Retirada do acesso venoso periférico: técnica, hemostasia, cuidados com a pele e orientações

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivos da retirada do acesso venoso periférico (AVP)

A retirada do AVP é a remoção planejada do cateter periférico quando ele não é mais necessário, quando há sinais de complicação local/sistêmica, ou quando o dispositivo não está funcionando adequadamente. O objetivo é retirar com segurança, preservar a integridade da pele e do vaso, obter hemostasia eficaz e reduzir risco de sangramento, hematoma, dor e lesões cutâneas.

Indicações comuns para retirada

  • Término da terapia intravenosa ou troca de via para outra modalidade.
  • Sinais locais que sugerem necessidade de remoção: dor persistente, endurecimento, edema, calor, rubor, drenagem, sangramento no sítio, suspeita de infiltração/extravasamento.
  • Cateter com mau funcionamento (não infunde, não retorna, oclusão recorrente) quando não há indicação de manutenção.
  • Integridade do curativo comprometida com risco de contaminação e impossibilidade de troca segura no local.

Checagens antes de iniciar

  • Confirmar a indicação e se há prescrição/ordem institucional para retirada (quando aplicável).
  • Verificar se há infusão em curso e interromper de forma segura; desconectar conforme protocolo do serviço.
  • Avaliar o membro: presença de edema, dor, hematoma, fragilidade cutânea, sangramento ativo, sinais de infecção.
  • Identificar fatores de risco para sangramento: uso de anticoagulantes/antiagregantes, coagulopatias, plaquetopenia, doença hepática, idade avançada.
  • Explicar ao paciente o que será feito e o que ele pode sentir (leve tração/pressão), solicitando que mantenha o membro imóvel.

Passo a passo prático: retirada segura do AVP

1) Preparação imediata e posicionamento

  • Reunir materiais: gaze estéril ou limpa conforme protocolo, solução antisséptica para pele (se indicada), curativo pós-retirada (ex.: gaze + fita, ou curativo transparente), fita de baixa aderência para pele frágil, recipiente para descarte, luvas, bolsa para resíduos.
  • Posicionar o membro apoiado, com boa iluminação e acesso ao sítio.
  • Se houver dor importante, edema ou suspeita de complicação, planejar retirada mais lenta e com maior cuidado para evitar tração sobre tecidos.

2) Higiene das mãos e EPI

  • Realizar higiene das mãos conforme protocolo institucional.
  • Calçar luvas. Considerar proteção adicional se houver risco de respingo de sangue.

3) Interromper infusão e estabilizar o cateter

  • Garantir que a infusão esteja interrompida e que o sistema esteja seguro para evitar vazamento.
  • Estabilizar a pele e o hub do cateter com uma mão para minimizar tração no vaso durante a remoção do curativo.

4) Remoção do curativo minimizando trauma

  • Remover fitas/curativos lentamente, mantendo a pele tracionada no sentido oposto (técnica de contratração) para reduzir risco de lesão cutânea.
  • Se o curativo estiver muito aderido, utilizar removedor de adesivo conforme disponibilidade e protocolo, evitando arrancar de forma brusca.
  • Em pele frágil, preferir fitas de baixa aderência e retirar sempre no sentido do crescimento dos pelos, com ângulo baixo (próximo à pele), reduzindo cisalhamento.

5) Retirada do cateter no ângulo adequado

  • Com o curativo removido e o cateter estabilizado, retirar o cateter lentamente, em linha com o trajeto de inserção (ângulo baixo, próximo à pele), sem movimentos bruscos.
  • Evitar “puxões” rápidos: a retirada gradual reduz dor e diminui risco de sangramento e hematoma.
  • Se houver resistência incomum, dor intensa ou suspeita de aderência/complicação, interromper e acionar avaliação clínica conforme protocolo do serviço.

6) Hemostasia por compressão

  • Imediatamente após a retirada, aplicar gaze sobre o sítio e realizar compressão direta e contínua.
  • Manter o membro em posição confortável; elevação leve pode ajudar a reduzir sangramento e edema, se tolerado.
  • Evitar “massagear” o local: isso pode aumentar sangramento e favorecer hematoma.

7) Inspeção do dispositivo: integridade do cateter

  • Inspecionar o cateter removido e confirmar que está íntegro (ponta presente, sem sinais de fratura ou segmento faltante).
  • Se houver suspeita de fragmento retido (cateter incompleto, ponta ausente, ruptura visível), manter o membro em repouso, comunicar imediatamente a equipe médica e seguir protocolo institucional para investigação.

8) Curativo pós-retirada

  • Após cessar o sangramento, realizar curativo limpo e seco.
  • Escolher cobertura conforme condição da pele e risco de sangramento:
    • Pele íntegra e baixo risco: gaze pequena + fita, ou curativo transparente.
    • Pele frágil: fita de silicone/baixa aderência, evitando tensão; considerar gaze com fixação suave.
    • Risco aumentado de sangramento: gaze com compressão leve e fixação segura, sem garrotear.
  • Orientar o paciente a manter o curativo por tempo definido pelo serviço (frequentemente algumas horas) e manter o local limpo e seco.

9) Monitoramento imediato de sangramento/hematoma

  • Reavaliar o sítio após alguns minutos: verificar sangramento, aumento de dor, edema, mudança de cor, formação de hematoma.
  • Em caso de sangramento persistente: reforçar compressão e reavaliar fatores de risco (anticoagulantes, plaquetas baixas). Se não controlar, acionar suporte conforme protocolo.
  • Se houver hematoma em expansão: compressão, elevação e avaliação clínica; documentar tamanho e evolução.

Cuidados específicos em situações frequentes

Paciente em uso de anticoagulantes/antiagregantes ou com risco de sangramento

  • Planejar tempo maior de compressão direta; não interromper antes de hemostasia completa.
  • Preferir curativo com leve compressão e checar o local com maior frequência nas primeiras horas.
  • Evitar múltiplas manipulações no sítio após a retirada (retirar/colocar curativo repetidamente aumenta sangramento).
  • Se houver sangramento recorrente, avaliar necessidade de compressão prolongada e comunicar a equipe responsável.

Pele frágil (idosos, desnutrição, uso crônico de corticoide, dermatoporose)

  • Remover adesivos com técnica de baixo trauma: tração lenta, ângulo baixo, contratração da pele.
  • Usar removedor de adesivo quando disponível.
  • Evitar fitas muito aderentes e fixação sob tensão; preferir materiais de silicone/baixa aderência.
  • Observar sinais de lesão por adesivo (eritema, bolhas, descamação) e registrar.

Presença de dor, edema ou endurecimento no local

  • Antes da retirada, avaliar intensidade da dor e extensão do edema; considerar que a remoção pode ser mais sensível.
  • Retirar lentamente, em linha com o trajeto, evitando tração lateral.
  • Após retirada, monitorar evolução: dor que piora, edema progressivo, calor local ou drenagem requerem avaliação.
  • Se houver suspeita de complicação importante, não aplicar calor/fricção sem orientação do protocolo institucional.

Orientações ao paciente após a retirada

Cuidados em casa ou na unidade

  • Manter o curativo limpo e seco pelo período orientado.
  • Evitar esforço intenso com o membro nas primeiras horas se houver tendência a sangramento ou hematoma.
  • Não coçar nem manipular o local; se o curativo soltar e houver sangramento, comprimir com gaze limpa e solicitar avaliação.

Sinais de alerta: quando procurar assistência

  • Sangramento que não cessa após compressão contínua.
  • Hematoma aumentando de tamanho, dor crescente ou endurecimento importante.
  • Vermelhidão progressiva, calor local, secreção, mau cheiro ou febre.
  • Dormência, formigamento, palidez ou frio no membro (sinais neurovasculares).
  • Qualquer piora rápida do edema ou dor no trajeto venoso.

Registro do procedimento e achados (documentação de enfermagem)

Registrar de forma objetiva e rastreável, conforme padrão institucional. Itens recomendados:

  • Data e hora da retirada e motivo (término de terapia, complicação, disfunção, troca de acesso).
  • Local do AVP (membro, veia/região) e condição do sítio no momento da retirada (dor, edema, rubor, sangramento, integridade da pele).
  • Integridade do cateter após remoção (cateter íntegro; ponta presente).
  • Hemostasia: tempo aproximado de compressão e presença/ausência de sangramento residual.
  • Tipo de curativo aplicado e condição da pele (incluindo lesão por adesivo, se houver).
  • Orientações fornecidas ao paciente e resposta/entendimento.
  • Intercorrências e condutas: hematoma, sangramento persistente, suspeita de fragmento retido, comunicação à equipe e medidas adotadas.

Exemplo de registro (modelo)

30/01/2026 14:20 – Retirado AVP em MSD, região de antebraço, por término de antibioticoterapia. Sítio sem rubor, sem calor, dor referida 0/10, sem edema. Cateter removido sem resistência, íntegro, ponta presente. Hemostasia com compressão direta por ~3 min, sem sangramento residual. Curativo com gaze e fita hipoalergênica. Paciente orientado quanto a manter curativo seco por 2–4 h e sinais de alerta (sangramento, hematoma em expansão, dor, vermelhidão, secreção, febre). Sem intercorrências.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a retirada de um acesso venoso periférico, qual conduta é mais adequada para obter hemostasia e reduzir o risco de hematoma?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A compressão direta e contínua com gaze favorece hemostasia eficaz e reduz sangramento e hematoma. Massagear ou friccionar o local pode aumentar o sangramento e favorecer a formação de hematoma.

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