Quando não movimentar a vítima: suspeita de lesão na coluna e trauma importante

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Por que “não movimentar” pode salvar: o que está em risco

Em traumas importantes, a coluna (cervical, torácica/dorsal e lombar) pode estar lesionada mesmo sem deformidade visível. Movimentar a vítima sem necessidade pode agravar uma fratura ou instabilidade, comprimindo a medula espinhal e causando piora neurológica (mais dor, perda de força, perda de sensibilidade ou até paralisia). A regra prática é: se houver suspeita de lesão na coluna ou trauma significativo, a prioridade é manter a vítima imóvel e chamar ajuda, a menos que exista um risco imediato no local (como fogo, desabamento, afogamento ou outro perigo que obrigue a retirada).

Quando NÃO movimentar: situações que aumentam a suspeita de lesão na coluna

Sinais e sintomas que sugerem lesão na coluna

  • Dor no pescoço (cervical) ou nas costas (dorsal/lombar), especialmente após impacto.
  • Formigamento (parestesias) em braços, mãos, pernas ou pés.
  • Perda de força ou dificuldade para mexer braços/pernas.
  • Alteração de sensibilidade: dormência, sensação “estranha”, perda de tato, frio/calor.
  • Dor intensa generalizada após trauma (mesmo sem ponto único).
  • Confusão, sonolência, desorientação ou comportamento incomum após a queda/impacto (pode indicar trauma craniano e aumentar o risco de movimentos inadequados).
  • Queixa de “estalo” no pescoço/costas ou sensação de “travamento”.
  • Incapacidade de ficar em pé ou de sustentar o próprio peso após o evento.

Mecanismos de trauma que exigem cautela máxima

  • Queda de altura (ex.: escada, laje, árvore, telhado, sacada) ou queda com impacto significativo.
  • Impacto forte (ex.: colisão, atropelamento, queda de bicicleta/moto com velocidade, pancada direta importante).
  • Trauma com rotação/torção do tronco ou do pescoço (ex.: mergulho em água rasa, “chicote” do pescoço).
  • Trauma em idosos com dor importante, mesmo em quedas aparentemente simples (maior risco de fraturas).

Regra prática: se houver qualquer sinal neurológico (formigamento, fraqueza, alteração de sensibilidade) ou mecanismo de alto impacto, trate como suspeita de lesão na coluna e não movimente.

Como orientar a vítima a ficar imóvel: comunicação e postura segura

O que dizer (frases simples e eficazes)

  • “Não mexa o pescoço e não tente levantar.”
  • “Olhe para mim com os olhos, sem virar a cabeça.”
  • “Respire devagar. Vou manter sua cabeça parada.”
  • “Se sentir formigamento ou fraqueza, me avise.”

Postura do socorrista leigo (para não causar torções)

  • Aproxime-se pelo lado da cabeça da vítima, se possível, para reduzir a necessidade de ela virar o pescoço.
  • Evite pedir para a vítima “ajudar” com movimentos (sentar, virar, dobrar o tronco).
  • Se a vítima estiver deitada, incentive-a a manter o corpo alinhado (cabeça, pescoço e tronco na mesma linha).
  • Se estiver sentada após a queda, não tente deitar nem “endireitar” à força; peça para permanecer como está, imóvel, até orientação do serviço de emergência (salvo risco imediato no ambiente).

Estabilização simples da cabeça (sem manobras complexas)

O objetivo é impedir movimentos do pescoço. Não é “colocar no lugar”, nem tracionar. Use técnicas simples, com o mínimo de intervenção.

Técnica 1: estabilização manual (a mais segura para leigos)

Passo a passo:

  • Posicione-se atrás da cabeça da vítima (ou ao lado, se não der).
  • Coloque as mãos nas laterais da cabeça, com os antebraços apoiados no chão (ou em superfície firme), formando um “berço”.
  • Mantenha a cabeça na posição em que foi encontrada, sem tentar alinhar se houver dor ou resistência.
  • Peça para a vítima manter o olhar fixo e não falar movendo o pescoço.
  • Mantenha essa estabilização até a chegada do resgate ou até ser substituído por outra pessoa.

Se a vítima reclamar que a posição piora a dor, não force. Mantenha o máximo de imobilidade possível na posição mais tolerável.

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Técnica 2: apoio lateral improvisado (se você precisar liberar as mãos)

Use apenas se a vítima estiver estável e você precisar, por exemplo, ligar para a emergência sem perder totalmente o controle do pescoço.

Passo a passo:

  • Sem mover a cabeça, coloque rolos de toalha, roupas dobradas ou travesseiros firmes ao lado da cabeça, como “calços”.
  • Os calços devem encostar levemente, sem empurrar a cabeça para um lado.
  • Se houver alguém para ajudar, peça para a pessoa manter as mãos na cabeça enquanto você posiciona os apoios.

Evite amarrar faixas na testa ou no queixo: pode apertar vias aéreas, deslocar a cabeça ou causar pânico.

Como manter as vias aéreas desobstruídas sem torções

Em suspeita de lesão na coluna, o cuidado é manter a respiração livre sem hiperextensão do pescoço e sem “jogar a cabeça para trás”.

Se a vítima está consciente e falando

  • Se fala com clareza, a via aérea está, em geral, pérvia.
  • Oriente: “Respire devagar e não mova o pescoço.”
  • Se houver sangue/saliva, peça para cuspir para o lado com o mínimo de movimento possível, sem virar o pescoço; se necessário, use um pano para limpar apenas a boca, sem puxar a cabeça.

Se a vítima está sonolenta, vomita ou não consegue manter a boca livre

Nesse cenário, o risco de aspiração pode ser maior do que o risco de movimentar minimamente. Para leigos, a conduta mais segura é chamar emergência imediatamente e, se houver vômito ativo ou engasgo, priorizar a desobstrução com o mínimo de rotação.

O que pode ser feito sem torção do pescoço:

  • Elevação do queixo com mínimo movimento (chin lift suave): apenas se necessário para respirar melhor e se não houver resistência/dor intensa. Evite inclinar a cabeça para trás.
  • Remover objetos visíveis na boca (prótese solta, alimento) apenas se estiverem facilmente acessíveis. Não “varra” a boca com o dedo.

Se a vítima ficar inconsciente e não respirar normalmente, isso é emergência crítica: acione o serviço de emergência e siga as orientações do atendente. Em geral, a prioridade passa a ser suporte de vida, mesmo com suspeita de coluna.

Sinais de alerta para emergência imediata

Acione o serviço de emergência sem demora se houver qualquer um dos itens abaixo:

  • Formigamento, dormência, fraqueza ou perda de movimento em qualquer membro.
  • Dor cervical ou dorsal intensa após queda/impacto.
  • Confusão, desmaio, sonolência progressiva ou dificuldade para responder.
  • Dificuldade para respirar, respiração ruidosa, engasgo, vômitos repetidos.
  • Trauma de alto impacto ou queda de altura.
  • Deformidade evidente em coluna, pescoço “torto” ou posição anormal.
  • Perda de controle urinário/intestinal após o trauma (sinal neurológico importante).
  • Dor intensa generalizada que impede qualquer movimento e sugere trauma maior.

Condutas proibidas para leigos (o que NÃO fazer)

  • Não puxar pelos braços para levantar ou arrastar.
  • Não “sentar” a vítima para “respirar melhor” se houver suspeita de coluna; prefira manter como encontrada e estabilizar.
  • Não girar a cabeça para “ver se está tudo bem” ou para “destravar”.
  • Não tentar alinhar o pescoço ou “colocar no lugar”.
  • Não fazer massagem em pescoço/coluna após trauma.
  • Não oferecer comida, bebida ou remédios (risco de aspiração e interferência em atendimento).
  • Não retirar capacete de motociclista/ciclista, exceto se houver necessidade crítica de via aérea e você souber exatamente o que está fazendo (em geral, aguarde o resgate).
  • Não colocar travesseiro alto sob a cabeça (pode flexionar o pescoço).

Roteiro prático: o que fazer em 60–90 segundos (sem repetir avaliação inicial)

1) Suspeitou de coluna/trauma importante? Diga: “Não se mexa.” 2) Posicione-se na cabeça e estabilize manualmente (mãos nas laterais). 3) Pergunte sem exigir movimento: “Sente formigamento? Consegue mexer mãos e pés?” 4) Observe respiração e fala; mantenha a via aérea livre sem inclinar a cabeça. 5) Acione emergência e descreva: mecanismo do trauma + sinais (dor cervical/dorsal, formigamento, fraqueza, confusão). 6) Mantenha aquecido e imóvel, monitorando se piora dor, sensibilidade ou consciência.

Exemplos práticos de decisão (movimentar ou não)

CenárioConduta mais seguraPor quê
Queda de escada, dor no pescoço e formigamento na mãoNão movimentar; estabilizar cabeça; emergência imediataSinais neurológicos + dor cervical
Colisão de bicicleta, vítima confusa e com dor nas costasNão movimentar; estabilização; emergênciaConfusão sugere trauma craniano e risco de movimentos inadequados
Escorregão leve, sem dor cervical/dorsal, sem formigamento, vítima está bemMovimentação cuidadosa pode ser possível, se necessárioSem sinais de alerta; ainda assim evitar movimentos bruscos
Vítima vomitando e sonolenta após impactoEmergência imediata; priorizar via aérea com mínimo movimentoRisco de aspiração pode ser crítico

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um trauma com suspeita de lesão na coluna, qual conduta é mais adequada para um socorrista leigo quando não há risco imediato no ambiente?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Movimentar pode agravar fratura/instabilidade e comprimir a medula, piorando sinais neurológicos. Sem risco imediato, a prioridade é imobilizar (especialmente a cabeça/pescoço) e chamar ajuda.

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Reconhecimento de entorse: sinais, limitações e riscos de agravar a lesão

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