Ritmos ventriculares e paradas: alerta no ECG e prioridade de ação pela enfermagem

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Por que ritmos ventriculares e paradas são “alerta máximo” no monitor

Ritmos ventriculares rápidos e ritmos de parada são emergências tempo-dependentes. No ECG, eles podem aparecer de forma abrupta e, em poucos segundos, evoluir para instabilidade hemodinâmica grave ou parada cardiorrespiratória. Para a enfermagem, a prioridade é dupla: (1) reconhecer o padrão no traçado e (2) correlacionar imediatamente com o paciente (consciência, respiração e pulso), evitando atrasos por interpretação isolada do monitor.

Regra prática: sempre que o monitor “gritar” um ritmo potencialmente letal, a primeira confirmação é clínica: olhar o paciente, avaliar responsividade, respiração e pulso central (carotídeo/femoral) por no máximo 10 segundos, enquanto alguém aciona ajuda.

Diferenciar artefato de ritmo letal: o que salva tempo (e evita erro)

Mesmo com capítulos prévios sobre qualidade do traçado, aqui o foco é a tomada de decisão em cenário crítico: não tratar o monitor, tratar o paciente. Artefatos podem simular taquicardia ventricular (TV) ou fibrilação ventricular (FV), e a diferença muda completamente a conduta.

Sinais de alerta para artefato (suspeite antes de desfibrilar)

  • Paciente acordado, falando e com pulso regular apesar do traçado “caótico”.
  • Oximetria com curva pletismográfica regular e frequência compatível com pulso palpado, enquanto o ECG mostra “FV/TV”.
  • Traçado muito “tremido” associado a calafrios, tremores, movimentação, manipulação do leito, fisioterapia, higiene, transporte.
  • QRS verdadeiros “aparecendo por baixo” do ruído (às vezes visíveis em uma derivação e não em outra).

Como confirmar rapidamente

  • Checar pulso central e nível de consciência.
  • Olhar a pletismografia (se disponível) e comparar com o ritmo do pulso.
  • Se houver tempo e o paciente estiver estável: verificar cabos/eletrodos e trocar derivação no monitor para melhor visualização.

Importante: se o paciente estiver inconsciente, sem respiração normal e sem pulso, trate como parada independentemente de dúvida sobre artefato.

Taquicardia Ventricular (TV): reconhecimento rápido e conduta inicial

Conceito: TV é um ritmo rápido originado nos ventrículos, geralmente com QRS largo e frequência elevada. Pode ser monomórfica (morfologia semelhante batimento a batimento) ou polimórfica (morfologia variável). Pode ocorrer com pulso (instável ou estável) ou sem pulso (parada).

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TV monomórfica (com pulso): como reconhecer no monitor

  • Ritmo regular na maioria das vezes.
  • QRS largo e com morfologia semelhante em sequência.
  • Ondas P podem não ser visíveis; pode haver dissociação AV (nem sempre perceptível em monitorização).

TV polimórfica: como reconhecer

  • QRS largo com morfologia variando batimento a batimento.
  • Ritmo pode parecer irregular e “instável” no traçado.
  • Maior risco de degenerar para FV.

Passo a passo prático: TV no monitor

  1. Confirme o paciente: responsivo? respira? tem pulso central? (≤10 s).
  2. Acione ajuda imediatamente: equipe de resposta rápida/suporte avançado conforme fluxo institucional.
  3. Classifique pela clínica:
    • TV com pulso e instabilidade (ex.: hipotensão, rebaixamento de consciência, dor torácica isquêmica, sinais de choque, edema agudo de pulmão): priorize preparo para cardioversão sincronizada conforme protocolo e prescrição médica; enfermagem prepara ambiente, monitorização, acesso, oxigênio, medicações conforme rotina.
    • TV com pulso e estável: manter monitorização contínua, oxigênio se indicado, acesso venoso pérvio, coleta de exames conforme prescrição, preparar medicações antiarrítmicas conforme protocolo institucional e orientação médica; manter desfibrilador disponível.
    • TV sem pulso: tratar como parada (ver seção de ritmos de parada).
  4. Prepare o desfibrilador: ligar, checar modo (sincronizado se cardioversão; não sincronizado se desfibrilação), posicionar pás/adesivos e garantir segurança (ninguém tocando no paciente no momento do choque).
  5. Documente em tempo real: horário de início do evento, ritmo observado, sinais clínicos, intervenções, choques/energia, medicações administradas e resposta.

Torsades de Pointes: quando suspeitar e por que o QT importa

Conceito: torsades de pointes é uma forma de taquicardia ventricular polimórfica associada a QT prolongado. No traçado, o QRS “gira” em torno da linha de base, com amplitude que aumenta e diminui, dando aspecto de “torção”. Pode ser autolimitada ou evoluir para FV.

Como suspeitar pelo QT prolongado (alerta de risco)

Na prática de enfermagem, a suspeita surge quando há QT visivelmente prolongado em ECG recente/monitor e o paciente apresenta episódios de tontura, síncope, palpitações ou “taquicardias em salvas”. Situações comuns que aumentam risco:

  • Uso de fármacos que prolongam QT (ex.: alguns antiarrítmicos, antibióticos como macrolídeos/fluoroquinolonas, antipsicóticos, antieméticos como ondansetrona, entre outros conforme lista institucional).
  • Distúrbios eletrolíticos (hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia).
  • Bradicardia e pausas (podem “facilitar” torsades em QT longo).

Ponto de segurança: se houver torsades suspeita/confirmada, priorize acionar equipe avançada e checar rapidamente fatores reversíveis (eletrólitos, medicações em uso) conforme prescrição e protocolos.

Passo a passo prático: torsades no monitor

  1. Avalie paciente (consciência, respiração, pulso).
  2. Acione resposta rápida/suporte avançado.
  3. Se houver pulso e instabilidade: preparar para intervenção elétrica conforme protocolo (muitas vezes cardioversão/desfibrilação dependendo do cenário e orientação médica).
  4. Se não houver pulso: tratar como parada com ritmo chocável (FV/TV sem pulso).
  5. Antecipe correções conforme prescrição/protocolo: magnésio é frequentemente indicado em torsades; enfermagem deve preparar administração segura, monitorar efeitos e registrar.
  6. Revise causas: lista de medicamentos que prolongam QT, reposição de K/Mg/Ca conforme prescrição, e comunicar achados ao time.

Fibrilação Ventricular (FV): ritmo chocável e prioridade absoluta

Conceito: FV é atividade elétrica ventricular caótica, sem contração mecânica efetiva. No ECG, não há QRS organizados; o traçado é irregular, com ondas de amplitude variável. Clinicamente, é parada cardiorrespiratória até prova em contrário.

Reconhecimento no ECG

  • Ausência de complexos QRS identificáveis.
  • Traçado desorganizado, sem linha de base estável.
  • Em alguns casos, pode ser “fina” (baixa amplitude) e confundir com assistolia; sempre correlacionar e checar derivações.

Passo a passo prático: FV no monitor

  1. Checar responsividade e respiração; checar pulso central (≤10 s).
  2. Acionar imediatamente equipe de resposta rápida/suporte avançado e pedir o carrinho de emergência/desfibrilador.
  3. Iniciar RCP de alta qualidade conforme protocolo institucional enquanto o desfibrilador é preparado.
  4. Desfibrilar assim que disponível (ritmo chocável), seguindo energia e sequência do protocolo local.
  5. Retomar RCP imediatamente após o choque, minimizando pausas.
  6. Reavaliar ritmo/pulso nos ciclos previstos pelo protocolo e seguir algoritmo institucional.
  7. Registrar horários, ritmos, choques, energia, medicações, via de administração e resposta clínica.

Assistolia: confirmar antes de declarar “linha reta”

Conceito: assistolia é ausência de atividade elétrica ventricular detectável. No monitor, aparece como linha quase reta, podendo haver pequenas oscilações por ruído. É um ritmo não chocável.

Cuidados para não confundir assistolia com problema técnico

  • Verificar se há cabos desconectados ou eletrodos soltos.
  • Checar ganho e derivação no monitor (às vezes uma derivação “some” e outra mostra atividade).
  • Confirmar em mais de uma derivação quando possível, sem atrasar conduta se o paciente estiver em parada.

Passo a passo prático: assistolia

  1. Avaliar paciente: inconsciente? sem respiração normal? sem pulso central? (≤10 s).
  2. Acionar equipe e iniciar RCP imediatamente conforme protocolo.
  3. Não desfibrilar assistolia (não chocável); foco em RCP e causas reversíveis conforme time avançado.
  4. Garantir suporte: oxigenação/ventilação conforme recursos e protocolo, acesso venoso pérvio, preparar medicações conforme prescrição.
  5. Registrar ritmo inicial, horários, intervenções e evolução.

Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP/PEA): o ECG “parece vivo”, o paciente não

Conceito: AESP é a presença de atividade elétrica organizada no ECG (pode parecer ritmo sinusal, bradicardia, taquicardia, QRS largo etc.) sem pulso palpável. É um ritmo não chocável. O erro comum é “se tranquilizar” com um traçado organizado e atrasar RCP.

Como reconhecer na prática

  • Monitor mostra ritmo organizado (com QRS), mas o paciente está inconsciente, apneico ou com respiração agônica e sem pulso central.
  • Pressão arterial não mensurável ou sinais claros de choque profundo.

Passo a passo prático: AESP

  1. Confirmar ausência de pulso (≤10 s) apesar do ritmo no monitor.
  2. Acionar ajuda e iniciar RCP imediatamente conforme protocolo.
  3. Não desfibrilar AESP (não chocável); foco em RCP e identificação de causas reversíveis pelo time.
  4. Antecipar investigação conforme prescrição e recursos: checar acesso, oxigenação, glicemia capilar se indicado, revisar perdas/hemorragia, sinais de trombose/TEP, pneumotórax, tamponamento, distúrbios metabólicos.
  5. Registrar ritmo observado, ausência de pulso, intervenções e tempos.

Ritmos de parada: classificação rápida para decisão (chocável vs não chocável)

RitmoECG típicoPulsoClassificaçãoPrioridade imediata
FVCaótico, sem QRS organizadosAusenteChocávelRCP + desfibrilação precoce
TV sem pulsoQRS largo rápido, organizadoAusenteChocávelRCP + desfibrilação precoce
AssistoliaLinha quase reta (confirmar)AusenteNão chocávelRCP + causas reversíveis
AESPRitmo organizado sem pulsoAusenteNão chocávelRCP + causas reversíveis

Checklist de resposta imediata pela enfermagem (segurança do paciente)

1) Reconhecer e correlacionar

  • Olhar o paciente antes de “confiar” no traçado.
  • Avaliar: consciência, respiração, pulso central (≤10 s).
  • Se dúvida entre artefato e ritmo letal: priorizar avaliação clínica e pletismografia.

2) Acionar recursos sem atraso

  • Acionar equipe de resposta rápida/suporte avançado conforme fluxo local.
  • Solicitar carrinho de emergência e desfibrilador imediatamente.
  • Delegar funções quando possível (compressões, ventilação, preparo de medicações, registro).

3) Preparar desfibrilador e ambiente

  • Ligar o equipamento, checar bateria e cabos.
  • Colocar adesivos/pás corretamente e garantir pele seca (remover excesso de umidade/cremes quando aplicável).
  • Garantir segurança do choque: anunciar e confirmar “ninguém toca” antes de desfibrilar/cardioversão.

4) Executar medidas conforme protocolos institucionais

  • Em ritmos chocáveis: desfibrilação precoce + RCP de alta qualidade, minimizando pausas.
  • Em ritmos não chocáveis: RCP imediata e suporte para busca/tratamento de causas reversíveis pelo time.
  • Manter oxigenação/ventilação conforme recursos e prescrição, acesso venoso pérvio e preparo de medicações conforme orientação.

5) Registro objetivo do evento (padrão de qualidade e segurança)

O registro deve ser cronológico, objetivo e verificável. Itens essenciais:

  • Horário de início do evento e ritmo inicial identificado.
  • Achados clínicos: responsividade, respiração, pulso, pressão (se disponível).
  • Intervenções: início de RCP, desfibrilações/cardioversões (energia e número), medicações (dose, via, horário), via aérea/oxigênio.
  • Resposta: retorno de circulação espontânea (quando ocorrer), mudanças de ritmo, sinais vitais.
  • Profissionais acionados e chegada do time avançado.

Exemplos práticos de tomada de decisão (cenários rápidos)

Cenário 1: “FV” no monitor, paciente conversando

Monitor mostra traçado caótico. Paciente está acordado, orientado, com saturação estável e pletismografia regular.

  • Interpretação provável: artefato (tremor/movimento/cabo).
  • Ação: checar pulso, confirmar estabilidade, corrigir fonte do artefato e manter vigilância. Não iniciar protocolo de choque sem correlação clínica.

Cenário 2: TV monomórfica no monitor, paciente pálido e confuso

Traçado com QRS largo regular e frequência alta. Paciente com rebaixamento de consciência e hipotensão.

  • Interpretação: TV com pulso e instabilidade.
  • Ação: acionar resposta rápida, preparar cardioversão sincronizada conforme protocolo, oxigênio, acesso venoso, monitorização contínua e registro.

Cenário 3: Ritmo organizado no monitor, paciente inconsciente e sem pulso

Monitor mostra complexos QRS, mas não há pulso carotídeo e respiração é agônica.

  • Interpretação: AESP até prova em contrário.
  • Ação: iniciar RCP imediatamente, acionar equipe avançada, seguir protocolo de ritmo não chocável e apoiar busca de causas reversíveis.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao identificar no monitor um traçado que sugere um ritmo potencialmente letal (ex.: FV/TV), qual é a primeira conduta prioritária da enfermagem para evitar atrasos por interpretação isolada do ECG?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Ritmos ventriculares e paradas são tempo-dependentes. A prioridade inicial é confirmar clinicamente (consciência, respiração e pulso central em ≤10 s) e acionar ajuda, evitando tratar apenas o monitor e confundindo artefato com ritmo letal.

Próximo capitúlo

Sinais de alerta no ECG e monitorização: quando acionar suporte avançado e como comunicar

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