas físicas.
Não farmacológico complementar: manter atividade conforme tolerado, evitar repouso prolongado, calor local, orientação postural, exercícios leves progressivos.
Ajuste por perfil:
- Paciente com hipertensão descontrolada: preferir paracetamol e medidas físicas; se AINE for inevitável, curto prazo e monitorar PA/edema.
- Paciente com história de gastrite/úlcera: evitar AINE ou usar com proteção conforme avaliação; considerar paracetamol como base.
Caso 2 — Entorse de tornozelo (trauma esportivo)
Quadro: 22 anos, entorse há 6 horas, edema e dor ao apoiar, sem deformidade, sem sinais de fratura evidente.
Pergunta ao aluno: O que escolher para analgesia nas primeiras 48–72h? (A) AINE (B) Paracetamol (C) Opioide (D) Nenhum fármaco
Pistas para justificar:
- Mecanismo: componente inflamatório e edema favorecem AINE; paracetamol pode ser alternativa se risco com AINE.
- Risco: evitar duplicidade de AINEs (ex.: ibuprofeno + diclofenaco). Atenção a desidratação (risco renal).
Não farmacológico complementar (passo a passo):
- Proteção/repouso relativo nas primeiras 24–48h.
- Gelo 15–20 min, 3–5x/dia.
- Compressão elástica e elevação quando possível.
- Mobilização progressiva e reabilitação conforme dor.
Ajuste por perfil:
- Paciente com asma sensível a AINE: evitar AINE; preferir paracetamol e medidas locais.
- Paciente em anticoagulante: evitar AINE (risco de sangramento); preferir paracetamol e avaliação clínica.
Caso 3 — Cefaleia: tensional vs enxaqueca
Quadro A (tensional): 29 anos, dor em pressão bilateral, sem náuseas, sem fotofobia, após dia estressante. Quadro B (enxaqueca provável): 31 anos, dor unilateral pulsátil, fotofobia e náusea, piora com atividade.
Pergunta ao aluno: Em cada quadro, qual é a melhor primeira escolha entre (A) Paracetamol (B) AINE (C) Opioide?
Pistas para justificar:
- Tensional: paracetamol costuma ser suficiente; foco em hidratação, sono, ergonomia.
- Enxaqueca: AINE pode ser mais eficaz em muitos casos; opioide tende a piorar controle a longo prazo e aumentar risco de uso problemático.
- Risco: evitar uso frequente de analgésicos (cefaleia por uso excessivo). Planejar limite semanal e reavaliação.
Não farmacológico complementar: sono regular, redução de gatilhos, técnicas de relaxamento, compressa fria, pausa de telas, alongamento cervical.
Ajuste por perfil:
- Gestante (especialmente 3º trimestre): preferir paracetamol; evitar AINE no final da gestação; encaminhar se sinais de alerta.
- Paciente com gastrite ativa: preferir paracetamol; se AINE necessário, curto prazo e com estratégia de proteção conforme avaliação.
Caso 4 — Dor dental (pulpite/abscesso suspeito)
Quadro: 40 anos, dor intensa em dente, piora ao mastigar, sensibilidade ao frio, sem dispneia, sem trismo importante. Dor 8/10.
Pergunta ao aluno: Qual estratégia é mais racional até avaliação odontológica? (A) AINE como base (B) Paracetamol isolado (C) Opioide isolado (D) AINE + paracetamol (E) AINE + opioide
Pistas para justificar:
- Mecanismo: dor dental frequentemente tem componente inflamatório; combinação AINE + paracetamol pode ser útil quando permitido e por curto prazo.
- Risco: não “mascarar” sinais de infecção grave; evitar opioide como primeira linha quando há alternativas eficazes.
- Comorbidades: se risco GI/renal/CV alto, preferir paracetamol e encaminhar com prioridade.
Não farmacológico complementar: evitar mastigação do lado doloroso, higiene local, compressa fria externa; não aplicar calor se suspeita de infecção.
Ajuste por perfil:
- Paciente com DRC: evitar AINE; paracetamol e encaminhamento rápido.
- Paciente com uso de álcool pesado: cautela com paracetamol; avaliar risco hepático e priorizar intervenção odontológica.
Caso 5 — Osteoartrite de joelho (dor crônica com piora)
Quadro: 62 anos, dor no joelho há anos, piora ao caminhar, rigidez curta pela manhã, sem sinais sistêmicos. HAS e diabetes controlados.
Pergunta ao aluno: Qual abordagem é mais segura e sustentável? (A) AINE oral contínuo (B) Paracetamol sob demanda + medidas não farmacológicas (C) Opioide crônico (D) AINE tópico como opção preferencial quando possível
Pistas para justificar:
- Mecanismo: dor mista (mecânica/inflamatória leve). AINE tópico pode oferecer alívio local com menor risco sistêmico em alguns pacientes.
- Risco: evitar escalada para opioide crônico; reavaliar função, sono, humor e metas.
Não farmacológico complementar (passo a passo):
- Meta funcional (ex.: caminhar 20 min sem pausa em 6 semanas).
- Exercício de fortalecimento de quadríceps e baixo impacto (2–3x/semana).
- Perda de peso se aplicável.
- Dispositivos (bengala do lado oposto, palmilhas/joelheira conforme avaliação).
Ajuste por perfil:
- Paciente com alto risco CV: evitar AINE oral prolongado; preferir tópico, paracetamol e reabilitação.
- Paciente com história de úlcera: evitar AINE oral contínuo; se necessário, curto prazo e com proteção conforme avaliação.
Caso 6 — Cólica (dismenorreia primária)
Quadro: 19 anos, cólica intensa no 1º dia de menstruação, sem febre, sem corrimento, padrão recorrente.
Pergunta ao aluno: Qual é a escolha mais lógica? (A) AINE (B) Paracetamol (C) Opioide
Pistas para justificar:
- Mecanismo: AINE reduz mediadores associados à contração uterina e inflamação local; costuma ser mais eficaz que paracetamol em dismenorreia.
- Risco: usar com alimento/estratégias de proteção conforme risco GI; evitar em doença renal, sangramento, alergia.
Não farmacológico complementar: calor local (bolsa térmica), atividade leve, técnicas de respiração, hidratação.
Ajuste por perfil:
- Paciente com gastrite importante: considerar paracetamol e calor; avaliar necessidade de proteção/alternativas.
- Suspeita de causa secundária (dor progressiva, sangramento anormal, febre): encaminhar para avaliação.
Caso 7 — Febre e mialgia em virose (adulto)
Quadro: 28 anos, febre 38,5°C, dor no corpo, sem sinais de gravidade, hidratando pouco. Sem comorbidades.
Pergunta ao aluno: O que escolher e o que orientar? (A) Paracetamol (B) AINE (C) Opioide
Pistas para justificar:
- Mecanismo: paracetamol é opção direta para febre e dor; AINE pode ajudar, mas em desidratação aumenta risco renal.
- Risco: reforçar hidratação; evitar múltiplos produtos “para gripe” com paracetamol duplicado.
Não farmacológico complementar: hidratação, repouso, ambiente fresco, roupas leves.
Ajuste por perfil:
- Paciente com doença hepática: cautela com paracetamol; avaliar dose e necessidade de avaliação médica.
- Idoso frágil: preferir paracetamol com monitoramento e baixa limiar para reavaliação.
Caso 8 — Dor pós-procedimento (ex.: extração dentária simples ou pequena cirurgia)
Quadro: 45 anos, dor moderada a intensa nas primeiras 24–48h, sem sangramento ativo, sem sinais de infecção. Precisa dormir e voltar ao trabalho.
Pergunta ao aluno: Qual plano analgésico é mais racional? (A) AINE + paracetamol programados por 24–48h (se seguro) (B) Opioide como base por 5–7 dias (C) Paracetamol isolado (D) Dois AINEs alternados
Pistas para justificar:
- Mecanismo: dor pós-procedimento tem componente inflamatório; combinação paracetamol + AINE pode reduzir necessidade de opioide.
- Risco: se opioide for necessário, usar menor dose e menor tempo, com orientação de sedação, direção e álcool.
- Combinações problemáticas: evitar “alternar” dois AINEs; evitar duplicidade de paracetamol em associações.
Não farmacológico complementar: gelo local nas primeiras 24h (quando aplicável), elevação, seguir orientações do procedimento, higiene/curativo.
Ajuste por perfil:
- Apneia do sono/uso de benzodiazepínico: evitar opioide se possível; se inevitável, dose mínima e vigilância por depressão respiratória.
- Paciente com DRC ou desidratação: evitar AINE; usar paracetamol e reavaliar dor/complicações.
Comparação rápida: alternativas não farmacológicas por cenário
| Cenário | Medidas não farmacológicas úteis | Quando ajudam mais |
|---|---|---|
| Dor lombar aguda | Manter atividade, calor, ergonomia, exercícios leves | Recuperação funcional e redução de espasmo |
| Entorse | Gelo, compressão, elevação, reabilitação | Edema e dor ao movimento |
| Cefaleia | Higiene do sono, pausa de telas, relaxamento, compressa | Gatilhos e tensão muscular |
| Dor dental | Evitar mastigação local, compressa fria, higiene | Até intervenção odontológica |
| Osteoartrite | Fortalecimento, perda de peso, dispositivos | Controle sustentado e prevenção de piora |
| Cólica | Calor local, atividade leve, respiração | Espasmo e desconforto |
| Febre | Hidratação, repouso, ambiente fresco | Conforto e prevenção de desidratação |
| Pós-procedimento | Gelo/elevação, seguir cuidados do procedimento | Primeiras 24–48h |
Ajuste por perfil do paciente: “atalhos” de segurança
Perfis em que você tende a evitar AINE (ou usar com muita cautela)
- Risco gastrointestinal alto (história de úlcera/sangramento, anticoagulantes, idade avançada): preferir paracetamol, AINE tópico, ou AINE curto prazo com proteção conforme avaliação.
- Risco renal (DRC, desidratação, uso de diurético/IECA/BRA, insuficiência cardíaca): preferir paracetamol; priorizar hidratação e reavaliação.
- Risco cardiovascular alto (doença aterosclerótica, PA difícil controle): evitar uso prolongado; preferir alternativas e menor tempo.
- Asma sensível a AINE ou alergia: evitar AINE.
Perfis em que você tende a evitar paracetamol (ou usar com cautela)
- Risco hepático (doença hepática significativa, consumo elevado de álcool, múltiplos produtos com paracetamol): revisar dose total diária e evitar duplicidades.
Perfis em que você tende a evitar opioide (ou restringir ao mínimo)
- Apneia do sono, DPOC, uso de sedativos (benzodiazepínicos, álcool): maior risco de depressão respiratória.
- História de uso problemático de substâncias ou alto risco de dependência: preferir estratégias não opioides e plano de acompanhamento.
- Idoso frágil: maior risco de quedas, confusão e constipação; se usar, dose baixa e curto prazo.
Guia de tomada de decisão em passos (aplicável a qualquer cenário)
- Defina o problema: dor inflamatória? febre? pós-trauma? pós-procedimento? intensidade e impacto funcional.
- Cheque sinais de alerta: se presentes, priorize avaliação/encaminhamento (não “compensar” com analgésico).
- Mapeie riscos do paciente: GI, renal, CV, hepático, respiratório, risco de dependência, gestação, idade.
- Escolha a base:
- Se febre/dor leve-moderada e perfil de risco para AINE: paracetamol.
- Se dor com componente inflamatório e baixo risco: AINE (menor dose/tempo).
- Se dor moderada-intensa: paracetamol + AINE quando apropriado; reavaliar necessidade de opioide.
- Adicione medidas não farmacológicas específicas do cenário (gelo/calor, mobilização, reabilitação, sono, hidratação).
- Se considerar opioide: defina indicação clara, menor tempo, metas (ex.: dormir na primeira noite), plano de desmame e orientações de segurança.
- Planeje reavaliação: em 24–72h (agudos) ou em 2–6 semanas (crônicos), com critérios de retorno antes se piora.
Checklist final de segurança (uso racional e evitar combinações problemáticas)
- 1) Dose total diária conferida: somar produtos combinados (especialmente paracetamol em “antigripais”).
- 2) Evitei duplicidade de classe: não usar dois AINEs simultaneamente/alternados “por garantia”.
- 3) Risco GI/renal/CV revisado antes de AINE; hidratação e tempo curto reforçados.
- 4) Risco hepático revisado antes de paracetamol; evitar álcool e exceder limites.
- 5) Opioide só com indicação e plano: curto prazo, menor dose, sem dirigir/álcool, atenção a sedativos e apneia do sono.
- 6) Interações relevantes checadas: anticoagulantes/antiagregantes, anti-hipertensivos, diuréticos, sedativos.
- 7) Critérios de retorno definidos: piora da dor, febre persistente, sinais neurológicos, sangramento, dispneia, confusão, vômitos persistentes.
- 8) Objetivo terapêutico escrito: “reduzir dor para caminhar/dormir”, não “zerar dor a qualquer custo”.