Anatomia funcional para seleção do sítio
A escolha da veia para punção venosa periférica deve partir da anatomia funcional: onde a veia está, como ela se comporta com o movimento, qual o calibre disponível, e quais estruturas adjacentes aumentam risco (artérias, nervos, tendões). A seleção correta reduz falhas de punção, infiltração/extravasamento, dor e necessidade de múltiplas tentativas.
Rede venosa do membro superior: visão prática
Mão (dorso da mão): veias dorsais metacarpais e rede venosa dorsal. Em geral são mais superficiais e visíveis, porém com menor calibre e maior mobilidade. Sofrem mais com movimento e podem ser mais dolorosas. Úteis quando antebraço não está disponível ou quando se busca um acesso curto e de baixo fluxo.
Antebraço: veias cefálica (lateral/radial), basílica (medial/ulnar) e veias medianas do antebraço. Costumam oferecer melhor estabilidade e conforto, com menor interferência de flexão articular do que a fossa antecubital. Frequentemente é a melhor região para cateter periférico com tempo de uso maior.
Fossa antecubital: veia mediana cubital (comunicação entre cefálica e basílica), cefálica acessória e basílica proximal. Em geral são veias de maior calibre e fácil acesso, mas ficam em área de flexão, aumentando risco de oclusão do cateter, desconforto e infiltração com movimentação. É uma região frequentemente usada para coleta de sangue quando não há necessidade de manter cateter por tempo prolongado.
Estruturas adjacentes e implicações
- Artérias: na fossa antecubital e antebraço há proximidade com artéria braquial e radial/ulnar. Pulsatilidade, dor intensa à punção e refluxo de sangue vermelho vivo sugerem punção arterial; interromper e aplicar compressão conforme protocolo institucional.
- Nervos: nervos cutâneos superficiais podem estar próximos a veias do antebraço. Dor em choque, formigamento ou irradiação durante a punção sugere contato neural; interromper e escolher outro sítio.
- Tendões e articulações: punções próximas a punho e fossa antecubital sofrem com movimento, aumentando falhas e infiltração.
Fatores que influenciam palpação e visibilidade
O que observar (visão) e o que confirmar (palpação)
- Visibilidade: veias superficiais podem ser vistas, mas nem sempre são as melhores (podem ser finas, frágeis ou móveis). Iluminação adequada e posicionamento do membro ajudam.
- Palpação: confirma calibre, trajeto e elasticidade. Uma veia adequada geralmente é compressível e retorna ao formato ao soltar (turgor), com trajeto relativamente retilíneo por alguns centímetros.
- Mobilidade: veias muito móveis “escapam” ao tentar puncionar; são comuns no dorso da mão e em pacientes com pouco tecido subcutâneo.
- Profundidade: veias profundas podem não ser visíveis, mas podem ser palpáveis como um “tubo” elástico. Exigem ângulo e controle de profundidade mais precisos.
Condições do paciente que alteram a avaliação
- Idade avançada: pele mais fina, menor suporte subcutâneo e maior fragilidade venosa; maior risco de hematoma e ruptura.
- Desidratação/hipovolemia: veias menos preenchidas e colabáveis; palpação pode ser mais útil que a visão.
- Edema: dificulta visualização e palpação, aumenta distância até a veia e pode reduzir a estabilidade do cateter.
- Obesidade: veias podem ser profundas; palpação firme e técnica de “mapeamento” do trajeto ajudam.
- Vasoconstrição por frio/dor/ansiedade: reduz calibre; aquecimento e posicionamento podem melhorar.
Avaliação de fragilidade venosa, perfusão, edema, dor e integridade da pele
Fragilidade venosa: sinais práticos
- Veia fina e muito superficial com parede pouco resistente à palpação.
- Histórico de hematomas frequentes após punções.
- Veia que “rompe” facilmente ao aplicar garrote ou ao avançar o cateter.
- Pele atrófica e pouca elasticidade ao redor do sítio.
Conduta na seleção: priorizar veias do antebraço com trajeto retilíneo, evitar dorso da mão quando houver alternativa, reduzir manipulação e escolher o menor calibre de cateter compatível com a finalidade.
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Perfusão periférica
A perfusão influencia a segurança e a eficácia da infusão e também a confiabilidade de algumas coletas. Avalie sinais como temperatura do membro, coloração, tempo de enchimento capilar e presença de pulsos periféricos (quando aplicável). Em perfusão reduzida, veias podem colabar e aumentar falhas de punção; priorize regiões com melhor enchimento venoso e use estratégias de dilatação venosa.
Edema
- Edema importante pode dificultar localizar veias e aumentar risco de infiltração/extravasamento.
- Edema localizado próximo a lesão/inflamação sugere evitar a área.
Conduta: se possível, escolher membro sem edema. Se ambos os membros estiverem edemaciados, buscar veias mais proximais e palpáveis, e considerar necessidade de avaliação para outro tipo de acesso conforme protocolo institucional.
Dor e sensibilidade
Evite puncionar áreas com dor espontânea, hipersensibilidade, parestesias ou dor à palpação sem causa clara. Dor intensa durante a punção com irradiação sugere contato com nervo; interromper e selecionar outro sítio.
Integridade da pele
- Evitar pele com dermatite, fissuras, feridas, equimoses extensas, queimaduras, cicatrizes retraídas, áreas com sinais de infecção (calor, rubor, secreção) ou flebite prévia.
- Preferir pele íntegra, sem lesões e com boa fixação possível do curativo.
Como escolher o melhor sítio conforme finalidade e tempo de uso
Princípios de decisão
- Finalidade: infusão contínua/intermitente, coleta de exames, hemocultura.
- Tempo previsto de uso: acesso para uso breve versus necessidade de manter por mais tempo.
- Características do paciente: fragilidade venosa, comorbidades, edema, perfusão, dor, restrições de membro.
- Características da terapia: volume/velocidade, necessidade de maior calibre, potencial de irritação/vesicância (quando aplicável).
Seleção por finalidade
1) Infusão periférica (cateter venoso periférico)
- Preferir antebraço: melhor estabilidade, menor interferência de flexão, maior conforto e menor risco de oclusão por movimento.
- Evitar fossa antecubital quando o cateter precisará permanecer: flexão do cotovelo aumenta alarme de oclusão, infiltração e desconforto.
- Usar dorso da mão quando antebraço não é viável: considerar maior mobilidade e dor; reforçar estabilização do cateter e orientar limitação de movimentos finos quando possível.
2) Coleta de sangue (punção venosa)
- Fossa antecubital frequentemente oferece veias de maior calibre e fluxo, facilitando coleta rápida e com menor colapso venoso.
- Antebraço é alternativa quando fossa antecubital não é adequada ou há restrição local.
- Dorso da mão pode ser usado quando não há veias acessíveis em regiões mais proximais, mas tende a ser mais doloroso e com maior chance de hemólise se houver dificuldade técnica; priorize veias com bom enchimento e trajeto retilíneo.
3) Hemocultura
- Preferir punção venosa direta em veia com bom fluxo (frequentemente fossa antecubital ou antebraço), reduzindo manipulação e risco de coleta inadequada.
- Evitar áreas com inflamação/lesão e evitar coletar em membro com sinais de infecção local.
- Se houver cateter periférico recém-inserido, seguir protocolo institucional sobre possibilidade de coleta por acesso versus punção direta; quando a prioridade é reduzir contaminação, a punção direta costuma ser preferida.
Seleção por tempo previsto de uso
- Uso breve (ex.: medicação pontual, hidratação curta): pode-se aceitar sítios menos ideais se forem os únicos disponíveis, desde que seguros (pele íntegra, sem contraindicações, veia adequada).
- Uso prolongado (ex.: necessidade de manter acesso por turnos/dias): priorizar antebraço, veia com trajeto retilíneo, longe de articulações, com boa fixação possível e menor dor ao movimento.
Contraindicações e precauções na escolha do membro e do sítio
Evitar punção no membro (ou exigir avaliação criteriosa conforme protocolo)
- Fístula arteriovenosa (AV) para hemodiálise: não puncionar, não garrotear e não aferir pressão no membro com fístula/enxerto.
- Mastectomia com esvaziamento axilar: evitar punções no membro ipsilateral devido ao risco de linfedema e complicações; quando houver dúvida, confirmar com prescrição e protocolo institucional.
- Linfedema (presente ou prévio): evitar punção no membro afetado.
- Queimaduras e lesões extensas: evitar áreas comprometidas.
- Infecção local (celulite, abscesso, flebite): não puncionar na área e preferir outro membro/região.
- Membro com acesso arterial (ex.: cateter arterial) ou com restrição de membro documentada: evitar punção e garroteamento conforme orientação clínica.
- Trombose venosa suspeita/confirmada no membro: evitar punção no trajeto afetado e seguir avaliação médica.
Precauções por região
- Fossa antecubital: precaução por proximidade de artérias/nervos e por ser área de flexão; preferir para coleta pontual, não para manutenção prolongada de cateter.
- Próximo ao punho: maior mobilidade e desconforto; avaliar necessidade real e capacidade de estabilização.
- Áreas com equimose: não puncionar através de hematoma; escolher segmento íntegro.
Passo a passo prático: avaliação e seleção do melhor sítio
1) Triagem rápida de restrições e riscos
- Verificar se há fístula AV, histórico de mastectomia, linfedema, restrição de membro, infecção ou queimaduras.
- Inspecionar presença de edema importante, lesões de pele e sinais inflamatórios.
2) Definir a finalidade e o tempo de uso
- Infusão: priorizar antebraço e evitar articulações quando possível.
- Coleta: priorizar veias de bom fluxo (frequentemente fossa antecubital) se não houver contraindicação.
- Hemocultura: priorizar punção direta em veia com bom enchimento e pele íntegra, conforme protocolo.
- Estimar se o acesso precisa permanecer e por quanto tempo.
3) Posicionar o paciente para favorecer enchimento venoso
- Manter o membro abaixo do nível do coração por 30–60 segundos para aumentar enchimento venoso.
- Garantir apoio confortável do braço para reduzir tensão muscular (tensão reduz palpabilidade).
4) Inspeção dirigida por regiões (do proximal para o distal quando o objetivo é manter acesso)
- Para cateter: começar pelo antebraço (trajetos mais retilíneos e estáveis), depois considerar mão se necessário.
- Para coleta: avaliar fossa antecubital primeiro, depois antebraço e mão conforme necessidade.
5) Palpação técnica (sem termos vagos)
- Usar a polpa do dedo indicador/médio para percorrer o trajeto da veia por pelo menos 5–10 cm, identificando segmentos retilíneos.
- Avaliar turgor: comprimir suavemente e soltar; veia adequada retorna e mantém formato.
- Avaliar calibre: comparar segmentos; preferir o de maior diâmetro palpável e mais estável.
- Avaliar mobilidade: deslocar lateralmente com leve pressão; se “rola” excessivamente, considerar outra veia ou estabilização mais firme durante a punção.
6) Checar pele e conforto
- Confirmar pele íntegra e possibilidade de fixação do curativo sem tensão.
- Evitar áreas dolorosas à palpação e regiões com hipersensibilidade.
7) Escolher o sítio final com justificativa objetiva
Registrar mentalmente (ou em prontuário, conforme rotina) o motivo da escolha, por exemplo: Veia cefálica no terço médio do antebraço: trajeto retilíneo ~7 cm, bom turgor, sem edema, longe de articulação; prevista infusão por 24–48 h.
Estratégias para veias difíceis (aplicação prática)
Aquecimento local
- Aplicar compressa morna (temperatura confortável ao toque, sem risco de queimadura) por 5–10 minutos na região escolhida.
- Reavaliar visibilidade e palpação após o aquecimento; o calor promove vasodilatação e melhora enchimento.
Posicionamento e gravidade
- Manter braço dependente (abaixo do coração) por 1–2 minutos.
- Evitar elevação do membro antes da punção, pois reduz enchimento venoso.
Hidratação (quando aplicável)
- Se o paciente puder ingerir líquidos e não houver restrição, orientar ingestão de água com antecedência quando a coleta/punção for programada.
- Em ambiente hospitalar, considerar status volêmico e prescrição; em hipovolemia, a dificuldade pode persistir mesmo com técnicas locais.
Técnicas de palpação e “mapeamento”
- Palpar com pressão progressiva: iniciar leve e aumentar até identificar o “tubo” venoso sem causar dor.
- Marcar mentalmente o trajeto retilíneo e escolher ponto de entrada que permita avançar no sentido do fluxo venoso.
- Em veias móveis, estabilizar a pele tracionando distalmente ao ponto de punção para reduzir deslocamento da veia.
Seleção de veia alternativa com critérios claros
- Se a veia é visível, mas colaba à palpação, buscar uma veia com melhor turgor mesmo que menos visível.
- Se há edema distal, buscar segmento mais proximal com menor edema e melhor palpação.
- Se há dor importante em uma região, mudar de território venoso (ex.: do dorso da mão para antebraço) quando possível.
Exemplos de decisão clínica (cenários)
Cenário 1: infusão por 48 horas em idoso com pele fina
- Achados: veias do dorso da mão visíveis, porém finas e móveis; antebraço com veia cefálica palpável, trajeto retilíneo.
- Escolha: antebraço (veia cefálica/mediana do antebraço), por maior estabilidade e menor dor com movimento.
- Precaução: evitar múltiplas tentativas; priorizar veia com melhor turgor e pele íntegra.
Cenário 2: coleta de exames em adulto com boa rede venosa
- Achados: veia mediana cubital bem palpável na fossa antecubital, sem restrições.
- Escolha: fossa antecubital para coleta rápida e com bom fluxo.
Cenário 3: paciente com mastectomia prévia à direita e edema no braço direito
- Achados: restrição funcional do membro direito por risco de linfedema; edema presente.
- Escolha: membro esquerdo, preferindo antebraço para acesso venoso periférico, após avaliação de pele e perfusão.
Cenário 4: veias difíceis por vasoconstrição (membro frio)
- Achados: veias pouco visíveis e colabáveis.
- Conduta: aquecimento 5–10 min + braço dependente 1–2 min + palpação por trajeto; selecionar segmento com melhor turgor.