Conceitos: incidente, quase-incidente e ocorrência
Para gerir bem a segurança, é essencial usar termos padronizados. Isso evita subnotificação, reduz ruído na comunicação e melhora a análise de risco.
Incidente
Evento que causou dano (a pessoas, patrimônio, operação ou reputação) ou interrompeu o funcionamento normal do condomínio. Exemplos: furto consumado, agressão, incêndio, queda com lesão, invasão, vazamento com alagamento relevante, pane elétrica com risco.
Quase-incidente (near miss)
Evento que poderia ter causado dano, mas foi evitado por sorte, barreira existente ou intervenção rápida. Exemplos: portão fechou sobre um veículo mas sem dano; tentativa de golpe na portaria identificada antes de liberar acesso; princípio de incêndio contido com extintor sem propagação; morador quase caiu em piso molhado sinalizado a tempo.
Ocorrência
Registro de um fato relevante para a gestão (com ou sem dano), incluindo incidentes e quase-incidentes, além de situações administrativas/disciplinadoras que exigem rastreabilidade. Exemplos: reclamação formal de ameaça, dano leve em área comum, barulho com intervenção, achado de objeto suspeito (sem confirmação de risco), falha de equipamento de segurança.
Padronização do registro: dados essenciais, evidências e linha do tempo
O objetivo do registro é permitir resposta coordenada, preservação de evidências e aprendizado. Um bom registro deve ser claro, objetivo e verificável.
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Campos mínimos recomendados (checklist)
- Identificação: número da ocorrência, data/hora de abertura, nome e função de quem registrou.
- Classificação: incidente / quase-incidente / ocorrência administrativa; categoria (ex.: patrimonial, pessoal, incêndio, saúde, elétrica, elevador, conflito).
- Local exato: bloco, andar, área comum específica, vaga, portão, acesso, etc.
- Descrição objetiva: o que foi observado, sem suposições. Preferir frases curtas e fatos verificáveis.
- Pessoas envolvidas: vítimas, testemunhas, suspeitos (se houver), equipe presente. Registrar identificação quando possível (nome, unidade, contato), respeitando privacidade e evitando exposição desnecessária.
- Danos e impactos: lesões, itens danificados, interrupções (portão travado, elevador parado), estimativa inicial (se aplicável).
- Ações imediatas tomadas: isolamento, primeiros socorros, acionamentos, desligamento de energia/água, etc.
- Acionamentos externos: polícia/ambulância/bombeiros/seguradora/manutenção; protocolo/número do chamado, horário e nome do atendente (quando disponível).
- Evidências coletadas/preservadas: câmeras, fotos, objetos, registros de acesso, logs de portão, etc.
- Status: em andamento / controlado / encerrado; pendências e responsável por cada pendência.
Linha do tempo (timeline) do evento
Monte uma sequência cronológica com horários. Isso é crucial para auditoria, investigação e alinhamento entre turnos.
| Horário | Fato observado | Ação executada | Responsável |
|---|---|---|---|
| 19:42 | Morador relata gritos no hall do Bloco B | Equipe vai ao local e solicita apoio interno | Porteiro / Ronda |
| 19:45 | Vítima com ferimento leve | Primeiros socorros e avaliação de necessidade de SAMU | Colaborador treinado |
| 19:47 | Suspeito deixa o local | Preservar imagens e registrar direção de fuga (sem perseguição) | Equipe |
| 19:50 | Decisão de acionar polícia | Ligação 190 e anotação do protocolo | Responsável designado |
Preservação de evidências (o que fazer e o que evitar)
- Preservar o local: isolar a área e evitar circulação desnecessária. Em caso de crime, manter o cenário o mais intacto possível.
- Imagens de CFTV: marcar imediatamente o intervalo de tempo (ex.: 30 min antes e 30 min depois), exportar/backup conforme procedimento interno e registrar quem fez a extração, data/hora e mídia utilizada.
- Fotos e vídeos: registrar danos, posição de objetos, sinais de arrombamento, placas, sem expor vítimas de forma desnecessária. Preferir fotos amplas e depois detalhes.
- Objetos: não manusear itens possivelmente relacionados a crime (ferramentas, pertences deixados). Se houver risco (ex.: objeto suspeito), priorizar segurança e acionar autoridades.
- Relatos: colher depoimentos breves separadamente (vítima e testemunhas), anotando horário e contato. Evitar “construir narrativa” coletiva.
- Evitar: divulgar imagens em grupos, comentar suspeitas, “investigar” por conta própria, confrontar suspeitos, ou permitir limpeza do local antes de registrar evidências (salvo necessidade de segurança/saúde).
Fluxos de resposta coordenada: quem aciona quem e quando
Um fluxo bem definido reduz tempo de reação e evita decisões improvisadas. Abaixo está um modelo prático que pode ser adaptado ao condomínio.
Princípios de resposta
- Prioridade 1: vida e integridade.
- Prioridade 2: conter o risco (impedir escalada, isolar área, desligar fontes de perigo).
- Prioridade 3: preservar evidências e registrar com qualidade.
- Prioridade 4: restabelecer operação com segurança.
Árvore de decisão rápida (passo a passo)
- Identificar o tipo de evento: há vítima? há fogo/fumaça? há agressor ativo? há risco estrutural/eletricidade/gás?
- Controlar o ambiente: afastar curiosos, orientar rotas seguras, interromper acesso à área.
- Acionar ajuda adequada:
- Ambulância (SAMU/192) quando houver desmaio, dor no peito, falta de ar, sangramento importante, suspeita de fratura, convulsão, queimadura relevante, alteração de consciência, ou qualquer dúvida com potencial gravidade.
- Bombeiros (193) em incêndio, fumaça, cheiro forte de gás, risco de explosão, resgate, alagamento com risco elétrico, queda em poço/elevador, necessidade de desencarceramento.
- Polícia (190) em crime em andamento, ameaça, agressão, invasão, violência doméstica em curso, porte de arma, dano intencional, furto/roubo, ou quando houver risco à integridade.
- Comunicar internamente conforme o nível: informar o responsável de plantão e registrar o horário. Em eventos críticos, manter um único ponto de contato para evitar mensagens conflitantes.
- Registrar e preservar evidências em paralelo: sem atrapalhar o socorro.
- Encaminhar para pós-incidente: checklist de pendências, reparos, comunicação e análise de causa.
Isolamento de área (procedimento prático)
- Definir perímetro: delimitar área mínima segura (ex.: hall, corredor, garagem, casa de máquinas).
- Bloquear acesso: usar cones, fita, cavaletes ou barreiras físicas disponíveis; se não houver, posicionar colaborador em ponto de controle.
- Controlar fluxo: orientar moradores por rotas alternativas; suspender temporariamente uso de elevador/portão/escada se houver risco.
- Registrar quem entrou: se for necessário acesso de manutenção ou autoridades, anotar nome, empresa, horário de entrada/saída e motivo.
- Manter segurança do time: não entrar em área com fumaça, gás, risco elétrico ou agressor ativo.
Atendimento a vítimas e testemunhas (sem substituir profissionais de saúde)
O atendimento inicial deve ser simples, focado em reduzir risco e acionar socorro.
- Vítima: manter calma, avaliar consciência e respiração, controlar sangramento com compressão (se treinado), não movimentar em suspeita de fratura/coluna, manter aquecida e acompanhada até chegada do socorro.
- Testemunhas: separar para evitar contaminação de relatos; coletar contato e um resumo objetivo do que viram (o quê, quando, onde).
- Privacidade: evitar exposição em áreas de circulação; reduzir aglomeração e filmagens por terceiros quando possível.
Exemplos de fluxos por cenário
1) Furto consumado em área comum (sem agressor no local)
- Confirmar local e item subtraído; verificar se há risco imediato (porta arrombada, acesso vulnerável).
- Isolar o ponto de arrombamento para preservar marcas.
- Preservar imagens (janela de tempo ampliada) e registros associados.
- Acionar polícia para registro e orientação; anotar protocolo.
- Registrar ocorrência com lista de evidências e possíveis testemunhas.
2) Agressão/conflito com risco de escalada
- Priorizar afastamento e segurança; não intervir fisicamente sem treinamento e sem condições seguras.
- Acionar polícia se houver ameaça, violência ou risco de continuidade.
- Se houver feridos, acionar ambulância.
- Isolar área e coletar relatos separadamente.
- Preservar imagens e registrar linha do tempo.
3) Princípio de incêndio
- Acionar bombeiros se houver fumaça persistente, chamas, risco de propagação ou dúvida.
- Se treinado e seguro, usar extintor adequado apenas em foco pequeno e com rota de fuga.
- Isolar área, orientar evacuação local e impedir uso de elevadores se houver fumaça.
- Desligar energia/gás apenas se houver procedimento e acesso seguro.
- Registrar ações e horários; preservar evidências do ponto de origem (sem mexer no que não for necessário).
Procedimento pós-incidente: análise de causa, ações corretivas e acompanhamento
O pós-incidente transforma um evento em melhoria real. Deve ocorrer mesmo em quase-incidentes, pois eles revelam falhas antes do dano.
Passo a passo pós-incidente (rotina de 24–72 horas)
- Consolidar o dossiê da ocorrência: formulário completo, timeline, evidências anexadas, protocolos de acionamento e lista de envolvidos.
- Classificar severidade e urgência: impacto (alto/médio/baixo) e probabilidade de recorrência (alta/média/baixa) para priorizar ações.
- Analisar causa: identificar causa imediata e fatores contribuintes (ambiente, processo, equipamento, comportamento, terceiros). Ferramentas simples ajudam:
- 5 Porquês (perguntar “por quê?” até chegar na raiz).
- Diagrama de causa (pessoas, processos, equipamentos, ambiente).
- Definir ações corretivas e preventivas: o que será feito, por quem e até quando. Separar em:
- Correção imediata: reparar fechadura, reforçar iluminação, ajustar portão, sinalizar risco.
- Prevenção: mudança de procedimento, treinamento, revisão de rotas, melhoria de manutenção, ajustes de tecnologia.
- Validar efetividade: estabelecer um critério objetivo (ex.: teste do portão por 7 dias, auditoria de imagens, inspeção semanal do ponto vulnerável).
- Atualizar registros e controles: anexar notas fiscais/ordens de serviço, laudos, relatórios de manutenção e retorno das autoridades/seguradora quando houver.
Modelo de plano de ação (tabela)
| Problema identificado | Causa provável | Ação | Responsável | Prazo | Como verificar |
|---|---|---|---|---|---|
| Portão fechando com atraso | Sensor desalinhado | Revisar e calibrar sensores; testar ciclos | Manutenção | 48h | Checklist de 30 ciclos sem falha |
| Ponto cego de câmera no acesso lateral | Ângulo inadequado | Reposicionar câmera e ajustar gravação | Fornecedor CFTV | 7 dias | Imagem cobrindo área e gravação validada |
Comunicação ao condomínio (sem expor dados sensíveis)
A comunicação deve equilibrar transparência e privacidade. Recomenda-se um comunicado com:
- O que ocorreu (descrição objetiva e resumida).
- Impacto (ex.: área temporariamente interditada, reparo em andamento).
- Medidas adotadas (acionamentos, correções, reforços).
- Orientações práticas para reduzir risco (ex.: evitar determinada área até liberação, atenção a sinais, como reportar informações).
- Canal de contato para testemunhas contribuírem com informações, se aplicável.
Evitar: nomes de envolvidos, número de unidade, imagens de CFTV, acusações sem confirmação, detalhes que facilitem novas tentativas (ex.: “o invasor entrou por tal falha específica” sem correção concluída).
Acompanhamento para evitar recorrência
- Revisão de tendências: agrupar ocorrências por categoria/local/horário para identificar padrões.
- Auditorias rápidas: inspeções pontuais após correções (ex.: 7, 15 e 30 dias).
- Reforço de treinamento: quando o evento indicar falha de execução (ex.: registro incompleto, demora em acionar socorro, isolamento inadequado).
- Atualização de formulários e checklists: se o registro não capturou dados essenciais, ajustar o modelo.
- Simulados direcionados: exercícios curtos focados no tipo de incidente que ocorreu (ex.: princípio de incêndio na lixeira, queda em escada, tentativa de invasão).
Modelos práticos de registro (para padronizar)
Template de ocorrência (texto)
Nº da ocorrência: ____/____ Data/Hora abertura: __/__/____ __:__ Registrado por: __________ (função) Local: ______________________________ Classificação: ( ) Incidente ( ) Quase-incidente ( ) Ocorrência administrativa Categoria: ______________________________ Descrição objetiva (fatos): _______________________________________________ ________________________________________________________________________ Pessoas envolvidas (nome/unidade/contato, se aplicável): ____________________ ________________________________________________________________________ Danos/impactos observados: ______________________________________________ Ações imediatas tomadas (com horários): ___________________________________ ________________________________________________________________________ Acionamentos externos (órgão/telefone/protocolo/horário): ___________________ ________________________________________________________________________ Evidências preservadas (CFTV/fotos/objetos/logs): ___________________________ ________________________________________________________________________ Testemunhas (contato e resumo do relato): _________________________________ ________________________________________________________________________ Status: ( ) Em andamento ( ) Controlado ( ) Encerrado Pendências e responsáveis: _______________________________________________ Checklist rápido para o plantão (1 minuto)
- Há risco à vida? Se sim, acionar socorro imediatamente.
- Área precisa ser isolada? Delimitar e controlar acesso.
- Quais evidências podem se perder em minutos? (CFTV, marcas, objetos)
- Quem deve ser informado agora para coordenação?
- Registro: anotar horários e ações enquanto acontecem.