O que é “acabamento” na serigrafia para moda (e por que ele decide se a peça parece profissional)
Acabamento é o conjunto de características visuais e táteis da estampa depois de impressa e curada: uniformidade de cobertura, nitidez das bordas, alinhamento entre cores, ausência de defeitos (manchas, sujeira, fantasma), estabilidade de cor e um toque coerente com a proposta da peça (mais “zero toque” ou mais encorpado). Controle de qualidade (CQ) é o método para verificar esses pontos em cada peça, com critérios claros de aprovação/reprovação e registro de parâmetros para repetir o mesmo resultado em novos lotes.
Checklist de qualidade peça a peça (inspeção rápida e objetiva)
Use sempre a mesma rotina: inspeção sob luz consistente, peça esticada de forma semelhante e comparação com uma “peça padrão” aprovada (golden sample). Abaixo, um checklist prático com o que observar, como testar e causas comuns.
1) Cobertura (opacidade e uniformidade)
- O que observar: áreas falhadas, “nuvens” (manchas mais claras), textura irregular.
- Teste rápido: olhe a estampa em ângulo raso contra a luz; compare com a peça padrão.
- Causas comuns: depósito insuficiente, tinta muito viscosa, pressão/puxada inconsistente, malha inadequada para a tinta/arte.
2) Bordas (nitidez e serrilhado)
- O que observar: borda “peluda”, vazamento, serrilhado excessivo, microfalhas em letras finas.
- Teste rápido: use uma lupa simples ou a câmera do celular; compare a mesma área em 3 peças seguidas.
- Causas comuns: excesso de depósito, pressão alta, tela fora de contato ideal, tinta muito fluida, sujeira na tela.
3) Registro (alinhamento entre cores)
- O que observar: sombra/dupla borda, deslocamento em um lado, “escada” em contornos.
- Teste rápido: escolha 2 pontos de referência (ex.: canto superior esquerdo e inferior direito) e confira ambos; se um bate e outro não, há rotação/torção.
- Causas comuns: fixação inconsistente da peça, variação de estiramento do tecido, microdeslocamento do quadro, sequência de impressão variando.
4) Manchas e contaminações (sujeira, respingos, fantasma)
- O que observar: pontinhos, respingos, “fantasma” fora do desenho, marcas de dedo.
- Teste rápido: passe uma fita adesiva de baixa aderência em área fora do desenho: se sair pigmento/poeira, há contaminação superficial.
- Causas comuns: ambiente com poeira, tela/tinta contaminada, excesso de tinta no quadro, limpeza insuficiente entre peças.
5) Migração (mudança de cor por interferência do tecido)
- O que observar: branco que “amarela/acinzenta”, cores que ficam “sujas” após cura ou após 24–48h.
- Teste rápido: separe 1 peça do lote e reavalie no dia seguinte; compare com a peça padrão guardada.
- Causas comuns: corantes do tecido migrando para a tinta, base inadequada para aquele tecido, cura/temperatura que favorece migração.
6) Variação de cor (consistência entre peças)
- O que observar: a mesma cor “abre” (mais clara) ou “fecha” (mais escura) ao longo do lote.
- Teste rápido: alinhe 5 peças em sequência e compare a mesma área; se houver “degradê” involuntário, há variação de processo.
- Causas comuns: mistura por volume (imprecisa), viscosidade mudando com o tempo, número de passadas variando, tinta “secando” na tela.
7) Toque (hand feel) e relevo
- O que observar: estampa “borrachuda”, rígida, com degrau alto; ou, ao contrário, toque leve e integrado ao tecido.
- Teste rápido: com a peça fria, amasse a área estampada e solte; compare a rigidez com a peça padrão.
- Causas comuns: depósito excessivo, base/tinta muito “corpo”, malha muito aberta para a arte, passadas demais.
8) Elasticidade (acompanhar o tecido sem trincar)
- O que observar: microtrincas ao esticar, perda de cobertura em áreas elásticas, “craquelado”.
- Teste rápido: estique a área estampada de forma controlada (sempre o mesmo tanto) e observe sob luz; repita em 3 peças.
- Causas comuns: tinta/base inadequada para tecido elástico, depósito alto, cura que deixou o filme rígido.
Critérios de aprovação/reprovação (padrão objetivo para não “achar”)
Defina critérios antes de começar o lote e registre junto do job. Um modelo simples é usar 3 níveis: Aprovado, Retrabalho (se possível corrigir) e Reprovado (descartar/segunda linha).
| Item | Aprovado | Retrabalho | Reprovado |
|---|---|---|---|
| Cobertura | Uniforme, sem falhas visíveis a 50 cm | Falha pequena fora da área principal (se houver como cobrir sem piorar borda) | Falhas na área central/alta visibilidade ou “nuvens” grandes |
| Bordas | Nítidas, sem vazamento | Pequeno serrilhado em área não crítica | Vazamento, borrão, perda de detalhe em texto/linhas |
| Registro | Desalinhamento imperceptível a 50 cm | Desalinhamento leve aceitável em arte orgânica | Dupla borda evidente, contorno “fora” em pontos-chave |
| Manchas | Sem respingos/pontos | Ponto mínimo fora do desenho (se remover sem marcar) | Respingo na área do desenho ou mancha que não sai |
| Migração | Cor estável após 24–48h | Leve mudança tolerável em peça escura (se cliente aceitar) | Branco/cor alterou visivelmente, “sujou” a cor |
| Variação de cor | Peças iguais ao padrão | Variação pequena em peças de borda do lote | Diferença visível em sequência (lote “manchado”) |
| Toque | Compatível com a proposta (leve ou encorpado), sem rigidez excessiva | Um pouco mais alto, mas confortável | Rígido, “placa”, incomoda ao vestir |
| Elasticidade | Sem trincar no teste de estiramento | Microtrinca mínima em área pequena | Trinca evidente, perda de filme |
Como reduzir toque pesado (sem perder cobertura)
Toque pesado quase sempre é resultado de depósito alto (muita tinta) e/ou filme muito espesso. A estratégia é reduzir depósito com controle, mantendo a opacidade por escolhas técnicas.
A) Escolha de malha (mesh) para reduzir depósito
- Diretriz prática: quanto mais aberta a malha, mais tinta passa e maior o relevo; quanto mais fechada, menor o depósito e mais leve o toque.
- Como aplicar: se a arte permite (sem exigir cobertura extrema), migre para uma malha mais fechada e compense com uma passada bem controlada.
- Sinal de que a malha está “aberta demais”: cobertura boa, mas bordas inchadas e toque alto mesmo com pouca pressão.
B) Redução de depósito (processo) sem “lavar” a cor
Objetivo: imprimir o mínimo de tinta necessário para atingir a cobertura aprovada.
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- Padronize o número de passadas: defina “1 passada” ou “2 passadas” e não altere no meio do lote. Se precisar mudar, pare e re-padronize com nova peça padrão.
- Controle de pressão: pressão excessiva empurra tinta para dentro do tecido e pode aumentar área “molhada”, piorando borda e toque.
- Ângulo do rodo: ângulo mais “fechado” tende a depositar mais; ângulo mais “aberto” tende a raspar mais. Escolha um ângulo e repita.
- Velocidade constante: variação de velocidade muda o depósito; treine 10 puxadas “no ar” antes de retomar o lote.
C) Aditivos e ajustes de base (quando fizer sentido)
Sem entrar em marcas, pense em aditivos como ferramentas para ajustar fluxo, maciez e elasticidade sem aumentar depósito.
- Amaciante/soft-hand: ajuda a reduzir sensação “borracha”. Use em pequena porcentagem e registre o percentual.
- Redutor/ajuste de viscosidade: melhora nivelamento e pode permitir menos passadas. Excesso pode causar vazamento e perda de borda.
- Base adequada: se você está usando uma base muito “corpo” para uma arte simples, o toque tende a ficar pesado. Ajuste a base para o objetivo: moda costuma pedir toque mais leve.
D) Passo a passo: diagnóstico e correção de toque pesado
- Compare com a peça padrão: confirme se o problema é toque (relevo/rigidez) ou cura (filme duro por excesso de calor).
- Verifique depósito: observe o degrau da tinta na borda do desenho; se está alto, o foco é reduzir depósito.
- Reduza uma variável por vez: (1) diminua 1 passada; se perder cobertura, volte e tente (2) malha mais fechada; se ainda pesado, (3) ajuste de base/aditivo.
- Imprima 2 peças de teste: uma para inspeção visual e outra para teste de estiramento/toque após esfriar.
- Atualize o padrão: só troque o “golden sample” se o novo resultado estiver aprovado e consistente.
Como manter consistência de cor no lote (controle de mistura, passadas e viscosidade)
Cor consistente é resultado de mesma formulação + mesmo depósito + mesma condição de tinta ao longo do tempo.
A) Mistura por peso (não por “olhômetro”)
Trabalhe com balança. Mesmo em produção caseira, isso reduz variação drasticamente.
- Regra prática: registre a receita em gramas (base + pigmento + aditivos). Evite “colheradas”.
- Exemplo de registro: Base 900 g + Pigmento 80 g + Aditivo soft 20 g = 1000 g total.
- Faça tinta suficiente: sempre que possível, prepare quantidade para o lote inteiro; se precisar “repor”, replique a receita por peso.
B) Repetição de passadas (depósito = cor)
- Padronize: número de passadas, ordem das cores e ritmo de impressão.
- Evite “compensar” peça a peça: se uma peça ficou clara, não aumente passadas só nela; pare e corrija a causa (viscosidade, tela secando, pressão).
C) Controle de viscosidade (tinta mudando com o tempo)
Viscosidade afetada por evaporação, temperatura e tempo em aberto muda cobertura e borda.
- Sinal de tinta engrossando: começa a “puxar” fios, falhar em áreas pequenas e exigir mais pressão.
- Sinal de tinta fluida demais: bordas começam a alargar e aparecem vazamentos.
- Rotina prática: a cada X peças (ex.: 10 ou 20), mexa a tinta por um tempo fixo (ex.: 10–15 segundos) e avalie uma impressão de controle.
- Se precisar ajustar: faça microajustes e registre o que foi adicionado (em gramas), em vez de “um pouco”.
D) Passo a passo: controle de cor durante a produção
- Defina a peça padrão: a primeira peça aprovada vira referência visual.
- Crie pontos de checagem: por exemplo, a cada 10 peças, compare a peça atual com a padrão sob a mesma luz.
- Se houver variação: pare e verifique (1) mistura/homogeneização, (2) viscosidade, (3) número de passadas, (4) tela começando a secar.
- Registre a correção: “+2 g redutor”, “mexido 30 s”, “voltou para 1 passada”.
Registro de parâmetros do job (para repetibilidade real)
Repetibilidade é conseguir reimprimir semanas depois com o mesmo resultado. Para isso, registre parâmetros de forma padronizada. Use uma ficha por job e anexe uma foto da peça padrão.
Ficha de job (modelo copiável)
JOB: ____________________ Data: ____/____/____ Operador: ____________ Cliente/Coleção: ____________ Quantidade: _______ Tecido/cor: ____________ Peça padrão guardada? ( ) sim ( ) não Foto: ( ) simParâmetros essenciais para registrar
| Categoria | O que anotar | Exemplo |
|---|---|---|
| Tela/malha | Malha (mesh), tensão (se medir), condição da tela | Malha 120, tela limpa, sem entupimento |
| Emulsão/matriz | Tipo de matriz e observações de detalhe | Detalhe fino OK, bordas nítidas |
| Rodo | Dureza, largura, afiação/estado | 70 duro, 25 cm, canto vivo |
| Setup | Fora de contato/altura, fixação da peça, sequência de cores | Fora de contato médio, sequência: branco > azul |
| Tinta | Tipo/base, receita por peso, aditivos e % | Base X 900 g + pigmento 80 g + soft 20 g |
| Processo | Nº de passadas, flood sim/não, pressão/ângulo (descrição), ritmo | 1 passada + flood leve; ângulo médio; velocidade constante |
| Cura | Tempo/temperatura alvo, método de verificação | Curado conforme padrão do ateliê; teste de estiramento OK |
| Qualidade | Checklist: defeitos encontrados e correções | Variação de cor no início: mexer tinta a cada 10 peças |
Como usar o registro na prática (rotina curta)
- Antes do lote: preencha tela/malha, rodo, receita e setup planejado.
- Durante: anote qualquer ajuste (viscosidade, passadas, troca de rodo) no momento em que ocorrer.
- Após aprovar a peça padrão: marque os critérios que ficaram “no limite” (ex.: toque um pouco alto) para orientar o próximo job.
Plano de inspeção simples para produção caseira (sem travar o fluxo)
Para equilibrar qualidade e velocidade, use um plano de amostragem com gatilhos de parada.
- Primeiras 5 peças: inspeção completa (todos os itens do checklist). Se 1 reprovar, ajuste e reinicie a contagem.
- Produção em ritmo: inspeção rápida a cada 10 peças (cobertura, borda, cor e manchas).
- Troca de condição: sempre que mexer na tinta, limpar tela, pausar por tempo longo ou mudar o ritmo, faça 1 peça de controle e compare com a padrão.
- Final do lote: alinhe 5 peças aleatórias e compare cor/registro para detectar deriva.