Coleta de sangue venoso para exames laboratoriais: técnica, ordem de tubos e prevenção de hemólise

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivo da coleta venosa para exames

A coleta de sangue venoso para exames laboratoriais é um procedimento padronizado para obter uma amostra representativa do estado clínico do paciente, com o mínimo de interferências pré-analíticas. A qualidade do resultado depende, sobretudo, de: identificação correta do paciente e do pedido, preparo adequado, escolha do dispositivo, técnica de preenchimento dos tubos, ordem de coleta adotada pela instituição e prevenção de hemólise, coagulação e contaminações.

Antes de coletar: confirmação do pedido e preparo do paciente

1) Conferência do pedido e requisitos do exame

  • Confirme quais exames foram solicitados e se há requisitos específicos: jejum, horário, repouso prévio, restrição de medicamentos, coleta em gelo, proteção da luz, necessidade de tubo específico, volume mínimo.
  • Verifique se há orientações do laboratório para testes sensíveis (ex.: gasometria venosa, lactato, amônia, bilirrubinas, alguns hormônios), pois podem exigir transporte imediato, refrigeração ou proteção da luz.
  • Planeje o número de tubos e o volume total, evitando repunções por subcoleta.

2) Identificação e confirmação com o paciente

  • Confirme identidade com pelo menos dois identificadores (conforme protocolo institucional) e compare com a requisição e etiquetas.
  • Explique o que será feito e por quê, em linguagem simples, para reduzir ansiedade e movimentos durante a punção.
  • Cheque alergias relevantes (ex.: adesivos, antissépticos) e histórico de síncope/vasovagal em coletas.

3) Jejum quando aplicável

  • Confirme se o exame exige jejum e por quantas horas (varia conforme o teste e o protocolo do laboratório).
  • Se o paciente não cumpriu o jejum, registre e comunique conforme rotina (alguns exames podem ser coletados mesmo assim, mas com anotação para interpretação).

4) Postura e conforto

  • Preferir paciente sentado com apoio do braço e antebraço em superfície estável; em pacientes com risco de síncope, considerar decúbito.
  • Evite que o paciente fique em pé durante a coleta.
  • Oriente respiração lenta e regular; evite que o paciente “prenda a respiração” ou faça força.

5) Manejo de ansiedade e prevenção de síncope

  • Se houver histórico de desmaio: realizar em decúbito, manter observação, ter materiais de suporte disponíveis conforme protocolo.
  • Evitar visualização da agulha pelo paciente e reduzir estímulos estressantes (conversa breve, objetiva e tranquilizadora).

Seleção do dispositivo: sistema a vácuo vs seringa

Sistema a vácuo (tubo a vácuo + adaptador + agulha)

  • Vantagens: volume padronizado, menor manipulação, menor risco de contaminação e de hemólise quando bem executado.
  • Quando preferir: rotina de laboratório, veias com bom calibre e fluxo adequado.
  • Pontos de atenção: em veias frágeis/finas, o vácuo pode colabar a veia e reduzir o fluxo, aumentando risco de hemólise por “arraste” e necessidade de múltiplas tentativas.

Seringa + transferência para tubos

  • Vantagens: maior controle da pressão de aspiração, útil em veias delicadas, idosos, pacientes oncológicos, pediatria (conforme protocolo).
  • Riscos se mal executado: hemólise por aspiração vigorosa e por transferência inadequada (empurrar o êmbolo com força).
  • Boa prática: usar dispositivo de transferência (adaptador) para tubos a vácuo; evitar injetar sangue no tubo com agulha (risco de hemólise e acidente perfurocortante).

Torniquete: aplicação e tempo máximo

  • Aplique o torniquete a 7–10 cm acima do local de punção, com tensão suficiente para ingurgitar a veia sem interromper pulso arterial.
  • Tempo máximo recomendado: idealmente até 1 minuto. Torniquete prolongado pode causar hemoconcentração e alterar resultados (ex.: proteínas, cálcio, potássio) e aumentar risco de hemólise.
  • Se ultrapassar 1 minuto: solte, aguarde 1–2 minutos e reaplique antes da punção.
  • Evite pedir para o paciente “bombear” a mão repetidamente; se necessário, apenas fechar e abrir uma vez de forma suave para evidenciar a veia (conforme prática institucional).

Antissepsia: impacto direto na hemólise e contaminação

  • Realize antissepsia conforme protocolo institucional (ex.: álcool 70% para rotina; antisséptico específico para hemoculturas).
  • Ponto crítico: aguarde o antisséptico secar completamente antes de puncionar. Punção com álcool ainda úmido aumenta risco de hemólise e ardor, além de interferências em alguns testes.
  • Após antissepsia, não repalpar o local; se for inevitável, proceder conforme protocolo (ex.: luva estéril/antissepsia adicional).

Coleta venosa: sequência prática com foco em qualidade da amostra

Passo a passo (guia prático)

  1. Organize os tubos na ordem de coleta adotada pela instituição e confira validade, integridade e tipo de aditivo.
  2. Posicione o braço com apoio e veia estabilizada; mantenha o bisel orientado adequadamente conforme técnica institucional.
  3. Realize a punção e confirme retorno venoso.
  4. Se usar sistema a vácuo: encaixe o primeiro tubo e deixe encher até o volume indicado (o tubo deve parar de encher espontaneamente).
  5. Se usar seringa: aspire de forma lenta e contínua, sem “trancos”. Em seguida, transfira para os tubos usando dispositivo de transferência, permitindo que o vácuo puxe o sangue (não force o êmbolo).
  6. Libere o torniquete no momento adequado: assim que houver fluxo estabelecido e antes de finalizar o enchimento dos tubos, conforme rotina institucional; evite manter torniquete durante toda a coleta.
  7. Preencha os tubos até a marca (volume correto). Tubos com aditivo exigem proporção sangue/aditivo adequada.
  8. Homogeneíze cada tubo imediatamente após a coleta com inversões suaves (não agitar). Siga o número de inversões recomendado pelo fabricante do tubo e/ou protocolo do laboratório.
  9. Finalize retirando a agulha e realizando hemostasia conforme rotina; identifique os tubos à beira-leito/ponto de coleta, conforme protocolo (evitar rotular longe do paciente).

Preenchimento correto e homogeneização: erros comuns

  • Subpreenchimento: altera a proporção sangue/aditivo (especialmente em citrato e EDTA), podendo gerar resultados falsos e/ou coagulação.
  • Homogeneização inadequada: inversões insuficientes podem causar microcoágulos; inversões vigorosas/agitação podem causar hemólise.
  • Ordem de tubos ignorada: pode haver contaminação por aditivos (carryover), interferindo em resultados (ex.: EDTA elevando potássio e reduzindo cálcio).

Ordem de coleta dos tubos (seguir prática institucional)

A ordem de coleta existe para reduzir contaminação cruzada de aditivos entre tubos. Utilize sempre a ordem definida pela sua instituição e pelo laboratório de referência. Quando houver dúvida, confirme no procedimento operacional padrão (POP) local.

Exemplo de ordem frequentemente utilizada (pode variar)

SequênciaTipo de tuboUso comumObservações
1Hemoculturas (frascos) / tubo estérilPesquisa de bacteremia/fungemiaAntissepsia específica e técnica rigorosa para evitar contaminação
2Citrato (tampa azul)Coagulação (TP/INR, TTPa)Volume deve ser exato para manter proporção 9:1 (sangue:citrato)
3Soro (tampa vermelha) ou SST com gel (tampa amarela/dourada)Bioquímica, sorologiasRespeitar tempo de coagulação quando aplicável antes de centrifugar
4Heparina (tampa verde)Bioquímica, alguns eletrólitos, gasometria venosa (conforme rotina)Homogeneizar suavemente para evitar microcoágulos
5EDTA (tampa roxa)Hemograma, HbA1cSubpreenchimento pode alterar índices hematimétricos
6Fluoreto/oxalato (tampa cinza)Glicose, lactato (conforme rotina)Importante para inibir glicólise em algumas situações

Nota: cores e usos podem variar por fabricante e instituição. Priorize o rótulo do tubo e o POP local.

Prevenção de hemólise: principais causas e como evitar

Hemólise é a ruptura de hemácias com liberação de hemoglobina e componentes intracelulares no plasma/soro, podendo invalidar amostras e alterar resultados (ex.: potássio, LDH, AST). A maioria das hemólises é pré-analítica e evitável.

Causas frequentes de hemólise (e prevenção)

  • Agulha inadequada (calibre muito fino para o fluxo): aumenta cisalhamento. Como evitar: escolher calibre compatível com a veia e o dispositivo, conforme protocolo.
  • Aspiração vigorosa com seringa: pressão negativa excessiva rompe hemácias. Como evitar: aspirar lentamente e de forma contínua.
  • Transferência forçada para o tubo: empurrar o êmbolo com força ou usar agulha para “injetar” no tubo. Como evitar: usar dispositivo de transferência e deixar o vácuo preencher.
  • Agitação do tubo: chacoalhar para misturar. Como evitar: inversões suaves no número recomendado.
  • Álcool/antisséptico não seco: pode causar hemólise e ardor. Como evitar: aguardar secagem completa antes da punção.
  • Torniquete prolongado: hemoconcentração e estase. Como evitar: manter por tempo mínimo e liberar assim que o fluxo estiver estabelecido.
  • Trauma por múltiplas tentativas/manipulação excessiva: aumenta hemólise e ativação de coagulação. Como evitar: planejar bem a punção e interromper se houver dificuldade, seguindo fluxo institucional.
  • Transporte inadequado: agitação intensa, queda, exposição a calor/frio extremos. Como evitar: acondicionar e transportar conforme orientação do laboratório.

Outros problemas pré-analíticos comuns e como prevenir

1) Volume insuficiente (subcoleta)

  • Impacto: altera proporção sangue/aditivo, especialmente em citrato (coagulação) e EDTA (hematologia), podendo gerar resultados inválidos.
  • Prevenção: permitir enchimento completo do tubo a vácuo; se usar seringa, transferir volume adequado para cada tubo; priorizar tubos críticos quando o volume total for limitado (conforme orientação do laboratório).

2) Coagulação em tubos com anticoagulante

  • Causas: inversões insuficientes, demora para homogeneizar, subpreenchimento, coleta lenta com estase prolongada.
  • Prevenção: homogeneizar imediatamente após encher cada tubo; respeitar volume; evitar interrupções longas durante a coleta.

3) Contaminação por coleta em acesso com infusão

  • Risco: resultados falsos por diluição (soro glicosado), contaminação por eletrólitos/medicamentos (ex.: potássio, antibióticos), heparina, entre outros.
  • Boa prática: preferir coleta por punção venosa direta.
  • Se a coleta em acesso for inevitável: seguir POP institucional (ex.: interromper infusão por tempo definido, descartar volume inicial, coletar em via apropriada, registrar que foi coletado de acesso). Não improvisar: variações mudam significativamente a confiabilidade do resultado.

Checklist de qualidade da amostra (usar no ponto de coleta)

Checklist rápido (antes, durante e após)

  • Pedido e paciente: exames conferidos; requisitos (jejum/horário) verificados; identificação confirmada conforme protocolo.
  • Preparo: paciente em postura segura; ansiedade/síncope considerados; braço apoiado.
  • Torniquete: aplicado corretamente; tempo ≤ 1 minuto; liberado assim que o fluxo estiver estabelecido.
  • Antissepsia: realizada conforme POP; antisséptico completamente seco antes da punção.
  • Dispositivo: escolha adequada (vácuo vs seringa); aspiração suave se seringa; transferência com dispositivo apropriado.
  • Tubos: ordem de coleta conforme instituição; tubos dentro da validade e íntegros; preenchidos até a marca.
  • Homogeneização: inversões suaves imediatas em cada tubo; sem agitação vigorosa.
  • Integridade: amostra sem sinais evidentes de hemólise (quando visível), sem coágulos em tubos com anticoagulante, sem vazamento.
  • Rotulagem: tubos identificados no ponto de coleta, com dados completos conforme protocolo; horário e coletor registrados quando aplicável.
  • Transporte: acondicionamento correto (temperatura/luz/tempo) e envio dentro do prazo.
  • Registro: intercorrências documentadas (torniquete prolongado, coleta difícil, coleta em acesso com infusão, jejum não cumprido).

Sinais de alerta para rejeição/recall (conforme critérios do laboratório)

  • Tubo de citrato subpreenchido.
  • Presença de coágulos em EDTA/heparina.
  • Hemólise importante (visual ou reportada pelo laboratório).
  • Identificação incompleta/inconsistente.
  • Suspeita de contaminação por infusão (valores incompatíveis com clínica e contexto de coleta).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a coleta venosa, qual conduta melhor reduz o risco de hemólise e melhora a qualidade da amostra?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A secagem completa do antisséptico, o uso mínimo do torniquete (liberando após fluxo estabelecido) e a homogeneização por inversões suaves reduzem hemólise e interferências pré-analíticas.

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Coleta de hemoculturas com técnica asséptica: redução de contaminação e aumento de sensibilidade diagnóstica

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