O que significa “classificar o relevo”
Classificar o relevo é organizar as formas da superfície terrestre em tipos com base em critérios observáveis (como diferenças de altitude e formato do terreno) e em critérios explicativos (como o processo dominante que modela a área e o contexto geológico). Na prática, essa classificação ajuda a interpretar uma paisagem: por que um lugar é mais alto ou mais baixo, por que há encostas íngremes ou áreas planas, e onde a erosão tende a “cortar” o terreno ou onde a deposição tende a “acumular” sedimentos.
Critérios principais para classificar o relevo
1) Altitude relativa (desnível local)
Altitude relativa é a diferença de altura dentro de uma área observada (por exemplo, entre o topo e o fundo de um vale). Ela é mais útil do que a altitude absoluta (metros acima do nível do mar) para reconhecer a “força” do relevo no cotidiano.
- Baixa altitude relativa: terreno com pequenos desníveis; sensação de “paisagem aberta” e deslocamento fácil.
- Alta altitude relativa: grandes desníveis; encostas marcantes; presença de escarpas, serras e vales profundos.
2) Energia do relevo (rugosidade e declividade)
Energia do relevo é um jeito de descrever o quanto o terreno é “acidentado”. Um relevo com alta energia costuma ter encostas íngremes, vales encaixados e grande variação de altitude em curtas distâncias. Um relevo com baixa energia tende a ser mais suave, com declividades pequenas e superfícies amplas.
Como observar: em campo, note o esforço para subir/descender e a frequência de mudanças de inclinação; em mapas, observe curvas de nível muito próximas (alta energia) ou espaçadas (baixa energia).
3) Processos dominantes: erosão x deposição
Um critério muito usado na Geografia Física é identificar se a paisagem é mais marcada por remoção de material (erosão) ou por acúmulo de material (deposição).
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- Domínio de erosão: superfícies recortadas, vales profundos, encostas com cortes, escarpas, topos mais estreitos.
- Domínio de deposição: áreas planas associadas a rios, presença de várzeas, barras de areia, ilhas fluviais, deltas, terraços e leques aluviais.
4) Contexto geológico (estrutura e resistência das rochas)
O tipo de rocha e a estrutura geológica (camadas inclinadas, falhas, dobras, fraturas) influenciam fortemente o formato do relevo. Rochas mais resistentes tendem a formar cristas, serras e escarpas mais persistentes; rochas menos resistentes tendem a ser rebaixadas mais facilmente, favorecendo depressões e vales mais amplos.
Como observar: alinhamentos longos de serras (controle estrutural), escarpas retilíneas (possível controle por falhas), e diferenças bruscas de relevo em contato entre rochas distintas.
Tipos de relevo: como diferenciar na paisagem
Montanhas
Ideia-chave: grandes desníveis e alta energia do relevo, com encostas íngremes e forte compartimentação (muitos vales e cristas).
- Características observáveis: picos e cristas, vales encaixados, escarpas, grande variação de altitude em pouco espaço, presença frequente de nascentes em áreas elevadas.
- Processos comuns: erosão intensa em encostas e canais; movimentos de massa podem ser importantes em áreas muito íngremes.
- Exemplos (Brasil): Serra do Mar (escarpas e serras próximas ao litoral), Serra da Mantiqueira (altitudes elevadas e vales profundos).
Planaltos
Ideia-chave: áreas relativamente elevadas em relação ao entorno, onde a erosão tende a dominar o modelado (mesmo que existam trechos planos no topo).
- Características observáveis: superfícies altas com bordas mais íngremes (escarpas), topos aplainados ou ondulados, vales que recortam a superfície, presença de chapadas em alguns casos.
- Processos comuns: dissecação por rios (rede de drenagem “cortando” o terreno), formação de vales e interflúvios (áreas entre rios).
- Exemplos (Brasil): Planalto Central (superfícies elevadas e vales), chapadas do Brasil Central (bordas escarpadas e topo relativamente plano).
Planícies
Ideia-chave: áreas baixas e pouco inclinadas, onde a deposição é dominante (acúmulo de sedimentos), geralmente associadas a rios, lagos ou ao mar.
- Características observáveis: terreno amplo e plano, rios com curvas (meandros) e margens baixas, presença de várzeas que alagam periodicamente, sedimentos finos (lama/areia) em camadas.
- Processos comuns: deposição fluvial (várzeas, barras), deposição costeira (praias, restingas), deposição em áreas alagáveis (pântanos).
- Exemplos (Brasil): Planície Amazônica (várzeas e áreas inundáveis), Pantanal (planície sazonalmente alagada), planícies litorâneas (faixas baixas próximas ao mar).
Depressões
Ideia-chave: áreas rebaixadas em relação ao entorno. Podem ocorrer por diferentes razões, mas na leitura geográfica escolar é comum associá-las a rebaixamento por erosão em materiais menos resistentes ou a compartimentos estruturais mais baixos.
- Características observáveis: “corredores” ou bacias mais baixas entre áreas elevadas, transições com escarpas ou rampas, drenagens convergindo para o setor rebaixado.
- Processos comuns: erosão diferencial (rebaixamento mais rápido onde rochas são menos resistentes), encaixe de vales e ampliação de bacias.
- Exemplos (Brasil): Depressão Sertaneja e do São Francisco (setores rebaixados entre planaltos), Depressão Periférica Paulista (faixa rebaixada junto a áreas de planalto).
Passo a passo prático: como classificar um trecho de paisagem
Passo 1 — Delimite a área e escolha pontos de referência
- Defina um “quadro” de observação (por exemplo, o que você vê de um mirante, ou um recorte de 5 a 10 km em um mapa).
- Marque mentalmente (ou no mapa) os pontos mais altos e mais baixos.
Passo 2 — Estime a altitude relativa e a energia do relevo
- Em campo: observe se há encostas longas e íngremes, se o vale é profundo, se as cristas são bem marcadas.
- Em mapa: curvas de nível muito próximas indicam maior declividade; muitos “V” apontando para montante indicam vales encaixados.
Passo 3 — Procure sinais de erosão (dissecação) ou deposição
Use uma lista de indícios rápidos:
- Indícios de dissecação (erosão dominante): vales encaixados (em “V” bem marcado), encostas com rupturas de declive, escarpas, topos estreitos, drenagem muito ramificada.
- Indícios de deposição (deposição dominante): meandros bem desenvolvidos, várzeas largas, ilhas fluviais, barras de areia, leques aluviais na saída de encostas, terraços fluviais.
Passo 4 — Relacione com o contexto geológico visível (quando possível)
- Observe se serras e vales seguem uma direção preferencial (alinhamento), sugerindo controle estrutural.
- Note se há uma “borda” bem marcada separando uma superfície alta de uma baixa (escarpa), comum em limites entre compartimentos.
Passo 5 — Decida a classe mais provável e registre a justificativa
Em vez de apenas nomear, escreva uma frase com os critérios: “Classifico como planície porque o terreno é baixo, pouco inclinado e há várzea com meandros (deposição dominante).” ou “Classifico como planalto porque é uma superfície elevada e recortada por vales encaixados (erosão dominante).”
Atividades de leitura de paisagem (campo, bairro ou mapa)
Atividade 1 — Caça aos indícios de deposição em um rio
Objetivo: reconhecer formas típicas de planícies fluviais.
Materiais: imagem de satélite (celular/computador) ou observação de uma ponte/margem segura.
Passo a passo:
- Localize um trecho de rio com curvas.
- Identifique meandros (curvas amplas) e marque onde o rio parece “morder” uma margem e “acumular” na outra.
- Procure áreas planas adjacentes ao canal (várzea). Se houver vegetação diferente ou solo mais úmido, registre como pista de inundação periódica.
- Registre:
meandro,várzea,barras/ilhas(se visíveis) e a hipótese: “ambiente deposicional”.
Atividade 2 — Caça aos indícios de dissecação em área elevada
Objetivo: reconhecer recortes erosivos típicos de planaltos e montanhas.
Materiais: mapa hipsométrico/curvas de nível (quando disponível) ou observação a partir de um ponto alto.
Passo a passo:
- Escolha uma área com desnível perceptível (serra, borda de planalto, morros).
- Procure vales encaixados: em mapas, aparecem como “V” nas curvas de nível; em campo, como vales estreitos e profundos.
- Identifique escarpas ou rupturas de declive (mudança brusca de inclinação).
- Registre a densidade de drenagem (muitos canais pequenos) como indício de dissecação.
- Escreva uma classificação preliminar:
planalto(se superfície elevada e recortada) oumontanha(se desnível muito alto e encostas muito íngremes).
Atividade 3 — Perfil topográfico simples (para comparar compartimentos)
Objetivo: visualizar altitude relativa e energia do relevo.
Passo a passo:
- Em um mapa com curvas de nível, trace uma linha reta atravessando vale(s) e topo(s).
- Anote as altitudes onde a linha cruza cada curva de nível.
- Desenhe um gráfico simples (distância x altitude) para ver se o terreno é suave (planície), elevado e recortado (planalto), muito íngreme (montanha) ou rebaixado entre áreas altas (depressão).
Quadro comparativo: formas de relevo e ambientes comuns
| Forma de relevo | Altitude relativa / energia | Processo dominante (tendência) | Marcas observáveis | Ambientes comuns |
|---|---|---|---|---|
| Montanhas | Muito alta / alta | Erosão (forte recorte) e instabilidade de encostas | Picos/cristas, vales encaixados, escarpas, grandes declividades | Serras, bordas elevadas, áreas de nascentes, encostas íngremes |
| Planaltos | Média a alta / média | Erosão (dissecação por rios) | Superfícies elevadas, bordas escarpadas em alguns trechos, vales recortando o topo | Chapadas e superfícies altas do interior, divisores de água |
| Planícies | Baixa / baixa | Deposição (acúmulo de sedimentos) | Terreno plano, meandros, várzeas, barras/ilhas, áreas alagáveis | Várzeas fluviais, deltas, planícies costeiras, áreas inundáveis |
| Depressões | Variável / geralmente média | Rebaixamento relativo (muitas vezes por erosão diferencial) | Setor mais baixo entre áreas elevadas, drenagem convergente, transições por escarpas/rampas | Corredores rebaixados entre planaltos, bacias interiores, faixas periféricas |