Relevo na Geografia Física: intemperismo, erosão e transporte de sedimentos

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Conceitos-chave: intemperismo, erosão e transporte de sedimentos

Intemperismo é o conjunto de processos que desagregam (quebram) e/ou decompõem (transformam quimicamente) as rochas no próprio lugar, gerando fragmentos e materiais como areia, argila e íons dissolvidos. Ele prepara o “material” que depois pode ser removido.

Erosão é o processo de desgaste e remoção desse material pela ação de agentes como água, vento, gelo e ondas. A erosão envolve três etapas que podem ocorrer juntas ou separadas: desgaste (arranque/abrasão), transporte (movimentação) e deposição (acúmulo quando a energia diminui).

Transporte de sedimentos é a movimentação de partículas e solutos. Pode ocorrer como: carga de fundo (rolamento/saltação no leito), carga em suspensão (partículas finas “boiando” na água/vento) e carga dissolvida (íons invisíveis, importantes em intemperismo químico).

Intemperismo: físico, químico e biológico

1) Intemperismo físico (mecânico)

O intemperismo físico fragmenta a rocha sem alterar sua composição. Ele aumenta a área de contato, facilitando o intemperismo químico depois.

  • Gelivação (congelamento e degelo): água entra em fraturas, congela, expande e alarga as fissuras. É típico de climas frios e/ou áreas de alta montanha, com ciclos de congelamento e degelo.
  • Termoclastia: variações de temperatura dilatam e contraem minerais, gerando microfraturas. É comum em ambientes com grande amplitude térmica diária (ex.: desertos).
  • Alívio de pressão (exfoliação): quando rochas profundas ficam expostas, a redução de pressão pode gerar fraturas em “lâminas”.

Condição ambiental típica: em climas frios, a gelivação tende a dominar, produzindo muitos fragmentos angulosos e encostas com depósitos de blocos.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

2) Intemperismo químico

O intemperismo químico transforma minerais por reações com água, oxigênio e ácidos naturais. Ele é mais intenso quando há calor + umidade, porque as reações químicas aceleram e a água atua como solvente e meio de transporte.

  • Hidrólise: minerais como feldspatos reagem com água e formam argilas (muito comum em rochas graníticas).
  • Oxidação: minerais com ferro reagem com oxigênio, gerando coloração avermelhada (óxidos).
  • Carbonatação: CO2 dissolvido na água forma ácido carbônico, que dissolve calcários (relevos cársticos).
  • Dissolução: sais e minerais solúveis se dissolvem diretamente.

Condição ambiental típica: em climas quentes e úmidos (tropicais), o intemperismo químico é favorecido, produzindo solos mais espessos e materiais finos (argilas) e grande carga dissolvida nos rios.

3) Intemperismo biológico

O intemperismo biológico ocorre quando organismos quebram ou alteram rochas. Ele pode ser mecânico e químico ao mesmo tempo.

  • Raízes que crescem em fraturas e ampliam fissuras.
  • Liquens e microrganismos que liberam ácidos orgânicos, acelerando reações químicas.
  • Atividade humana (escavações, cortes de encosta) pode expor rochas e acelerar processos, embora não seja um “agente natural” clássico.

Erosão: hídrica, eólica, glacial e marinha (desgaste, transporte e deposição)

Erosão hídrica (chuva, enxurrada e rios)

Desgaste: impacto das gotas (splash), arranque por enxurrada e abrasão no leito do rio. Transporte: em suspensão (silte/argila), saltação/rolamento (areia/cascalho) e dissolvido. Deposição: ocorre quando a velocidade diminui (planícies de inundação, deltas, leques aluviais).

Formas geradas:

  • Cânions: vales profundos com paredes íngremes, associados a incisão fluvial prolongada. Caso real: Grand Canyon (EUA), esculpido pelo Rio Colorado, com forte entalhe vertical e camadas rochosas expostas.
  • Deltas: acúmulo de sedimentos na foz quando o rio perde energia ao entrar em mar/lago. Caso real: Delta do Nilo (Egito), construído por deposição de sedimentos finos ao longo do tempo.
  • Leques aluviais: depósitos em forma de leque quando um curso d’água sai de área montanhosa para uma planície, perde declividade e deposita sedimentos mais grossos primeiro. Comuns em bordas de serras e vales intermontanos.

Erosão eólica (vento)

Desgaste: deflação (remoção de partículas finas) e abrasão (areia “lixa” rochas). Transporte: suspensão (poeira), saltação (areia) e rolamento (grãos maiores). Deposição: quando o vento perde energia ou encontra obstáculos (vegetação, relevo), formando campos de dunas e mantos de areia.

Formas geradas:

  • Dunas: montes de areia moldados pelo vento, com face suave (barlavento) e face íngreme (sotavento). Caso real: Saara (Norte da África), com extensos “mares de areia” (ergs) e dunas de diferentes tipos conforme direção e constância dos ventos.

Erosão glacial (gelo)

Desgaste: arrancamento (plucking) de blocos e abrasão pelo “lixamento” do gelo com detritos. Transporte: sedimentos são carregados dentro e na base da geleira. Deposição: ocorre quando a geleira perde energia e derrete, deixando depósitos mal selecionados.

Formas geradas:

  • Morainas: cristas e montes de sedimentos depositados por geleiras (laterais, frontais, de fundo). Caso real: Alpes (Europa), onde vales glaciais e morainas registram avanços e recuos do gelo durante períodos frios.

Erosão marinha (ondas, correntes e marés)

Desgaste: impacto das ondas, pressão hidráulica em fraturas e abrasão por areia e seixos. Transporte: correntes litorâneas deslocam sedimentos ao longo da costa (deriva litorânea). Deposição: em trechos de menor energia, formando praias, barras e outras acumulações costeiras.

Formas geradas:

  • Falésias: escarpas costeiras íngremes, recuando por solapamento na base e desmoronamentos. Caso real: litoral atlântico em diversos trechos (costas expostas a forte energia de ondas), onde a ação contínua do mar mantém paredões e plataformas de abrasão.

O que controla a intensidade dos processos? (fatores do relevo e do ambiente)

Encostas e declividade

  • Maior declividade tende a aumentar a velocidade do escoamento superficial e a capacidade de arranque e transporte, intensificando erosão hídrica.
  • Encostas íngremes favorecem movimentos de massa e fornecem material para rios e leques aluviais.
  • Em áreas glaciais, a inclinação e a geometria do vale influenciam a velocidade do gelo e o poder erosivo.

Tipo de rocha e estrutura (litologia e fraturas)

  • Rochas mais resistentes (ex.: quartzitos) tendem a formar relevos mais escarpados e canais encaixados; rochas menos resistentes (ex.: folhelhos) erodem mais facilmente.
  • Fraturas e falhas aumentam a infiltração e criam “linhas de fraqueza” para gelivação e para o entalhe fluvial.
  • Rochas solúveis (calcários) são muito sensíveis à carbonatação, acelerando intemperismo químico.

Cobertura vegetal

  • Protege o solo do impacto direto da chuva, reduzindo erosão por splash.
  • Aumenta infiltração e diminui enxurrada, reduzindo o transporte de sedimentos.
  • Raízes estabilizam encostas, mas também podem ampliar fraturas (intemperismo biológico).

Chuva (quantidade, intensidade e frequência)

  • Chuvas intensas em pouco tempo tendem a gerar enxurradas e erosão acelerada, especialmente em encostas desprotegidas.
  • Chuvas frequentes mantêm umidade alta, favorecendo intemperismo químico e transporte em suspensão.
  • A alternância entre períodos secos e chuvosos pode aumentar a disponibilidade de sedimentos soltos para serem removidos quando a chuva retorna.

Passo a passo prático: como analisar um local e prever onde haverá mais intemperismo, erosão e deposição

Roteiro de observação em campo (ou com imagens e mapas)

  1. Identifique o clima dominante: quente/úmido sugere intemperismo químico mais forte; frio com ciclos de gelo sugere gelivação; seco e ventoso sugere maior ação eólica.
  2. Observe a declividade e o formato da encosta: encostas íngremes e longas aumentam energia do escoamento; encostas convexas tendem a perder material; concavidades podem acumular.
  3. Verifique o tipo de rocha e fraturamento: rochas muito fraturadas intemperizam mais rápido; rochas solúveis indicam maior dissolução; camadas alternadas podem gerar erosão diferencial.
  4. Avalie a cobertura vegetal e uso do solo: solo exposto (trilhas, lavouras sem cobertura, cortes) aumenta erosão; vegetação densa reduz.
  5. Procure evidências de transporte: água turva indica carga em suspensão; barras de areia/cascalho indicam deposição; marcas de vento e ripples indicam transporte eólico; blocos mal selecionados podem indicar deposição glacial.
  6. Localize zonas de deposição: diminuição de declive (pé de serra), curvas internas de rios, foz de rios (deltas), áreas abrigadas na costa (acúmulo de areia).

Checklist rápido (sinais visuais)

SinalO que sugereProcesso provável
Solo avermelhado e espesso em área úmidaOxidação e hidrólise intensasIntemperismo químico
Fragmentos angulosos e muitas fraturas em alta montanhaCiclos de congelamento/degeloGelivação (intemperismo físico)
Ravinas/voçorocas após chuvas fortesEscoamento concentradoErosão hídrica
Areia acumulada em montes com cristasPerda de energia do ventoDeposição eólica (dunas)
Depósito heterogêneo com blocos e finos misturadosBaixa seleção granulométricaDeposição glacial (morainas)
Escarpa costeira ativa com queda de blocosSolapamento por ondasErosão marinha (falésias)

Exemplos integrados: do intemperismo à forma de relevo

Grand Canyon (EUA): intemperismo + erosão fluvial + transporte

Fraturas e variações de resistência das camadas rochosas facilitam intemperismo e desagregação. O Rio Colorado remove e transporta sedimentos, aprofundando o vale (entalhe vertical) e expondo estratos. A deposição ocorre em trechos de menor energia a jusante, com barras e planícies aluviais.

Saara (Norte da África): disponibilidade de sedimentos + vento

Em ambiente seco, a vegetação é escassa e o solo fica mais exposto. O vento remove finos (deflação) e transporta areia por saltação, depositando em dunas quando encontra obstáculos ou perde velocidade.

Alpes (Europa): gelivação + erosão glacial + morainas

O frio favorece gelivação, produzindo fragmentos que alimentam o sistema glacial. Geleiras erodem por abrasão e arrancamento e, ao recuar, deixam morainas que marcam antigas posições da frente glacial.

Delta do Nilo (Egito): transporte fluvial + deposição na foz

O rio transporta sedimentos finos por longas distâncias. Ao chegar ao mar, a energia diminui e ocorre deposição, construindo o delta. Mudanças no balanço entre aporte sedimentar e energia marinha controlam o avanço ou recuo das áreas deltaicas.

Litoral Atlântico: ondas + falésias + redistribuição de sedimentos

Em trechos expostos, ondas com alta energia erodem a base das encostas, formando falésias e promovendo recuo costeiro. O material erodido pode ser transportado por correntes ao longo da costa e depositado em praias e barras em setores mais abrigados.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma encosta com solo exposto, ocorre uma chuva intensa e surgem ravinas. Qual explicação melhor relaciona os processos envolvidos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Ravinas após chuva forte indicam escoamento concentrado: a água arranca (desgaste) e transporta sedimentos, caracterizando erosão hídrica. O intemperismo prepara o material, mas não faz a remoção; deposição ocorre quando a energia diminui.

Próximo capitúlo

Classificação do relevo na Geografia Física: montanhas, planaltos, planícies e depressões

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Geografia Física para Iniciantes: Relevo, Clima, Vegetação e Hidrografia
18%

Geografia Física para Iniciantes: Relevo, Clima, Vegetação e Hidrografia

Novo curso

17 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.