Visão por camadas (TCP/IP) aplicada aos serviços digitais
Em serviços digitais do DETRAN (portais, APIs, integrações com terceiros, unidades de atendimento e backoffice), a rede precisa entregar conectividade previsível e segura. A forma mais prática de entender e diagnosticar problemas é por camadas do modelo TCP/IP: cada camada tem funções, protocolos e sintomas típicos quando falha.
Camada de Enlace (L2): Ethernet, VLAN, ARP
- O que faz: comunicação dentro do mesmo segmento de rede (mesma VLAN/sub-rede), endereços MAC, comutação (switching).
- Protocolos/itens: Ethernet, 802.1Q (VLAN), ARP, STP/RSTP (evitar loops).
- Sintomas comuns: intermitência, loops (tempestade de broadcast), porta errada em VLAN, MAC flapping, ARP inconsistente.
Camada de Internet (L3): IP, sub-redes, roteamento, NAT
- O que faz: endereçamento e encaminhamento entre redes diferentes.
- Protocolos/itens: IPv4/IPv6, roteamento estático/dinâmico, ICMP, NAT/PAT.
- Sintomas comuns: sem rota, gateway incorreto, conflito de IP, NAT esgotado, assimetria de rota.
Camada de Transporte (L4): TCP/UDP e portas
- O que faz: entrega fim a fim, controle de conexão (TCP) e datagramas (UDP).
- Protocolos/itens: TCP (3-way handshake, retransmissões), UDP (sem conexão), portas (ex.: 443, 53, 67/68).
- Sintomas comuns: portas bloqueadas, timeouts, resets, retransmissões elevadas, MTU/fragmentação afetando sessões.
Camada de Aplicação: DNS, DHCP, HTTP(S), NTP
- O que faz: serviços consumidos por usuários e sistemas.
- Protocolos/itens: DNS (resolução de nomes), DHCP (endereçamento automático), HTTP(S) (serviços web), NTP (sincronismo de tempo).
- Sintomas comuns: falha de resolução de nomes, IP não obtido, certificados/HTTPS falhando por horário incorreto, lentidão por dependências externas.
Endereçamento IP e sub-redes: base para segmentação e controle
Conceitos essenciais
- IP e máscara: definem a rede e o host. Ex.: 10.20.30.0/24 (máscara 255.255.255.0) tem 256 endereços, 254 utilizáveis.
- CIDR (/n): indica quantos bits são de rede. Quanto maior o /n, menor a sub-rede.
- Gateway padrão: IP do roteador na sub-rede para sair para outras redes.
- Broadcast: último endereço da sub-rede (em IPv4) usado para comunicação a todos os hosts do segmento.
Passo a passo: cálculo rápido de sub-rede (IPv4)
Exemplo 1: Qual a rede, broadcast e faixa de hosts de 192.168.10.77/26?
- 1) /26 significa blocos de 64 endereços (256 - 192 = 64 no último octeto).
- 2) Identifique o bloco: 0-63, 64-127, 128-191, 192-255. O 77 cai em 64-127.
- 3) Rede: 192.168.10.64
- 4) Broadcast: 192.168.10.127
- 5) Hosts: 192.168.10.65 a 192.168.10.126
Exemplo 2: Preciso de pelo menos 50 hosts por setor. Qual prefixo mínimo?
- 1) Hosts utilizáveis = 2^(bits de host) - 2
- 2) Para 50: 2^6 - 2 = 62 (suficiente). Então bits de host = 6.
- 3) Prefixo = 32 - 6 = /26
Boas práticas de endereçamento em ambiente corporativo
- Planejar por função: separar usuários, servidores, impressoras, voz, Wi-Fi corporativo e Wi-Fi visitante.
- Reservar faixas: para crescimento e para links ponto-a-ponto (ex.: /30 ou /31).
- Padronizar gateways: ex.: primeiro IP utilizável (.1) ou último (.254) por sub-rede.
- Documentar: mapa de sub-redes, VLANs, gateways, DHCP scopes e DNS.
VLANs e segmentação: isolamento, segurança e organização
Conceito
VLAN (Virtual LAN) cria domínios de broadcast separados em um mesmo conjunto de switches. Isso reduz broadcast, melhora organização e permite aplicar políticas (ACLs, firewall) entre segmentos.
Trunk vs Access (na prática)
- Porta access: carrega uma VLAN única (ex.: estação de trabalho).
- Porta trunk: carrega múltiplas VLANs com tag 802.1Q (ex.: uplink entre switches, link para roteador/firewall).
Passo a passo: desenhar segmentação típica para uma unidade de atendimento
- 1) Liste perfis e necessidades: atendimento ao público, administração, gerência, impressoras, CFTV, telefonia IP, Wi-Fi visitante.
- 2) Crie VLANs e sub-redes: ex.: VLAN 10 (Atendimento 10.10.10.0/24), VLAN 20 (Admin 10.10.20.0/24), VLAN 30 (Impressoras 10.10.30.0/24), VLAN 40 (Voz 10.10.40.0/24), VLAN 50 (CFTV 10.10.50.0/24), VLAN 60 (Guest 10.10.60.0/24).
- 3) Defina gateway por VLAN no roteador/firewall (SVI ou subinterfaces).
- 4) Defina regras de acesso: Guest só internet; Atendimento acessa sistemas internos; CFTV só para servidor de gravação; Impressoras acessíveis apenas por VLANs autorizadas.
- 5) Planeje DHCP por VLAN (escopos separados) e DNS interno.
Roteamento: conectando redes e garantindo caminhos
Conceitos
- Roteamento estático: rotas fixas, simples, bom para ambientes pequenos e previsíveis.
- Roteamento dinâmico: protocolos trocam rotas (ex.: OSPF, BGP em cenários maiores). Útil para redundância e múltiplos caminhos.
- Default route: rota padrão para destinos desconhecidos (0.0.0.0/0).
- Inter-VLAN routing: roteamento entre VLANs via L3 switch/roteador/firewall.
Passo a passo: checagem de conectividade L3
- 1) Verifique IP/máscara/gateway do host.
- 2) Ping no gateway da VLAN.
- 3) Ping em um IP de outra VLAN (ex.: servidor).
- 4) Traceroute para identificar onde para.
- 5) Verifique rotas no roteador/firewall e ACLs.
NAT: publicação e acesso à internet
Conceitos
- NAT/PAT de saída: muitos IPs privados saem com um ou poucos IPs públicos (tradução por porta).
- NAT de entrada (DNAT/port forwarding): publica serviço interno (ex.: API) para acesso externo.
- Riscos comuns: esgotamento de portas, regras conflitantes, assimetria (retorno por outro link), logs insuficientes para auditoria.
Passo a passo: validar problema relacionado a NAT
- 1) Identifique origem (sub-rede) e destino (IP/porta) do tráfego.
- 2) Confirme regra de NAT aplicada (ordem importa em muitos firewalls).
- 3) Verifique se há política de firewall permitindo antes/depois do NAT (depende do fabricante).
- 4) Cheque tabela de traduções e contadores (sessões ativas, drops).
- 5) Teste com captura (SPAN/tcpdump) para ver IP/porta antes e depois da tradução.
DNS e DHCP: serviços críticos para disponibilidade
DNS (resolução de nomes)
DNS traduz nomes (ex.: api.servicos.detran.local) em IPs. Falhas de DNS frequentemente parecem “queda do sistema”, mesmo quando o serviço está no ar.
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- Registros comuns: A/AAAA (nome para IP), CNAME (alias), MX (e-mail), PTR (reverso), SRV (serviços).
- TTL: tempo de cache; TTL alto reduz consultas, mas dificulta mudanças rápidas.
- Split-horizon: respostas diferentes para rede interna e externa (comum em ambientes corporativos).
Passo a passo: diagnóstico rápido de DNS
- 1) Teste resolução no cliente: consultar o nome e verificar qual servidor DNS respondeu.
- 2) Compare com consulta direta ao DNS autoritativo interno.
- 3) Verifique se o IP retornado é o esperado (mudanças recentes, balanceadores, failover).
- 4) Cheque latência de resposta DNS e taxa de timeouts.
- 5) Se houver múltiplos DNS, teste cada um separadamente para identificar o nó problemático.
DHCP (endereçamento automático)
DHCP entrega IP, máscara, gateway, DNS e outras opções. Quando falha, usuários ficam sem IP válido ou com endereço automático (APIPA) e não acessam serviços.
- Escopo: faixa de IPs distribuídos por VLAN.
- Lease: tempo de concessão; muito curto aumenta tráfego DHCP, muito longo dificulta reaproveitar IPs.
- DHCP relay (ip helper): permite que um servidor DHCP atenda múltiplas VLANs.
Passo a passo: diagnóstico de DHCP
- 1) Verifique se o cliente recebeu IP, gateway e DNS corretos.
- 2) Confirme se o escopo tem endereços livres (pool não esgotado).
- 3) Verifique se há relay configurado no gateway da VLAN.
- 4) Cheque conflitos de IP e reservas (MACs duplicados, equipamentos clonados).
- 5) Analise logs do servidor DHCP (DISCOVER/OFFER/REQUEST/ACK) para ver onde parou.
Qualidade de Serviço (QoS): priorização para voz, vídeo e sistemas críticos
Conceitos
- Objetivo: controlar congestionamento priorizando tráfego sensível (voz, videoconferência, sistemas críticos) e limitando tráfego não crítico.
- Métricas impactadas: latência, jitter, perda.
- Mecanismos: classificação (marcação DSCP), filas (queuing), policiamento (policing), modelagem (shaping).
Passo a passo: aplicar QoS em cenário típico
- 1) Identifique aplicações críticas (ex.: telefonia IP, acesso a sistemas de atendimento).
- 2) Classifique tráfego por portas, sub-redes ou DSCP.
- 3) Defina filas e prioridade (voz com baixa latência; dados críticos com garantia mínima).
- 4) Aplique shaping no link de saída para evitar bufferbloat e controlar picos.
- 5) Monitore: compare antes/depois (latência e perda em horários de pico).
Topologias corporativas, links e redundância
Topologias comuns
- Estrela (campus/unidade): switches de acesso conectados a um core/distribuição.
- Hierárquica (Core-Distribuição-Acesso): facilita escalabilidade e segmentação.
- Hub-and-spoke (WAN): unidades remotas conectam ao datacenter/sede.
- Malha parcial: múltiplos caminhos entre pontos críticos (alta disponibilidade).
Redundância: o que observar
- Links redundantes: dois links para o mesmo destino (ex.: dois provedores ou duas rotas internas).
- Equipamentos redundantes: dois firewalls/roteadores em alta disponibilidade.
- Evitar loops L2: STP/RSTP e desenho cuidadoso de trunks.
- Failover: tempo de convergência deve atender ao serviço (ex.: atendimento não pode ficar minutos indisponível).
Monitoramento: disponibilidade e performance
- Disponibilidade: status de links, CPU/memória de equipamentos, estado de interfaces, BGP/OSPF neighbors.
- Performance: utilização de banda, filas QoS, erros de interface (CRC, drops), latência e perda.
- Alertas úteis: saturação acima de X% por Y minutos, aumento de erros, aumento de tempo de resposta DNS, flaps de link.
Métricas e diagnóstico: latência, perda e throughput
Definições práticas
- Latência: tempo de ida e volta (RTT). Alta latência afeta aplicações interativas e APIs.
- Perda de pacotes: pacotes descartados por congestionamento, erros físicos ou políticas. Pequena perda pode derrubar desempenho TCP.
- Throughput: taxa efetiva de transferência. Pode ser menor que a banda contratada por overhead, congestionamento, janela TCP, QoS.
- Jitter: variação da latência, crítico para voz/vídeo.
Ferramentas e comandos (conceito e uso)
- ping: mede latência e perda (ICMP). Útil para triagem rápida.
- traceroute/tracert: identifica saltos e onde a latência aumenta.
- nslookup/dig: valida DNS, servidor consultado, tempo de resposta.
- ipconfig/ifconfig: valida IP, gateway, DNS, lease DHCP.
- tcpdump/Wireshark: captura pacotes para ver handshake TCP, retransmissões, DNS, DHCP.
- iperf: mede throughput entre dois pontos controlados.
Interpretação de sinais comuns
- Ping ok, mas aplicação falha: pode ser porta bloqueada (L4), DNS, TLS, ou problema no servidor.
- Alta latência só em horário de pico: provável congestionamento, filas, saturação de link, QoS ausente/mal configurado.
- Perda intermitente: pode ser erro físico (CRC), interferência (Wi-Fi), duplex mismatch, loop L2.
- Throughput baixo com latência alta: TCP sofre com janela e retransmissões; investigar perda e bufferbloat.
Logs e evidências: como ler para isolar a causa
Fontes típicas de log
- Firewall: denies por política, NAT aplicado, sessões expirando, IPS bloqueando.
- DNS: SERVFAIL, NXDOMAIN, timeouts, recursion denied, aumento de queries.
- DHCP: pool exhausted, NAK, conflitos, falha no relay.
- Switch: STP topology change, port up/down, MAC flapping, erros CRC.
- Roteador: rota removida/adicionada, vizinhança OSPF/BGP caiu, interface flapping.
Passo a passo: método de triagem com logs
- 1) Defina o sintoma e o escopo: quem é afetado (uma VLAN, uma unidade, todos).
- 2) Marque o horário exato do incidente e correlacione com eventos (link down, mudança de configuração, pico de tráfego).
- 3) Procure por padrões: repetição de denies, timeouts DNS, flaps de interface.
- 4) Valide hipótese com teste simples (ping/traceroute/dig) e, se necessário, captura de pacotes.
- 5) Registre evidências: IPs, portas, VLAN, interface, regra, contador e timestamps.
Exercícios práticos (estilo prova e rotina de operação)
1) Cálculo de sub-rede
Exercício 1: Dado o bloco 10.50.0.0/22, divida em sub-redes /24 e liste: (a) quantas sub-redes /24 cabem, (b) a rede e broadcast da terceira sub-rede.
Exercício 2: Uma VLAN precisa de 120 hosts. Escolha o menor prefixo possível e calcule rede, broadcast e faixa de hosts para 172.16.8.0 com esse prefixo.
Exercício 3: Identifique se os IPs 192.168.1.10/25 e 192.168.1.200/25 estão na mesma sub-rede. Justifique pelo intervalo do bloco.
2) Desenho lógico de rede para unidade de atendimento
Cenário: Unidade com 30 posições de atendimento, 10 administrativos, 6 câmeras IP, 8 telefones IP, 6 impressoras, Wi-Fi visitante e um link WAN para a sede. Há um firewall/roteador e dois switches de acesso.
- Tarefa A: proponha VLANs e sub-redes (CIDR) para cada grupo, incluindo gateways.
- Tarefa B: descreva quais portas devem ser access e quais devem ser trunk.
- Tarefa C: defina regras de acesso entre VLANs (quem pode falar com quem) e o que deve ir para a internet.
- Tarefa D: indique onde aplicar DHCP relay e quais opções DHCP são essenciais (gateway e DNS).
3) Incidentes simulados (diagnóstico e ação)
Incidente 1: Queda de serviço (portal interno inacessível)
- Sintoma: usuários da VLAN Atendimento não acessam https://portal.interno, mas ping no IP do servidor responde.
- Investigue: DNS (nome resolve para IP correto?), porta 443 liberada no firewall?, certificado/tempo (NTP)?, balanceador retornando IP diferente?
- Ação esperada: validar resolução com consulta ao DNS correto; testar conexão TCP na porta 443; checar logs de deny no firewall.
Incidente 2: Falha de DNS (sistema “fora do ar” apenas em uma unidade)
- Sintoma: na unidade remota, nomes internos não resolvem; por IP funciona.
- Investigue: DHCP entregou DNS correto?, reachability até o DNS (rota/VPN/WAN)?, servidor DNS local com falha?, ACL bloqueando porta 53 UDP/TCP?
- Ação esperada: testar resolução apontando diretamente para o DNS da sede; checar rota e latência; verificar logs de timeouts e drops.
Incidente 3: Saturação de link (lentidão em horário de pico)
- Sintoma: latência aumenta, perda aparece, chamadas VoIP picotam, downloads grandes ocorrem no mesmo período.
- Investigue: utilização do link (95-100%), drops em interface, filas QoS, tráfego dominante (top talkers), backup/atualizações concorrendo.
- Ação esperada: aplicar/ajustar QoS para voz e sistemas críticos; agendar tráfego pesado; considerar upgrade de link ou segundo link com failover/load-balance.
Checklist operacional para mudanças e validações
- Antes de mudar: mapear impacto (VLAN/sub-rede/rota), janela, rollback, backups de configuração.
- Após mudar: validar DHCP (IP/gateway/DNS), DNS (resolução e TTL), conectividade L3 (ping/traceroute), aplicação (porta/HTTPS), monitoramento (sem erros e sem flaps).
- Registro: o que foi alterado, por quem, quando, evidências (logs/prints) e resultado.