Ritmo sinusal no ECG: critérios, variações e achados esperados na monitorização

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é ritmo sinusal na monitorização

Ritmo sinusal é o ritmo cardíaco originado no nó sinoatrial (SA), com condução atrial e ventricular esperada. Na prática da enfermagem, reconhecer ritmo sinusal significa identificar um padrão “organizado” e compatível com ativação atrial antes de cada ativação ventricular, com regularidade global e frequência dentro de um intervalo coerente com o contexto clínico.

Importante: “sinusal” descreve a origem do impulso, não garante estabilidade clínica. Um paciente pode estar em ritmo sinusal e ainda assim estar em choque, hipóxico, com dor intensa ou com isquemia.

Critérios de ritmo sinusal (o que precisa estar presente)

Critérios essenciais no traçado (monitor/derivação única)

  • Onda P presente e consistente: morfologia semelhante batimento a batimento.
  • Relação 1:1: cada onda P é seguida por um QRS (condução atrioventricular preservada).
  • Intervalo PR constante: sem variações progressivas ou batimentos “perdidos” (no monitor, avalie se o PR parece estável).
  • Ritmo globalmente regular: intervalos R–R regulares, admitindo pequena variação fisiológica na arritmia sinusal respiratória.
  • QRS estreito na maioria dos casos: compatível com condução intraventricular usual. (QRS alargado pode ocorrer por bloqueio de ramo prévio; ainda pode ser sinusal, mas exige correlação e, em geral, ECG de 12 derivações para caracterização.)

Como considerar “normal” no contexto clínico

Em adultos, frequentemente considera-se “normal” quando a frequência está entre 60–100 bpm e o paciente está hemodinamicamente estável, com perfusão adequada e sem sinais de sofrimento. Porém, o “normal” depende do cenário: atletas podem ter bradicardia sinusal assintomática; pacientes sépticos podem ter taquicardia sinusal como resposta compensatória.

Na enfermagem, a pergunta prática é: o ritmo sinusal está coerente com o estado clínico e os sinais vitais? Se não estiver, priorize avaliação clínica e investigação de causa antes de “rotular” como achado benigno.

Variações comuns do ritmo sinusal e causas frequentes no ambiente assistencial

1) Arritmia sinusal respiratória

Variação fisiológica do intervalo R–R relacionada ao ciclo respiratório: a frequência tende a aumentar na inspiração e reduzir na expiração. É mais comum em jovens e pode aparecer em adultos, especialmente em repouso.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Como reconhecer no monitor: ondas P mantêm morfologia sinusal e relação 1:1 com QRS, mas o R–R “encurta e alonga” de forma cíclica.
  • Quando costuma ser esperada: paciente tranquilo, sem sinais de instabilidade, saturação adequada, sem dor importante.
  • Quando não assumir que é apenas fisiológica: se houver sintomas (tontura, síncope, dispneia), queda de pressão, alteração de consciência, ou se a irregularidade for marcada e não cíclica (pensar em outras causas de irregularidade).

2) Taquicardia sinusal

Ritmo sinusal com frequência > 100 bpm. Em ambiente assistencial, muitas vezes é um sinal de demanda aumentada ou estresse fisiológico, e não um “problema elétrico primário”.

Causas frequentes (avaliar ativamente):

  • Dor (pós-operatório, trauma, procedimentos).
  • Febre (infecção, reação transfusional).
  • Hipovolemia (sangramento, desidratação, diurese excessiva, vômitos/diarreia).
  • Hipóxia (piora respiratória, atelectasia, broncoespasmo, desconexão de O2).
  • Ansiedade/agitação.
  • Medicações/substâncias: beta-agonistas (ex.: broncodilatadores), catecolaminas, anticolinérgicos; retirada de beta-bloqueador pode contribuir.

Pontos de atenção: taquicardia sinusal persistente em repouso, especialmente > 120–130 bpm, deve acender alerta para causa subjacente e necessidade de reavaliação clínica e, muitas vezes, ECG de 12 derivações para descartar outras taquiarritmias ou isquemia.

3) Bradicardia sinusal

Ritmo sinusal com frequência < 60 bpm. Pode ser fisiológica (sono, condicionamento físico) ou associada a causas clínicas/iatrogênicas.

Causas frequentes (avaliar contexto):

  • Medicações: beta-bloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio não diidropiridínicos, digoxina, amiodarona, sedativos/opioides (por depressão respiratória/hipóxia associada).
  • Hipóxia e apneia.
  • Hipotermia.
  • Aumento de tônus vagal (vômitos, aspiração, dor visceral, manobras vagais, sucção traqueal).
  • Isquemia (especialmente se associada a dor torácica, sudorese, náuseas, hipotensão).

Ponto prático: bradicardia sinusal pode ser bem tolerada se PA e perfusão estiverem preservadas. Se houver sinais de baixa perfusão, a prioridade é avaliação clínica imediata e comunicação rápida com a equipe médica.

Passo a passo prático na monitorização: reconhecer e checar coerência clínica

Passo 1 — Confirmar que o traçado é interpretável

  • Verifique se há onda P visível e se o traçado não está “enganando” por interferência.
  • Se a onda P não aparece bem no monitor, considere ajustar ganho/velocidade do monitor (se disponível) e escolher a derivação de monitorização que melhor evidencia P (muitas vezes DII).

Passo 2 — Checar critérios de sinusal

  • Identifique P antes de cada QRS.
  • Observe se PR parece constante.
  • Veja se o ritmo é regular ou com variação cíclica compatível com respiração.

Passo 3 — Classificar a frequência e nomear a variação

  • 60–100 bpm: ritmo sinusal (se demais critérios presentes).
  • > 100 bpm: taquicardia sinusal.
  • < 60 bpm: bradicardia sinusal.
  • Irregularidade cíclica com P sinusal: arritmia sinusal respiratória.

Passo 4 — Priorizar avaliação clínica antes de concluir sobre “normalidade”

Antes de registrar “ritmo sinusal normal”, confirme se o paciente está estável e se a frequência faz sentido para o quadro. Use um mini-checklist:

  • Consciência: alerta? sonolento? confuso?
  • Perfusão: pele fria? enchimento capilar lento? extremidades pálidas?
  • Pressão arterial: hipotensão ou queda em relação ao basal?
  • Respiração e SpO2: dispneia? dessaturação? uso de musculatura acessória?
  • Temperatura: febre?
  • Dor: escala de dor e resposta a analgesia.
  • Diurese e balanço hídrico: sinais de hipovolemia?
  • Medicações recentes: broncodilatadores, vasopressores, beta-bloqueadores, sedação, opioides.

Quando registrar ECG de 12 derivações (orientação prática)

O monitor é excelente para tendência e detecção, mas o ECG de 12 derivações é indicado quando é preciso caracterizar melhor o ritmo, condução e possíveis alterações isquêmicas.

  • Taquicardia sinusal persistente sem causa evidente após avaliação inicial (dor/febre/hipóxia/hipovolemia).
  • Bradicardia sinusal com sintomas ou sinais de baixa perfusão (tontura, síncope, hipotensão, alteração do nível de consciência, dor torácica, dispneia).
  • Suspeita de isquemia: dor torácica, equivalentes anginosos, sudorese, náuseas, ou alterações novas no monitor.
  • QRS alargado novo ou mudança importante do padrão do QRS no monitor.
  • Alteração súbita do ritmo ou dúvida diagnóstica (ex.: taquicardia sinusal vs outra taquicardia supraventricular).
  • Antes e após intervenções relevantes quando solicitado/protocolo local (ex.: ajuste de drogas cronotrópicas, pós-cardioversão, pós-evento).

Como documentar na enfermagem: o que registrar de forma útil

Elementos mínimos recomendados

  • Data/hora e leito/local.
  • Ritmo: “ritmo sinusal”, “taquicardia sinusal”, “bradicardia sinusal” ou “arritmia sinusal respiratória”.
  • Frequência (bpm) e se houve variação/tendência (ex.: “FC 118–125 bpm nas últimas 30 min”).
  • Regularidade: regular/irregular cíclica.
  • PA, SpO2, FR, T no momento do achado (ou imediatamente após).
  • Sintomas e exame rápido: dor (local/escala), dispneia, palidez, sudorese, nível de consciência.
  • Possíveis gatilhos: febre, sangramento, vômitos, aspiração, sucção traqueal, mobilização, broncodilatador recente, início/ajuste de sedação.
  • Condutas realizadas: analgesia, antitérmico, ajuste de O2, reposicionamento, checagem de acesso, coleta de glicemia se indicado, comunicação com equipe.
  • Resposta: mudança de FC e sinais vitais após intervenção (ex.: “após analgesia, FC reduziu para 96 bpm”).

Exemplos de frases de registro (prontas para evoluir)

  • Monitor: ritmo sinusal, FC 82 bpm, regular. PA 118/72, SpO2 97% em AA, FR 16, afebril. Assintomático.
  • Monitor: taquicardia sinusal, FC 124 bpm persistente. PA 104/66, SpO2 92% em O2 2 L/min, FR 24, T 38,5°C. Refere calafrios e dispneia leve. Realizado ajuste de O2 e comunicado enfermeiro/médico; solicitado ECG 12 derivações conforme protocolo.
  • Monitor: bradicardia sinusal, FC 48 bpm. PA 86/54, pele fria, sonolento. SpO2 89%. Priorizada avaliação ABC, aumento de O2, checagem de glicemia e medicações recentes; equipe médica acionada imediatamente; ECG 12 derivações realizado.

Parâmetros para acompanhar em ritmo sinusal (monitorização contínua)

  • Tendência de FC: subida/queda progressiva pode preceder deterioração clínica.
  • PA e perfusão: correlação entre frequência e estabilidade hemodinâmica.
  • SpO2 e FR: hipóxia é causa comum de taquicardia e também pode precipitar bradicardia em deterioração.
  • Temperatura: febre sustentando taquicardia.
  • Dor e agitação: avaliar antes de interpretar taquicardia como “apenas do ritmo”.
  • Balanço hídrico/diurese: pistas de hipovolemia.
  • Medicações com efeito cronotrópico: horário da última dose e mudanças recentes.

Situações em que a enfermagem deve priorizar avaliação clínica e sinais vitais antes de concluir sobre o traçado

Cenário 1 — Taquicardia sinusal “explicável” por dor, mas com sinais de gravidade

Paciente pós-operatório com FC 120 bpm e queixa de dor 8/10. Mesmo que o traçado seja sinusal, verifique PA, SpO2, sangramento no curativo/drenos, nível de consciência e diurese. Taquicardia pode ser dor, mas também pode ser hipovolemia por sangramento. Priorize sinais vitais e avaliação do sítio cirúrgico antes de registrar como “apenas dor”.

Cenário 2 — Taquicardia sinusal com dessaturação

Paciente em enfermaria com FC 115 bpm e SpO2 caindo de 96% para 90%. Antes de concluir “taquicardia sinusal”, avalie via aérea, padrão respiratório, ausculta se aplicável, posicionamento, oferta de O2 e dispositivo. A correção da hipóxia pode normalizar a FC; se persistir, registrar e comunicar.

Cenário 3 — Bradicardia sinusal após medicação/sedação

Paciente sedado com FC 52 bpm e sonolência acentuada. Priorize avaliação de ventilação (FR, padrão, SpO2), nível de sedação, pupilas, e revisão de medicações recentes (opioides/sedativos). Bradicardia pode ser marcador de depressão respiratória/hipóxia ou efeito farmacológico relevante.

Cenário 4 — Arritmia sinusal respiratória vs irregularidade não fisiológica

Se a irregularidade não acompanha o padrão respiratório, se há pausas, batimentos “faltando” ou sintomas, não rotule como arritmia respiratória. Cheque sinais vitais, reavalie o traçado e considere ECG de 12 derivações para esclarecer.

Cenário 5 — Ritmo sinusal com hipotensão

Paciente em ritmo sinusal a 90 bpm, porém PA 80/50 e pele fria. O ritmo não explica a instabilidade. Priorize abordagem clínica (perfusão, sangramento, sepse, anafilaxia, desidratação, causas obstrutivas), notifique equipe e registre o contexto completo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na monitorização, qual achado no traçado é mais compatível com arritmia sinusal respiratória (e não com outra irregularidade)?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A arritmia sinusal respiratória mantém critérios de ritmo sinusal (onda P consistente e relação 1:1 com QRS), mas apresenta variação cíclica do R–R associada ao ciclo respiratório. Irregularidade não cíclica, ausência de P ou batimentos perdidos sugerem outra condição.

Próximo capitúlo

Fibrilação atrial no ECG para Enfermagem: reconhecimento, riscos e condutas de segurança

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Eletrocardiograma (ECG) para Enfermagem: Leitura Básica e Reconhecimento de Arritmias
42%

Eletrocardiograma (ECG) para Enfermagem: Leitura Básica e Reconhecimento de Arritmias

Novo curso

12 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.