Monitorização clínica e interpretação de sinais vitais na recuperação pós-operatória

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito-chave: monitorar tendências, não apenas números

No pós-operatório, sinais vitais variam por dor, sangramento oculto, reposição volêmica, efeitos residuais de anestésicos e resposta inflamatória inicial. Por isso, a monitorização clínica deve priorizar tendências (direção e velocidade de mudança) e correlação com o quadro, em vez de interpretar um valor isolado.

  • Valor isolado: pode ser artefato (manguito inadequado, movimento, má perfusão).
  • Tendência: queda progressiva de PA + aumento de FC + pele fria sugere deterioração hemodinâmica mesmo com valores ainda “limítrofes”.
  • Contexto: comparar com basal pré-operatório, comorbidades (HAS, DPOC), tipo de cirurgia, perdas estimadas e analgesia em uso.

Como ler tendências de forma prática

  • Compare em série: pelo menos 3 medidas sequenciais (ex.: a cada 5–15 min no imediato, depois conforme protocolo).
  • Observe amplitude: variações pequenas e estáveis costumam ser menos preocupantes que mudanças rápidas.
  • Relacione sinais: uma alteração isolada (ex.: FC 110) tem peso diferente se acompanhada de hipotensão, oligúria, alteração de consciência ou dessaturação.
  • Procure coerência fisiológica: SpO2 baixa com boa curva pleth e FR elevada é mais confiável do que SpO2 baixa com curva ruim e extremidades frias.

Montagem e checagem de equipamentos: passo a passo

1) Oximetria de pulso (SpO2)

Objetivo: estimar oxigenação e acompanhar tendência de perfusão periférica (qualidade do sinal).

Passo a passo:

  • Escolha local com boa perfusão: dedo, lóbulo da orelha ou testa (quando disponível).
  • Remova esmalte escuro/unhas postiças quando possível; aqueça extremidade fria.
  • Posicione o sensor corretamente (emissor e receptor alinhados), evitando compressão excessiva.
  • Confirme qualidade do traçado/pleth e coerência com pulso palpado/FC do monitor.
  • Registre SpO2 e também FiO2/fluxo de O2 (ex.: cateter 2 L/min) para interpretar a tendência.

Validação e correção de artefatos:

  • Movimento/tremor: estabilize o membro, troque local.
  • Má perfusão (choque/vasoconstrição/hipotermia): aqueça, reposicione, considere orelha/testa; correlacione com clínica.
  • Luz intensa: cubra o sensor.
  • Arritmias: podem reduzir confiabilidade; correlacione com ECG e pulso.

2) Pressão arterial não invasiva (PANI)

Objetivo: acompanhar perfusão sistêmica e resposta a fluidos/analgesia/vasoativos (quando aplicável).

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Passo a passo:

  • Selecione manguito adequado: largura ~40% da circunferência do braço e comprimento ~80%.
  • Posicione no braço ao nível do coração, com marca sobre a artéria braquial.
  • Evite braço com fístula, linfedema, mastectomia, acesso venoso com infusão irritante, lesão ou imobilização (conforme protocolo institucional).
  • Programe intervalo conforme fase: mais frequente no imediato e após intervenções (analgesia, reposição volêmica, mudança de O2).
  • Se valor inesperado, repita manualmente (ausculta/palpação) quando possível.

Validação e correção de artefatos:

  • Manguito pequeno tende a superestimar PA; grande tende a subestimar.
  • Braço fora do nível do coração: acima subestima, abaixo superestima.
  • Movimento/dor: pode elevar PA e gerar leituras inconsistentes; reavaliar após analgesia e repouso.

3) ECG/monitorização cardíaca (quando indicado)

Indicações comuns: pacientes com cardiopatia, cirurgias de maior porte, instabilidade hemodinâmica, dessaturação inexplicada, dor torácica, uso de drogas vasoativas, arritmias prévias.

Passo a passo:

  • Prepare pele (limpar, secar, remover oleosidade; tricotomia se necessário).
  • Posicione eletrodos conforme padrão do serviço (3 ou 5 derivações).
  • Verifique FC do monitor vs pulso palpado; ajuste alarmes.
  • Observe ritmo, presença de extrassístoles, bradi/taquiarritmias e alterações de segmento ST quando disponível.

Validação e correção de artefatos:

  • Ruído/artefato: eletrodo solto, pele úmida, cabo tensionado, tremor; reposicionar e reforçar adesão.
  • Interferência elétrica: afastar cabos de fontes, organizar fios, checar aterramento conforme engenharia clínica.

Interpretação integrada: além dos sinais vitais

Para interpretar corretamente, combine sinais vitais com achados clínicos e dados simples de beira-leito:

  • Perfusão: tempo de enchimento capilar, temperatura de extremidades, coloração, sudorese.
  • Estado mental: sonolência esperada vs rebaixamento progressivo.
  • Respiração: padrão ventilatório, uso de musculatura acessória, roncos/estridor, dor ao respirar.
  • Diurese (quando monitorada): tendência de queda pode sinalizar hipoperfusão.
  • Dor e sedação: dor intensa pode elevar FC/PA; sedação excessiva pode reduzir FR e levar à hipoventilação.

Padrões esperados no pós-operatório e sinais de alerta

Padrões relativamente esperados (dependem do contexto)

  • FC discretamente elevada por dor, ansiedade, hipovolemia leve ou resposta ao estresse cirúrgico.
  • PA variável nas primeiras horas, especialmente após analgesia, bloqueios neuraxiais ou mudanças de posição.
  • SpO2 levemente menor em pacientes com atelectasia inicial, especialmente em decúbito e com dor que limita expansibilidade torácica.
  • Temperatura: leve elevação pode ocorrer por resposta inflamatória; febre alta precoce exige investigação.

Quando suspeitar de choque (hipovolêmico/distributivo/obstrutivo/cardiogênico)

Pistas de tendência:

  • Queda progressiva de PAS/PAM ou necessidade crescente de O2 para manter SpO2.
  • Taquicardia persistente ou crescente, especialmente com pele fria, sudorese, enchimento capilar lento.
  • Alteração de consciência, agitação ou sonolência fora do esperado.
  • Oligúria (quando disponível) e piora de perfusão periférica.

Interpretação prática: hipotensão isolada após analgesia pode ocorrer; hipotensão + taquicardia + sinais de hipoperfusão sugere choque até prova em contrário.

Quando suspeitar de hipoventilação (efeito residual de anestésicos/opioides)

  • FR baixa ou superficial, sonolência excessiva, dificuldade para manter via aérea pérvia.
  • SpO2 pode estar “normal” com O2 suplementar, mascarando hipoventilação; observe padrão respiratório e nível de consciência.
  • Roncos, obstrução de via aérea superior, dessaturação ao dormir.

Alerta: queda de FR e rebaixamento progressivo após dose de opioide/sedativo, especialmente em idosos, obesos e apneia do sono.

Quando suspeitar de sepse precoce

  • Febre persistente ou crescente (ou hipotermia), taquicardia, taquipneia.
  • Hipotensão ou necessidade de fluidos/vasoativos (em ambiente apropriado).
  • Alteração do estado mental, calafrios, piora do aspecto de ferida/dreno, secreção purulenta, dor desproporcional.

Observação: nas primeiras 24–48h, febre pode ter causas não infecciosas; a suspeita aumenta quando há tendência de piora e sinais sistêmicos associados.

Quando suspeitar de efeito de anestésicos/bloqueios

  • Hipotensão e bradicardia após bloqueio neuraxial ou anestésicos: avaliar nível de bloqueio, perfusão e sintomas.
  • Sonolência e reflexos lentos: considerar residual anestésico/sedativo, especialmente se FR reduzida.
  • Náuseas/vômitos podem acompanhar hipotensão postural e interferir em sinais vitais.

Quadros de condutas de enfermagem frente a alterações

Hipotensão

Sinais/limiares práticos (ajustar ao protocolo)Checagens imediatas (validar medida)Condutas de enfermagemEscalonamento / quando acionar equipe médica
PAS baixa ou queda significativa em relação ao basal; sintomas: tontura, pele fria, confusão, oligúriaRepetir PANI (manguito correto, braço ao nível do coração); checar FC/ritmo; avaliar sangramento em curativo/drenos; revisar balanço hídrico e perdas; avaliar dor e sedaçãoGarantir via aérea e O2 conforme necessidade; posicionar em decúbito e elevar pernas se apropriado e permitido; manter acesso venoso pérvio; checar infusões (analgésicos, vasodilatadores); aquecer paciente se hipotérmico; monitorar a cada 3–5 min se instávelAcionar imediatamente se: hipotensão persistente após rechecagem, sinais de hipoperfusão, queda rápida, sangramento ativo, alteração de consciência, dor torácica, arritmia, ou necessidade de aumento progressivo de O2

Taquicardia

Cenários comunsO que verificarCondutas de enfermagemEscalonamento
FC elevada persistente, especialmente com PA baixa, febre, dor, hipoxemiaDor (antes/depois de analgesia); temperatura; SpO2 e padrão respiratório; sinais de sangramento; hidratação; ECG para ritmo; ansiedade/agitação; distensão vesical (se aplicável)Tratar causas reversíveis conforme prescrição/protocolo (analgesia, medidas de conforto, O2, aquecimento); orientar respiração e posicionamento; reavaliar após intervenções com registro de tendênciaAcionar se: FC muito alta ou crescente com hipotensão, dessaturação, dor torácica, arritmia no monitor, alteração do nível de consciência, ou suspeita de sangramento/sepse

Febre

PadrãoValidaçãoCondutas de enfermagemEscalonamento
Temperatura elevada ou tendência ascendente; calafrios; taquicardia/taquipneiaConfirmar método (axilar/ timpânico/ oral) e repetir; avaliar ambiente (cobertores/aquecimento); inspecionar ferida, drenos e acessos; avaliar secreções respiratórias; revisar sinais vitais em conjuntoHidratação conforme prescrição; medidas físicas conforme protocolo; coletar dados para comunicação estruturada (início, pico, sintomas associados, aspecto de ferida/drenos); monitorar resposta após antitérmico quando prescritoAcionar se: febre alta precoce com instabilidade, calafrios intensos, hipotensão, alteração mental, piora respiratória, secreção purulenta, dor desproporcional, ou tendência de piora apesar de medidas iniciais

Dessaturação (SpO2 baixa)

SinaisChecagens imediatas (artefatos)Condutas de enfermagemEscalonamento
Queda de SpO2 ou necessidade crescente de O2; dispneia; cianose; sonolênciaChecar pleth/curva e posicionamento do sensor; comparar FC do oxímetro com pulso; avaliar perfusão periférica; verificar fonte de O2 (fluxo, conexão, umidificação quando aplicável)Reposicionar (elevar cabeceira se permitido); estimular respiração profunda e tosse assistida quando apropriado; ajustar O2 conforme protocolo; avaliar via aérea (roncos/obstrução) e necessidade de aspiração; monitorar FR e nível de consciência; reavaliar em 1–3 min após intervençãoAcionar imediatamente se: SpO2 não melhora com medidas iniciais, rebaixamento de consciência, FR muito baixa/sinais de hipoventilação, estridor, uso de musculatura acessória, dor torácica, ou suspeita de tromboembolismo/edema agudo

Comunicação e escalonamento: como reportar tendências com clareza

Ao acionar a equipe médica, priorize comunicação estruturada e dados em série. Um modelo prático é relatar: tendência + intervenções + resposta.

  • Tendência: “PA caiu de 120/70 para 95/60 em 20 minutos; FC subiu de 88 para 118; pele fria; enchimento capilar 4s.”
  • Intervenções realizadas: “Repeti medida com manguito adequado, paciente em decúbito, O2 ajustado para 3 L/min, acesso venoso pérvio, sem sangramento visível em curativo; dreno com aumento de débito sero-hemático.”
  • Resposta: “Após 10 min, PA 90/55, FC 122, SpO2 94% com 3 L/min, sonolento.”

Checklist rápido antes de escalar (para reduzir alarmes falsos)

  • Medida validada (equipamento, posicionamento, repetição)?
  • Há coerência entre monitor e avaliação clínica (pulso, perfusão, respiração)?
  • Houve intervenção recente que explique mudança (analgesia, sedação, mudança de posição, aquecimento)?
  • O que está piorando em série (PA, FC, SpO2, FR, temperatura, consciência)?

Exemplos práticos de interpretação por tendência

Caso 1: “SpO2 90%” após chegada da recuperação

  • Leitura inicial: SpO2 90% com cateter 2 L/min, pleth irregular, mão fria.
  • Ação: aquecer extremidade, trocar sensor para orelha, elevar cabeceira, estimular respiração.
  • Reavaliação: pleth melhora e SpO2 sobe para 95% sem aumentar O2.
  • Interpretação: provável artefato por má perfusão periférica + hipoventilação leve; manter vigilância e registrar tendência com qualidade do sinal.

Caso 2: PA “normal” mas com piora progressiva

  • Série: 125/75 (FC 92) → 112/70 (FC 105) → 102/65 (FC 118) em 30 min.
  • Achados: pele fria, sudorese, débito de dreno aumentando.
  • Interpretação: tendência compatível com deterioração hemodinâmica; mesmo sem hipotensão franca, tratar como potencial choque e escalar precocemente.

Caso 3: Sonolência e FR reduzida com SpO2 preservada em O2

  • Série: FR 14 → 10 → 8, paciente mais difícil de despertar; SpO2 96% com máscara.
  • Interpretação: possível hipoventilação por opioide/sedativo mascarada por O2 suplementar; prioridade é avaliar ventilação e via aérea, não apenas SpO2.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a recuperação pós-operatória, qual abordagem é mais adequada para interpretar sinais vitais e decidir quando escalar a assistência?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No pós-operatório, valores isolados podem ser artefatos. O mais seguro é observar tendências (direção e velocidade), repetir/validar medidas e correlacionar com sinais de perfusão, respiração e estado mental para reconhecer deterioração precoce e escalonar quando necessário.

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