O que significa “demanda comprovável” na seleção de produtos
Demanda comprovável é a evidência prática de que um produto já vende de forma recorrente (ou tem procura consistente) em canais reais de compra, com preço e volume observáveis. Em vez de escolher “o que parece legal”, você escolhe com base em sinais objetivos: quantidade de ofertas, frequência de reposição, avaliações, variações disponíveis, histórico de preço e presença de concorrentes.
O objetivo aqui é reduzir risco: selecionar itens com chance maior de giro e com margem calculada antes de importar, considerando também o risco regulatório e a complexidade de estoque.
Critérios objetivos para escolher produtos com potencial de revenda
1) Ticket médio (preço de venda típico)
Ticket médio é o valor que o cliente paga por unidade (ou por pedido) no varejo. Ele influencia diretamente sua margem absoluta (R$) e sua capacidade de absorver custos fixos (embalagem, anúncios, devoluções, atendimento).
- Regra prática: produtos muito baratos exigem alto volume para compensar; produtos muito caros podem ter giro lento e maior exigência de garantia/qualidade.
- Como avaliar: observe o intervalo de preços praticados por vendedores com boa reputação e muitas vendas (não use o menor preço como referência principal).
2) Giro (velocidade de venda)
Giro é a rapidez com que o estoque se transforma em vendas. Um produto com giro alto permite compras menores e reposições frequentes, reduzindo capital parado.
- Sinais de giro: muitas avaliações recentes, muitos vendedores com estoque renovado, variações frequentemente esgotadas, anúncios com “mais vendidos” (quando disponível), e repetição do produto em várias lojas.
- Alerta: giro alto com margem baixa pode ser armadilha se houver alta taxa de devolução ou concorrência agressiva.
3) Sazonalidade (picos e vales de demanda)
Sazonalidade é quando a demanda aumenta em períodos específicos (verão, volta às aulas, datas comemorativas) e cai no restante do ano.
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- Como usar a seu favor: escolha itens com demanda estável para começar; use sazonais apenas se conseguir comprar com antecedência e aceitar risco de sobras.
- Exemplo: acessórios para praia tendem a concentrar vendas em meses quentes; organizadores domésticos costumam ter demanda mais constante.
4) Concorrência (quantidade e força dos competidores)
Concorrência não é “ruim” por si só: ela pode indicar demanda. O ponto é entender se existe espaço para entrar com margem e diferenciação.
- Concorrência saudável: muitos vendedores, mas com preços variados e diferenças claras (qualidade, kit, entrega, garantia, fotos, acessórios).
- Concorrência perigosa: produto “comoditizado” com dezenas de anúncios idênticos e disputa por centavos.
5) Possibilidade de diferenciação (por valor, não só por preço)
Diferenciação é o que faz o cliente preferir você mesmo que não seja o mais barato. Pode ser no produto, no pacote, no conteúdo do anúncio, no pós-venda ou na forma de uso.
- Formas comuns de diferenciar: kits (2 unidades, combo), acessórios inclusos, manual simples em português, embalagem para presente, variações úteis (tamanho/cor), garantia clara, compatibilidade bem explicada.
- Teste mental: “Se eu subir meu preço 10%, ainda existe um motivo para comprarem de mim?” Se a resposta for “não”, a diferenciação está fraca.
6) Risco regulatório (o que pode travar, restringir ou gerar custo extra)
Risco regulatório é a chance de o produto exigir requisitos específicos (certificações, autorizações, rotulagem, restrições de transporte) ou ser mais sensível a fiscalização. Quanto maior o risco, maior a chance de atraso, custo inesperado ou impossibilidade de venda em determinados canais.
- Heurística prática: comece por itens de baixo risco (acessórios simples, sem contato com alimento, sem promessa terapêutica, sem bateria, sem rádio, sem lâmina, sem químico).
- Itens que tendem a elevar risco: cosméticos, suplementos, itens para saúde, eletrônicos com rádio/Bluetooth, produtos infantis com exigências específicas, itens que aquecem, baterias, lasers, itens que tocam diretamente pele com promessa “médica”.
Passo a passo prático: do preço de varejo ao teto de custo importado
Passo 1 — Escolha 1 produto e defina a “unidade de venda”
Antes de comparar preços, defina exatamente o que você vai vender: 1 unidade, kit com 2, kit com 3, com acessório ou sem. Isso evita comparar “maçã com laranja”.
- Exemplo: “Organizador de cabos” pode ser 10 unidades por pacote, 20 unidades por pacote ou kit com ferramenta. Cada um tem preço e margem diferentes.
Passo 2 — Levante referências de preço no varejo/marketplace
Monte uma amostra de preços reais do mercado. O objetivo é achar um preço de venda provável (não o mais alto, nem o mais baixo).
- Liste de 8 a 15 anúncios do mesmo produto (ou equivalente) em marketplaces e lojas online.
- Registre: preço do produto, frete (se cobrado à parte), se é kit, quantidade de avaliações, nota, e se o vendedor parece profissional.
- Separe em três faixas: baixo, médio, alto. Use a faixa média como referência inicial.
| Campo | Exemplo de preenchimento |
|---|---|
| Produto/variação | Suporte de celular para carro, magnético, kit com 2 placas |
| Preço anunciado | R$ 49,90 |
| Frete | Grátis |
| Avaliações | 4,7 (3.200 avaliações) |
| Diferenciais | 2 placas inclusas, entrega rápida |
Passo 3 — Defina o preço de venda alvo (PV)
Escolha um preço de venda alvo realista com base na faixa média e no seu posicionamento (mais barato, equivalente ou premium).
- PV conservador: use um valor próximo da faixa média-baixa.
- PV agressivo: use faixa média, mas com diferenciação clara.
Passo 4 — Estime os custos de venda no Brasil (CV)
Você precisa estimar os custos que “comem” o preço de venda. Mesmo sem entrar em estratégia, é essencial colocar números para não calcular margem no escuro.
- Taxa do canal (comissão/serviço do marketplace, se houver).
- Frete (se você oferecer frete grátis, ele sai do seu bolso).
- Embalagem (caixa/envelope, fita, etiqueta).
- Impostos do seu regime (se aplicável ao seu caso).
- Perdas (devolução, avaria, extravio): use uma provisão pequena no início.
Para transformar isso em conta simples, use uma combinação de custos percentuais e custos fixos por pedido.
Passo 5 — Defina a margem desejada (M)
Margem desejada é o quanto você quer sobrar por venda para remunerar o negócio e permitir reinvestimento. Pode ser definida em % do preço de venda ou em R$ por unidade.
- Exemplo prático: você quer pelo menos 25% de margem bruta sobre o preço de venda, ou R$ 15 por unidade (o que for maior).
Passo 6 — Calcule o teto de custo importado (TCI)
O teto de custo importado é o custo máximo que você pode pagar para colocar o produto no Brasil (produto + frete internacional + custos de importação aplicáveis ao seu cenário), mantendo a margem.
Uma forma prática de calcular:
TCI = PV - (CV + M)Onde:
- PV = preço de venda alvo
- CV = custos de venda no Brasil (taxas, frete, embalagem, impostos, provisões)
- M = margem desejada
Exemplo numérico:
- PV = R$ 79,90
- CV = R$ 24,00 (taxas + frete + embalagem + provisões)
- M = R$ 20,00
TCI = 79,90 - (24,00 + 20,00) = R$ 35,90Interpretação: se o custo total importado por unidade ficar acima de R$ 35,90, sua margem cai abaixo do mínimo definido.
Passo 7 — Compare o TCI com cotações de fornecedores
Ao cotar com fornecedores, traga o custo para a mesma “unidade de venda” do Passo 1 (incluindo kit e acessórios). Se o fornecedor vende em pacotes, converta para custo unitário.
- Se custo importado estimado ≤ TCI: produto passa no filtro de margem.
- Se custo importado estimado > TCI: você precisa aumentar PV (se o mercado aceitar), reduzir custos de venda, melhorar diferenciação para cobrar mais, ou descartar.
Análise de variações (cores, tamanhos, kits) e impacto em estoque
Por que variações podem aumentar lucro e também risco
Variações aumentam conversão (o cliente encontra o que quer), mas multiplicam SKUs e podem travar capital em itens que vendem menos.
- Risco típico: você compra 6 cores e 4 tamanhos e descobre que 70% das vendas se concentram em 2 combinações.
- Benefício típico: kits elevam ticket médio e reduzem custo de frete por unidade.
Passo a passo para decidir variações com baixo risco
- 1) Comece com “core SKUs”: selecione 1 a 3 variações mais prováveis (cores neutras, tamanhos mais comuns, versão “padrão”).
- 2) Use regra 80/20: planeje que poucas variações farão a maior parte do volume. Compre mais das prováveis e menos das “apostas”.
- 3) Evite grade completa no início: grade completa (todos os tamanhos/cores) é para quando você já tem dados de venda.
- 4) Prefira kits que simplificam SKU: em vez de 5 cores, um kit “2 unidades cor preta” pode girar mais e reduzir complexidade.
- 5) Calcule estoque por variação: defina quantidade mínima por SKU para não ficar com “estoque morto”.
Matriz simples de decisão de variações
| Tipo de variação | Prós | Contras | Quando usar |
|---|---|---|---|
| Cores | Melhora apelo visual | Fragmenta estoque | Quando 1–2 cores neutras já atendem a maioria |
| Tamanhos | Atende mais perfis | Risco alto de sobras | Quando há padrão claro (ex.: P/M/G com demanda conhecida) |
| Kits | Aumenta ticket e margem | Exige montagem/embalagem | Quando o produto é consumível ou usado em pares |
| Versões (básica/premium) | Segmenta público | Mais SKUs e comunicação | Quando o diferencial é fácil de explicar e justificar |
Exercícios: público-alvo e proposta de valor (sem “estratégias de estudo”)
Exercício 1 — Defina um público-alvo operacional
Escolha um público que você consegue atender com clareza de uso e benefício. Preencha:
- Quem compra: (ex.: motoristas de aplicativo, pais de crianças pequenas, pessoas que trabalham em home office)
- Problema que querem resolver: (ex.: manter o celular firme no carro, organizar cabos na mesa, reduzir bagunça na mochila)
- Contexto de uso: (ex.: no carro, no escritório, na cozinha)
- O que valorizam: (ex.: durabilidade, praticidade, segurança, estética)
Exemplo preenchido:
- Quem compra: pessoas em home office
- Problema: mesa com cabos espalhados e aparência desorganizada
- Contexto: estação de trabalho
- Valorizam: organização rápida, visual limpo, instalação sem ferramentas
Exercício 2 — Proposta de valor em 1 frase
Escreva uma frase que conecte público + problema + diferencial.
Modelo: “Para [público] que precisa [resolver problema], eu vendo [produto] com [diferencial] para [benefício].”
Exemplo: “Para pessoas em home office que precisam organizar a mesa, eu vendo organizadores de cabos em kit com 20 unidades e adesivo forte para deixar a estação limpa em 5 minutos.”
Exercício 3 — Checklist de diferenciação sem mudar o produto
- Consigo vender em kit para aumentar ticket?
- Posso incluir acessório barato que aumenta valor percebido?
- Há uma variação mais procurada que eu posso priorizar?
- Consigo criar uma promessa objetiva (ex.: “instala em 1 minuto”, “não deixa resíduos”)?
- Consigo reduzir risco do cliente com garantia clara e instruções simples?
Exemplos de categorias com diferentes níveis de risco (para treinar o filtro)
Baixo risco regulatório (tendem a ser mais simples para começar)
- Organização e utilidades: organizadores de cabos, ganchos adesivos, caixas organizadoras simples (sem contato com alimento).
- Acessórios de escritório: suportes de notebook (sem eletrônica), mousepads, suportes de celular (sem eletrônica).
- Acessórios pet não ingeríveis: escovas simples, brinquedos sem apito eletrônico (avaliar segurança e materiais).
Médio risco (exigem mais atenção a qualidade, devolução e especificação)
- Acessórios automotivos: suportes, organizadores internos (atenção a compatibilidade e qualidade do material).
- Itens esportivos simples: faixas elásticas, acessórios de treino (atenção a resistência e medidas).
- Iluminação simples: luminárias sem bateria e sem rádio (ainda assim, atenção a padrão elétrico e segurança).
Maior risco (tendem a aumentar exigências e chance de problemas)
- Cosméticos e itens de pele: risco elevado por regras e responsabilidade sobre alegações.
- Suplementos e itens “saúde”: alto risco por restrições e promessas.
- Eletrônicos com bateria/radiofrequência: maior chance de exigências técnicas e problemas de transporte.
Roteiro rápido de decisão (checklist) para aprovar um produto
- Demanda: encontro muitos anúncios e sinais de venda recorrente?
- Preço: consigo definir um PV realista na faixa média do mercado?
- Margem: meu TCI é compatível com cotações reais?
- Giro: o produto tende a vender com frequência suficiente para repor sem travar capital?
- Concorrência: existe espaço para diferenciar sem entrar em guerra de preço?
- Variações: consigo começar com poucos SKUs e expandir depois?
- Risco regulatório: o item é simples o suficiente para meu estágio atual?