Serigrafia para moda: registro de cores iniciante e alinhamento para estampas multicoloridas

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é registro de cores (e por que ele define a qualidade)

Registro de cores é o alinhamento preciso entre as diferentes telas (uma por cor) para que a estampa multicolorida “encaixe” exatamente como na arte. Na prática, você está repetindo a mesma impressão várias vezes, mudando apenas a cor/tela, sem que o desenho “ande” no tecido. Em serigrafia caseira, os erros de registro quase sempre vêm de três fontes: a tela muda de posição no suporte, a peça muda de posição na base, ou o tecido estica/relaxa entre uma cor e outra.

Para iniciantes, o objetivo não é “perfeição industrial”, e sim um método repetível: você consegue acertar 2–3 cores com consistência, aprova uma primeira peça e só então produz o restante.

Materiais e preparação rápida para registrar 2–3 cores

  • Gabarito de registro: pode ser uma folha rígida (papel cartão, acetato grosso, MDF fino) ou uma folha A3/A2 presa na base, com linhas e marcas.
  • Marcas de registro: cruzes, alvos ou “L” nos cantos (fora da arte final). Use as mesmas marcas em todas as telas.
  • Fita adesiva (crepe ou embalagem) e caneta permanente para marcar posições.
  • Calços (papel dobrado, cartão, arruelas) para microajustes de altura/pressão se necessário.
  • Papel para prova (sulfite, kraft) e tecido de teste (retalho do mesmo tecido/peça).
  • Secagem rápida entre cores (flash): soprador térmico, pistola de ar quente em baixa/controle, ou prensa/ferro (com proteção) apenas para “tirar o grude” entre camadas.

Método passo a passo: registro caseiro para 2–3 cores

1) Monte um gabarito fixo na base

O gabarito é a sua referência “imutável”. Ele deve ficar preso na base e não pode se mover durante todo o trabalho.

  • Posicione uma folha grande na base e prenda com fita nas bordas.
  • Desenhe uma linha de referência horizontal e vertical (um “+”) onde ficará o centro da estampa.
  • Marque também o limite de posicionamento da peça (ex.: linha do decote/ombro) e duas guias laterais para repetição.
  • Se for imprimir em camisetas, deixe um espaço para o encaixe do corpo da peça e marque sempre o mesmo ponto de referência (ex.: centro do colarinho).

2) Prepare uma “tela mestre” (a primeira a ser registrada)

Escolha uma cor para ser a referência do registro. Para iniciantes, costuma funcionar bem usar o contorno (se existir) ou a cor base (se a arte tiver uma base sólida). A tela mestre é a que você vai alinhar primeiro no suporte e “travar” como padrão.

  • Coloque a tela no suporte e abaixe sobre o gabarito.
  • Sem tinta, alinhe visualmente as marcas de registro da tela com as marcas do gabarito.
  • Quando estiver alinhado, marque com caneta e fita a posição do quadro no suporte (pontos de referência nas laterais do suporte e no quadro).
  • Aperte/trave o suporte (parafusos, presilhas, dobradiças) e teste se a tela volta ao mesmo lugar ao levantar e abaixar.

3) Faça a prova seca (sem tinta) para checar “retorno”

Antes de gastar tinta, verifique se o conjunto suporte+tela retorna ao mesmo ponto.

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  • Abaixe e levante a tela 5–10 vezes.
  • Observe se as marcas continuam coincidindo com o gabarito.
  • Se houver variação, o problema é mecânico (folga no suporte, quadro escorregando, dobradiça com jogo). Corrija antes de seguir.

4) Prova com tinta no papel: registre a 2ª e 3ª telas

O papel é o seu “campo de teste” rápido. Você vai imprimir as marcas de registro e parte da arte para enxergar o encaixe.

  1. Imprima a cor da tela mestre em papel (apenas o suficiente para aparecer as marcas e áreas-chave).
  2. Troque para a 2ª tela e alinhe as marcas de registro da tela com as marcas já impressas no papel (e com o gabarito).
  3. Microajuste: mova a tela milímetros até as marcas coincidirem. Quando acertar, marque e trave a posição do quadro no suporte (novas marcações de referência).
  4. Repita para a 3ª tela, se houver.

Dica prática: se o seu suporte não permite microajuste fino, use um método de “calço e marcação”: calce um lado do quadro com papel/cartão para corrigir um pequeno desvio e registre essa configuração para repetir.

5) Prova no tecido de teste (obrigatória antes da produção)

O tecido se comporta diferente do papel (absorção, textura e estiramento). Faça uma prova no mesmo tipo de tecido/peça.

  • Imprima a sequência completa (2–3 cores) em um retalho ou peça defeituosa.
  • Verifique: encaixe das bordas, sobreposição (trap), falhas de cobertura e se alguma cor “empurra” a anterior.
  • Se o registro “abre” no tecido mas estava perfeito no papel, o problema tende a ser movimento da peça ou estiramento.

Sequência de impressão recomendada (2–3 cores) para iniciantes

Ordem geral

  • Base (se existir): primeiro. Serve para uniformizar e dar brilho/cobertura às cores acima (especialmente em tecido escuro).
  • Cores intermediárias: do maior bloco para o menor detalhe, ou das cores mais claras para as mais escuras (depende da tinta e do efeito). Para iniciantes, priorize a lógica de “camadas estáveis”: áreas grandes antes de detalhes finos.
  • Contorno/linha final: por último. O contorno “fecha” pequenas variações e dá nitidez.

Exemplo prático de 3 cores

Cor/TelaFunçãoObservação
1) Base (branco/neutral)Fundo para coresFlash leve para não grudar
2) Cor principalMaior áreaControle de pressão para não “espalhar”
3) Contorno (preto)Detalhe e nitidezÚltima para evitar sujar e para corrigir visualmente microdesvios

Controle de secagem entre cores (flash) e prevenção de repique/offset

O que é “flash” na prática caseira

Flash é uma secagem parcial entre camadas: a tinta fica seca ao toque o suficiente para receber a próxima cor sem grudar na tela, mas ainda não é a cura final. O objetivo é evitar repique/offset (quando a tinta da peça transfere para o verso da tela ou para a próxima peça, gerando sombra e sujeira).

Como fazer um flash seguro (sem complicar)

  • Teste do toque: encoste levemente em uma área fora do desenho; se “puxa fio” ou marca dedo, precisa de mais flash.
  • Distância e movimento: mantenha a fonte de calor em movimento para não superaquecer um ponto e não empenar a peça.
  • Tempo mínimo eficaz: use o menor tempo que deixe a superfície seca ao toque; flash excessivo pode endurecer demais a camada e prejudicar a aderência da próxima (dependendo da tinta).

Checklist para evitar repique/offset

  • Faça flash após cores com muita cobertura (base e áreas chapadas).
  • Evite empilhar peças recém-impressas sem separação.
  • Mantenha a tela limpa na parte de baixo; se aparecer “fantasma” de tinta, pare e limpe antes de continuar.
  • Reduza tinta em excesso: muito depósito aumenta o risco de grudar.

Desalinhamentos típicos e como corrigir

1) Tela deslocando no suporte

Sintoma: o registro muda de uma peça para outra, mesmo com a peça bem posicionada.

Causas comuns: folga em dobradiça/presilha, quadro escorregando, marcações sem referência rígida.

Contramedidas:

  • Reforce a fixação do quadro no suporte (aperto consistente e pontos de contato limpos).
  • Crie “batentes” físicos simples: pequenos calços/paradas laterais para o quadro encostar sempre no mesmo lugar.
  • Marque a posição do quadro e do suporte com linhas de referência; se sair, você percebe na hora.

2) Peça “andando” na base

Sintoma: a primeira cor fica certa, mas a segunda aparece deslocada de forma irregular; às vezes piora ao levantar/abaixar a tela.

Causas comuns: adesivação insuficiente, puxada do rodo arrastando o tecido, manuseio ao fazer flash.

Contramedidas:

  • Melhore a fixação: use adesivo adequado e reaplique quando perder tack (aderência).
  • Use guias físicas (marcas laterais e superior) para encaixar a peça sempre igual.
  • Ao fazer flash, evite puxar a peça; se precisar mover, levante com cuidado e recoloque usando as guias.
  • Reduza a força lateral: mantenha o rodo com pressão suficiente para imprimir, sem “empurrar” o tecido.

3) Estiramento do tecido (registro abre/fecha)

Sintoma: o encaixe parece correto em uma área, mas “abre” em outra; ou a segunda cor fica maior/menor que a primeira.

Causas comuns: tecido muito tensionado na base, excesso de pressão, múltiplas puxadas pesadas, flash agressivo deformando.

Contramedidas:

  • Evite esticar demais ao posicionar; assente a peça sem tensão.
  • Use pressão consistente e moderada; pressão excessiva “alarga” a impressão.
  • Prefira menos passadas com melhor controle, em vez de várias passadas pesadas.
  • Faça flash suficiente para não grudar, mas sem superaquecer e deformar.

4) Registro “perfeito no papel” e ruim no tecido

Leitura rápida: papel não estica; tecido estica e absorve. Se no papel encaixa e no tecido não, foque em fixação da peça, pressão e flash.

  • Aumente a aderência da base e use guias mais rígidas.
  • Reduza depósito de tinta e pressão para diminuir arrasto.
  • Faça flash leve entre cores para evitar que a tela “puxe” a camada anterior.

Protocolo de “Primeira Peça Aprovada” (PPA) para travar o processo

Antes de produzir em quantidade, você precisa de uma peça padrão aprovada que define: posicionamento, registro, sequência e tempos. Esse protocolo evita que você descubra um erro depois de 10 peças.

Etapa 1 — Configuração travada

  • Gabarito preso e guias marcadas.
  • Posição de cada tela marcada no suporte (referências visuais).
  • Ordem de impressão definida (ex.: base → cor → contorno).

Etapa 2 — Impressão da peça 1 (com anotações)

  • Imprima seguindo a sequência e anote: número de passadas por cor, necessidade de flash e tempo aproximado.
  • Após cada cor, verifique rapidamente as marcas de registro (em uma área fora da arte ou em pontos-chave do desenho).

Etapa 3 — Critérios objetivos de aprovação

Considere a peça aprovada somente se cumprir os itens abaixo:

  • Registro: contorno e áreas de sobreposição sem “sombra” perceptível a uma distância normal de uso (ex.: 50–70 cm).
  • Sem repique: não há transferência de tinta para áreas indevidas nem marcas da tela na peça.
  • Cobertura: áreas chapadas uniformes, sem falhas evidentes.
  • Repetibilidade: ao imprimir mais 1 prova rápida (papel ou retalho), o encaixe se mantém sem reajuste.

Etapa 4 — Travamento final (antes da produção)

  • Faça marcas finais de referência (fita/caneta) para cada tela no suporte.
  • Defina um “ritmo”: imprimir cor 1 em X peças, flash, cor 2 em X peças… ou peça a peça (para iniciante, peça a peça costuma reduzir erros).
  • Separe uma área para peças recém-impressas (evitar contato e offset).

Rotina rápida de checagem durante a produção (para não perder o registro)

  • A cada 5–10 peças, imprima uma prova rápida das marcas em papel e compare com o padrão (ou confira pontos-chave na própria peça).
  • Se notar desvio, pare e identifique: tela mexeu, peça andou ou tecido esticou. Corrija a causa antes de continuar.
  • Mantenha o mesmo gesto: ângulo do rodo, pressão e velocidade consistentes ajudam o registro a permanecer estável.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao notar que o encaixe das cores fica perfeito no papel, mas desalinha quando você imprime no tecido, qual diagnóstico e ajuste são mais coerentes para melhorar o registro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O papel não estica, mas o tecido pode se mover e deformar. Por isso, a correção costuma envolver melhor fixação/guia da peça, controle de pressão e depósito de tinta e flash leve para evitar que a tela puxe a camada anterior.

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Serigrafia em tecido: cura e secagem corretas para resistência à lavagem e ao atrito

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