Segurança renal com AINEs: perfusão renal, retenção hídrica e quem é mais vulnerável

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

Por que o rim depende de prostaglandinas (e onde os AINEs entram)

O rim precisa manter um fluxo sanguíneo adequado para filtrar o sangue e produzir urina. Uma parte importante desse controle ocorre no glomérulo, onde a pressão de filtração depende do calibre das arteríolas que chegam e saem do glomérulo.

As prostaglandinas renais (especialmente PGE2 e PGI2) atuam como “vasodilatadores locais” e ajudam a manter a arteríola aferente mais aberta (a que leva sangue para o glomérulo). Isso é particularmente importante quando o organismo está em situações em que o rim receberia menos sangue, como desidratação, insuficiência cardíaca ou cirrose.

Quando um AINE é usado, ele reduz a produção de prostaglandinas. Em muitas pessoas saudáveis e bem hidratadas, isso pode não causar problema. Porém, em cenários de maior dependência dessas prostaglandinas, o AINE pode reduzir a perfusão renal e precipitar lesão renal aguda (LRA).

Resumo fisiológico (foco na arteríola aferente)

  • Prostaglandinas → vasodilatação da arteríola aferente → mantém fluxo renal e filtração.
  • AINEs → menos prostaglandinas → vasoconstrição relativa da aferente → queda do fluxo renal e da taxa de filtração glomerular (TFG).

Como AINEs podem precipitar lesão renal aguda (LRA)

A LRA associada a AINEs costuma ser funcional/hemodinâmica no início: o rim “fecha a torneira” de entrada (aferente) e filtra menos. Isso pode aparecer como aumento de creatinina e redução de diurese, especialmente após início do AINE ou aumento de dose.

O que aumenta o risco de LRA com AINE

  • Baixo volume circulante efetivo (desidratação, vômitos/diarreia, baixa ingestão hídrica, uso de diuréticos).
  • Doenças que reduzem a perfusão renal (insuficiência cardíaca, cirrose com ascite).
  • Doença renal crônica (menor reserva funcional).
  • Idade avançada (menor reserva renal e maior chance de comorbidades e polifarmácia).

Em termos práticos: quanto mais o rim precisa “compensar” para manter a filtração, mais ele depende das prostaglandinas; e mais perigoso fica bloquear essa via com AINE.

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Por que AINEs podem piorar hipertensão e causar edema

Além do efeito na perfusão renal, as prostaglandinas também participam do equilíbrio de sal e água. Ao reduzir prostaglandinas, os AINEs podem favorecer retenção de sódio e água, o que se manifesta como:

  • Edema (inchaço em pernas/tornozelos, aumento de peso).
  • Piora da pressão arterial (aumento de volume intravascular e maior resistência vascular em alguns casos).
  • Descompensação de insuficiência cardíaca (mais congestão, falta de ar, edema).

Esse efeito pode surgir mesmo sem LRA evidente, e é mais comum em pessoas com predisposição (hipertensos, idosos, insuficiência cardíaca, doença renal).

Exemplo prático

Uma pessoa com hipertensão controlada inicia um AINE por dor lombar. Após alguns dias, nota pressão mais alta e tornozelos inchados. Mesmo que a creatinina ainda esteja normal, a retenção hídrica induzida pelo AINE pode estar contribuindo para esses sinais.

Quem é mais vulnerável: populações e situações de risco

Populações vulneráveis

  • Idosos: menor reserva renal, maior chance de desidratação, uso concomitante de diuréticos e anti-hipertensivos.
  • Pessoas desidratadas ou com baixa ingestão hídrica habitual.
  • Doença renal crônica (qualquer grau, especialmente moderada a avançada).
  • Insuficiência cardíaca: rim já recebe menos perfusão efetiva; retenção de água piora congestão.
  • Cirrose (especialmente com ascite): perfusão renal efetiva reduzida e alta dependência de prostaglandinas para manter filtração.

Situações de risco (gatilhos comuns)

  • Vômitos e diarreia (perda de volume).
  • Febre com sudorese e baixa ingestão de líquidos.
  • Jejum prolongado ou ingestão hídrica muito reduzida.
  • Uso de diuréticos (maior chance de hipovolemia relativa).
  • Períodos perioperatórios (variações de volume, jejum, uso de outros fármacos).

Passo a passo prático: como reduzir risco renal ao usar AINE

1) Checagem rápida antes de iniciar

  • Pergunte/avalie: idade, histórico de doença renal, insuficiência cardíaca, cirrose, episódios recentes de vômitos/diarreia, baixa ingestão hídrica.
  • Verifique sinais de volume: tontura ao levantar, mucosas secas, pouca urina, sede intensa.
  • Se houver vulnerabilidade importante, considere evitar AINE ou usar apenas sob orientação e monitorização.

2) Se for usar, minimize exposição

  • Use a menor dose eficaz pelo menor tempo possível.
  • Evite “manter por conta própria” por vários dias em pessoas de risco sem reavaliação.
  • Reforce hidratação adequada (salvo restrições médicas, como em insuficiência cardíaca descompensada).

3) Regras de “pausa do AINE” em doença aguda (sick day)

Em pessoas vulneráveis, oriente que o AINE deve ser interrompido temporariamente e reavaliado se ocorrer:

  • Vômitos ou diarreia.
  • Febre com redução importante de ingestão de líquidos.
  • Queda acentuada da diurese.

O objetivo é evitar que um quadro de desidratação transforme um uso “rotineiro” em gatilho para LRA.

4) Monitorização: o que acompanhar e quando

Para pessoas com risco aumentado (idosos, DRC, insuficiência cardíaca, cirrose, ou após episódio recente de desidratação), é prudente monitorar:

  • Creatinina e estimativa de função renal (TFG estimada).
  • Potássio (alterações podem ocorrer em cenários de piora renal).
  • Pressão arterial (pode subir).
  • Peso e edema (retenção hídrica).

Quando checar: frequentemente faz sentido avaliar antes (se disponível) e alguns dias após iniciar em pacientes de maior risco, ou mais cedo se surgirem sintomas. Em uso prolongado, reavaliar periodicamente conforme risco clínico.

Sinais de alerta: quando suspeitar de problema renal ou retenção hídrica

Alertas de possível lesão renal aguda

  • Redução da diurese (urinar bem menos que o habitual).
  • Urina muito escura associada a baixa ingestão hídrica e mal-estar.
  • Fraqueza intensa, sonolência incomum, náuseas persistentes (podem acompanhar piora metabólica em alguns casos).

Alertas de retenção de líquido e piora cardiovascular

  • Edema em pernas/tornozelos ou inchaço em mãos/rosto.
  • Ganho de peso rápido (ex.: 1–2 kg em poucos dias sem mudança alimentar clara).
  • Piora da pressão arterial em medidas domiciliares.
  • Falta de ar, piora ao deitar, cansaço desproporcional (especialmente em quem tem insuficiência cardíaca).

O que fazer diante de sinais de alerta (orientação prática)

  • Interromper o AINE e buscar avaliação clínica, especialmente se houver queda de diurese, edema importante, falta de ar ou ganho de peso rápido.
  • Se houver sinais de desidratação (vômitos/diarreia), priorizar reidratação conforme tolerância e orientação profissional.
  • Evitar “compensar” com mais AINE para dor/febre durante doença aguda com baixa ingestão hídrica.

Quadro de referência rápida

SituaçãoPor que aumenta riscoConduta prática
Idoso com baixa ingestão hídricaMenor reserva renal + maior dependência de prostaglandinasEvitar uso prolongado; monitorar creatinina/PA; orientar sinais de alerta
Vômitos/diarreiaHipovolemia → rim depende de vasodilatação aferentePausar AINE; reidratar; reavaliar antes de reiniciar
Insuficiência cardíacaBaixo volume circulante efetivo + retenção de sódio/águaEvitar se possível; monitorar peso, edema, PA e função renal
Cirrose com ascitePerfusão renal efetiva reduzida; alta sensibilidade a vasoconstrição aferenteEvitar AINE; procurar alternativas sob orientação
Doença renal crônicaMenor reserva; maior chance de descompensar com pequena queda de perfusãoEvitar ou usar com cautela e monitorização laboratorial

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em quais situações o uso de um AINE tende a aumentar mais o risco de lesão renal aguda por queda da perfusão renal?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em estados de hipovolemia ou baixa perfusão efetiva, o rim usa prostaglandinas para manter a arteríola aferente aberta. AINEs reduzem prostaglandinas, causando vasoconstrição relativa da aferente, queda do fluxo/TFG e maior risco de LRA.

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