Conceito e objetivo da coleta venosa para exames
A coleta de sangue venoso para exames laboratoriais é um procedimento padronizado para obter uma amostra representativa do estado clínico do paciente, com o mínimo de interferências pré-analíticas. A qualidade do resultado depende, sobretudo, de: identificação correta do paciente e do pedido, preparo adequado, escolha do dispositivo, técnica de preenchimento dos tubos, ordem de coleta adotada pela instituição e prevenção de hemólise, coagulação e contaminações.
Antes de coletar: confirmação do pedido e preparo do paciente
1) Conferência do pedido e requisitos do exame
- Confirme quais exames foram solicitados e se há requisitos específicos: jejum, horário, repouso prévio, restrição de medicamentos, coleta em gelo, proteção da luz, necessidade de tubo específico, volume mínimo.
- Verifique se há orientações do laboratório para testes sensíveis (ex.: gasometria venosa, lactato, amônia, bilirrubinas, alguns hormônios), pois podem exigir transporte imediato, refrigeração ou proteção da luz.
- Planeje o número de tubos e o volume total, evitando repunções por subcoleta.
2) Identificação e confirmação com o paciente
- Confirme identidade com pelo menos dois identificadores (conforme protocolo institucional) e compare com a requisição e etiquetas.
- Explique o que será feito e por quê, em linguagem simples, para reduzir ansiedade e movimentos durante a punção.
- Cheque alergias relevantes (ex.: adesivos, antissépticos) e histórico de síncope/vasovagal em coletas.
3) Jejum quando aplicável
- Confirme se o exame exige jejum e por quantas horas (varia conforme o teste e o protocolo do laboratório).
- Se o paciente não cumpriu o jejum, registre e comunique conforme rotina (alguns exames podem ser coletados mesmo assim, mas com anotação para interpretação).
4) Postura e conforto
- Preferir paciente sentado com apoio do braço e antebraço em superfície estável; em pacientes com risco de síncope, considerar decúbito.
- Evite que o paciente fique em pé durante a coleta.
- Oriente respiração lenta e regular; evite que o paciente “prenda a respiração” ou faça força.
5) Manejo de ansiedade e prevenção de síncope
- Se houver histórico de desmaio: realizar em decúbito, manter observação, ter materiais de suporte disponíveis conforme protocolo.
- Evitar visualização da agulha pelo paciente e reduzir estímulos estressantes (conversa breve, objetiva e tranquilizadora).
Seleção do dispositivo: sistema a vácuo vs seringa
Sistema a vácuo (tubo a vácuo + adaptador + agulha)
- Vantagens: volume padronizado, menor manipulação, menor risco de contaminação e de hemólise quando bem executado.
- Quando preferir: rotina de laboratório, veias com bom calibre e fluxo adequado.
- Pontos de atenção: em veias frágeis/finas, o vácuo pode colabar a veia e reduzir o fluxo, aumentando risco de hemólise por “arraste” e necessidade de múltiplas tentativas.
Seringa + transferência para tubos
- Vantagens: maior controle da pressão de aspiração, útil em veias delicadas, idosos, pacientes oncológicos, pediatria (conforme protocolo).
- Riscos se mal executado: hemólise por aspiração vigorosa e por transferência inadequada (empurrar o êmbolo com força).
- Boa prática: usar dispositivo de transferência (adaptador) para tubos a vácuo; evitar injetar sangue no tubo com agulha (risco de hemólise e acidente perfurocortante).
Torniquete: aplicação e tempo máximo
- Aplique o torniquete a 7–10 cm acima do local de punção, com tensão suficiente para ingurgitar a veia sem interromper pulso arterial.
- Tempo máximo recomendado: idealmente até 1 minuto. Torniquete prolongado pode causar hemoconcentração e alterar resultados (ex.: proteínas, cálcio, potássio) e aumentar risco de hemólise.
- Se ultrapassar 1 minuto: solte, aguarde 1–2 minutos e reaplique antes da punção.
- Evite pedir para o paciente “bombear” a mão repetidamente; se necessário, apenas fechar e abrir uma vez de forma suave para evidenciar a veia (conforme prática institucional).
Antissepsia: impacto direto na hemólise e contaminação
- Realize antissepsia conforme protocolo institucional (ex.: álcool 70% para rotina; antisséptico específico para hemoculturas).
- Ponto crítico: aguarde o antisséptico secar completamente antes de puncionar. Punção com álcool ainda úmido aumenta risco de hemólise e ardor, além de interferências em alguns testes.
- Após antissepsia, não repalpar o local; se for inevitável, proceder conforme protocolo (ex.: luva estéril/antissepsia adicional).
Coleta venosa: sequência prática com foco em qualidade da amostra
Passo a passo (guia prático)
- Organize os tubos na ordem de coleta adotada pela instituição e confira validade, integridade e tipo de aditivo.
- Posicione o braço com apoio e veia estabilizada; mantenha o bisel orientado adequadamente conforme técnica institucional.
- Realize a punção e confirme retorno venoso.
- Se usar sistema a vácuo: encaixe o primeiro tubo e deixe encher até o volume indicado (o tubo deve parar de encher espontaneamente).
- Se usar seringa: aspire de forma lenta e contínua, sem “trancos”. Em seguida, transfira para os tubos usando dispositivo de transferência, permitindo que o vácuo puxe o sangue (não force o êmbolo).
- Libere o torniquete no momento adequado: assim que houver fluxo estabelecido e antes de finalizar o enchimento dos tubos, conforme rotina institucional; evite manter torniquete durante toda a coleta.
- Preencha os tubos até a marca (volume correto). Tubos com aditivo exigem proporção sangue/aditivo adequada.
- Homogeneíze cada tubo imediatamente após a coleta com inversões suaves (não agitar). Siga o número de inversões recomendado pelo fabricante do tubo e/ou protocolo do laboratório.
- Finalize retirando a agulha e realizando hemostasia conforme rotina; identifique os tubos à beira-leito/ponto de coleta, conforme protocolo (evitar rotular longe do paciente).
Preenchimento correto e homogeneização: erros comuns
- Subpreenchimento: altera a proporção sangue/aditivo (especialmente em citrato e EDTA), podendo gerar resultados falsos e/ou coagulação.
- Homogeneização inadequada: inversões insuficientes podem causar microcoágulos; inversões vigorosas/agitação podem causar hemólise.
- Ordem de tubos ignorada: pode haver contaminação por aditivos (carryover), interferindo em resultados (ex.: EDTA elevando potássio e reduzindo cálcio).
Ordem de coleta dos tubos (seguir prática institucional)
A ordem de coleta existe para reduzir contaminação cruzada de aditivos entre tubos. Utilize sempre a ordem definida pela sua instituição e pelo laboratório de referência. Quando houver dúvida, confirme no procedimento operacional padrão (POP) local.
Exemplo de ordem frequentemente utilizada (pode variar)
| Sequência | Tipo de tubo | Uso comum | Observações |
|---|---|---|---|
| 1 | Hemoculturas (frascos) / tubo estéril | Pesquisa de bacteremia/fungemia | Antissepsia específica e técnica rigorosa para evitar contaminação |
| 2 | Citrato (tampa azul) | Coagulação (TP/INR, TTPa) | Volume deve ser exato para manter proporção 9:1 (sangue:citrato) |
| 3 | Soro (tampa vermelha) ou SST com gel (tampa amarela/dourada) | Bioquímica, sorologias | Respeitar tempo de coagulação quando aplicável antes de centrifugar |
| 4 | Heparina (tampa verde) | Bioquímica, alguns eletrólitos, gasometria venosa (conforme rotina) | Homogeneizar suavemente para evitar microcoágulos |
| 5 | EDTA (tampa roxa) | Hemograma, HbA1c | Subpreenchimento pode alterar índices hematimétricos |
| 6 | Fluoreto/oxalato (tampa cinza) | Glicose, lactato (conforme rotina) | Importante para inibir glicólise em algumas situações |
Nota: cores e usos podem variar por fabricante e instituição. Priorize o rótulo do tubo e o POP local.
Prevenção de hemólise: principais causas e como evitar
Hemólise é a ruptura de hemácias com liberação de hemoglobina e componentes intracelulares no plasma/soro, podendo invalidar amostras e alterar resultados (ex.: potássio, LDH, AST). A maioria das hemólises é pré-analítica e evitável.
Causas frequentes de hemólise (e prevenção)
- Agulha inadequada (calibre muito fino para o fluxo): aumenta cisalhamento. Como evitar: escolher calibre compatível com a veia e o dispositivo, conforme protocolo.
- Aspiração vigorosa com seringa: pressão negativa excessiva rompe hemácias. Como evitar: aspirar lentamente e de forma contínua.
- Transferência forçada para o tubo: empurrar o êmbolo com força ou usar agulha para “injetar” no tubo. Como evitar: usar dispositivo de transferência e deixar o vácuo preencher.
- Agitação do tubo: chacoalhar para misturar. Como evitar: inversões suaves no número recomendado.
- Álcool/antisséptico não seco: pode causar hemólise e ardor. Como evitar: aguardar secagem completa antes da punção.
- Torniquete prolongado: hemoconcentração e estase. Como evitar: manter por tempo mínimo e liberar assim que o fluxo estiver estabelecido.
- Trauma por múltiplas tentativas/manipulação excessiva: aumenta hemólise e ativação de coagulação. Como evitar: planejar bem a punção e interromper se houver dificuldade, seguindo fluxo institucional.
- Transporte inadequado: agitação intensa, queda, exposição a calor/frio extremos. Como evitar: acondicionar e transportar conforme orientação do laboratório.
Outros problemas pré-analíticos comuns e como prevenir
1) Volume insuficiente (subcoleta)
- Impacto: altera proporção sangue/aditivo, especialmente em citrato (coagulação) e EDTA (hematologia), podendo gerar resultados inválidos.
- Prevenção: permitir enchimento completo do tubo a vácuo; se usar seringa, transferir volume adequado para cada tubo; priorizar tubos críticos quando o volume total for limitado (conforme orientação do laboratório).
2) Coagulação em tubos com anticoagulante
- Causas: inversões insuficientes, demora para homogeneizar, subpreenchimento, coleta lenta com estase prolongada.
- Prevenção: homogeneizar imediatamente após encher cada tubo; respeitar volume; evitar interrupções longas durante a coleta.
3) Contaminação por coleta em acesso com infusão
- Risco: resultados falsos por diluição (soro glicosado), contaminação por eletrólitos/medicamentos (ex.: potássio, antibióticos), heparina, entre outros.
- Boa prática: preferir coleta por punção venosa direta.
- Se a coleta em acesso for inevitável: seguir POP institucional (ex.: interromper infusão por tempo definido, descartar volume inicial, coletar em via apropriada, registrar que foi coletado de acesso). Não improvisar: variações mudam significativamente a confiabilidade do resultado.
Checklist de qualidade da amostra (usar no ponto de coleta)
Checklist rápido (antes, durante e após)
- Pedido e paciente: exames conferidos; requisitos (jejum/horário) verificados; identificação confirmada conforme protocolo.
- Preparo: paciente em postura segura; ansiedade/síncope considerados; braço apoiado.
- Torniquete: aplicado corretamente; tempo ≤ 1 minuto; liberado assim que o fluxo estiver estabelecido.
- Antissepsia: realizada conforme POP; antisséptico completamente seco antes da punção.
- Dispositivo: escolha adequada (vácuo vs seringa); aspiração suave se seringa; transferência com dispositivo apropriado.
- Tubos: ordem de coleta conforme instituição; tubos dentro da validade e íntegros; preenchidos até a marca.
- Homogeneização: inversões suaves imediatas em cada tubo; sem agitação vigorosa.
- Integridade: amostra sem sinais evidentes de hemólise (quando visível), sem coágulos em tubos com anticoagulante, sem vazamento.
- Rotulagem: tubos identificados no ponto de coleta, com dados completos conforme protocolo; horário e coletor registrados quando aplicável.
- Transporte: acondicionamento correto (temperatura/luz/tempo) e envio dentro do prazo.
- Registro: intercorrências documentadas (torniquete prolongado, coleta difícil, coleta em acesso com infusão, jejum não cumprido).
Sinais de alerta para rejeição/recall (conforme critérios do laboratório)
- Tubo de citrato subpreenchido.
- Presença de coágulos em EDTA/heparina.
- Hemólise importante (visual ou reportada pelo laboratório).
- Identificação incompleta/inconsistente.
- Suspeita de contaminação por infusão (valores incompatíveis com clínica e contexto de coleta).