Relevo na Geografia Física: estrutura interna da Terra e forças que moldam o terreno

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Camadas internas da Terra: a base física do relevo

O relevo (montanhas, planaltos, depressões, vales e fundos oceânicos) é resultado direto de como a Terra é construída por dentro e de como suas partes se movimentam. A estrutura interna controla a origem do calor, a circulação de materiais e a rigidez das rochas, definindo onde o terreno tende a se elevar, afundar, fraturar ou formar vulcões.

Crosta, manto e núcleo: o que cada camada “faz” no relevo

  • Crosta: camada mais externa e relativamente fina. É onde estão continentes e fundos oceânicos. A crosta continental é, em geral, mais espessa e menos densa; a oceânica é mais fina e mais densa. Essa diferença ajuda a explicar por que a crosta oceânica tende a subduzir (mergulhar) sob a continental em muitos encontros de placas.
  • Litosfera: não é uma camada química, mas mecânica. É o “casco rígido” formado pela crosta + parte superior do manto. Ela se quebra em placas tectônicas. O relevo tectônico nasce principalmente das deformações e deslocamentos na litosfera.
  • Astenosfera: parte do manto superior com comportamento mais plástico (deforma lentamente). Funciona como “base móvel” sobre a qual as placas litosféricas deslizam. Correntes de convecção e diferenças de densidade/temperatura ajudam a mover as placas.
  • Manto: muito espesso, composto por rochas sólidas que podem fluir em escalas geológicas. É a principal fonte de magmas e da energia interna que alimenta a tectônica.
  • Núcleo externo e interno: o núcleo externo é líquido e o interno é sólido. O calor do interior contribui para manter a dinâmica do manto. (O campo magnético é gerado no núcleo externo, mas o ponto central aqui é que o calor interno sustenta processos endógenos.)

Como o calor interno vira movimento

O calor interno (remanescente da formação do planeta e gerado por decaimento radioativo) cria diferenças de temperatura no manto. Materiais mais quentes tendem a subir; mais frios, a descer. Esse ciclo favorece o deslocamento das placas, que por sua vez cria zonas de compressão, distensão e cisalhamento, moldando grandes formas de relevo.

Tectônica de placas: limites e formas de relevo associadas

As placas tectônicas são blocos rígidos da litosfera que se movem alguns centímetros por ano. O tipo de contato entre placas (limite) determina o “estilo” do relevo produzido: montanhas dobradas, fossas oceânicas, riftes, dorsais, falhas lineares e arcos vulcânicos.

1) Limites convergentes (colisão/subducção): compressão e grandes montanhas

Em limites convergentes, as placas se aproximam. Existem dois cenários principais, cada um com relevo típico:

  • Oceânica + continental (subducção): a placa oceânica, mais densa, mergulha sob a continental. Isso gera fossa oceânica (depressão profunda no fundo do mar), cadeias montanhosas na borda continental e vulcanismo associado. O relevo é marcado por forte sismicidade e vulcões alinhados.
  • Continental + continental (colisão): como ambas são menos densas e espessas, nenhuma subduz facilmente. O resultado típico é dobramento intenso, espessamento da crosta e formação de altas cadeias montanhosas e planaltos elevados.

Formas de relevo comuns em convergência: cordilheiras, dobras, falhas reversas, planaltos elevados, fossas oceânicas e arcos vulcânicos (quando há subducção).

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2) Limites divergentes (afastamento): riftes, dorsais e criação de crosta

Em limites divergentes, as placas se afastam. O manto ascende, sofre fusão parcial e alimenta magmas que formam nova crosta (principalmente oceânica). O relevo típico depende se a divergência ocorre no oceano ou no continente:

  • Dorsais meso-oceânicas: longas cadeias montanhosas submarinas com vale central (rifte). São áreas de vulcanismo basáltico e criação de crosta oceânica.
  • Riftes continentais: zonas alongadas de distensão onde a crosta afina, fratura e afunda em blocos, criando vales tectônicos (grábens) e escarpas (horsts).

Formas de relevo comuns em divergência: vales de rifte, escarpas de falha, vulcões fissurais, dorsais oceânicas e planícies basálticas.

3) Limites transformantes (deslizamento lateral): falhas lineares e relevo “recortado”

Em limites transformantes, as placas deslizam lateralmente uma em relação à outra. Não há criação nem destruição significativa de crosta, mas há intensa deformação por cisalhamento e muitos terremotos. O relevo tende a apresentar:

  • Vales retilíneos alinhados à falha
  • Escarpas e degraus topográficos
  • Deslocamento de rios (canais “quebrados” e deslocados lateralmente)
  • Bacias de afastamento (depressões locais onde a geometria da falha cria espaço) e serras de compressão (elevações locais)

Forças endógenas: processos internos que constroem e deformam o terreno

Forças endógenas são processos gerados pela energia interna da Terra. Elas criam relevo ao deformar, fraturar, elevar ou adicionar material (lava e cinzas) à superfície. Na prática, muitos relevos resultam da combinação de processos.

Dobramentos: rochas “amassadas” pela compressão

Dobramentos ocorrem quando camadas rochosas são comprimidas e se deformam de modo dúctil (sem quebrar imediatamente), formando dobras (anticlinais e sinclinais). Em grande escala, dobramentos estão associados a colisões convergentes e ao espessamento da crosta.

  • O que costuma aparecer na paisagem: cristas e vales paralelos, alinhamentos montanhosos, rochas inclinadas e estruturas repetidas.
  • Relação com o relevo: cadeias montanhosas dobradas e planaltos elevados quando há espessamento e soerguimento regional.

Falhamentos: fraturas com deslocamento

Falhas são fraturas nas rochas ao longo das quais houve movimento. Elas podem elevar blocos, rebaixar outros e criar escarpas marcantes.

  • Falhas normais (distensão): comuns em riftes; criam vales rebaixados (grábens) e blocos elevados (horsts).
  • Falhas reversas e cavalgamentos (compressão): comuns em convergência; empurram rochas para cima e sobre outras, elevando cadeias montanhosas.
  • Falhas transcorrentes (cisalhamento): comuns em limites transformantes; deslocam feições lateralmente.

Vulcanismo: construção de relevo por extravasamento de magma

O vulcanismo cria relevo ao acumular lavas e materiais piroclásticos (cinzas, bombas, lapilli), formando cones, caldeiras e extensos campos de lava. O tipo de vulcão e de relevo depende do magma e do ambiente tectônico:

  • Subducção (convergente): magmas frequentemente mais viscosos; vulcões compostos (estratovulcões) e arcos vulcânicos.
  • Divergência (dorsais e riftes): magmas basálticos mais fluidos; vulcanismo fissural e derrames extensos.
  • Pontos quentes (intraplaca): plumas mantélicas podem gerar cadeias vulcânicas; quando coincidem com dorsais, intensificam a produção de lava.

Soerguimento (uplift) e subsidência: levantar e afundar grandes áreas

Soerguimento é a elevação de porções da crosta, podendo ocorrer por compressão tectônica, espessamento crustal, intrusões magmáticas, reajustes isostáticos e aquecimento do manto. Subsidência é o afundamento, comum em bacias sedimentares, riftes e margens continentais.

  • Como isso vira relevo: planaltos estruturais (áreas elevadas sustentadas por estruturas geológicas), escarpas, bacias e depressões tectônicas.
  • Evidências comuns: terraços elevados, rios encaixados (incisão fluvial em áreas que se elevaram), superfícies aplainadas em altitude e degraus topográficos.

Como ligar “tipo de limite” a “forma de relevo”: um mapa mental prático

Use este passo a passo para interpretar um relevo tectônico em mapas, imagens de satélite ou descrições de paisagem.

Passo a passo (aplicável em estudos e exercícios)

  1. Identifique o padrão dominante do relevo: há uma cadeia montanhosa longa? Um vale retilíneo? Um alinhamento de vulcões? Uma depressão alongada?
  2. Procure sinais de compressão, distensão ou cisalhamento: compressão tende a gerar dobras e falhas reversas; distensão gera falhas normais e riftes; cisalhamento gera falhas transcorrentes e deslocamentos laterais.
  3. Verifique a presença e o tipo de vulcanismo: vulcões alinhados paralelos a uma costa sugerem subducção; lava extensa e fissuras sugerem divergência; vulcanismo concentrado e isolado pode indicar ponto quente.
  4. Relacione com o limite de placas mais provável: convergente (subducção/colisão), divergente (rifte/dorsal) ou transformante (falha lateral).
  5. Busque evidências na paisagem: fossas oceânicas (subducção), vales de rifte e lagos alongados (divergência continental), vales retilíneos e rios deslocados (transformante), planaltos elevados e dobras (colisão).

Tabela de associação rápida

Processo/limiteForça dominanteFormas de relevo típicasEvidências comuns
Convergente (oceânica-continental)Compressão + subducçãoCordilheira costeira, fossa oceânica, arco vulcânicoVulcões alinhados, terremotos, grandes altitudes próximas ao litoral
Convergente (continental-continental)CompressãoAltas montanhas dobradas, planaltos elevadosDobramentos, falhas reversas, espessamento crustal
Divergente (continental)DistensãoRifte, escarpas, bacias alongadasFalhas normais, vales rebaixados, lagos lineares
Divergente (oceânica)Distensão + magmatismoDorsal meso-oceânica, vale centralVulcanismo basáltico, criação de crosta
TransformanteCisalhamentoVales retilíneos, escarpas locais, bacias de afastamentoDeslocamento lateral de rios e feições, sismicidade

Exemplos globais: processos e evidências na paisagem

Andes (América do Sul): subducção e cordilheira vulcânica

Processo principal: convergência oceânica-continental, com subducção da placa de Nazca sob a placa Sul-Americana.

  • Forças endógenas envolvidas: compressão (dobramentos e falhas reversas), soerguimento regional e vulcanismo de arco.
  • Formas de relevo geradas: cordilheira extensa, altiplanos em setores, alinhamentos de vulcões e grandes vales intermontanos.
  • Evidências na paisagem: vulcões alinhados paralelos à margem do Pacífico, grandes altitudes próximas à costa e forte contraste topográfico.

Himalaia (Ásia): colisão continental e montanhas dobradas

Processo principal: convergência continental-continental (placa Indiana colidindo com a placa Eurasiática).

  • Forças endógenas envolvidas: compressão intensa, dobramentos, cavalgamentos e soerguimento contínuo.
  • Formas de relevo geradas: algumas das maiores altitudes do planeta e planaltos elevados associados ao espessamento da crosta.
  • Evidências na paisagem: cadeias paralelas, estruturas dobradas, grandes escarpas e vales profundos por incisão de rios em terreno soerguido.

Rift da África Oriental: distensão continental e vales tectônicos

Processo principal: limite divergente em continente, com estiramento e afinamento da litosfera.

  • Forças endógenas envolvidas: falhamentos normais, subsidência de blocos e magmatismo associado ao rifteamento.
  • Formas de relevo geradas: vales alongados (grábens), escarpas de falha, alinhamentos de lagos e vulcões em alguns segmentos.
  • Evidências na paisagem: lagos longos e estreitos ocupando depressões tectônicas, bordas elevadas (horsts) e escarpas retilíneas.

Islândia: divergência na dorsal + ponto quente

Processo principal: a Islândia está sobre a Dorsal Mesoatlântica (limite divergente) e é reforçada por um ponto quente, aumentando o vulcanismo e a construção de relevo.

  • Forças endógenas envolvidas: distensão, vulcanismo basáltico frequente e fraturamento.
  • Formas de relevo geradas: campos de lava, fissuras eruptivas, cones vulcânicos, caldeiras e áreas geotérmicas.
  • Evidências na paisagem: extensas superfícies basálticas recentes, alinhamentos de fraturas e vulcões, além de atividade geotérmica visível.

Leitura rápida de evidências na paisagem (checklist)

  • Cadeia montanhosa longa + vulcões alinhados → provável subducção (convergente).
  • Montanhas muito altas + dobras e cavalgamentos → provável colisão continental (convergente).
  • Vale alongado rebaixado + escarpas retilíneas + lagos lineares → provável rifte continental (divergente).
  • Campos de lava basáltica extensos + fissuras → provável divergência (dorsal/rifte) ou ponto quente.
  • Vales retilíneos + rios deslocados lateralmente → provável limite transformante (falha transcorrente).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao observar um relevo com vale alongado e rebaixado, escarpas retilíneas nas bordas e lagos longos e estreitos, qual interpretação tectônica é a mais provável?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Esse conjunto de evidências (vale de rifte rebaixado, escarpas retilíneas e lagos alongados) é típico de distensão continental, onde falhas normais rebaixam blocos (grábens) e elevam bordas (horsts).

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