Anatomia aplicada e escolha de veias para punção venosa periférica em enfermagem

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Anatomia funcional para seleção do sítio

A escolha da veia para punção venosa periférica deve partir da anatomia funcional: onde a veia está, como ela se comporta com o movimento, qual o calibre disponível, e quais estruturas adjacentes aumentam risco (artérias, nervos, tendões). A seleção correta reduz falhas de punção, infiltração/extravasamento, dor e necessidade de múltiplas tentativas.

Rede venosa do membro superior: visão prática

Mão (dorso da mão): veias dorsais metacarpais e rede venosa dorsal. Em geral são mais superficiais e visíveis, porém com menor calibre e maior mobilidade. Sofrem mais com movimento e podem ser mais dolorosas. Úteis quando antebraço não está disponível ou quando se busca um acesso curto e de baixo fluxo.

Antebraço: veias cefálica (lateral/radial), basílica (medial/ulnar) e veias medianas do antebraço. Costumam oferecer melhor estabilidade e conforto, com menor interferência de flexão articular do que a fossa antecubital. Frequentemente é a melhor região para cateter periférico com tempo de uso maior.

Fossa antecubital: veia mediana cubital (comunicação entre cefálica e basílica), cefálica acessória e basílica proximal. Em geral são veias de maior calibre e fácil acesso, mas ficam em área de flexão, aumentando risco de oclusão do cateter, desconforto e infiltração com movimentação. É uma região frequentemente usada para coleta de sangue quando não há necessidade de manter cateter por tempo prolongado.

Estruturas adjacentes e implicações

  • Artérias: na fossa antecubital e antebraço há proximidade com artéria braquial e radial/ulnar. Pulsatilidade, dor intensa à punção e refluxo de sangue vermelho vivo sugerem punção arterial; interromper e aplicar compressão conforme protocolo institucional.
  • Nervos: nervos cutâneos superficiais podem estar próximos a veias do antebraço. Dor em choque, formigamento ou irradiação durante a punção sugere contato neural; interromper e escolher outro sítio.
  • Tendões e articulações: punções próximas a punho e fossa antecubital sofrem com movimento, aumentando falhas e infiltração.

Fatores que influenciam palpação e visibilidade

O que observar (visão) e o que confirmar (palpação)

  • Visibilidade: veias superficiais podem ser vistas, mas nem sempre são as melhores (podem ser finas, frágeis ou móveis). Iluminação adequada e posicionamento do membro ajudam.
  • Palpação: confirma calibre, trajeto e elasticidade. Uma veia adequada geralmente é compressível e retorna ao formato ao soltar (turgor), com trajeto relativamente retilíneo por alguns centímetros.
  • Mobilidade: veias muito móveis “escapam” ao tentar puncionar; são comuns no dorso da mão e em pacientes com pouco tecido subcutâneo.
  • Profundidade: veias profundas podem não ser visíveis, mas podem ser palpáveis como um “tubo” elástico. Exigem ângulo e controle de profundidade mais precisos.

Condições do paciente que alteram a avaliação

  • Idade avançada: pele mais fina, menor suporte subcutâneo e maior fragilidade venosa; maior risco de hematoma e ruptura.
  • Desidratação/hipovolemia: veias menos preenchidas e colabáveis; palpação pode ser mais útil que a visão.
  • Edema: dificulta visualização e palpação, aumenta distância até a veia e pode reduzir a estabilidade do cateter.
  • Obesidade: veias podem ser profundas; palpação firme e técnica de “mapeamento” do trajeto ajudam.
  • Vasoconstrição por frio/dor/ansiedade: reduz calibre; aquecimento e posicionamento podem melhorar.

Avaliação de fragilidade venosa, perfusão, edema, dor e integridade da pele

Fragilidade venosa: sinais práticos

  • Veia fina e muito superficial com parede pouco resistente à palpação.
  • Histórico de hematomas frequentes após punções.
  • Veia que “rompe” facilmente ao aplicar garrote ou ao avançar o cateter.
  • Pele atrófica e pouca elasticidade ao redor do sítio.

Conduta na seleção: priorizar veias do antebraço com trajeto retilíneo, evitar dorso da mão quando houver alternativa, reduzir manipulação e escolher o menor calibre de cateter compatível com a finalidade.

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Perfusão periférica

A perfusão influencia a segurança e a eficácia da infusão e também a confiabilidade de algumas coletas. Avalie sinais como temperatura do membro, coloração, tempo de enchimento capilar e presença de pulsos periféricos (quando aplicável). Em perfusão reduzida, veias podem colabar e aumentar falhas de punção; priorize regiões com melhor enchimento venoso e use estratégias de dilatação venosa.

Edema

  • Edema importante pode dificultar localizar veias e aumentar risco de infiltração/extravasamento.
  • Edema localizado próximo a lesão/inflamação sugere evitar a área.

Conduta: se possível, escolher membro sem edema. Se ambos os membros estiverem edemaciados, buscar veias mais proximais e palpáveis, e considerar necessidade de avaliação para outro tipo de acesso conforme protocolo institucional.

Dor e sensibilidade

Evite puncionar áreas com dor espontânea, hipersensibilidade, parestesias ou dor à palpação sem causa clara. Dor intensa durante a punção com irradiação sugere contato com nervo; interromper e selecionar outro sítio.

Integridade da pele

  • Evitar pele com dermatite, fissuras, feridas, equimoses extensas, queimaduras, cicatrizes retraídas, áreas com sinais de infecção (calor, rubor, secreção) ou flebite prévia.
  • Preferir pele íntegra, sem lesões e com boa fixação possível do curativo.

Como escolher o melhor sítio conforme finalidade e tempo de uso

Princípios de decisão

  • Finalidade: infusão contínua/intermitente, coleta de exames, hemocultura.
  • Tempo previsto de uso: acesso para uso breve versus necessidade de manter por mais tempo.
  • Características do paciente: fragilidade venosa, comorbidades, edema, perfusão, dor, restrições de membro.
  • Características da terapia: volume/velocidade, necessidade de maior calibre, potencial de irritação/vesicância (quando aplicável).

Seleção por finalidade

1) Infusão periférica (cateter venoso periférico)

  • Preferir antebraço: melhor estabilidade, menor interferência de flexão, maior conforto e menor risco de oclusão por movimento.
  • Evitar fossa antecubital quando o cateter precisará permanecer: flexão do cotovelo aumenta alarme de oclusão, infiltração e desconforto.
  • Usar dorso da mão quando antebraço não é viável: considerar maior mobilidade e dor; reforçar estabilização do cateter e orientar limitação de movimentos finos quando possível.

2) Coleta de sangue (punção venosa)

  • Fossa antecubital frequentemente oferece veias de maior calibre e fluxo, facilitando coleta rápida e com menor colapso venoso.
  • Antebraço é alternativa quando fossa antecubital não é adequada ou há restrição local.
  • Dorso da mão pode ser usado quando não há veias acessíveis em regiões mais proximais, mas tende a ser mais doloroso e com maior chance de hemólise se houver dificuldade técnica; priorize veias com bom enchimento e trajeto retilíneo.

3) Hemocultura

  • Preferir punção venosa direta em veia com bom fluxo (frequentemente fossa antecubital ou antebraço), reduzindo manipulação e risco de coleta inadequada.
  • Evitar áreas com inflamação/lesão e evitar coletar em membro com sinais de infecção local.
  • Se houver cateter periférico recém-inserido, seguir protocolo institucional sobre possibilidade de coleta por acesso versus punção direta; quando a prioridade é reduzir contaminação, a punção direta costuma ser preferida.

Seleção por tempo previsto de uso

  • Uso breve (ex.: medicação pontual, hidratação curta): pode-se aceitar sítios menos ideais se forem os únicos disponíveis, desde que seguros (pele íntegra, sem contraindicações, veia adequada).
  • Uso prolongado (ex.: necessidade de manter acesso por turnos/dias): priorizar antebraço, veia com trajeto retilíneo, longe de articulações, com boa fixação possível e menor dor ao movimento.

Contraindicações e precauções na escolha do membro e do sítio

Evitar punção no membro (ou exigir avaliação criteriosa conforme protocolo)

  • Fístula arteriovenosa (AV) para hemodiálise: não puncionar, não garrotear e não aferir pressão no membro com fístula/enxerto.
  • Mastectomia com esvaziamento axilar: evitar punções no membro ipsilateral devido ao risco de linfedema e complicações; quando houver dúvida, confirmar com prescrição e protocolo institucional.
  • Linfedema (presente ou prévio): evitar punção no membro afetado.
  • Queimaduras e lesões extensas: evitar áreas comprometidas.
  • Infecção local (celulite, abscesso, flebite): não puncionar na área e preferir outro membro/região.
  • Membro com acesso arterial (ex.: cateter arterial) ou com restrição de membro documentada: evitar punção e garroteamento conforme orientação clínica.
  • Trombose venosa suspeita/confirmada no membro: evitar punção no trajeto afetado e seguir avaliação médica.

Precauções por região

  • Fossa antecubital: precaução por proximidade de artérias/nervos e por ser área de flexão; preferir para coleta pontual, não para manutenção prolongada de cateter.
  • Próximo ao punho: maior mobilidade e desconforto; avaliar necessidade real e capacidade de estabilização.
  • Áreas com equimose: não puncionar através de hematoma; escolher segmento íntegro.

Passo a passo prático: avaliação e seleção do melhor sítio

1) Triagem rápida de restrições e riscos

  • Verificar se há fístula AV, histórico de mastectomia, linfedema, restrição de membro, infecção ou queimaduras.
  • Inspecionar presença de edema importante, lesões de pele e sinais inflamatórios.

2) Definir a finalidade e o tempo de uso

  • Infusão: priorizar antebraço e evitar articulações quando possível.
  • Coleta: priorizar veias de bom fluxo (frequentemente fossa antecubital) se não houver contraindicação.
  • Hemocultura: priorizar punção direta em veia com bom enchimento e pele íntegra, conforme protocolo.
  • Estimar se o acesso precisa permanecer e por quanto tempo.

3) Posicionar o paciente para favorecer enchimento venoso

  • Manter o membro abaixo do nível do coração por 30–60 segundos para aumentar enchimento venoso.
  • Garantir apoio confortável do braço para reduzir tensão muscular (tensão reduz palpabilidade).

4) Inspeção dirigida por regiões (do proximal para o distal quando o objetivo é manter acesso)

  • Para cateter: começar pelo antebraço (trajetos mais retilíneos e estáveis), depois considerar mão se necessário.
  • Para coleta: avaliar fossa antecubital primeiro, depois antebraço e mão conforme necessidade.

5) Palpação técnica (sem termos vagos)

  • Usar a polpa do dedo indicador/médio para percorrer o trajeto da veia por pelo menos 5–10 cm, identificando segmentos retilíneos.
  • Avaliar turgor: comprimir suavemente e soltar; veia adequada retorna e mantém formato.
  • Avaliar calibre: comparar segmentos; preferir o de maior diâmetro palpável e mais estável.
  • Avaliar mobilidade: deslocar lateralmente com leve pressão; se “rola” excessivamente, considerar outra veia ou estabilização mais firme durante a punção.

6) Checar pele e conforto

  • Confirmar pele íntegra e possibilidade de fixação do curativo sem tensão.
  • Evitar áreas dolorosas à palpação e regiões com hipersensibilidade.

7) Escolher o sítio final com justificativa objetiva

Registrar mentalmente (ou em prontuário, conforme rotina) o motivo da escolha, por exemplo: Veia cefálica no terço médio do antebraço: trajeto retilíneo ~7 cm, bom turgor, sem edema, longe de articulação; prevista infusão por 24–48 h.

Estratégias para veias difíceis (aplicação prática)

Aquecimento local

  • Aplicar compressa morna (temperatura confortável ao toque, sem risco de queimadura) por 5–10 minutos na região escolhida.
  • Reavaliar visibilidade e palpação após o aquecimento; o calor promove vasodilatação e melhora enchimento.

Posicionamento e gravidade

  • Manter braço dependente (abaixo do coração) por 1–2 minutos.
  • Evitar elevação do membro antes da punção, pois reduz enchimento venoso.

Hidratação (quando aplicável)

  • Se o paciente puder ingerir líquidos e não houver restrição, orientar ingestão de água com antecedência quando a coleta/punção for programada.
  • Em ambiente hospitalar, considerar status volêmico e prescrição; em hipovolemia, a dificuldade pode persistir mesmo com técnicas locais.

Técnicas de palpação e “mapeamento”

  • Palpar com pressão progressiva: iniciar leve e aumentar até identificar o “tubo” venoso sem causar dor.
  • Marcar mentalmente o trajeto retilíneo e escolher ponto de entrada que permita avançar no sentido do fluxo venoso.
  • Em veias móveis, estabilizar a pele tracionando distalmente ao ponto de punção para reduzir deslocamento da veia.

Seleção de veia alternativa com critérios claros

  • Se a veia é visível, mas colaba à palpação, buscar uma veia com melhor turgor mesmo que menos visível.
  • Se há edema distal, buscar segmento mais proximal com menor edema e melhor palpação.
  • Se há dor importante em uma região, mudar de território venoso (ex.: do dorso da mão para antebraço) quando possível.

Exemplos de decisão clínica (cenários)

Cenário 1: infusão por 48 horas em idoso com pele fina

  • Achados: veias do dorso da mão visíveis, porém finas e móveis; antebraço com veia cefálica palpável, trajeto retilíneo.
  • Escolha: antebraço (veia cefálica/mediana do antebraço), por maior estabilidade e menor dor com movimento.
  • Precaução: evitar múltiplas tentativas; priorizar veia com melhor turgor e pele íntegra.

Cenário 2: coleta de exames em adulto com boa rede venosa

  • Achados: veia mediana cubital bem palpável na fossa antecubital, sem restrições.
  • Escolha: fossa antecubital para coleta rápida e com bom fluxo.

Cenário 3: paciente com mastectomia prévia à direita e edema no braço direito

  • Achados: restrição funcional do membro direito por risco de linfedema; edema presente.
  • Escolha: membro esquerdo, preferindo antebraço para acesso venoso periférico, após avaliação de pele e perfusão.

Cenário 4: veias difíceis por vasoconstrição (membro frio)

  • Achados: veias pouco visíveis e colabáveis.
  • Conduta: aquecimento 5–10 min + braço dependente 1–2 min + palpação por trajeto; selecionar segmento com melhor turgor.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao escolher um sítio para manter um cateter venoso periférico por 24–48 horas, qual conduta é mais adequada para reduzir o risco de oclusão, infiltração e desconforto relacionados ao movimento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para manter o cateter por mais tempo, o antebraço costuma ser a melhor região por ter veias mais estáveis e com menor interferência de flexões articulares, reduzindo oclusão, infiltração e desconforto.

Próximo capitúlo

Materiais e preparação do procedimento de punção venosa periférica e coleta de sangue

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