Segurança e avaliação de enfermagem no pós-operatório imediato

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Objetivo da avaliação imediata e princípios de segurança

No pós-operatório imediato, a prioridade da enfermagem é identificar precocemente instabilidade clínica e prevenir eventos adversos durante a transição do centro cirúrgico/SRPA para a unidade. A avaliação deve ser rápida, estruturada e repetida, combinando: (1) identificação segura do paciente, (2) checagens críticas (alergias, lateralidade, procedimento), (3) exame focado com abordagem ABCDE, (4) monitorização de parâmetros essenciais e (5) comunicação padronizada na transferência.

Quando considerar o paciente “estável” para permanência na unidade

Estabilidade no pós-operatório imediato significa que o paciente mantém via aérea pérvia, ventilação e oxigenação adequadas, circulação com perfusão satisfatória e nível de consciência compatível com o esperado para o tipo de anestesia, sem sinais de sangramento ativo ou deterioração neurológica. A estabilidade é dinâmica: um paciente pode chegar estável e descompensar nas primeiras horas, por isso a reavaliação programada é parte do cuidado.

Roteiro prático de admissão do paciente vindo do centro cirúrgico/SRPA

Passo 0 — Preparar o leito e a equipe (antes da chegada)

  • Verificar funcionamento de monitor multiparamétrico, oxigênio, aspirador, ambu com máscara, termômetro e material para acesso venoso.
  • Garantir cama com grades elevadas, campainha acessível e ambiente aquecido (reduz risco de hipotermia).
  • Separar impressos/fluxos: checklist de admissão, escala de dor, registro de sinais vitais e formulário SBAR.

Passo 1 — Identificação segura e checagens críticas (primeiros 60 segundos)

  • Identificação: conferir no mínimo 2 identificadores (ex.: nome completo e data de nascimento) na pulseira e no prontuário/guia de transferência. Se paciente estiver responsivo, pedir que ele verbalize.
  • Procedimento e lateralidade: confirmar cirurgia realizada e lado/local (quando aplicável) com a equipe que entrega e com documentação. Verificar curativo e marcações, se presentes.
  • Alergias e alertas: confirmar alergias (medicamentos, látex, antissépticos, alimentos) e reações prévias. Sinalizar no leito/prontuário conforme protocolo institucional.
  • Risco imediato: perguntar/confirmar: houve intercorrência anestésica? sangramento? dificuldade de via aérea? necessidade de vasopressor? antibiótico intraoperatório? última dose de opioide/sedativo?

Passo 2 — Avaliação ABCDE (2 a 5 minutos, com intervenções imediatas)

A — Airway (via aérea) + risco de broncoaspiração

  • Observar se há roncos, estridor, vômitos, secreções, queda de língua, uso de cânula orofaríngea/nasofaríngea.
  • Verificar posicionamento: manter cabeceira elevada (se não houver contraindicação) e decúbito lateral de segurança se rebaixamento de consciência e risco de vômito.
  • Risco de broncoaspiração: maior quando há rebaixamento do nível de consciência, náuseas/vômitos, refluxo, distensão abdominal, uso recente de opioides, sangramento em orofaringe, disfagia prévia. Nesses casos: manter jejum conforme prescrição, aspirador pronto, monitorização contínua e vigilância de tosse/engasgos.

B — Breathing (respiração)

  • Contar FR, observar padrão respiratório (superficial, irregular), expansibilidade torácica e uso de musculatura acessória.
  • Checar SpO2 e necessidade de oxigênio (cateter, máscara, VNI, etc.), conferindo fluxo e umidificação quando indicada.
  • Auscultar se disponível/indicado: murmúrio vesicular, sibilos, crepitações (atelectasia/edema).

C — Circulation (circulação)

  • Medir PA e FC; avaliar ritmo no monitor quando disponível.
  • Avaliar perfusão periférica: tempo de enchimento capilar, temperatura e coloração de extremidades, presença de sudorese fria.
  • Inspecionar curativos e drenos: sangramento ativo, aumento rápido de débito, hematoma, extravasamento.
  • Conferir acesso venoso: tipo, calibre, permeabilidade, fixação, sinais de infiltração/flebite; checar soluções em infusão e bombas.

D — Disability (neurológico)

  • Avaliar nível de consciência: alerta/sonolento/estupor/coma; quando aplicável, usar escala padronizada institucional (ex.: AVPU ou Glasgow).
  • Verificar pupilas (tamanho, simetria, reatividade) se houver alteração neurológica, sedação inesperada ou queixa de cefaleia intensa.
  • Avaliar dor e sedação: dor referida/observada e resposta a estímulos; observar sinais de depressão respiratória associada a opioides.

E — Exposure (exposição/temperatura e inspeção)

  • Medir temperatura e procurar sinais de hipotermia (tremores, pele fria) ou febre precoce.
  • Inspecionar pele e pontos de pressão, integridade de curativos, presença de sangramento oculto (lençóis, região dorsal).
  • Manter privacidade e aquecimento durante a inspeção.

Parâmetros essenciais: o que medir, como interpretar e quando agir

ParâmetroO que registrarSinais de alerta (acionar equipe médica/RT conforme protocolo)
FRValor e padrão (regular/superficial)FR < 10 ou > 24, apneias, respiração irregular, esforço respiratório
SpO2Valor, dispositivo e fluxo de O2SpO2 < 92% (ou abaixo da meta prescrita), queda progressiva, cianose
PAPA e tendênciaHipotensão sustentada, queda abrupta, PAS muito baixa para o basal, sinais de choque
FCValor e ritmo (se monitor)Taquicardia persistente, bradicardia sintomática, arritmias novas
TemperaturaValor e presença de tremores< 36°C com repercussão, tremores intensos, febre precoce com instabilidade
DorEscala (0–10) e localizaçãoDor desproporcional, dor torácica, dor com rigidez abdominal, dor não responsiva ao plano
Perfusão periféricaTEC, cor, temperatura, pulsosExtremidades frias, TEC > 3s, palidez/cianose, pulsos fracos, rebaixamento associado

Critérios práticos de estabilidade (check rápido)

  • Via aérea: pérvia, sem vômitos/obstrução, proteção de via aérea adequada ao nível de consciência.
  • Respiração: FR dentro de faixa segura, SpO2 na meta com suporte mínimo e sem esforço importante.
  • Circulação: PA e FC sem tendência de piora, perfusão periférica adequada, sangramento controlado.
  • Neurológico: despertando conforme esperado, responde a comandos simples ou apresenta padrão compatível com sedação planejada.
  • Temperatura: normotermia ou em correção ativa sem piora clínica.

Frequência de reavaliação e monitorização nas primeiras horas

Modelo prático (ajustar ao protocolo institucional e ao risco)

  • Na chegada: avaliação ABCDE completa + sinais vitais + dor + checagem de dispositivos.
  • Primeira hora: reavaliar a cada 15 minutos se paciente de maior risco (anestesia geral recente, comorbidades, sangramento, uso de opioides, necessidade de O2). Se baixo risco e estável, a cada 30 minutos.
  • Após estabilização inicial: a cada 60 minutos nas primeiras 2–4 horas, depois conforme rotina da unidade.
  • Reavaliar imediatamente diante de qualquer mudança: queda de SpO2, alteração de consciência, sangramento, dor intensa súbita, hipotensão, taquicardia, náuseas/vômitos importantes.

Além dos valores isolados, registrar tendências (ex.: PA caindo progressivamente) e resposta às intervenções (ex.: melhora da SpO2 após ajuste do O2 e reposicionamento).

Sinais de alerta no pós-operatório imediato (gatilhos de ação rápida)

  • Respiratórios: SpO2 em queda, FR baixa com sonolência, roncos/obstrução, estridor, cianose, tosse ineficaz, vômitos com rebaixamento.
  • Hemodinâmicos: hipotensão, taquicardia persistente, pele fria e pegajosa, TEC prolongado, redução importante de pulsos periféricos.
  • Sangramento: curativo encharcando rapidamente, aumento abrupto de débito em dreno, hematoma expansivo, palidez e tontura.
  • Neurológicos: não desperta como esperado, agitação súbita, confusão intensa, pupilas assimétricas, déficit focal.
  • Temperatura: hipotermia com tremores intensos e desconforto; febre precoce associada a instabilidade.
  • Dor: dor intensa desproporcional ao procedimento, dor torácica, dor associada a dispneia.

Checklist de comunicação/transferência: SBAR (modelo preenchível)

Utilize SBAR para reduzir perdas de informação na passagem do centro cirúrgico/SRPA para a unidade.

S (Situation / Situação): Quem é o paciente? Onde está? Qual cirurgia e horário de término? Qual a principal preocupação agora?  B (Background / Contexto): Comorbidades relevantes, alergias, jejum, tipo de anestesia, intercorrências intraop, perdas sanguíneas estimadas, antibiótico e analgésicos administrados, última dose de opioide/sedativo/antiemético.  A (Assessment / Avaliação): Sinais vitais atuais e tendência, SpO2 e suporte de O2, nível de consciência, dor (escala), curativo/drenos (aspecto e débito), diurese se aplicável, acessos e infusões em curso.  R (Recommendation / Recomendação): Metas e plano imediato: parâmetros-alvo, quando reavaliar, condutas se piorar, exames pendentes, restrições (posição, mobilização), dieta/jejum, profilaxias conforme prescrição, quando chamar anestesia/cirurgia.

Conferência de prescrições e ordens imediatas

  • Checar prescrição médica e de enfermagem: analgesia, antiemético, antibiótico, hidratação, oxigenoterapia, exames, restrições de posicionamento, metas de PA/SpO2, cuidados com curativo e drenos.
  • Confirmar horários e doses já administradas na SRPA para evitar duplicidade (especialmente opioides, sedativos, antieméticos e antibióticos).
  • Verificar necessidade de monitorização contínua (cardíaca/SpO2) e parâmetros de alarme no monitor.

Dispositivos presentes: conferência sistemática (o que olhar e registrar)

Acesso venoso

  • Local, calibre, número de acessos, aspecto do sítio (dor, edema, hiperemia), fixação e permeabilidade.
  • Soluções em infusão: tipo, velocidade, bomba programada, compatibilidades e identificação.

Oxigênio e via aérea

  • Dispositivo (cateter/máscara), fluxo, umidificação quando indicada, integridade da pele (lesões por pressão).
  • Aspirador disponível e funcionando; cânulas e materiais de via aérea conforme necessidade.

Sondas (quando presentes)

  • Sonda vesical: fixação, permeabilidade, aspecto da urina, volume no coletor e horário de esvaziamento/registro conforme rotina.
  • Sonda nasogástrica/nasoenteral: fixação, posicionamento conforme protocolo, débito/aspirado, conexão e permeabilidade.

Drenos e curativos

  • Tipo e localização do dreno, sistema (sucção/gravitacional), fixação, permeabilidade e débito (volume, cor, presença de coágulos) com horário.
  • Curativo: integridade, sangramento, odor, umidade; marcar área de sangramento no curativo quando indicado para acompanhar progressão.

Metas das primeiras horas (plano operacional de enfermagem)

  • Manter oxigenação adequada: SpO2 dentro da meta prescrita; cabeceira elevada quando permitido; vigilância de obstrução e broncoaspiração.
  • Garantir estabilidade hemodinâmica: PA/FC sem tendência de piora; perfusão periférica adequada; reconhecer precocemente sinais de sangramento.
  • Controle de dor com segurança: registrar dor em escala e reavaliar após intervenções; monitorar sedação e FR quando houver opioides.
  • Normotermia: aquecimento ativo/passivo conforme necessidade e monitorização de temperatura.
  • Integridade de dispositivos: acessos pérvios, infusões corretas, drenos funcionando, sondas fixas e sem tração.
  • Documentação completa: SBAR recebido, parâmetros iniciais, intervenções realizadas e resposta, pendências e metas acordadas.

Exemplo prático de sequência de registro (primeiros 10–15 minutos)

  • Minuto 0–1: identificação + alergias + procedimento/lateralidade.
  • Minuto 1–5: ABCDE com intervenções (reposicionar, ajustar O2, aspirar secreção se necessário).
  • Minuto 5–10: sinais vitais completos (FR, SpO2, PA, FC, temperatura), dor e perfusão periférica; checagem de curativo/drenos e acessos.
  • Minuto 10–15: confirmar prescrições, programar reavaliação (15/30 min), registrar SBAR e pendências (ex.: exame, antibiótico, metas de PA/SpO2).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na admissão do paciente no pós-operatório imediato, qual conduta melhor traduz uma avaliação segura e capaz de detectar instabilidade precocemente?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A segurança no pós-operatório imediato exige avaliação rápida, estruturada e repetida: identificação segura, checagens críticas, ABCDE com intervenções imediatas, monitorização e reavaliação conforme risco e tendências para detectar deterioração precoce.

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Monitorização clínica e interpretação de sinais vitais na recuperação pós-operatória

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