Relação grafema-fonema na alfabetização: ensino explícito e sistemático

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é relação grafema-fonema (e por que ensinar de modo explícito)

Relação grafema-fonema é a correspondência entre o que se escreve (grafemas: letras ou combinações de letras) e o que se fala (fonemas: sons da fala). Na alfabetização, o objetivo é que a criança aprenda a decodificar (ler: transformar letras em sons) e codificar (escrever: transformar sons em letras) com segurança.

Ensino explícito e sistemático significa: (1) o professor mostra a correspondência de forma direta, (2) organiza uma sequência cumulativa (do mais simples ao mais complexo), (3) garante prática diária e (4) revisita o que já foi ensinado para consolidar. Isso evita que a criança dependa apenas de adivinhação por contexto ou de memorização de palavras isoladas.

Princípios para organizar um ensino cumulativo e revisitado

1) Um foco por vez, com revisão do anterior

Em cada aula, escolha um alvo principal (por exemplo, m com som /m/). A aula deve conter: revisão rápida do que já foi ensinado, ensino do novo, prática guiada e prática independente curta. No dia seguinte, o novo conteúdo volta como revisão, enquanto outro alvo é introduzido.

2) Da regularidade para a complexidade

Comece por correspondências mais estáveis e frequentes, avançando para dígrafos, encontros consonantais e irregularidades. A progressão não precisa ser “uma letra por semana”, mas deve ser previsível e registrável (o professor sabe o que já foi ensinado e o que será retomado).

3) Palavras significativas e textos curtos, sem perder a sistematização

“Significativas” não significa “qualquer palavra do cotidiano”, e sim palavras que: (a) fazem sentido para a turma e (b) contêm o padrão que está sendo ensinado. Use textos curtos (bilhetes, quadrinhas simples, frases) construídos para incluir várias ocorrências do padrão-alvo, mantendo a leitura possível para o nível da turma.

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Sequência prática para introduzir letras, dígrafos e encontros consonantais

Passo a passo de uma aula (modelo de 25 a 40 minutos)

  • 1) Revisão (3–5 min): leitura rápida de sílabas/palavras já trabalhadas; 2 ou 3 itens são suficientes para “aquecer”.
  • 2) Apresentação explícita (5–8 min): mostrar o grafema, dizer o som, comparar com outros já conhecidos e indicar como a boca se posiciona (apoio articulatório simples).
  • 3) Prática guiada (8–12 min): leitura de sílabas e palavras com o padrão; escrita curta com apoio do professor.
  • 4) Aplicação em texto curto (5–10 min): leitura de 2 a 6 frases ou um parágrafo curto com alta presença do padrão-alvo.
  • 5) Ditado guiado + revisão imediata (5–10 min): ditar sílabas/palavras/frase curta; corrigir na hora como aprendizagem, não como punição.

Como introduzir uma letra (exemplo com M)

Objetivo: associar m ao som /m/ e usar em sílabas e palavras simples.

  • Apresente: escreva m e M. Diga: “Esta letra é m. O som é /m/.”
  • Discrimine: compare com outra letra já conhecida (ex.: n quando for oportuno, destacando que são diferentes na escrita e podem soar parecidas em algumas posições).
  • Combine: forme sílabas com vogais já estudadas: ma, me, mi, mo, mu.
  • Leia palavras: selecione palavras com estrutura simples e significado para a turma: mala, mimo, mama (se adequado), mola, muro.
  • Texto curto: crie 2–4 frases com repetição do padrão: “Mila mira a mala. A mala é de Milo.” (ajuste nomes e vocabulário à turma).

Como introduzir um dígrafo (exemplo com NH)

Ideia-chave: duas letras podem representar um único som. Ensine como “um time” que funciona junto.

  • Apresente: escreva nh e diga: “Quando n e h estão juntos assim, formam o som /ɲ/ (como em ‘ninho’).”
  • Mostre em palavras: ninho, banho, minha, sonho.
  • Prática de leitura: destaque visualmente o dígrafo nas palavras (sublinhar ou marcar com cor) e peça para a turma “ler o time junto”.
  • Escrita com apoio: ofereça um banco de palavras com 6–10 palavras com nh para que a criança consulte ao escrever frases.

Como introduzir encontros consonantais (exemplo com PR, BR)

Ideia-chave: em encontros consonantais, há dois sons próximos, sem vogal entre eles. A criança precisa aprender a “não inserir” uma vogal extra ao ler/escrever.

  • Apresente: escreva pr e diga: “Aqui temos /p/ + /r/ juntos: pr.”
  • Construa sílabas: pra, pre, pri, pro, pru (conforme vogais já dominadas).
  • Palavras significativas: prato, primo, preço (se já for possível), bravo, brinca.
  • Detecção de erro comum: se a criança lê “pirato” para prato, retome: “Não tem vogal entre p e r. Vamos juntar: pr.”

Rotinas de prática (para acontecerem todos os dias)

1) Leitura de sílabas e palavras (3–7 minutos)

Use listas curtas e cumulativas: 70% itens já conhecidos + 30% itens com o padrão novo. Varie o formato para manter atenção e precisão.

  • Esteira de sílabas: ma me mi mo mu → depois misture com sílabas antigas: ma la mi sa mo.
  • Leitura em colunas: 8–12 palavras curtas, com repetição do padrão-alvo.
  • Leitura cronometrada com foco em precisão: 30–45 segundos, objetivo é ler certo; velocidade vem depois.

2) Ditado guiado (5–10 minutos)

Ditado guiado não é “pegar para ver se sabe”; é uma atividade de ensino. O professor orienta a análise sonora e a escolha de grafemas.

Sequência recomendada:

  • Sílabas (2–4): para fixar a correspondência. Ex.: ma, mi.
  • Palavras (2–4): curtas e decodificáveis. Ex.: mala, mimo.
  • Frase curta (1): com palavras do banco. Ex.: “Mila mira a mala.

Como guiar: antes de escrever, peça para a criança repetir a palavra, “esticar” a fala (sem exageros) e identificar partes: “Qual é o primeiro som? Qual letra faz esse som? E depois?”

3) Escrita com apoio (banco de palavras e moldes)

O apoio reduz frustração e aumenta a chance de escrever mais, mantendo o foco no padrão-alvo. O banco de palavras deve ficar visível (cartaz, quadro, ficha).

Exemplo de banco de palavras (alvo: nh):

  • ninho, minha, banho, sonho, linha, manha

Atividades:

  • Complete a frase: “Eu tomo ____.” (opções no banco: banho).
  • Escrita de 2 frases: uma frase livre + uma frase obrigatória com 1 palavra do banco.
  • Reescrita com melhoria: o aluno escreve; o professor pede para “melhorar” uma palavra-alvo consultando o banco.

4) Revisão imediata de erros como oportunidade de aprendizagem

Corrigir imediatamente é mais eficiente do que acumular erros. A correção deve ser curta, específica e levar o aluno a pensar na relação som-letra.

Roteiro de intervenção (30–60 segundos):

  • 1) Aponte o ponto exato: “Aqui nesta parte…”
  • 2) Volte ao som: “Que som você quis escrever aqui?”
  • 3) Relembre a regra ensinada: “Quando ouvimos /ɲ/, usamos nh.”
  • 4) Reescreva corretamente: o aluno reescreve a palavra inteira (não só a letra).
  • 5) Releitura: o aluno lê a palavra corrigida em voz alta.

Como planejar a revisão (espiral) sem perder o controle

Para garantir revisitação, use um registro simples do que já foi ensinado e do que precisa voltar.

DiaRevisão (2 itens)Novo (1 item)Texto curto (padrão-alvo)Ditado (sílabas/palavras/frase)
Segsílabas com l, palavras com sm2–4 frases com mma, mi / mala / 1 frase
Term + lsílabas com m em novas combinaçõesfrases com m e revisãomisturado e cumulativo
Quam + padrão anteriordígrafo (ex.: nh)texto curto com nhinclui 1 palavra com nh + revisão

O importante é manter a proporção: mais revisão do que novidade no início, aumentando gradualmente a complexidade conforme a turma consolida.

Irregularidades ortográficas iniciais: como lidar sem “decorar lista”

Algumas relações grafema-fonema são regulares (ex.: m geralmente representa /m/). Outras dependem do contexto ou têm múltiplas possibilidades. No início, o foco deve ser consciência linguística e tomada de decisão, não memorização isolada.

Estratégia 1: ensinar “condições” (quando usar) em linguagem simples

Em vez de “decore”, ensine perguntas que a criança pode fazer ao escrever.

  • Som /k/: pode ser c (antes de a, o, u) ou qu (antes de e, i). Trabalhe com pares: casa × quilo (quando adequado ao nível).
  • Som /g/: pode ser g (antes de a, o, u) ou gu (antes de e, i): gato × guitarra (selecionar vocabulário acessível).

Trate como “regras de escolha” com exemplos curtos e prática imediata, sem excesso de terminologia.

Estratégia 2: comparar palavras para perceber padrões

Use mini-conjuntos para a criança observar sem precisar “decorar”:

  • casa, copo, cuca (mesma letra, mesmo som /k/ em contextos diferentes)
  • queijo, quilo (uso de qu antes de e/i)

Peça: “O que essas palavras têm em comum? O que muda quando vem e ou i?”

Estratégia 3: “marcar para revisar” e voltar no dia seguinte

Quando surgir uma irregularidade ainda não ensinada, evite longas explicações. Faça um combinado: “Hoje vamos escrever assim porque está no nosso banco. Amanhã revisamos esse caso.” Registre em um quadro de “palavras para investigar”.

Estratégia 4: usar banco de palavras como ferramenta de autonomia (não como cola)

O banco de palavras ajuda a escrever textos reais sem travar. Para não virar cópia mecânica, combine com uma ação linguística:

  • Antes de consultar, a criança tenta escrever.
  • Depois confere no banco e compara: “O que eu fiz diferente? Por quê?”
  • Reescreve a palavra correta e lê em voz alta.

Exemplos de atividades curtas para consolidar correspondências

Caça ao padrão em texto curto

Entregue um texto de 4–6 linhas com várias ocorrências do padrão-alvo. A tarefa é sublinhar o grafema (ou dígrafo/encontro) e ler apenas as palavras marcadas, depois reler o texto inteiro.

Montagem e desmontagem de palavras (com cartões)

Use cartões de sílabas ou de grafemas para formar palavras-alvo. Depois peça para trocar apenas uma parte e ler a nova palavra.

  • Exemplo: ma + lamala; troque la por tomato (se já for decodificável).

Ditado com escolha (para irregularidades)

Quando houver duas grafias possíveis para um som, ofereça duas opções e peça que a criança justifique com base no contexto.

  • Exemplo: “Vou ditar /ke/. É ce ou que? Olhe a palavra inteira: que + ijo.” (ajuste ao repertório da turma).

Checklist de autocorreção (1 minuto)

Após escrever uma frase, a criança confere:

  • “Eu escrevi todas as letras que ouvi?”
  • “Tem algum time de letras (dígrafo) que eu precisava usar?”
  • “Tem algum encontro consonantal em que eu coloquei vogal no meio?”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática caracteriza um ensino explícito e sistemático da relação grafema-fonema para evitar que a criança dependa de adivinhação ou memorização de palavras isoladas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O ensino explícito e sistemático envolve apresentar a relação grafema-fonema de forma direta, organizar uma progressão cumulativa, praticar diariamente e revisar para consolidar, reduzindo a dependência de adivinhação pelo contexto.

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