O que é relação grafema-fonema (e por que ensinar de modo explícito)
Relação grafema-fonema é a correspondência entre o que se escreve (grafemas: letras ou combinações de letras) e o que se fala (fonemas: sons da fala). Na alfabetização, o objetivo é que a criança aprenda a decodificar (ler: transformar letras em sons) e codificar (escrever: transformar sons em letras) com segurança.
Ensino explícito e sistemático significa: (1) o professor mostra a correspondência de forma direta, (2) organiza uma sequência cumulativa (do mais simples ao mais complexo), (3) garante prática diária e (4) revisita o que já foi ensinado para consolidar. Isso evita que a criança dependa apenas de adivinhação por contexto ou de memorização de palavras isoladas.
Princípios para organizar um ensino cumulativo e revisitado
1) Um foco por vez, com revisão do anterior
Em cada aula, escolha um alvo principal (por exemplo, m com som /m/). A aula deve conter: revisão rápida do que já foi ensinado, ensino do novo, prática guiada e prática independente curta. No dia seguinte, o novo conteúdo volta como revisão, enquanto outro alvo é introduzido.
2) Da regularidade para a complexidade
Comece por correspondências mais estáveis e frequentes, avançando para dígrafos, encontros consonantais e irregularidades. A progressão não precisa ser “uma letra por semana”, mas deve ser previsível e registrável (o professor sabe o que já foi ensinado e o que será retomado).
3) Palavras significativas e textos curtos, sem perder a sistematização
“Significativas” não significa “qualquer palavra do cotidiano”, e sim palavras que: (a) fazem sentido para a turma e (b) contêm o padrão que está sendo ensinado. Use textos curtos (bilhetes, quadrinhas simples, frases) construídos para incluir várias ocorrências do padrão-alvo, mantendo a leitura possível para o nível da turma.
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Sequência prática para introduzir letras, dígrafos e encontros consonantais
Passo a passo de uma aula (modelo de 25 a 40 minutos)
- 1) Revisão (3–5 min): leitura rápida de sílabas/palavras já trabalhadas; 2 ou 3 itens são suficientes para “aquecer”.
- 2) Apresentação explícita (5–8 min): mostrar o grafema, dizer o som, comparar com outros já conhecidos e indicar como a boca se posiciona (apoio articulatório simples).
- 3) Prática guiada (8–12 min): leitura de sílabas e palavras com o padrão; escrita curta com apoio do professor.
- 4) Aplicação em texto curto (5–10 min): leitura de 2 a 6 frases ou um parágrafo curto com alta presença do padrão-alvo.
- 5) Ditado guiado + revisão imediata (5–10 min): ditar sílabas/palavras/frase curta; corrigir na hora como aprendizagem, não como punição.
Como introduzir uma letra (exemplo com M)
Objetivo: associar m ao som /m/ e usar em sílabas e palavras simples.
- Apresente: escreva
meM. Diga: “Esta letra ém. O som é /m/.” - Discrimine: compare com outra letra já conhecida (ex.:
nquando for oportuno, destacando que são diferentes na escrita e podem soar parecidas em algumas posições). - Combine: forme sílabas com vogais já estudadas:
ma, me, mi, mo, mu. - Leia palavras: selecione palavras com estrutura simples e significado para a turma:
mala,mimo,mama(se adequado),mola,muro. - Texto curto: crie 2–4 frases com repetição do padrão: “Mila mira a mala. A mala é de Milo.” (ajuste nomes e vocabulário à turma).
Como introduzir um dígrafo (exemplo com NH)
Ideia-chave: duas letras podem representar um único som. Ensine como “um time” que funciona junto.
- Apresente: escreva
nhe diga: “Quandonehestão juntos assim, formam o som /ɲ/ (como em ‘ninho’).” - Mostre em palavras:
ninho,banho,minha,sonho. - Prática de leitura: destaque visualmente o dígrafo nas palavras (sublinhar ou marcar com cor) e peça para a turma “ler o time junto”.
- Escrita com apoio: ofereça um banco de palavras com 6–10 palavras com
nhpara que a criança consulte ao escrever frases.
Como introduzir encontros consonantais (exemplo com PR, BR)
Ideia-chave: em encontros consonantais, há dois sons próximos, sem vogal entre eles. A criança precisa aprender a “não inserir” uma vogal extra ao ler/escrever.
- Apresente: escreva
pre diga: “Aqui temos /p/ + /r/ juntos:pr.” - Construa sílabas:
pra, pre, pri, pro, pru(conforme vogais já dominadas). - Palavras significativas:
prato,primo,preço(se já for possível),bravo,brinca. - Detecção de erro comum: se a criança lê “pirato” para
prato, retome: “Não tem vogal entreper. Vamos juntar:pr.”
Rotinas de prática (para acontecerem todos os dias)
1) Leitura de sílabas e palavras (3–7 minutos)
Use listas curtas e cumulativas: 70% itens já conhecidos + 30% itens com o padrão novo. Varie o formato para manter atenção e precisão.
- Esteira de sílabas:
ma me mi mo mu→ depois misture com sílabas antigas:ma la mi sa mo. - Leitura em colunas: 8–12 palavras curtas, com repetição do padrão-alvo.
- Leitura cronometrada com foco em precisão: 30–45 segundos, objetivo é ler certo; velocidade vem depois.
2) Ditado guiado (5–10 minutos)
Ditado guiado não é “pegar para ver se sabe”; é uma atividade de ensino. O professor orienta a análise sonora e a escolha de grafemas.
Sequência recomendada:
- Sílabas (2–4): para fixar a correspondência. Ex.:
ma,mi. - Palavras (2–4): curtas e decodificáveis. Ex.:
mala,mimo. - Frase curta (1): com palavras do banco. Ex.: “Mila mira a mala.”
Como guiar: antes de escrever, peça para a criança repetir a palavra, “esticar” a fala (sem exageros) e identificar partes: “Qual é o primeiro som? Qual letra faz esse som? E depois?”
3) Escrita com apoio (banco de palavras e moldes)
O apoio reduz frustração e aumenta a chance de escrever mais, mantendo o foco no padrão-alvo. O banco de palavras deve ficar visível (cartaz, quadro, ficha).
Exemplo de banco de palavras (alvo: nh):
ninho,minha,banho,sonho,linha,manha
Atividades:
- Complete a frase: “Eu tomo ____.” (opções no banco:
banho). - Escrita de 2 frases: uma frase livre + uma frase obrigatória com 1 palavra do banco.
- Reescrita com melhoria: o aluno escreve; o professor pede para “melhorar” uma palavra-alvo consultando o banco.
4) Revisão imediata de erros como oportunidade de aprendizagem
Corrigir imediatamente é mais eficiente do que acumular erros. A correção deve ser curta, específica e levar o aluno a pensar na relação som-letra.
Roteiro de intervenção (30–60 segundos):
- 1) Aponte o ponto exato: “Aqui nesta parte…”
- 2) Volte ao som: “Que som você quis escrever aqui?”
- 3) Relembre a regra ensinada: “Quando ouvimos /ɲ/, usamos
nh.” - 4) Reescreva corretamente: o aluno reescreve a palavra inteira (não só a letra).
- 5) Releitura: o aluno lê a palavra corrigida em voz alta.
Como planejar a revisão (espiral) sem perder o controle
Para garantir revisitação, use um registro simples do que já foi ensinado e do que precisa voltar.
| Dia | Revisão (2 itens) | Novo (1 item) | Texto curto (padrão-alvo) | Ditado (sílabas/palavras/frase) |
|---|---|---|---|---|
| Seg | sílabas com l, palavras com s | m | 2–4 frases com m | ma, mi / mala / 1 frase |
| Ter | m + l | sílabas com m em novas combinações | frases com m e revisão | misturado e cumulativo |
| Qua | m + padrão anterior | dígrafo (ex.: nh) | texto curto com nh | inclui 1 palavra com nh + revisão |
O importante é manter a proporção: mais revisão do que novidade no início, aumentando gradualmente a complexidade conforme a turma consolida.
Irregularidades ortográficas iniciais: como lidar sem “decorar lista”
Algumas relações grafema-fonema são regulares (ex.: m geralmente representa /m/). Outras dependem do contexto ou têm múltiplas possibilidades. No início, o foco deve ser consciência linguística e tomada de decisão, não memorização isolada.
Estratégia 1: ensinar “condições” (quando usar) em linguagem simples
Em vez de “decore”, ensine perguntas que a criança pode fazer ao escrever.
- Som /k/: pode ser
c(antes dea,o,u) ouqu(antes dee,i). Trabalhe com pares:casa×quilo(quando adequado ao nível). - Som /g/: pode ser
g(antes dea,o,u) ougu(antes dee,i):gato×guitarra(selecionar vocabulário acessível).
Trate como “regras de escolha” com exemplos curtos e prática imediata, sem excesso de terminologia.
Estratégia 2: comparar palavras para perceber padrões
Use mini-conjuntos para a criança observar sem precisar “decorar”:
casa,copo,cuca(mesma letra, mesmo som /k/ em contextos diferentes)queijo,quilo(uso dequantes dee/i)
Peça: “O que essas palavras têm em comum? O que muda quando vem e ou i?”
Estratégia 3: “marcar para revisar” e voltar no dia seguinte
Quando surgir uma irregularidade ainda não ensinada, evite longas explicações. Faça um combinado: “Hoje vamos escrever assim porque está no nosso banco. Amanhã revisamos esse caso.” Registre em um quadro de “palavras para investigar”.
Estratégia 4: usar banco de palavras como ferramenta de autonomia (não como cola)
O banco de palavras ajuda a escrever textos reais sem travar. Para não virar cópia mecânica, combine com uma ação linguística:
- Antes de consultar, a criança tenta escrever.
- Depois confere no banco e compara: “O que eu fiz diferente? Por quê?”
- Reescreve a palavra correta e lê em voz alta.
Exemplos de atividades curtas para consolidar correspondências
Caça ao padrão em texto curto
Entregue um texto de 4–6 linhas com várias ocorrências do padrão-alvo. A tarefa é sublinhar o grafema (ou dígrafo/encontro) e ler apenas as palavras marcadas, depois reler o texto inteiro.
Montagem e desmontagem de palavras (com cartões)
Use cartões de sílabas ou de grafemas para formar palavras-alvo. Depois peça para trocar apenas uma parte e ler a nova palavra.
- Exemplo:
ma+la→mala; troquelaporto→mato(se já for decodificável).
Ditado com escolha (para irregularidades)
Quando houver duas grafias possíveis para um som, ofereça duas opções e peça que a criança justifique com base no contexto.
- Exemplo: “Vou ditar /ke/. É
ceouque? Olhe a palavra inteira:que+ijo.” (ajuste ao repertório da turma).
Checklist de autocorreção (1 minuto)
Após escrever uma frase, a criança confere:
- “Eu escrevi todas as letras que ouvi?”
- “Tem algum time de letras (dígrafo) que eu precisava usar?”
- “Tem algum encontro consonantal em que eu coloquei vogal no meio?”