Serigrafia para moda: escolha do tecido, composição, gramatura e pré-tratamento para boa fixação

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Como o tecido “manda” na estampa (cobertura, toque e durabilidade)

Na serigrafia para moda, o resultado final não depende só da tela e da tinta: o tecido define quanto a tinta penetra, quanto ela “assenta” na superfície e como a peça se comporta após lavagens. Três efeitos aparecem sempre:

  • Cobertura: capacidade de a tinta “tampar” a cor do tecido e formar uma área sólida sem falhas.
  • Toque: sensação ao passar a mão na estampa (mais “emborrachado” ou mais “leve”).
  • Durabilidade: resistência a lavagens, atrito e alongamento sem trincar ou desbotar.

Regra prática: quanto mais “aberto” e irregular o tecido, mais tinta entra nas fibras (toque mais pesado e risco de falhas). Quanto mais liso e estável, mais a tinta fica na superfície (melhor definição e cobertura, com toque potencialmente mais leve).

Critérios práticos para escolher camisetas e tecidos

1) Composição: algodão, poliéster e mistos

Algodão (100%): costuma ser o mais amigável para iniciantes. Absorve bem, aceita vários tipos de tinta para tecido e tende a dar boa definição. Em tecidos muito porosos, pode exigir mais tinta para cobertura.

Poliéster (100%): é menos absorvente e pode ter acabamentos que dificultam ancoragem. Em geral, pede tinta/formulação apropriada para sintéticos e cura bem controlada. Também é onde pode ocorrer migração (a cor do tecido “sobe” para a estampa, especialmente em poliéster tingido).

Mistos (ex.: 50/50 algodão/poliéster, 67/33): equilibram absorção e estabilidade. Podem imprimir bem, mas herdam riscos do poliéster (migração) e do algodão (encolhimento). Para iniciante, são bons desde que você teste antes.

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2) Tipo de malha: penteada vs. cardada

Malha penteada: fibras mais alinhadas e superfície mais lisa. Benefícios: melhor definição de traço, menos “serrilhado” nas bordas, toque mais uniforme e menor tendência a “engolir” tinta.

Malha cardada: mais irregular e com mais “pelinhos”/fibras soltas. Benefícios: costuma ser mais barata. Riscos: maior consumo de tinta, bordas menos nítidas, possibilidade de a estampa ficar com microfalhas em áreas sólidas e maior chance de “fibrilar” (fibras levantarem e interferirem no acabamento).

3) Cor do tecido e efeito na cobertura

Em tecidos escuros, a cobertura depende muito da tinta e do quanto ela fica na superfície. Em tecidos claros, quase qualquer tinta adequada ao tecido tende a funcionar com menos camadas. Se você está começando, teste primeiro em branco ou mescla clara para calibrar pressão e quantidade de tinta antes de partir para preto e cores fortes.

Gramatura e trama: como avaliar sem laboratório

O que é gramatura (g/m²) e por que importa

Gramatura é o peso do tecido por metro quadrado. Na prática:

  • Baixa gramatura (tecido fino): estica mais fácil, deforma ao posicionar, pode marcar a base e tende a “beber” tinta. Toque pode ficar mais pesado para cobrir bem.
  • Média gramatura: costuma ser o ponto mais equilibrado para camisetas.
  • Alta gramatura (tecido encorpado): mais estável e confortável para imprimir, geralmente dá melhor definição e menos transparência, mas pode exigir mais cuidado na cura (mais massa de tecido retém calor/umidade).

Como estimar gramatura de forma prática

  • Pelo toque e caimento: segure a camiseta pela costura do ombro e observe o “peso” e a queda. Tecidos muito leves “molejam” e torcem com facilidade.
  • Contra a luz: estique levemente e veja a transparência. Quanto mais “vazado”, maior a chance de exigir mais tinta para sólidos.
  • Comparação: tenha uma camiseta “referência” que você já gostou de estampar e compare espessura e elasticidade.

Trama/estrutura da malha: sinais de tecido bom para estampar

Procure uma superfície relativamente uniforme. Sinais de alerta:

  • Irregularidade visível (pontos mais abertos): pode gerar falhas em chapados.
  • Muito pelo solto: pode “sujar” detalhes finos e dar aspecto áspero na estampa.
  • Elasticidade excessiva: aumenta risco de distorção no posicionamento e de trincas se a tinta não acompanhar o alongamento.

Encolhimento e torção: como prever problemas antes de imprimir

Encolhimento (principalmente no algodão)

Se a peça encolhe após a primeira lavagem, a estampa pode parecer maior, “puxada” ou até enrugar em volta. Para evitar:

  • Prefira peças pré-encolhidas quando possível.
  • Quando não houver garantia, faça pré-lavagem antes de estampar (passo a passo abaixo).

Torção (malha “entorta” depois de lavar)

Torção acontece quando a malha gira e as costuras laterais “andam” para frente. Isso afeta o alinhamento da estampa no corpo. Teste rápido na loja/estoque:

  • Estenda a camiseta em uma mesa e alinhe gola e barra.
  • Observe se as costuras laterais ficam retas e simétricas.
  • Se a peça já “puxa” para um lado a seco, tende a piorar após lavar.

Pré-tratamento para boa fixação: quando fazer e como fazer

Pré-tratamento aqui significa preparar o tecido para receber tinta com previsibilidade. Ele ajuda a reduzir problemas como: tinta “abrir” em áreas sólidas, falta de aderência por acabamento químico, encolhimento pós-estampa e superfície ondulada que atrapalha o contato da tela.

Quando a pré-lavagem é recomendada

  • Algodão cru, peças novas sem informação ou com cheiro forte de fábrica.
  • Peças muito engomadas (toque “armado”, rígido).
  • Malhas que soltam muito pó/fibra (a lavagem ajuda a remover excesso superficial).

Quando pode ser dispensável: peças já lavadas, tecidos com etiqueta indicando pré-encolhimento e camisetas de qualidade consistente (ainda assim, teste uma unidade antes de produção).

Passo a passo: pré-lavagem para remover goma/acabamentos

  1. Separar por cor: lave claras e escuras separadamente para evitar transferência.
  2. Lavar do avesso: reduz atrito na face externa e diminui bolinhas.
  3. Usar sabão neutro: evite amaciantes (podem deixar filme que atrapalha aderência).
  4. Ciclo normal com água em temperatura ambiente ou morna leve (se o tecido permitir). Evite água muito quente em malhas instáveis.
  5. Enxágue bem: resíduos de sabão também podem interferir na ancoragem.
  6. Não usar amaciante e evite excesso de perfume/óleos.

Secagem correta (para não deformar)

  • Evite torcer a peça com força: isso induz torção na malha.
  • Seque em superfície plana quando possível ou pendure pelo meio (dobrada no varal) para reduzir alongamento pelos ombros.
  • Não supersecar em calor alto: pode “assentar” vincos difíceis de tirar e, em sintéticos, alterar textura.

Passadoria para base plana (fundamental para registro e contato)

Uma base plana evita “pontes” entre tela e tecido, que causam falhas e borrões. Passo a passo:

  1. Passar do avesso primeiro para assentar costuras e reduzir brilho em sintéticos.
  2. Passar do lado externo com temperatura adequada ao tecido, focando na área onde será a estampa.
  3. Deixar esfriar a peça esticada e plana antes de posicionar na base (tecido quente pode relaxar e mudar de medida).

Base adesivada (cola permanente reposicionável): por que usar e como aplicar

A base adesivada segura a peça durante a puxada do rodo, evitando que o tecido “ande”, forme rugas ou estique. Isso melhora definição e repetibilidade, principalmente em produção.

Como preparar a base com cola reposicionável

  1. Base limpa e seca: poeira e fiapos reduzem a aderência e criam relevos.
  2. Aplicar camada fina de cola reposicionável na área de impressão. Camada grossa tende a transferir cola para o tecido e “sujar” a peça.
  3. Aguardar ficar pegajosa (não molhada) antes de colocar a camiseta. O ponto certo é quando toca e “gruda” sem escorrer.
  4. Reativação: quando a cola perder tack por excesso de fiapos, remova fiapos e reaplique uma camada leve.

Como posicionar a peça sem deformar (passo a passo)

  1. Vista a camiseta na base (como se fosse uma “prancha”): encaixe a área de estampa primeiro e depois alinhe o restante.
  2. Alinhar por referências fixas: use gola, costura do ombro e centro da peça. Evite puxar pela barra.
  3. Assentar com as mãos do centro para fora, sem esticar: o objetivo é tirar rugas, não tensionar a malha.
  4. Checar simetria: confirme se a costura lateral está na mesma posição dos dois lados e se a gola não está “virada”.
  5. Fixar áreas críticas: em tecidos elásticos, pressione levemente a região próxima à estampa para garantir contato uniforme.

Dica prática: se você percebe que a estampa “encolhe” ou “alonga” de uma peça para outra, quase sempre é tensão diferente no posicionamento. Padronize o gesto: sempre assente do centro para as laterais com a mesma pressão.

Tabela orientativa: tecido x tinta recomendada x riscos comuns

Tecido / composiçãoCaracterísticas para estamparTinta recomendada (orientativo)Riscos comuns
Algodão 100% (malha penteada)Superfície lisa, boa definição, absorção equilibradaTinta à base d’água para tecido ou plastisol (se você já trabalha com cura adequada)Encolhimento se não pré-lavar; chapados podem exigir 2 demãos em malha mais porosa
Algodão 100% (malha cardada)Mais porosa e irregular, “bebe” tintaTinta com boa cobertura (base d’água mais encorpada ou plastisol)Maior consumo; bordas menos nítidas; fibrilação/fiapos interferindo em detalhes
Poliéster 100%Baixa absorção, pode ter acabamento; estabilidade dimensionalTinta/formulação para sintéticos (ex.: plastisol apropriado ou base d’água específica para poliéster)Migração de corante; aderência ruim se houver acabamento; toque pode ficar “plástico” se exagerar na camada
Misto algodão/poliéster (ex.: 50/50)Boa estabilidade e boa imprimibilidade, mas varia por loteTinta para tecido com boa ancoragem; em escuros, considerar bloqueio/underbase compatívelMigração em tecidos tingidos; diferença de encolhimento; variação de absorção entre marcas
Malha muito fina / baixa gramaturaDeforma fácil, transparência maiorTinta com boa cobertura e controle de depósito (camadas finas e consistentes)Deformação no posicionamento; marca da base; “fantasma” por estiramento
Moletom (algodão ou misto)Mais espesso, pode ter felpa; boa área para chapadosTinta com boa cobertura; para felpados, considerar tinta mais “alta”/encorpadaTextura da felpa aparecendo; necessidade de mais tinta; cura irregular se tecido estiver úmido

Checklist rápido antes de imprimir (seleção e preparo)

  • O tecido está plano e sem vincos na área de estampa?
  • A peça foi pré-lavada quando havia risco de goma/encolhimento?
  • Você verificou torção e alinhamento das costuras?
  • A base está com cola reposicionável em camada fina e no ponto pegajoso?
  • Você consegue posicionar sem esticar a malha (tensão consistente)?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao escolher um tecido para serigrafia em moda, qual cenário tende a resultar em melhor definição e cobertura com toque potencialmente mais leve?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Tecidos lisos e estáveis fazem a tinta assentar mais na superfície, o que favorece definição de traço e cobertura. Já tecidos abertos/irregulares tendem a “beber” mais tinta, aumentando o toque e o risco de falhas.

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