Segurança do paciente e técnica asséptica na coleta de exames e acessos venosos

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Conceito operacional de segurança do paciente na punção venosa e coleta de amostras

Segurança do paciente, neste contexto, significa executar a punção venosa e a coleta de amostras com barreiras efetivas contra infecção, troca de amostras, lesão por perfurocortante e exposição a material biológico. Na prática, isso se traduz em: higiene das mãos nos momentos corretos, uso apropriado de EPIs, preparo de campo limpo/estéril, antissepsia da pele com técnica e tempo adequados, manutenção da integridade dos materiais e descarte seguro.

Um princípio útil é pensar em “cadeia asséptica”: mãos limpas → materiais limpos/estéreis → pele adequadamente antissepsada → conexão/manipulação sem tocar em pontos críticos. Se qualquer elo falha, aumenta o risco de contaminação e eventos adversos.

Higiene das mãos: momentos e técnica aplicados ao procedimento

Momentos essenciais (adaptados para punção/coleta)

  • Antes de tocar no paciente (aproximação, posicionamento, avaliação de veias).
  • Antes de procedimento limpo/asséptico (antes de calçar luvas e antes de manipular materiais e sítio de punção).
  • Após risco de exposição a fluidos (após retirar luvas, após contato com sangue/curativo).
  • Após tocar o paciente.
  • Após tocar superfícies próximas ao paciente (grades, mesa de cabeceira, maca, monitor).

Técnica prática

Quando usar preparação alcoólica (70% ou conforme protocolo institucional): quando as mãos não estiverem visivelmente sujas. Friccionar todas as superfícies por tempo suficiente para secar completamente (geralmente 20–30 segundos), incluindo: palmas, dorso, espaços interdigitais, polegares, polpas digitais e punhos.

Quando lavar com água e sabonete: mãos visivelmente sujas, após uso do banheiro, e quando indicado por protocolo (ex.: suspeita de sujidade orgânica). Ensaboar e friccionar todas as áreas, enxaguar e secar com papel toalha; fechar torneira com o papel.

Pontos críticos: unhas curtas e sem esmalte descascado; evitar adornos (anéis, pulseiras, relógio) por aumentarem carga microbiana e dificultarem fricção adequada.

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Uso adequado de EPIs na coleta e no acesso venoso

Seleção por risco

  • Luvas de procedimento: indicadas para punção venosa e coleta por risco de contato com sangue. Não substituem higiene das mãos.
  • Avental/capote: quando houver risco de respingos (pronto atendimento, paciente agitado, sangramento ativo, múltiplas tentativas).
  • Máscara e proteção ocular (óculos/face shield): quando houver risco de respingos/aerossóis de secreções ou sangue (ex.: coleta em paciente com tosse intensa, sangramento, procedimentos em ambiente de alta rotatividade).

Sequência prática (exemplo)

  • Antes: higiene das mãos → vestir avental (se indicado) → máscara/proteção ocular (se indicado) → preparar materiais → calçar luvas imediatamente antes do contato com o sítio e materiais críticos.
  • Depois: retirar luvas sem contaminar as mãos → higiene das mãos → retirar proteção ocular/máscara/avental conforme risco e protocolo → higiene das mãos novamente se necessário.

Erros frequentes a evitar: tocar celular, caneta, maçaneta, teclado ou cortina com luvas; circular pelo setor com luvas; “higienizar” luvas com álcool como substituto de troca.

Preparo do campo limpo/estéril e organização do material

Campo limpo (mais comum na coleta venosa periférica)

Objetivo: manter materiais e pontos críticos protegidos de contato com superfícies contaminadas. Use bandeja limpa/desinfetada ou superfície protegida com campo limpo. Organize por ordem de uso para reduzir manipulações.

  • Separe materiais antes de aproximar do paciente (agulha/dispositivo, tubos, adaptador, garrote, gaze, antisséptico, curativo, coletor de perfurocortantes).
  • Mantenha pontos críticos sem toque: ponta da agulha, conexão do dispositivo, interior de tampas, extremidade do equipo/conector.
  • Se algo tocar superfície não limpa (lençol, grade, bolso, bancada compartilhada), considere contaminado e substitua.

Quando exigir técnica estéril

Em situações em que o protocolo institucional determine campo estéril (ex.: manipulação de cateter venoso central, troca de curativo de CVC, acesso a dispositivos com maior risco), utilize material estéril, campo estéril e técnica sem toque (no-touch) dos pontos críticos.

Antissepsia da pele: agentes, fricção, secagem e quando repetir

Escolha do agente (seguir protocolo institucional)

  • Clorexidina alcoólica (ex.: 0,5% a 2% em álcool): frequentemente preferida por ação rápida e efeito residual.
  • Álcool 70%: ação rápida, sem efeito residual prolongado; depende de fricção e secagem completa.
  • Povidona-iodo: alternativa em casos específicos; requer tempo de contato maior e secagem adequada.

Atenção: considerar alergias referidas, integridade da pele, idade e orientações do serviço. Evitar aplicar antisséptico em pele com sujidade visível sem limpeza prévia conforme protocolo.

Técnica de fricção

  • Aplicar o antisséptico com fricção vigorosa no local de punção.
  • Movimento recomendado: do centro para a periferia (circular) ou fricção unidirecional conforme padronização do serviço, cobrindo área suficiente para punção e fixação.
  • Não “só encostar” o algodão: a fricção é parte essencial da redução microbiana.

Tempo de secagem (passo crítico)

Deixar secar completamente ao ar antes de puncionar. Não abanar, não soprar, não tocar para “ver se secou”. A punção antes da secagem reduz a eficácia e aumenta ardor/irritação.

Quando repetir a antissepsia

  • Se tocar no local após antissepsia (com luva, dedo, gaze, garrote, lençol).
  • Se houver necessidade de repalpação do vaso após antissepsia (ideal: palpar antes; se precisar repalpar, repetir antissepsia).
  • Se o local for contaminado por sangue/fluido antes da punção efetiva.
  • Se houver demora significativa e risco de contato com superfícies.

Não contaminação de materiais: pontos críticos e técnica sem toque

Identifique “pontos críticos”

  • Ponta da agulha e bisel.
  • Conexões (Luer), extremidade de adaptadores, hubs.
  • Interior de tampas e conectores.
  • Boca de frascos/tubos quando aplicável.

Regras práticas

  • Abra embalagens sem tocar na parte que ficará em contato com o sistema vascular.
  • Não apoie agulha, tampas ou conectores em bandeja “qualquer” ou no leito.
  • Se cair no chão ou tocar superfície não limpa: descartar e substituir.
  • Evite conversas e movimentação desnecessária sobre o campo (reduz risco de respingos e toque acidental).

Descarte de perfurocortantes e prevenção de acidentes

Princípios de descarte seguro

  • Descartar agulhas e dispositivos perfurocortantes imediatamente após o uso, no coletor rígido apropriado.
  • Manter o coletor próximo ao local do procedimento (evitar deslocamento com agulha na mão).
  • Não reencapar agulhas. Se houver exceção prevista em protocolo (situação muito específica), usar técnica de uma mão/dispositivo de segurança.
  • Não desconectar agulha manualmente quando houver risco de perfuração; preferir dispositivos com mecanismo de segurança.
  • Não ultrapassar o limite de enchimento do coletor (geralmente indicado no próprio recipiente).

Prevenção de exposição a material biológico

  • Planejar o procedimento: materiais prontos, iluminação adequada, paciente posicionado e orientado.
  • Imobilizar membro quando necessário (com ajuda de outro profissional quando indicado), especialmente em crianças, pacientes confusos ou agitados.
  • Usar dispositivos de segurança (agulhas com proteção) quando disponíveis.
  • Evitar pressa e multitarefa durante a punção.

Condutas imediatas em caso de exposição (acidente com material biológico)

Em qualquer exposição, a prioridade é interromper com segurança o que estiver fazendo, realizar cuidados imediatos e acionar o fluxo institucional o quanto antes (profilaxias têm janela de tempo).

Se perfuração/corte (pele)

  • Lavar o local com água e sabonete.
  • Não espremer vigorosamente, não “sugar” o ferimento.
  • Não usar substâncias irritantes (ex.: hipoclorito, solventes) na pele lesada.
  • Comunicar imediatamente a chefia/serviço responsável e seguir protocolo para avaliação de risco e profilaxia.

Se respingo em mucosa (olhos, boca)

  • Irrigar com água corrente ou soro fisiológico em abundância por alguns minutos.
  • Não friccionar os olhos.
  • Acionar protocolo institucional imediatamente.

Se contato com pele íntegra

  • Lavar com água e sabonete.
  • Avaliar necessidade de notificação conforme volume/tempo de contato e protocolo.

Registro e rastreabilidade

Registrar o acidente conforme rotina (notificação interna, CAT quando aplicável), identificar fonte quando possível e autorizado, e realizar coleta de exames do profissional e do paciente-fonte conforme protocolo e consentimentos aplicáveis.

Checklist prático: antes, durante e depois

Antes do procedimento

  • Confirmar identificação do paciente com pelo menos dois identificadores conforme protocolo.
  • Conferir solicitação do exame: tipo de tubo, volume, jejum/horário, necessidade de transporte especial.
  • Higienizar as mãos.
  • Avaliar risco de respingo e selecionar EPIs adequados.
  • Preparar e organizar materiais em campo limpo; verificar integridade e validade.
  • Posicionar paciente e membro; orientar para evitar movimentos súbitos.
  • Garantir coletor de perfurocortantes ao alcance.
  • Escolher sítio de punção; palpar antes da antissepsia sempre que possível.

Durante o procedimento

  • Calçar luvas imediatamente antes de manipular o sítio e materiais críticos.
  • Realizar antissepsia com fricção e respeitar secagem completa.
  • Não tocar novamente no local após antissepsia; se tocar, repetir antissepsia.
  • Manter técnica sem toque dos pontos críticos (agulha, conexões, interior de tampas).
  • Evitar apoiar materiais no leito/roupa do paciente.
  • Se houver necessidade de interromper (paciente se mexe, campo contaminado), parar e reavaliar com segurança.

Depois do procedimento

  • Ativar dispositivo de segurança (se houver) e descartar perfurocortante imediatamente.
  • Realizar hemostasia e curativo; orientar paciente sobre compressão e sinais de complicação.
  • Retirar luvas e higienizar as mãos.
  • Rotular amostras conforme protocolo (no local e no tempo correto), evitando troca de identificação.
  • Conferir acondicionamento/transporte (ex.: proteção da amostra, tempo até laboratório).
  • Limpar/desinfetar superfície utilizada e organizar materiais.
  • Registrar procedimento e intercorrências (dificuldade, múltiplas tentativas, hematoma, recusa, acidente).

Critérios de interrupção por quebra de assepsia (quando parar e recomeçar)

  • Toque no sítio após antissepsia (com luva, dedo, gaze, garrote) sem possibilidade segura de repetir antissepsia.
  • Agulha/dispositivo encosta em superfície não limpa (lençol, grade, bancada compartilhada) antes da punção.
  • Queda de material estéril/limpo em superfície contaminada.
  • Luvas contaminadas por contato com superfícies do ambiente e necessidade de manipular ponto crítico (trocar luvas e higienizar mãos).
  • Respingo de sangue no campo/material que comprometa a segurança e exija reorganização.
  • Paciente movimenta o membro de forma que comprometa a punção segura (risco de perfuração acidental): interromper, estabilizar e replanejar.

Conduta prática: parar, manter segurança (proteger agulha, evitar acidentes), descartar o que foi contaminado, higienizar as mãos, recompor campo e repetir antissepsia conforme necessário.

Situações comuns e como manter a técnica no setor

No leito (enfermaria)

  • Desafio: superfícies próximas (grade, mesa, lençol) frequentemente contaminadas por contato.
  • Boa prática: usar bandeja limpa ou campo sobre mesa auxiliar; evitar apoiar tubos e agulhas no leito.
  • Exemplo: após antissepsia, o paciente coça o local. Conduta: interromper, repetir antissepsia com fricção e aguardar secagem completa antes de puncionar.

No pronto atendimento

  • Desafio: pressa, alta rotatividade, pacientes instáveis e risco maior de respingos.
  • Boa prática: EPIs ampliados quando houver risco de respingo; coletor de perfurocortantes sempre ao alcance; pedir apoio para contenção segura se paciente agitado.
  • Exemplo: durante a punção, o paciente se debate e a agulha toca a maca. Conduta: descartar o dispositivo, higienizar mãos, trocar luvas se necessário, recompor campo e reiniciar com estabilização adequada.

No ambulatório

  • Desafio: fluxo contínuo e risco de “automatizar” etapas (pular secagem, rotular depois).
  • Boa prática: padronizar checklist; rotular amostras imediatamente conforme protocolo; manter área de preparo separada da área de descarte.
  • Exemplo: profissional prepara vários tubos e deixa para identificar ao final. Risco: troca de amostras. Conduta: identificar conforme rotina institucional no momento correto e conferir com o paciente.

Passo a passo prático (modelo operacional) para punção/coleta com técnica asséptica

1) Preparar ambiente e materiais (campo limpo; coletor ao alcance). 2) Higienizar mãos. 3) Identificar paciente e conferir solicitação. 4) Selecionar EPIs conforme risco e calçar luvas no momento adequado. 5) Escolher sítio e palpar antes da antissepsia. 6) Antissepsia com fricção + aguardar secagem completa. 7) Punção mantendo técnica sem toque dos pontos críticos. 8) Coletar/aspirar conforme rotina; evitar manipulações desnecessárias. 9) Retirar dispositivo, hemostasia e curativo. 10) Ativar segurança e descartar perfurocortante imediatamente. 11) Retirar luvas, higienizar mãos. 12) Rotular e acondicionar amostras conforme protocolo; registrar intercorrências.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a coleta venosa, após realizar a antissepsia da pele, o profissional percebe que tocou novamente no local com a luva. Qual é a conduta mais segura para manter a cadeia asséptica?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Ao tocar o local após a antissepsia, ocorre quebra da assepsia e aumenta o risco de contaminação. A conduta indicada é repetir a antissepsia com fricção e aguardar a secagem completa ao ar antes da punção.

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