Conceito operacional de segurança do paciente na punção venosa e coleta de amostras
Segurança do paciente, neste contexto, significa executar a punção venosa e a coleta de amostras com barreiras efetivas contra infecção, troca de amostras, lesão por perfurocortante e exposição a material biológico. Na prática, isso se traduz em: higiene das mãos nos momentos corretos, uso apropriado de EPIs, preparo de campo limpo/estéril, antissepsia da pele com técnica e tempo adequados, manutenção da integridade dos materiais e descarte seguro.
Um princípio útil é pensar em “cadeia asséptica”: mãos limpas → materiais limpos/estéreis → pele adequadamente antissepsada → conexão/manipulação sem tocar em pontos críticos. Se qualquer elo falha, aumenta o risco de contaminação e eventos adversos.
Higiene das mãos: momentos e técnica aplicados ao procedimento
Momentos essenciais (adaptados para punção/coleta)
- Antes de tocar no paciente (aproximação, posicionamento, avaliação de veias).
- Antes de procedimento limpo/asséptico (antes de calçar luvas e antes de manipular materiais e sítio de punção).
- Após risco de exposição a fluidos (após retirar luvas, após contato com sangue/curativo).
- Após tocar o paciente.
- Após tocar superfícies próximas ao paciente (grades, mesa de cabeceira, maca, monitor).
Técnica prática
Quando usar preparação alcoólica (70% ou conforme protocolo institucional): quando as mãos não estiverem visivelmente sujas. Friccionar todas as superfícies por tempo suficiente para secar completamente (geralmente 20–30 segundos), incluindo: palmas, dorso, espaços interdigitais, polegares, polpas digitais e punhos.
Quando lavar com água e sabonete: mãos visivelmente sujas, após uso do banheiro, e quando indicado por protocolo (ex.: suspeita de sujidade orgânica). Ensaboar e friccionar todas as áreas, enxaguar e secar com papel toalha; fechar torneira com o papel.
Pontos críticos: unhas curtas e sem esmalte descascado; evitar adornos (anéis, pulseiras, relógio) por aumentarem carga microbiana e dificultarem fricção adequada.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Uso adequado de EPIs na coleta e no acesso venoso
Seleção por risco
- Luvas de procedimento: indicadas para punção venosa e coleta por risco de contato com sangue. Não substituem higiene das mãos.
- Avental/capote: quando houver risco de respingos (pronto atendimento, paciente agitado, sangramento ativo, múltiplas tentativas).
- Máscara e proteção ocular (óculos/face shield): quando houver risco de respingos/aerossóis de secreções ou sangue (ex.: coleta em paciente com tosse intensa, sangramento, procedimentos em ambiente de alta rotatividade).
Sequência prática (exemplo)
- Antes: higiene das mãos → vestir avental (se indicado) → máscara/proteção ocular (se indicado) → preparar materiais → calçar luvas imediatamente antes do contato com o sítio e materiais críticos.
- Depois: retirar luvas sem contaminar as mãos → higiene das mãos → retirar proteção ocular/máscara/avental conforme risco e protocolo → higiene das mãos novamente se necessário.
Erros frequentes a evitar: tocar celular, caneta, maçaneta, teclado ou cortina com luvas; circular pelo setor com luvas; “higienizar” luvas com álcool como substituto de troca.
Preparo do campo limpo/estéril e organização do material
Campo limpo (mais comum na coleta venosa periférica)
Objetivo: manter materiais e pontos críticos protegidos de contato com superfícies contaminadas. Use bandeja limpa/desinfetada ou superfície protegida com campo limpo. Organize por ordem de uso para reduzir manipulações.
- Separe materiais antes de aproximar do paciente (agulha/dispositivo, tubos, adaptador, garrote, gaze, antisséptico, curativo, coletor de perfurocortantes).
- Mantenha pontos críticos sem toque: ponta da agulha, conexão do dispositivo, interior de tampas, extremidade do equipo/conector.
- Se algo tocar superfície não limpa (lençol, grade, bolso, bancada compartilhada), considere contaminado e substitua.
Quando exigir técnica estéril
Em situações em que o protocolo institucional determine campo estéril (ex.: manipulação de cateter venoso central, troca de curativo de CVC, acesso a dispositivos com maior risco), utilize material estéril, campo estéril e técnica sem toque (no-touch) dos pontos críticos.
Antissepsia da pele: agentes, fricção, secagem e quando repetir
Escolha do agente (seguir protocolo institucional)
- Clorexidina alcoólica (ex.: 0,5% a 2% em álcool): frequentemente preferida por ação rápida e efeito residual.
- Álcool 70%: ação rápida, sem efeito residual prolongado; depende de fricção e secagem completa.
- Povidona-iodo: alternativa em casos específicos; requer tempo de contato maior e secagem adequada.
Atenção: considerar alergias referidas, integridade da pele, idade e orientações do serviço. Evitar aplicar antisséptico em pele com sujidade visível sem limpeza prévia conforme protocolo.
Técnica de fricção
- Aplicar o antisséptico com fricção vigorosa no local de punção.
- Movimento recomendado: do centro para a periferia (circular) ou fricção unidirecional conforme padronização do serviço, cobrindo área suficiente para punção e fixação.
- Não “só encostar” o algodão: a fricção é parte essencial da redução microbiana.
Tempo de secagem (passo crítico)
Deixar secar completamente ao ar antes de puncionar. Não abanar, não soprar, não tocar para “ver se secou”. A punção antes da secagem reduz a eficácia e aumenta ardor/irritação.
Quando repetir a antissepsia
- Se tocar no local após antissepsia (com luva, dedo, gaze, garrote, lençol).
- Se houver necessidade de repalpação do vaso após antissepsia (ideal: palpar antes; se precisar repalpar, repetir antissepsia).
- Se o local for contaminado por sangue/fluido antes da punção efetiva.
- Se houver demora significativa e risco de contato com superfícies.
Não contaminação de materiais: pontos críticos e técnica sem toque
Identifique “pontos críticos”
- Ponta da agulha e bisel.
- Conexões (Luer), extremidade de adaptadores, hubs.
- Interior de tampas e conectores.
- Boca de frascos/tubos quando aplicável.
Regras práticas
- Abra embalagens sem tocar na parte que ficará em contato com o sistema vascular.
- Não apoie agulha, tampas ou conectores em bandeja “qualquer” ou no leito.
- Se cair no chão ou tocar superfície não limpa: descartar e substituir.
- Evite conversas e movimentação desnecessária sobre o campo (reduz risco de respingos e toque acidental).
Descarte de perfurocortantes e prevenção de acidentes
Princípios de descarte seguro
- Descartar agulhas e dispositivos perfurocortantes imediatamente após o uso, no coletor rígido apropriado.
- Manter o coletor próximo ao local do procedimento (evitar deslocamento com agulha na mão).
- Não reencapar agulhas. Se houver exceção prevista em protocolo (situação muito específica), usar técnica de uma mão/dispositivo de segurança.
- Não desconectar agulha manualmente quando houver risco de perfuração; preferir dispositivos com mecanismo de segurança.
- Não ultrapassar o limite de enchimento do coletor (geralmente indicado no próprio recipiente).
Prevenção de exposição a material biológico
- Planejar o procedimento: materiais prontos, iluminação adequada, paciente posicionado e orientado.
- Imobilizar membro quando necessário (com ajuda de outro profissional quando indicado), especialmente em crianças, pacientes confusos ou agitados.
- Usar dispositivos de segurança (agulhas com proteção) quando disponíveis.
- Evitar pressa e multitarefa durante a punção.
Condutas imediatas em caso de exposição (acidente com material biológico)
Em qualquer exposição, a prioridade é interromper com segurança o que estiver fazendo, realizar cuidados imediatos e acionar o fluxo institucional o quanto antes (profilaxias têm janela de tempo).
Se perfuração/corte (pele)
- Lavar o local com água e sabonete.
- Não espremer vigorosamente, não “sugar” o ferimento.
- Não usar substâncias irritantes (ex.: hipoclorito, solventes) na pele lesada.
- Comunicar imediatamente a chefia/serviço responsável e seguir protocolo para avaliação de risco e profilaxia.
Se respingo em mucosa (olhos, boca)
- Irrigar com água corrente ou soro fisiológico em abundância por alguns minutos.
- Não friccionar os olhos.
- Acionar protocolo institucional imediatamente.
Se contato com pele íntegra
- Lavar com água e sabonete.
- Avaliar necessidade de notificação conforme volume/tempo de contato e protocolo.
Registro e rastreabilidade
Registrar o acidente conforme rotina (notificação interna, CAT quando aplicável), identificar fonte quando possível e autorizado, e realizar coleta de exames do profissional e do paciente-fonte conforme protocolo e consentimentos aplicáveis.
Checklist prático: antes, durante e depois
Antes do procedimento
- Confirmar identificação do paciente com pelo menos dois identificadores conforme protocolo.
- Conferir solicitação do exame: tipo de tubo, volume, jejum/horário, necessidade de transporte especial.
- Higienizar as mãos.
- Avaliar risco de respingo e selecionar EPIs adequados.
- Preparar e organizar materiais em campo limpo; verificar integridade e validade.
- Posicionar paciente e membro; orientar para evitar movimentos súbitos.
- Garantir coletor de perfurocortantes ao alcance.
- Escolher sítio de punção; palpar antes da antissepsia sempre que possível.
Durante o procedimento
- Calçar luvas imediatamente antes de manipular o sítio e materiais críticos.
- Realizar antissepsia com fricção e respeitar secagem completa.
- Não tocar novamente no local após antissepsia; se tocar, repetir antissepsia.
- Manter técnica sem toque dos pontos críticos (agulha, conexões, interior de tampas).
- Evitar apoiar materiais no leito/roupa do paciente.
- Se houver necessidade de interromper (paciente se mexe, campo contaminado), parar e reavaliar com segurança.
Depois do procedimento
- Ativar dispositivo de segurança (se houver) e descartar perfurocortante imediatamente.
- Realizar hemostasia e curativo; orientar paciente sobre compressão e sinais de complicação.
- Retirar luvas e higienizar as mãos.
- Rotular amostras conforme protocolo (no local e no tempo correto), evitando troca de identificação.
- Conferir acondicionamento/transporte (ex.: proteção da amostra, tempo até laboratório).
- Limpar/desinfetar superfície utilizada e organizar materiais.
- Registrar procedimento e intercorrências (dificuldade, múltiplas tentativas, hematoma, recusa, acidente).
Critérios de interrupção por quebra de assepsia (quando parar e recomeçar)
- Toque no sítio após antissepsia (com luva, dedo, gaze, garrote) sem possibilidade segura de repetir antissepsia.
- Agulha/dispositivo encosta em superfície não limpa (lençol, grade, bancada compartilhada) antes da punção.
- Queda de material estéril/limpo em superfície contaminada.
- Luvas contaminadas por contato com superfícies do ambiente e necessidade de manipular ponto crítico (trocar luvas e higienizar mãos).
- Respingo de sangue no campo/material que comprometa a segurança e exija reorganização.
- Paciente movimenta o membro de forma que comprometa a punção segura (risco de perfuração acidental): interromper, estabilizar e replanejar.
Conduta prática: parar, manter segurança (proteger agulha, evitar acidentes), descartar o que foi contaminado, higienizar as mãos, recompor campo e repetir antissepsia conforme necessário.
Situações comuns e como manter a técnica no setor
No leito (enfermaria)
- Desafio: superfícies próximas (grade, mesa, lençol) frequentemente contaminadas por contato.
- Boa prática: usar bandeja limpa ou campo sobre mesa auxiliar; evitar apoiar tubos e agulhas no leito.
- Exemplo: após antissepsia, o paciente coça o local. Conduta: interromper, repetir antissepsia com fricção e aguardar secagem completa antes de puncionar.
No pronto atendimento
- Desafio: pressa, alta rotatividade, pacientes instáveis e risco maior de respingos.
- Boa prática: EPIs ampliados quando houver risco de respingo; coletor de perfurocortantes sempre ao alcance; pedir apoio para contenção segura se paciente agitado.
- Exemplo: durante a punção, o paciente se debate e a agulha toca a maca. Conduta: descartar o dispositivo, higienizar mãos, trocar luvas se necessário, recompor campo e reiniciar com estabilização adequada.
No ambulatório
- Desafio: fluxo contínuo e risco de “automatizar” etapas (pular secagem, rotular depois).
- Boa prática: padronizar checklist; rotular amostras imediatamente conforme protocolo; manter área de preparo separada da área de descarte.
- Exemplo: profissional prepara vários tubos e deixa para identificar ao final. Risco: troca de amostras. Conduta: identificar conforme rotina institucional no momento correto e conferir com o paciente.
Passo a passo prático (modelo operacional) para punção/coleta com técnica asséptica
1) Preparar ambiente e materiais (campo limpo; coletor ao alcance). 2) Higienizar mãos. 3) Identificar paciente e conferir solicitação. 4) Selecionar EPIs conforme risco e calçar luvas no momento adequado. 5) Escolher sítio e palpar antes da antissepsia. 6) Antissepsia com fricção + aguardar secagem completa. 7) Punção mantendo técnica sem toque dos pontos críticos. 8) Coletar/aspirar conforme rotina; evitar manipulações desnecessárias. 9) Retirar dispositivo, hemostasia e curativo. 10) Ativar segurança e descartar perfurocortante imediatamente. 11) Retirar luvas, higienizar mãos. 12) Rotular e acondicionar amostras conforme protocolo; registrar intercorrências.