Por que a segurança e a avaliação inicial vêm antes de qualquer imobilização
Após uma queda, a vontade de “levantar a pessoa logo” é comum, mas pode piorar lesões ocultas (como fraturas instáveis ou lesões na coluna). A prioridade é evitar novos danos com duas ações imediatas: (1) tornar o local seguro e (2) fazer uma avaliação inicial rápida para identificar riscos à vida e sinais de gravidade.
1) Segurança do local: o que checar antes de se aproximar
1.1 Riscos comuns e como reduzir
- Trânsito (rua/estacionamento): não entre na via sem proteção. Se possível, peça a alguém para sinalizar (pisca-alerta, triângulo, gestos) e manter distância dos veículos. Priorize sua segurança: um socorrista ferido não ajuda.
- Escadas e desníveis: risco de nova queda. Evite aglomeração ao redor; mantenha apenas uma ou duas pessoas ajudando. Se a vítima estiver em degrau/escada, não tente “puxar” para cima ou para baixo.
- Objetos cortantes e entulho: afaste cacos, ferramentas, vidro, metal. Se não for possível remover com segurança, crie um “corredor” de acesso e impeça que outros se aproximem.
- Piso escorregadio (água, óleo, areia): reduza o tráfego ao redor. Se houver risco de escorregar ao se aproximar, ajoelhe com cuidado e mantenha base firme.
- Risco de novas quedas: identifique o que causou a queda (tapete solto, fio, buraco, animal, degrau mal sinalizado) e isole o local para evitar que outra pessoa caia.
- Eletricidade e fogo: se houver fio caído, cheiro de queimado, fumaça ou chama, não se aproxime. Afaste todos e acione emergência.
1.2 Proteção do socorrista (autoproteção)
- Higiene e barreira: se houver sangue, use luvas (se disponíveis) ou uma barreira improvisada (saco plástico limpo, pano grosso). Evite contato direto com sangue e secreções.
- Postura e estabilidade: aproxime-se pela frente, agache dobrando os joelhos, mantenha equilíbrio. Evite torções e movimentos bruscos.
- Controle de curiosos: peça para abrirem espaço e manterem silêncio. Isso reduz estresse da vítima e facilita ouvir respiração e respostas.
1.3 Acionar ajuda cedo: quando e como
Acione ajuda o quanto antes se houver qualquer sinal de gravidade (ver seção 4) ou se você estiver sozinho e inseguro. Se possível, delegue: “Você, ligue para a emergência e volte me dizendo o que orientaram. Você, traga luvas/pano limpo. Você, afaste as pessoas.”
Ao ligar, informe de forma objetiva: local exato, o que aconteceu, idade aproximada, estado de consciência, respiração, sangramento importante, suspeita de fratura/coluna e riscos no ambiente (trânsito, escada, fogo).
2) Sequência prática de avaliação inicial (para leigos)
Use uma sequência curta e repetível. A ideia é identificar rapidamente o que mata primeiro e o que não pode esperar. Um modelo simples é: Consciência → Respiração → Sangramento importante → Dor intensa/suspeita de lesão grave.
2.1 Passo a passo em 60–90 segundos
- Ver e ouvir antes de tocar: observe se a pessoa se mexe, fala, chora, respira com esforço, se há sangue no chão, deformidade evidente ou posição “estranha” de um membro.
- Consciência (resposta): aproxime-se pela frente e fale alto e claro:
“Você me ouve? Qual seu nome? O que aconteceu?”Se não responder, toque levemente no ombro e repita. Se não houver resposta, trate como situação grave e acione emergência imediatamente (ou peça a alguém para acionar). - Respiração: observe o tórax/abdômen subindo e descendo e escute a respiração. Procure sinais de dificuldade: respiração muito rápida, muito lenta, ruidosa, pausas, lábios arroxeados. Se a pessoa não estiver respirando normalmente, isso é prioridade máxima para acionar emergência.
- Sangramento importante: procure sangue que escorre, encharca roupa ou forma poça. Verifique rapidamente cabeça, braços e pernas sem “revirar” a pessoa. Se houver sangramento volumoso, priorize conter com pressão direta (com barreira) enquanto aguarda ajuda.
- Dor intensa e suspeita de lesão grave: pergunte onde dói e observe se há incapacidade de mover um membro, deformidade, inchaço rápido, dormência ou formigamento. Dor forte em pescoço/costas após queda é sinal de alerta para não movimentar.
2.2 Perguntas rápidas (sem prolongar o contato)
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- O que aconteceu? (queda de própria altura, escada, bicicleta, desmaio, tropeço)
- Onde dói mais? (peça para apontar com a mão)
- Bateu a cabeça? Perdeu a consciência? (mesmo “apagão” rápido importa)
- Consegue mexer mãos e pés? (sem forçar; apenas perguntar e observar)
- Tem alguma doença importante ou usa remédios que afinam o sangue? (ex.: anticoagulantes)
- Tem alergias importantes? (útil se for necessário atendimento avançado)
Se a pessoa estiver confusa, muito dolorida ou com respiração difícil, reduza as perguntas e foque em manter calma, aquecer e aguardar ajuda.
3) Como observar sinais de gravidade (e o que priorizar)
3.1 Sinais de gravidade que exigem emergência e cautela máxima
- Alteração de consciência: não responde, sonolência incomum, confusão, fala enrolada, desorientação.
- Respiração anormal: dificuldade para respirar, chiado intenso, respiração muito irregular, cianose (lábios/pele azulada).
- Sangramento importante: jato, fluxo contínuo, roupa encharcando rapidamente, sangue no vômito ou tosse com sangue.
- Suspeita de lesão na coluna: dor no pescoço ou nas costas após queda, formigamento/dormência, fraqueza, incapacidade de mexer membros, perda de controle de urina/fezes, queda com impacto forte (ex.: escada, altura, bicicleta/moto).
- Trauma de cabeça com sinais preocupantes: vômitos repetidos, piora progressiva da dor de cabeça, convulsão, sangramento pelo nariz/ouvido, pupilas muito diferentes, comportamento incomum.
- Fratura evidente ou deformidade importante: membro “torto”, osso exposto, dor extrema ao mínimo movimento.
- Idosos, gestantes, crianças pequenas ou pessoas com fragilidade: maior risco de complicações mesmo em quedas aparentemente leves.
3.2 Quando NÃO movimentar a vítima
Evite mover a pessoa se houver suspeita de lesão na coluna, fratura importante, dor intensa ao tentar mudar de posição, confusão, ou se a queda foi de maior energia. Nesses casos:
- Peça para a pessoa ficar imóvel e explique:
“Vou te ajudar, mas é mais seguro você não se mexer agora.” - Mantenha a cabeça e o tronco alinhados (sem torcer). Não tente “endireitar” membros deformados.
- Proteja do frio com um casaco/cobertor, sem elevar pernas se houver dor em quadril/coluna ou suspeita de fratura.
- Monitore consciência e respiração até a ajuda chegar.
Movimentar só é considerado quando há perigo imediato no local (ex.: risco de atropelamento, fogo, desabamento). Mesmo assim, a prioridade é retirar do risco com o mínimo de movimento possível e com ajuda de outras pessoas.
4) Mini-roteiro de ação (para memorizar)
| Etapa | O que fazer | Frase útil |
|---|---|---|
| 1. Cena segura | Checar trânsito, escadas, objetos cortantes, piso escorregadio, eletricidade; afastar curiosos | “Abram espaço e cuidem para ninguém cair.” |
| 2. Autoproteção | Luvas/barreira se houver sangue; postura estável; não se expor ao risco | “Vou me aproximar com cuidado.” |
| 3. Chamar ajuda | Delegar ligação; informar local e estado (consciência/respiração/sangramento) | “Ligue para a emergência e diga que há vítima de queda.” |
| 4. Avaliação rápida | Consciência → Respiração → Sangramento importante → Dor intensa/sinais graves | “Você me ouve? Está respirando bem? Onde dói?” |
| 5. Não movimentar quando indicado | Suspeita de coluna/fratura grave/alteração de consciência: manter imóvel e aquecer | “Fique parado, é mais seguro.” |
5) Exemplos práticos de aplicação
Cenário A: queda em calçada com trânsito próximo
- Segurança: antes de ajoelhar, peça para alguém sinalizar e afastar bicicletas/carros.
- Avaliação: a pessoa responde, respira bem, sem sangramento volumoso, mas relata dor forte no punho e não consegue apoiar.
- Decisão: não forçar movimento; manter confortável, observar sinais de piora e acionar ajuda se dor intensa, deformidade ou mal-estar.
Cenário B: queda de escada com dor no pescoço
- Segurança: estabilize o ambiente (ninguém subindo/descendo), retire objetos que possam cair.
- Avaliação: consciente, respira, sem sangramento importante, mas dor no pescoço e formigamento em uma mão.
- Decisão: tratar como suspeita de lesão na coluna: não movimentar, manter alinhamento, acionar emergência e monitorar.
Cenário C: queda em casa com sangramento importante no braço
- Segurança: afastar cacos/objetos cortantes; usar barreira para contato com sangue.
- Avaliação: consciente e respirando, mas sangue escorrendo e encharcando pano rapidamente.
- Decisão: priorizar conter sangramento com pressão direta e acionar ajuda; manter a pessoa sentada ou deitada conforme tolerância, sem deixá-la andar.